• Capítulo 76
Capítulo 76
Ele não podia deixar Woo Hyunse agora. Não era uma questão de sentimentos. Woo Hyunse não o deixaria ir e, mais importante, se ele fosse embora, a vida de Kwon Yuwon estaria em perigo. Ele podia até ser mandado para uma ilha, mas, se Woo Hyunse retirasse os guarda-costas que designara para Kwon Yuwon, uma situação realmente difícil poderia surgir.
Talvez, sem perceber, algo dentro dele estivesse buscando desesperadamente desculpas para ficar com Woo Hyunse nem que fosse um minuto a mais. Ou poderia ser algo próximo de autojustificação.
Qualquer que fosse o motivo, Kwon Siyul tomou uma decisão. Ficar ao lado de Woo Hyunse. Pensando que, à medida que o tempo passasse e Woo Hyunse estivesse prestes a se casar, ou depois do casamento, se os sentimentos dele mudassem, ainda não seria tarde demais para ir embora.
Ou, se não, antes que esse momento chegasse, ele talvez fosse primeiro.
A neve caía pesada do lado de fora da janela escura. Os flocos desenhavam linhas diagonais seguindo o vento cortante. Kwon Siyul se apoiou no batente da janela e olhou para baixo, distraído. Os carros enfileirados na rua, com luzes vermelhas e amarelas acesas, pareciam lâmpadas de árvore de Natal. O fluxo do trânsito estava lento por causa da nevasca.
Kwon Siyul encarou fixamente o próprio reflexo no vidro. O cabelo tinha crescido bastante. Mexeu no cabelo que cobria a nuca e afastou a franja que tinha descido a ponto de quase espetar os olhos. Decidiu que, quando saísse daquele lugar, deveria cortar o cabelo primeiro.
Sem perceber, abriu a mão e notou as unhas bem aparadas e arredondadas. Isso também tinha sido obra de Woo Hyunse. Ele tinha contido Kwon Siyul, que gritava que odiava aquilo e que não o tocasse, e aparado cada unha, uma por uma, com um cortador de unhas.
No começo, os dedos dele pareciam grossos e ásperos como patas de urso, incapazes de um trabalho tão delicado, mas o outro, de algum jeito, conseguiu apará-las bem, em formato de meia-lua, sem nenhuma aresta.
Woo Hyunse era gentil assim.
E igualmente cruel.
Kwon Siyul riu sozinho e logo fez cara de choro. Ultimamente, suas emoções eram como um gráfico oscilando descontroladamente. Embora achasse que não devia ficar assim, quando via ou pensava em Woo Hyunse, a depressão e um riso irônico se sucediam sem fim, como se estivesse enlouquecendo.
— …Se recomponha.
Ele esfregou o rosto com força, arrastando-se de volta à realidade depois de ter vagado longe demais nas lembranças. Woo Hyunse estava do lado de fora da porta. Ao ver a neve, não tinha saído de casa. Embora pudesse trabalhar no escritório, espalhou o notebook e os documentos na sala de estar, como um cão de guarda na porta. Enojado com aquela cena, Kwon Siyul tinha fechado a porta completamente.
Ele já tinha se esforçado o bastante. Se era uma parede que não ia desmoronar, ceder podia ser uma das boas opções. Kwon Siyul decidiu se resignar ao destino por ora.
Embora fosse a porta do próprio quarto, ele não podia abri-la sozinho. Não teve outra escolha a não ser bater três vezes. Comparado a antes, quando esmurrava como se fosse quebrar o punho, seu ânimo tinha arrefecido consideravelmente.
Ao ouvir passos se aproximando, ele recuou. A porta se abriu. Kwon Siyul olhava apenas para o chão, torcendo a barra da roupa na mão. A palma estava pegajosa.
— Eu não vou sair. Como você disse… vou ficar em casa.
Foi direto ao ponto. Woo Hyunse cruzou os braços e se apoiou de lado no batente da porta.
— Como posso acreditar nisso?
Só pela postura, estava claro que a confiança que ele tinha em Kwon Siyul não chegava nem ao tamanho de um rabo de rato. Mas ele não tinha feito nada de errado. Kwon Siyul ergueu a cabeça de repente, sentindo-se indignado.
— Por que você não pode acreditar em mim?
— Porque o senhor Kwon Siyul é bom em mentir.
Ele quis argumentar perguntando quando tinha feito isso, mas, a começar por Woo Taeju, havia algumas coisas que lhe pesavam na consciência. Estava prestes a negar, dizendo que nunca tinha feito tal coisa, mas, depois de encontrar o olhar de Woo Hyunse, virou a cabeça em silêncio.
— …Você disse que o Yuwon estaria em perigo se eu fosse embora.
— …
— Você não vai me deixar ir de qualquer jeito, e o Yuwon está envolvido, então é por isso.
Woo Hyunse simplesmente olhou para o topo da cabeça de Kwon Siyul. Mesmo sem ver, Kwon Siyul sabia que aquele olhar estava cheio de dúvida e desconfiança.
— Eu me sinto sufocado. Por favor, me deixa pelo menos tomar um ar fresco.
Embora não parecesse particularmente disposto, Woo Hyunse virou o corpo de lado, abrindo espaço suficiente para Kwon Siyul passar. Kwon Siyul saiu para a sala sem olhar para Woo Hyunse. Até isso era uma saída rara para ele. Era seu primeiro passo para fora depois de ter ficado confinado no quarto, meio voluntária, meio forçadamente.
— Eu falo sério. Mesmo que eu saia, vou voltar pra cá. …Eu nem tenho outro lugar pra ir mesmo.
Kwon Siyul acrescentou, esperando recuperar pelo menos um pouco de confiança. Woo Hyunse se aproximou e abraçou Kwon Siyul por trás. Enterrou a bochecha no alto da cabeça de Kwon Siyul e envolveu a cintura dele com os braços. Kwon Siyul ergueu as mãos como se fosse tirar os braços enroscados como correntes, mas então curvou os dedos no ar e as baixou.
— Não vá a lugar nenhum, nem depois que o assunto do Kwon Yuwon terminar.
— …
— Esta é a nossa casa.
Nossa. Era a vez de um sorriso irônico em meio a toda aquela depressão e riso amargo. Mas a depressão chegou um passo antes, e Kwon Siyul não conseguiu nem chorar nem rir. Embora o calor do corpo pelo qual tanto ansiara fosse reconfortante, Kwon Siyul não conseguia sentir o calor. Diferente da pele, que ia se aquecendo, por baixo dela parecia frio, como se estivesse coberto de geada.
* * *
Por mais vezes que ligasse, não havia resposta. Woo Taeju enviou o que devia ser sua enésima mensagem antes de deixar cair, sem forças, o braço que segurava o celular.
Sem notícias de Kwon Siyul, ele não conseguia se concentrar em nada. Mesmo com a mãe estalando a língua e mandando que ao menos saísse, ele não tinha motivação para fazer nada. Sempre estivera ocupado bebendo e se divertindo, mas agora tinha perdido o interesse em tudo isso.
Também tinha tentado contatar Woo Hyunse, mas, claro, não houve resposta. As ligações eram rejeitadas, e as mensagens obviamente não eram lidas. Comparado ao passado, quando ele respondia pelo menos duas de cada dez vezes, por mais ocupado que estivesse, agora era um ignorar completo e absoluto.
Não podia ser que Woo Hyunse, logo ele, o tratasse assim. Pela raiva de ter as mensagens ignoradas sem piedade e pela sensação de traição ao perceber que Woo Hyunse e Kwon Siyul já tinham aquele tipo de relação, Woo Taeju vinha perdendo o sono ultimamente. Acordava sobressaltado mesmo dormindo e recebia a manhã com a indignação crescendo.
Ele tinha tentado não recorrer a isso, se possível. Não gostava de ficar só deitado esperando uma resposta, o que não combinava com seu temperamento. Woo Taeju finalmente se levantou e se preparou para sair. A mãe, que tomava chá na sala, se animou perguntando se ele finalmente ia sair, mas ele nem se deu ao trabalho de fazer charme pedindo mesada como de costume.
Pegou imediatamente as chaves do carro e foi até o prédio onde ficava o escritório de Woo Hyunse. Era um escritório num prédio em nome de Woo Hyunse, erguendo-se imponente num terreno nobre.
Respirando fundo em frente à porta, ele entrou no elevador com a gravidade de um general invadindo território inimigo. Não tinha certeza se Woo Hyunse estaria no escritório. Se fosse antes, teria pelo menos perguntado a Park Hae-jeong, o homem de confiança dele, mas, por algum motivo, o paradeiro dele também era desconhecido.
Ele chegou ao escritório sem problemas. A secretária, embora claramente reconhecesse seu rosto, lançou uma única palavra indiferente para que esperasse, de um jeito extremamente profissional. Sentado num sofá caro, esperando, Woo Taeju não escondia a ansiedade e a insatisfação, batendo o pé no chão sem parar.
A secretária, que estava ocupada trabalhando entre o notebook e o telefone, finalmente chamou Woo Taeju até a recepção. Escondendo as palmas suadas em punhos, Woo Taeju entrou na sala. Woo Hyunse, sentado à mesa e, de modo incomum, usando óculos, nem ergueu a cabeça apesar de alguém ter entrado.
— Hyung.
Depois que a secretária saiu, ele chamou Woo Hyunse baixinho. Mas Woo Hyunse não tirou os olhos do monitor. A expressão dele era até indiferente, como se nem reconhecesse a presença de Woo Taeju. Não parecia surpreso com a visita repentina sem aviso. Ou já a tinha previsto, ou nem valia a pena se surpreender.
— O quê?
Pelo menos ele está perguntando. Woo Taeju estava prestes a se sentar no sofá próximo, mas mudou de ideia, cruzou os braços e ficou de pé em frente à mesa. Ia esperar até que os olhos de Woo Hyunse se voltassem para ele. Em resposta a esse protesto silencioso sem precedentes, Woo Hyunse soltou um longo suspiro silencioso e tirou os óculos.
— O que você fez com o celular do Siyul hyung?
Embora claramente estivesse olhando de cima para ele, quando os olhares se encontraram, com Woo Hyunse olhando para cima, um calafrio percorreu sua espinha. Tentando esconder a agitação, ele travou a mandíbula de propósito e não desviou o olhar.
— Isso não é da sua conta.
— Por que não? Hyung, por acaso você está mantendo o Siyul hyung em cativeiro?
— Desde quando Kwon Siyul é seu “hyung”? Você tinha um meio-irmão que eu não conhecia?
— Não foi isso que eu quis dizer!
Mesmo quando ele gritou, batendo na mesa com estrondo, Woo Hyunse nem se abalou. Apenas se recostou fundo na cadeira, apoiando os cotovelos nos braços dela. Segurava os óculos de forma descuidada, com uma das hastes quase tocando os lábios.
— Você realmente levou o Siyul hyung, não levou? Você foi o último a buscá-lo naquele dia.
— E daí se você souber?
— Claro que…! Hyung, é verdade mesmo?
Ele tinha dito isso como um chute, pensando “com certeza ele não faria isso”, mas Woo Hyunse não deu nenhuma resposta clara de sim ou não. Apenas sorriu de forma ambígua. Woo Taeju nunca tinha visto o sorriso de Woo Hyunse parecer tão perverso.
— Hyung, isso não está certo. Deixa o Siyul hyung ir. Devolve o celular dele também. Isso é crime. Não quero denunciar alguém do meu próprio sangue.
Lendo a resposta naquele sorriso, Woo Taeju expressou sua opinião com calma, em choque. Mesmo com a persuasão se arrastando, Woo Hyunse apenas ouvia tranquilamente, como se tivesse todo o tempo do mundo.
— É melhor pra você e pro Siyul hyung. E você vai se casar. No nosso mundo, ter um amante sendo casado pode não ser nada demais, mas o Siyul hyung não é esse tipo de pessoa. Ele é uma pessoa comum. Um beta. Você é um alfa. Acha que pessoas de tipos diferentes conseguem se dar bem? O Siyul hyung não combina com você.
O sorriso de Woo Hyunse se contorceu sutilmente, mas Woo Taeju não percebeu. Acreditando que o estava convencendo, só continuou falando com sinceridade. Depois de fingir ouvir atentamente o discurso unilateral, Woo Hyunse se levantou, empurrando a cadeira para trás. Vestiu o casaco que estava no cabide e pegou o celular sobre a mesa.
— Tenho um compromisso marcado. Até quando você vai continuar falando?
— Você ouviu o que eu disse? Estou te dizendo pra deixar o Siyul hyung ir.
— Cuida da sua vida. Isso não é algo em que você deva se meter.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna