• Capítulo 77
Capítulo 77
Woo Taeju agarrou a gola do casaco de Woo Hyunse, mas o outro a afastou com leveza. Rangendo os dentes e ainda sem querer ir embora, Woo Taeju falou com clareza, articulando cada palavra para as costas de Woo Hyunse enquanto ele se virava.
— Você só está brincando com o Kwon Siyul, não está?
Os passos em direção à porta pararam. Ele só virou a cabeça, mas ainda assim apenas o contorno da ponte do nariz e da bochecha era vagamente visível. Woo Taeju despejou seus pensamentos inacabados entre dentes cerrados.
— Eu sei que o Kwon Siyul parece insignificante aos seus olhos. Então deixa ele ir. Aquela pessoa não combina com você.
— …
— Ele combina comigo. Deixa ele ir. Eu fico com ele.
A última parte era sua verdadeira intenção. Justo quando Woo Hyunse parecia prestes a se virar, o corpo de Woo Taeju saiu voando. Com um baque, suas costas bateram violentamente na parede. Foi um impacto tão grande que a náusea subiu por um instante.
Enquanto ele arfava, sem ar, Woo Hyunse ergueu à força a cabeça abaixada dele e pressionou sua garganta com um antebraço que parecia um feixe de vergalhões de aço. A pressão era intensa, como se tentasse pendurar Woo Taeju na parede feito uma peça de roupa. Os calcanhares dele se ergueram do chão involuntariamente.
— Taeju.
Por mais força que o mais novo fizesse, não conseguia escapar daquele braço. Diferente de Woo Taeju, que empregava toda a sua força, a voz de Woo Hyunse era calma. Nem a respiração dele estava ofegante.
Quando ele achou que o braço que sufocava seu pescoço ia afrouxar, Woo Hyunse agarrou as duas bochechas de Woo Taeju com as mãos e as esmagou. A boca dele se escancarou, expondo a língua e os molares lá no fundo. Woo Hyunse olhou lá dentro em silêncio.
— A língua do nosso Taeju está intacta.
Ele mal conseguiu agarrar os pulsos de Woo Hyunse, mas não conseguia fechar a boca escancarada. Em vez disso, o aperto ficou mais forte, causando uma dor como se a carne das bochechas estivesse sendo esmagada. Apesar dos gemidos de dor que escapavam de sua boca, Woo Hyunse não soltou.
— Então é por isso que você não consegue distinguir o que deve e o que não deve ser dito?
Woo Hyunse abanou a mão como se afastasse algo sujo. Com o rosto virado para o lado, Woo Taeju desabou no chão com um baque. Ele segurou a mandíbula e as bochechas ardendo com as palmas. Embora já tivessem se esbarrado brincando muitas vezes antes, ele nunca tinha sofrido tais ameaças e violência. O medo era maior que o choque, e ele nem ousava olhar para cima.
Woo Hyunse dobrou um joelho para se agachar, ficando na altura dos olhos do outro. Afastou com delicadeza o cabelo desgrenhado de Woo Taeju e deu tapinhas em seu ombro.
— Ainda bem que somos parentes de sangue.
Deixando Woo Taeju sentado ali, atordoado, Woo Hyunse saiu da sala. Ao aviso da secretária de que o carro estava esperando, ele assentiu como de costume, como se nada tivesse acontecido lá dentro.
Ele sentia uma vontade terrível de fumar. Ao entrar no carro, não conseguiu se segurar e pegou um cigarro. O motorista na frente se virou e ofereceu um isqueiro, acendendo a ponta do cigarro em vermelho.
Ele expandiu o peito, inspirou e expirou devagar. Tragou como se fosse queimar um cigarro longo inteiro de uma só vez e segurou. A fumaça acre encharcou os pulmões e voltou a subir. Só quando a fumaça branca circulou pelos vasos sanguíneos seus sentidos aguçados finalmente perderam o gume.
Deu outra tragada, pensando em Woo Taeju. Por mais destemido que alguém fosse, como podia invadir descuidadamente o domínio alheio e deixar a língua solta daquele jeito? Ele tinha tido vontade de arrancá-la, mas se conteve, pensando na relação que tinham até então.
Precisava lhe dar uma lição em algum momento, mas não esperava que fosse hoje. Relembrando as palavras que Woo Taeju tinha despejado, arrependeu-se de ter dado apenas um aviso leve. Devia tê-lo pisoteado de forma decisiva desta vez, para impedir que ele voltasse a se levantar.
Estalando a língua, ele pegou o celular. Uma nova foto tinha acabado de chegar. Ao abri-la, uma imagem de Kwon Siyul tirada de longe encheu a tela. A qualidade era péssima, como se tivesse sido ampliada demais.
— Não conseguem nem tirar uma foto decente.
Ele queria algo como as fotos que Kwon Siyul costumava mandar, mas isso parecia pedir demais agora.
Achava que Kwon Siyul faria pelo menos algum passeio pelo interior, mas ele estava obedientemente caminhando pelo parque perto de casa. Se estava tentando conquistar confiança ou tentando baixar a guarda de Woo Hyunse, ainda não estava claro.
— É por isso que tudo fica complicado…
Porque ele era desnecessariamente gentil e bonito. Porque não conseguia arrancar à toa o fígado e o coração dos outros, e vivia cumprindo rigorosamente a própria palavra. Porque, quando lhe ofereciam algo, em vez de simplesmente aceitar, virava as costas e se deitava dizendo que não era certo. Porque, mesmo quando lhe diziam para afastar, não conseguia fazer isso e ficava com os olhos marejados, deixando o rosto insuportavelmente adorável.
Woo Taeju, com seu olho aguçado para pessoas e coisas, não podia ter deixado de enxergar essa essência.
Woo Hyunse apoiou a cabeça no encosto e riu com um som murcho. Acima de tudo, parecia que ele próprio era provavelmente o desgraçado mais terrível de todos, agarrado a Kwon Siyul com toda a sua vida.
* * *
Ele não conseguiu o celular de volta. Woo Hyunse disse que o informaria pessoalmente sobre Kwon Yuwon. Sair só era possível acompanhado de um guarda-costas. Embora tivesse saído do quarto, o confinamento continuava. A gaiola só tinha ficado um pouco maior.
Ainda assim, deveria ser grato por ao menos poder tomar um ar fresco? Kwon Siyul caminhou pela trilha do parque e se sentou num banco próximo. Montes de neve ainda não derretida continuavam espalhados pelo parque. Na grama, havia um boneco de neve que alguém tinha feito e, em outro banco, uma fileira de patinhos ou coelhinhos de neve alinhados.
Era uma cena tranquila. O bastante para arrancar um sorriso satisfeito só de olhar. Mas o interior de Kwon Siyul estava longe de calmo. Até uma tempestade de neve seria mais branda do que as preocupações que Kwon Siyul vivia naquele momento.
Ao ver uma máquina de venda automática por perto, Kwon Siyul se levantou. Procurou nos bolsos, mas só encontrou o cartão que Woo Hyunse lhe dera para usar. Até aquilo parecia parte das algemas para rastrear seus movimentos, então ele o segurou por um momento antes de enfiá-lo de volta no bolso.
Por mais que procurasse, nem uma única moeda aparecia, então ele se agachou diante da máquina e vasculhou o chão. Era algo que costumava fazer quando não tinha dinheiro. Procurar debaixo das máquinas de venda automática geralmente rendia uma ou duas moedas perdidas.
— Use isto.
Ele não tinha ouvido os passos se aproximando. Kwon Siyul olhou para a mão estendida de repente e seguiu o braço com o olhar para cima. Era o guarda-costas. Mesmo só para o parque em frente de casa, havia um guarda-costas designado.
— Obrigado.
Ele fez uma leve reverência e aceitou as moedas. Colocou-as uma a uma e apertou o botão do café. Seguiram-se o som do copo de papel caindo e o fluxo do líquido sendo despejado. Ao retirá-lo, um vapor se ergueu sobre o café ao encontrar o ar frio.
— Toma.
— Não precisa.
— Você está se esforçando tanto me seguindo por aí. Da próxima vez eu compro com o meu próprio dinheiro.
Achando difícil recusar duas vezes, o guarda-costas aceitou o café. Kwon Siyul também comprou outro café com o dinheiro que sobrou. Ao tomar um gole, seu interior, castigado pelo frio, foi descongelando devagar.
— Hyung, há quanto tempo você trabalha para o CEO?
A palavra “hyung” saiu com tanta facilidade. Ele tinha levado muito tempo para mudar a forma como se dirigia a Woo Hyunse.
— Uns três anos.
— É bastante tempo. Pensando bem, qual é o seu nome, hyung? Eu nem sei o seu nome.
O homem respondeu obedientemente que era Kim Jisang. Kwon Siyul murmurou: “Jisang hyung”. Ao ver o homem balançar a cabeça, Kwon Siyul descobriu que Woo Hyunse tinha até feito o pedido de que ele não usasse linguagem informal.
Kwon Siyul bateu à toa a ponta do tênis no concreto frio. Igualzinho ao que fazia no parquinho quando levava bronca de Kwon Yuwon quando criança.
— Você já viu a noiva do CEO?
Naquele dia, ele estava tão fora de si. Não conseguia lembrar com clareza como era a pessoa que estava ao lado de Woo Hyunse. Recordava vagamente uma presença elegante, bonita e graciosa. Woo Hyunse mexendo na gravata, o rosto de Woo Hyunse subitamente sem expressão; apenas o cheiro frio e cortante, como água escura e profunda ondulando, estava profundamente gravado em sua mente.
— Uma vez… faz muito tempo.
— Que tipo de pessoa ela é?
— Não sei muita coisa.
— Mesmo assim, pelo menos com o que ela trabalha, ou algo assim?
— …
O homem conteve as palavras e só ficou olhando ao longe. Fiel a ser subordinado de Woo Hyunse, era frio como gelo. Embora nem fosse seu próprio dinheiro, Kwon Siyul começou a se arrepender de ter comprado um café para ele.
— Ela é uma boa pessoa.
Como se percebesse os sentimentos de Kwon Siyul, ou talvez por gentileza, o homem olhou de relance para o café que tinha bebido e falou. Kwon Siyul apurou os ouvidos. Não queria perder nada.
— Ela é competente e faz trabalho voluntário com frequência.
— Com o que ela trabalha?
— Ela é advogada no Escritório de Advocacia Yusong.
Embora fosse ignorante sobre aquele setor do mundo, Kwon Siyul já tinha ouvido o nome Yusong. Era o lugar que os ricos sempre procuravam para processos. A taxa de consulta não era de centenas por minuto? Ela trabalhava num lugar tão impressionante. Parecia ter tudo — personalidade, origem, aparência e capacidade — a ponto de sobrar.
Uma pessoa assim era a noiva de Woo Hyunse.
— Ela parece incrível.
Ela combinava bem com Woo Hyunse. Estava num lugar tão alto e distante que alguém como ele nem ousaria se comparar. Apesar disso, Kwon Siyul riu amargamente de si mesmo por tentar encontrar nem que fosse um fio de possibilidade com seu “e se”. Era como sonhar o sonho vão de um dia morar no topo de um arranha-céu enquanto vivia num semiporão alugado.
Com a risada oca que escapou sem que ele sequer percebesse, o homem olhou para Kwon Siyul por um instante. Seu olhar logo se dispersou para outro lugar.
Talvez por ter tomado café de estômago vazio, seu interior parecia azedo. Mas ele queria molhar a garganta ardida. Queria beber mais, mas o copo de papel já estava vazio. Sem coragem de pedir mais moedas emprestadas, Kwon Siyul simplesmente mastigou a borda do copo. Enquanto o café era agridoce, o copo de papel só ficava mais amargo quanto mais ele mastigava.
Kwon Siyul fungou e ergueu o olhar. O céu sem nuvens era tão azul que dava calafrios. O inverno era sempre mais frio e mais perigoso quanto mais limpo o céu ficava. Embora não houvesse previsão de onda de frio, hoje parecia muito mais frio do que ontem, ontem mais do que anteontem, e agora ao meio-dia mais do que pela manhã.
Por algum motivo, a corrente de ar que congelava sua cabeça e a ponta do nariz nunca desaparecia, fosse no orfanato ou depois de sair dele. Kwon Siyul não sabia se o frio de gelar os ossos era por causa do ar invernal ou se havia outro motivo. O vento cortante parecia soprar não sobre a terra, mas sobre a sua vida.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna