• Capítulo 75
Capítulo 75
— Kwon Siyul.
Ele chamou o nome de Kwon Siyul com suavidade, como se tentasse acalmá-lo. Kwon Siyul não queria ouvir. Pressionou as palmas contra os olhos. Apesar do esforço para se conter, os olhos logo se encheram de lágrimas. Ele tentou engolir as lágrimas, olhando para o teto, junto com o som das fungadas.
— Você chama isso de só uma formalidade? Como pode fazer isso comigo? Você… senhor CEO.
— …
Não houve nenhuma palavra de consolo. Woo Hyunse simplesmente ficou parado ali, como se tivesse criado raízes. O ar se agitou brevemente com o tratamento formal, mas foi passageiro. Dissipou-se tão rápido que Kwon Siyul se perguntou se tinha imaginado. Incapaz de encarar Woo Hyunse por mais tempo, Kwon Siyul fuzilou o chão com o olhar. Uma lágrima que ele achava ter contido caiu no chão com um plic alto.
— Eu vou embora. Não posso ficar aqui.
Mesmo que morresse congelado lá fora, mesmo que morresse espancado, não podia ficar ali nem mais um minuto. Não queria respirar nem por um segundo naquele lugar impregnado com o cheiro de Woo Hyunse. Quando se virou para sair, Woo Hyunse agarrou seu ombro.
— Tem gente lá fora tentando te matar. Aonde você pensa que vai? Fica em casa.
— Não.
Kwon Siyul tentou se desvencilhar da mão de Woo Hyunse. Seu braço foi pego. O aperto era tão forte que parecia que ia rasgar sua carne. Apesar da expressão de dor de Kwon Siyul, Woo Hyunse não soltou. Em vez disso, puxou Kwon Siyul para mais perto. A lufada repentina do cheiro de Woo Hyunse era ameaçadora, como se pudesse agarrar Kwon Siyul pelo colarinho e jogá-lo no chão. Os ombros de Kwon Siyul se tensionaram de medo instintivo.
— Para de agir feito criança.
— …
Tomando o silêncio como concordância, Woo Hyunse agarrou o pulso de Kwon Siyul e o puxou. Atravessaram a sala. Kwon Siyul ainda estava de sapatos. Tentou várias vezes torcer o braço para se soltar, mas falhou todas as vezes. Woo Hyunse não soltava. Cada vez que Kwon Siyul tentava, Woo Hyunse apertava mais, como se quisesse deixar um hematoma escuro em seu pulso.
— Esfria a cabeça.
No fim, era o quarto de Kwon Siyul. Woo Hyunse o empurrou para dentro e fechou a porta, igualzinho a trancar uma cela de prisão.
Os passos não se afastaram. Sem luz dentro nem fora, nenhuma sombra era visível sob a porta. Mas Kwon Siyul sabia que Woo Hyunse estava parado do lado de fora.
Kwon Siyul recuou devagar, como se se afastasse de um oponente invisível. Passo a passo, até as costas baterem na parede fria. Só quando chegou àquele beco sem saída ele escorregou até se sentar. Cobriu a boca. Parecia que ia gritar. Era como se uma faca afiada tivesse feito um corte fundo e longo em algum lugar do corpo, mas a dor estava por dentro, e o calor, nos olhos.
Ele baixou bastante a cabeça. O chão negro ondulava como o mar profundo e então clareava à medida que as lágrimas caíam sobre ele.
Ainda assim, Kwon Siyul não fez absolutamente nenhum som. Segurou até a respiração e tremeu. Não queria que a pessoa ainda parada do lado de fora da porta o ouvisse chorar.
* * *
— Eu quero ir embora.
— Não.
— Me deixa ir.
— Pra onde?
— Pra qualquer lugar.
— Não.
Era uma conversa entre paredes. Kwon Siyul tentava fugir sempre que podia. Conseguia chegar até a sala. Mas não conseguia passar da porta da frente. Woo Hyunse tinha passado a trabalhar de casa, assumindo o papel de guarda de Kwon Siyul.
Então, um dia, Woo Hyunse chamou alguém para instalar uma fechadura na porta do quarto de Kwon Siyul. Encheu o quarto de aparelhos para passar o tempo — videogames, TV e mais. Agora, uma vez que Kwon Siyul entrava no quarto, não podia sair.
O celular dele foi confiscado, é claro. Até a TV chegar, Kwon Siyul não fazia ideia de como o tempo passava no mundo lá fora.
— Eu pareço estar brincando agora?
— Eu pareço estar brincando?
Um dia, Kwon Siyul ficou com raiva, chorou, fez birra, até jogou coisas, depois ficou com medo e pediu desculpas, culpou Woo Hyunse, recusou comida… Tentou todas as formas de rebeldia que conseguiu imaginar. Nunca antes tinha se debatido assim, nem mesmo na adolescência rebelde.
Achou que, se não se lavasse, talvez Woo Hyunse o expulsasse por estar sujo, mas isso também não funcionou. No quarto dia evitando água, suportando a sensação desagradável, Woo Hyunse bufou como se diante de um capricho ridículo e arrastou Kwon Siyul até a banheira.
Mesmo quando Kwon Siyul implorou para fazer isso sozinho, Woo Hyunse ensaboou e esfregou cada centímetro do corpo dele. Ele até deu um tapa forte na mão de Kwon Siyul, afastando-a, e escovou os dentes dele.
— Isso é cárcere privado. Você sabe disso, né?
— Existe cárcere privado em que te alimentam e te abrigam com gentileza? Nunca fiz nada desse tipo antes.
— Vou te denunciar pra polícia.
— Você não fazia entregas de drogas? Estão reprimindo pesado hoje em dia. Se te pegarem pra valer, você vai apodrecer na cadeia por pelo menos dez anos. Eu vou garantir isso.
— …
— Kwon Yuwon também vai estar em perigo.
Mesmo quando Kwon Siyul o fuzilou com o olhar, Woo Hyunse nem piscou. Kwon Siyul se deitou de braços e pernas abertos na cama. Estava cansado de discutir. Por mais que tentasse atacar ou ameaçar verbalmente, a quantidade de ofensas que dirigia ao outro não fazia nem cócegas nos dedos dos pés dele.
Ele tinha até tentado fugir quando viu uma oportunidade, mas, depois de experimentar em primeira mão a habilidade atlética de Woo Hyunse, desistiu do confronto físico. Era uma luta desigual desde o início. Então tentou vencer com palavras, mas isso também se mostrou inútil.
— Você sempre foi tão desprezível assim?
— Quando se trata do que eu quero, sim.
Insultos não o abalavam. Provocações não surtiam efeito. Kwon Siyul sempre acabava perdendo.
— Você disse que vai se casar! Por que não sai pra preparar o casamento ou passar tempo com a sua noiva, em vez de ficar enfurnado em casa?!
Ele gritou num acesso de raiva. Assim que terminou, Woo Hyunse se aproximou depressa, fazendo Kwon Siyul se sobressaltar e se sentar. Ele se arrastou para trás até as costas baterem na cabeceira.
Woo Hyunse ficou de pé, alto, ao lado da cama, então suspirou baixinho e se sentou na beirada do colchão. Quando estendeu a mão, Kwon Siyul se encolheu e recuou. Ainda assim, a mão o perseguiu, afastando mecha por mecha o cabelo desgrenhado da testa dele.
— É isso que você quer que eu faça?
— …
— Me diz, Kwon Siyul. Se você disser, eu vou fazer obedientemente o que você mandar.
Como uma pessoa podia ser tão cruel? Aquilo era demais. Ele fazia isso sabendo muito bem que Kwon Siyul não conseguiria afastá-lo. Kwon Siyul mordeu o lábio inferior com força, engolindo a onda de ressentimento.
Queria dizer a Woo Hyunse para ir embora agora mesmo, sumir da sua frente, ir ficar com aquela mulher — mesmo que tudo fosse mentira. Mas odiava ainda mais a si mesmo por não conseguir pronunciar uma palavra. Odiava-se tanto que as lágrimas lhe subiram aos olhos.
Um dedo tocou seus lábios. Quando Kwon Siyul virou a cabeça bruscamente, Woo Hyunse segurou sua bochecha com a outra mão e o virou de volta, soltando com delicadeza o lábio mordido. Ele tinha mordido com tanta força que o lábio rachou, com sangue vermelho escorrendo. Woo Hyunse chupou o sangue do próprio dedo como se fosse néctar.
— Você sabe que é realmente nojento, né?
— …
— Eu te odeio.
— Eu sei.
— Eu não gosto de você.
— Isso eu também sei.
— Se sabe, então me deixa ir.
— Você sabe que eu não posso fazer isso.
O cheiro do outro era docemente calmante, como se tentasse consolá-lo. Mas o gosto na língua era insuportavelmente amargo. Kwon Siyul começou a se encolher, mas mudou de ideia e se enfiou debaixo do cobertor. Virar as costas para Woo Hyunse foi o único ato de desafio que conseguiu naquele momento.
— Pede outra coisa no lugar. Não estou numa posição em que não possa te dar uma casa ou um prédio.
Soava como um negócio lucrativo. Woo Hyunse certamente poderia lhe dar benefícios materiais. No passado, se seus sentimentos por Woo Hyunse fossem nem que só um pouquinho menores, ele teria agarrado uma oferta dessas.
Mas agora não conseguia. Não importava o que recebesse, não suportaria ver outra pessoa ao lado de Woo Hyunse. Preferia arrancar os próprios olhos.
— Eu quero ficar sozinho.
A mão que ia em direção ao cabelo dele, que aparecia por fora do cobertor, hesitou no ar. Recolhendo o braço, Woo Hyunse se levantou. Kwon Siyul ouviu os passos, a porta abrindo e fechando e o clique da fechadura antes de puxar o cobertor para baixo.
Woo Hyunse era bom em respeitar esse tipo de pedido. Kwon Siyul não conseguia distinguir se realmente queria ficar sozinho ou se era do calor de Woo Hyunse que ele mais precisava.
Apesar do edredom fofo de plumas e de um quarto quente o bastante para às vezes parecer abafado mesmo de manga curta e shorts, de algum modo parecia frio. Kwon Siyul se encolheu como um feto, cruzando os braços para abraçar a si mesmo. Isso confirmou se ele queria a primeira coisa ou a segunda. Ainda assim, não pediu que Woo Hyunse voltasse.
— …Está frio.
Ele apenas murmurou para si mesmo, tão baixinho que não chegaria aos ouvidos da pessoa do lado de fora da porta.
Passava o tempo à toa no quarto. Woo Hyunse lhe trazia comida. Ele parou de se recusar a tomar banho depois que Woo Hyunse o banhou à força uma vez. O próprio Kwon Siyul não aguentava. Conseguia suportar por dois dias, mas depois disso não tolerava a sensação de sujeira. Afinal, até na pensão, onde muitas vezes saía água fria mesmo com o chuveiro no quente, ele tomava banho quase todos os dias, como um passarinho sacudindo as penas numa poça.
Num dia, sentia-se suicida; noutro, sentia-se vazio; e ainda noutro, sentia uma onda de coragem para confrontar Woo Hyunse, só para voltar a ficar deprimido minutos depois. Mas, com o passar do tempo, ele acabou ficando um pouco mais calmo.
Ainda havia uma dor como se algo estivesse sendo escavado com uma faca, mas, como acabou se acostumando, no fim ela se tornou de certa forma suportável. Ele se perguntou se era essa a situação que Woo Hyunse tinha em mente quando lhe disse para esfriar a cabeça.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna