• Capítulo 74
Capítulo 74
Na realidade, apenas uma minoria das pessoas desse meio permanecia fiel depois do casamento. Ter um amante era tão comum quanto um clichê batido de novela. Mesmo que Woo Hyunse se casasse, ele não precisaria necessariamente se separar de Kwon Siyul. In Seohee tinha até comprado uma casa nova para manter o amante dela lá.
Woo Taeju sorriu com amargura sem que Kwon Siyul percebesse. Tinha que admitir. Tinha falado sem necessidade, por puro ciúme mesquinho. Sabia que não conseguiria se defender se alguém apontasse que ele estava agindo de forma mesquinha e tacanha naquele momento.
Kwon Siyul baixou bastante a cabeça. A língua de Woo Taeju, geralmente rápida para provocar os outros, parecia travada diante de Kwon Siyul. Ele não conseguia oferecer nem as palavras comuns de consolo. Woo Taeju simplesmente passou o braço pelos ombros de Kwon Siyul e deu tapinhas em suas costas. Era como dar o remédio depois de causar a doença, mas desta vez o remédio não fez efeito.
Ele desejava que Kwon Siyul superasse aquilo.
Ao ouvir passos se aproximando, Woo Taeju ergueu o olhar. Um desconhecido caminhava direto na direção deles, parando a uns dois passos de distância. Kwon Siyul olhou para o homem, surpreso. Antes que pudesse perguntar quem era, o homem ignorou Woo Taeju e se concentrou apenas em Kwon Siyul.
— Vim buscá-lo.
Os olhos de Kwon Siyul se moveram, desconfortáveis. Ele parecia conhecer a pessoa. Quando Woo Taeju tentou bloquear o homem, Kwon Siyul agarrou a manga dele.
— Eu vou daqui a pouco.
— Recebi ordens de levá-lo de volta imediatamente.
Woo Taeju percebeu tardiamente a quem aquela pessoa estava ligada. Segurou o braço de Kwon Siyul, dizendo que não havia necessidade de ir. Kwon Siyul sorriu com amargura e tirou o braço do aperto de Woo Taeju.
— Vou ter que te pagar aquela bebida outra hora.
— Siyul hyung, só esta noite fica comigo…
Kwon Siyul balançou a cabeça devagar. Era hora de recuar. Woo Taeju recolheu a mão estendida e encarou o homem com os lábios bem apertados. Apesar do olhar um tanto hostil, o homem pareceu não se abalar, fazendo uma leve reverência a Woo Taeju antes de se virar.
As costas que ele via pareciam menores e mais frias do que o normal naquele dia. Reprimindo a vontade de levar Kwon Siyul para algum lugar naquele exato momento, Woo Taeju só podia cerrar com força o punho vazio.
Embora Kwon Siyul tivesse agido com maturidade diante de Woo Taeju, quando de fato chegou em frente à casa, suas pernas pareciam pesadas, como se os pés estivessem colados ao chão. Durante o trajeto de carro, Kwon Siyul ficou com as mãos nos bolsos, largado no banco, olhando fixamente pela janela. A voz do motorista dizendo “Chegamos” mal foi registrada.
Ele não queria entrar.
Queria fugir.
Não queria ver Woo Hyunse.
No caminho, pensou em muitas coisas. O que dizer primeiro quando encontrasse Woo Hyunse. Se devia ficar com raiva, xingá-lo por não ter contado ou conversar com ele sobre qual tinha sido o status da relação deles.
Seria falta de imaginação? Não conseguia adivinhar de jeito nenhum como Woo Hyunse reagiria às suas atitudes. O rosto que normalmente conseguia visualizar com nitidez mesmo de olhos fechados agora parecia embaçado, como se os traços tivessem sido borrados.
Kwon Siyul enrolou no carro por um bom tempo. Sabia que o motorista o observava pelo retrovisor, mas fingiu não perceber. Depois de um impasse silencioso, o homem suspirou de leve e saiu do carro primeiro. Deu a volta e abriu a porta traseira onde Kwon Siyul estava sentado. A expressão dele sugeria que achava aquilo tão irritante quanto assistir a uma criança com quem não tinha nenhuma relação fazendo birra.
Sentindo que seria arrastado para fora se não se mexesse, Kwon Siyul saiu do carro de má vontade. O homem o seguiu de perto, vigiando para garantir que Kwon Siyul não fugisse. Embora não fosse um animal sendo levado ao abate, os passos de Kwon Siyul ficavam cada vez mais lentos, e seus olhos, que ele tinha se esforçado tanto para secar no parque, voltavam a arder.
Ele torcia para que o elevador parasse no meio do caminho, mas os números subiam mais rápido do que o normal. Quando o sinal de chegada soou, sentiu tontura, como se todo o sangue tivesse sido drenado do corpo.
— Entre.
O homem parecia decidido a empurrar Kwon Siyul porta adentro. Kwon Siyul ergueu os olhos para ele, implorando em silêncio para saber se não poderia ir para outro lugar, mesmo agora. Ao ver irritação no olhar que o homem lançava de cima, Kwon Siyul baixou a cabeça sem forças e segurou a maçaneta.
A senha conhecida abriu a porta com um clique. A entrada que se abria devagar parecia estar a um passo de um abismo. Kwon Siyul ficou do lado de fora de cabeça baixa e então, incapaz de esperar para sempre, fechou os olhos com força e entrou. O som da porta se fechando atrás dele pareceu tão pesado quanto o portão de uma prisão.
Kwon Siyul prendeu a respiração num arquejo. Como se prender a respiração pudesse ajudá-lo a evitar aquilo. Um cheiro semelhante ao do saguão da sala de concertos pareceu envolver a nuca de Kwon Siyul, como um mar escuro e profundo escondendo algo desconhecido por trás de uma cortina negra. Não era o cheiro de floresta, quieto e calmo, de sempre.
Era um cheiro que amplificava a ansiedade. Kwon Siyul hesitou, incapaz de passar do hall de entrada. Ainda não tinha coragem de encarar Woo Hyunse. Não estava mentalmente preparado. Se ao menos tivesse um pouco mais de tempo, talvez conseguisse encarar aquilo com calma, mas não havia esse luxo.
— Kwon Siyul.
Embora não fosse um trovão, a voz repentina foi como uma chicotada. Kwon Siyul se encolheu e olhou para a sala de estar. Woo Hyunse estava sentado no sofá. Mergulhado na escuridão, só se via o contorno sombrio dele. Com os cotovelos nos joelhos, ele se inclinava para a frente como se estivesse pronto para atacar e morder o pescoço de Kwon Siyul, ou qualquer outra parte, ao menor movimento.
— Woo Taeju provavelmente não é do orfanato.
— …
— Desde quando?
Kwon Siyul apertou os lábios com força. A luz do hall de entrada, cor de pôr do sol, acima de sua cabeça piscou e se apagou. A casa estava escura, exceto pela vista noturna fraca que entrava pelas janelas.
Até então, ele estivera preso demais na própria miséria para perceber. O tom inquisitivo de Woo Hyunse fez a raiva crescer dentro dele. Woo Hyunse é que o tinha enganado primeiro. Se alguém devia perguntar “desde quando”, deveria ser o próprio Kwon Siyul.
Kwon Siyul cerrou o punho com força. A luz do hall, detectando o movimento, voltou a acender. Naquela mesma manhã, ele tinha enchido Woo Hyunse de incontáveis palavras de afeto sob aquela luz. Nos braços do outro, naquela manhã, ele não fazia a menor ideia do que estava por vir.
— Por que você não me contou?
— …
— Algum dia você pretendia contar?
Woo Hyunse se levantou. Foi andando até ele, um passo de cada vez. Kwon Siyul recuou em resposta. Suas costas tocaram a porta de metal fria. Tinha a mesma temperatura do cheiro ondulante que parecia pronto para devorá-lo. Os braços se arrepiaram.
A gravata de Woo Hyunse tinha sumido. Kwon Siyul a tinha amarrado para ele naquela manhã. Ele tinha usado a gravata que Kwon Siyul lhe pusera para ir a um encontro com outra pessoa. O lábio inferior de Kwon Siyul tremeu levemente. Ele olhou para Woo Hyunse, encolhendo-se. A luz do hall se apagou de novo, mergulhando a figura de Woo Hyunse de volta na escuridão.
— Eu perguntei primeiro. Desde quando você conhece o Woo Taeju, e qual é a relação de vocês?
— Não somos nada. Só trabalhamos no mesmo lugar.
Woo Hyunse soltou uma risada curta e sarcástica. Limpou a boca e olhou Kwon Siyul de cima.
— O Taeju conta uma história diferente. Explica como você fez o Taeju se apaixonar tanto por você a ponto de agir desse jeito.
— …
— “Só trabalhamos no mesmo lugar”, é? Deve ter mais coisa, não?
— Não tem.
— Onde vocês dois se conheceram?
Embora não houvesse nada entre ele e Woo Taeju, Kwon Siyul achava difícil revelar com orgulho aquele único fato. Mesmo sendo inocente, suas intenções tinham sido impuras.
— Você é um belo mentiroso, Kwon Siyul. E bom em enganar as pessoas também.
Por essa lógica, Woo Hyunse estava na mesma posição. Kwon Siyul virou a cabeça bruscamente. Os olhos ardiam, e as lágrimas brotaram depressa. Ele as conteve, forçando os olhos a ficarem bem abertos.
— Por que você não me contou? Que ia se casar?
— Isso é importante?
— Claro que é importante! Você está dizendo que a gente deve terminar agora…?
Embora ainda não tivessem oficializado o relacionamento, a palavra que passou pela mente de Kwon Siyul foi “término”. Mesmo com tudo apontando para um fim, Kwon Siyul ainda não queria dizer adeus, temendo que dizê-lo em voz alta tornasse tudo ainda mais real, separando-o completamente de Woo Hyunse. Ele mordeu o lábio inferior até doer e então falou com dificuldade.
— Você está me mandando ir embora, não está?
— Do que você está falando? Por que isso seria motivo para terminar?
Kwon Siyul ficou pasmo. Não tinha palavras. Woo Hyunse realmente não entendia. Parecia acreditar que casamento não podia ser motivo para um término. Atônito, Kwon Siyul ficou olhando boquiaberto para Woo Hyunse.
Se Woo Hyunse tivesse se desculpado por ter contado tarde ou dado desculpas sobre as coisas terem avançado rápido, Kwon Siyul talvez tivesse aceitado a contragosto. Mas Woo Hyunse tratava o casamento como se fosse apenas uma parte normal do cotidiano.
Kwon Siyul tinha se preparado mentalmente de antemão. Tinha vindo pensando que, na melhor das hipóteses, ouviria Woo Hyunse dizer que ele precisava desocupar a casa em breve por causa do casamento que se aproximava, ou talvez uma despedida dizendo que tinha sido divertido enquanto durou. Completamente alheio ao estado de espírito devastado de Kwon Siyul, Woo Hyunse o olhava como se ele estivesse falando bobagem.
— Como dizer que vai se casar com outra pessoa não é o mesmo que terminar?
— É só uma formalidade. Não tenho nenhum sentimento por aquela mulher. E é a mesma coisa pra ela.
Woo Hyunse suspirou fundo, como se estivesse frustrado. A atitude de tratar Kwon Siyul como uma criança patética fez a raiva subir até as pontas dos cabelos de Kwon Siyul.
— Isso não importa! É casamento! Casamento! Você vai ter uma esposa e uma família. Tudo vai ser completamente diferente daqui pra frente.
°🥂⋆.ೃ🍾࿔*:・°🥂⋆.ೃ🍾࿔*:・
Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna