• Capítulo 104
Capítulo 104
— É tão bom assim?
Woo Hyunse jogou essas palavras nas costas de Joo Shindo enquanto ele se virava para sair. Ele olhou para trás. Em seus olhos avermelhados, não havia interesse nem curiosidade pelos outros, nem o menor traço de calor que uma pessoa deveria ter. Joo Shindo usava apenas a máscara de um humano — se você arrancasse sua pele, por dentro revelaria uma serpente de mil anos.
— Quer dizer que eu deveria deitar de costas como um cachorro, se é isso que você quer, jovem mestre?
“…”
Joo Shindo fitou Woo Hyunse intensamente. Era como se estivesse tentando enxergar através de seus pensamentos internos. Woo Hyunse retribuiu o olhar com calma. Depois de um longo olhar, Joo Shindo sorriu de canto e apontou para ele.
— Eu não achava que você fosse desse tipo, senhor Woo. Você não tem romantismo.
Não era algo que devesse ouvir de Joo Shindo, entre todas as pessoas. Ainda assim, Woo Hyunse sorriu de volta. Era o tipo de sorriso que se daria normalmente quando um comentário acertava bem no ponto.
Enquanto Joo Shindo estava prestes a sair da sala, virou a cabeça como se algo tivesse acabado de lhe ocorrer, dizendo “Ah”. Com as mãos fundo nos bolsos, comentou casualmente: — Senhor Woo, ouvi dizer que seu primo vai estudar no exterior em breve.
O único primo a quem Joo Shindo poderia estar se referindo era Woo Taeju. Aquele cara atrevido chamava Joo Shindo de “hyung” com bajulação, apesar de tê-lo encontrado só algumas vezes. Como se a cicatriz cruel na ponte do seu nariz nem estivesse ali.
— É.
— É por isso que ele estava festejando em uma sala?
— Que seja. — Sem interesse nesse tipo de assunto, Woo Hyunse acenou a mão como se estivesse espantando Joo Shindo. Os olhos de Joo Shindo se enrugaram de forma bonita. Seus dentes, visíveis entre os lábios, eram irritantemente uniformes.
— O garoto lá em cima parecia estar se divertindo também.
Woo Hyunse, que estava tirando um cigarro despreocupadamente para colocar na boca, ergueu a cabeça abruptamente. Seus olhos, ao olhar para Joo Shindo, estavam cheios de uma luz gelada. Ao se levantar bruscamente, tentando agarrar o colarinho de Joo Shindo, Joo Shindo rapidamente afastou a mão que se aproximava com um tapa ruidoso.
— Por que o Kwon Siyul está aqui?
O dorso de sua mão logo ficou vermelho. Ignorando isso, Woo Hyunse arreganhou os dentes. Sua aura era ameaçadora o suficiente para matar alguém.
— O garoto também devia se divertir um pouco, não devia?
— Sai da frente.
Ele passou pelo ombro de Joo Shindo e saiu da sala. Ouviu comentários zombeteiros vindos de trás sobre velhos que não deveriam se meter nos assuntos dos jovens e manter a dignidade, mas ignorou. Atravessou o corredor sombrio a passos largos.
Ao descer as escadas, viu uma sala cheia de rostos familiares. Mas através da parede de vidro transparente, só conseguia ver Kwon Siyul entre todos os outros.
Ele estava sorrindo com os olhos curvados como luas crescentes, como se algo fosse tão engraçado. Estava sentado ao lado de Woo Taeju, com o braço do outro homem pendurado sobre seu ombro.
“…”
Por um instante, não conseguiu ouvir nada. Sua visão escureceu, depois voltou após um piscar. Seus pés já estavam se movendo. Era como se alguém o estivesse empurrando violentamente por trás. Parecia que uma voz sussurrava para ele entrar correndo e cortar fora aquele braço em seu ombro imediatamente.
Woo Hyunse se dirigiu à sala, enquanto a voz o instigava. Quando escancarou a porta, todos os olhos se voltaram para ele de uma vez. Incluindo os de Kwon Siyul. Ele abriu os olhos bem largos, como se não esperasse vê-lo ali.
Woo Taeju, sentado ao lado dele, também notou Woo Hyunse e começou a se levantar desajeitadamente. Mal tinha chamado “Woo Hyunse hyung” quando Woo Hyunse avançou a passos largos, agarrou a nuca dele com força e bateu sua cabeça contra a mesa. Com um baque, ossos e tendões grossos se sobressaíram na mão que pressionava a cabeça de Woo Taeju.
— Não te falei para não cobiçar o que pertence aos outros?
Com a violência subitamente adicionada à situação inesperada, as pessoas ao redor se levantaram atrapalhadas. No entanto, ninguém ousou deter Woo Hyunse. Uma intenção assassina que parecia afiada o suficiente para cortar ao menor toque irradiava de todo o corpo de Woo Hyunse. Todos temiam que a lâmina ameaçadora pudesse se voltar para eles em vez de Woo Taeju.
— Hyung, por favor… sua mão…!
Woo Taeju conseguiu murmurar, com a bochecha pressionada contra a mesa. Em vez de responder, Woo Hyunse ergueu a cabeça dele. Com um grito agudo, estava prestes a bater de novo.
— Para com isso!
Uma mão branca agarrou o pulso de Woo Hyunse. Olhando para baixo, ele viu Kwon Siyul olhando para cima com o rosto pálido como uma folha de papel. Incapaz de suportar a energia esmagadora, sua tez estava doentia, como se pudesse vomitar a qualquer momento. A mão que segurava Woo Hyunse tremia levemente.
— Para, hyung! Você vai matá-lo de verdade se continuar assim.
“…”
— Solta essa mão…
Woo Hyunse apenas fitou Kwon Siyul, sem dizer nada. Parecia que se acalmaria depois de só mais três golpes, mas foi mandado parar depois de só um. Os olhos que o olhavam de baixo estavam desesperados. Ele estava sinceramente tentando detê-lo.
Isso o desagradou ainda mais. Não era pelo bem dele próprio. O outro homem estava tremendo de medo, mas mesmo assim agarrou o braço de Woo Hyunse só para salvar Woo Taeju.
O aperto de Woo Hyunse se intensificou bruscamente. Woo Taeju, com o pescoço curvado para trás, cerrou os dentes com força, gemendo de dor. Se batesse agora, Woo Taeju passaria pelo menos algumas semanas quieto no hospital.
— Por favor…!
Kwon Siyul agarrou as roupas de Woo Hyunse com as duas mãos. Lágrimas se formaram sob seus olhos. Seu cheiro também pairou no ar. O aroma de flor de glicínia estava precário, como se pudesse desaparecer a qualquer momento.
“…”
Ele queria matá-lo, mas não era estúpido o bastante para cometer assassinato em um lugar com tantas testemunhas. Só planejava espancá-lo moderadamente e hospitalizá-lo.
Estalando a língua, Woo Hyunse soltou o aperto. Deixando Woo Taeju tossindo e engasgando, ele passou a ajeitar as mangas amassadas da camisa. Mesmo depois que a situação começou a se recompor e alguém correu para atender Woo Taeju, Woo Hyunse manteve os olhos apenas em Kwon Siyul.
— Vamos conversar?
— …Lá fora. Vamos conversar lá fora.
Kwon Siyul respondeu, cerrando os punhos enquanto forçava aquelas palavras para fora. Já que Kwon Siyul estava disposto a sair dali por vontade própria, não havia necessidade de maltratar mais Woo Taeju.
Woo Hyunse liderou o caminho, abrindo a porta. Só depois de deixar Kwon Siyul sair foi que Woo Hyunse deixou o lugar.
Kwon Siyul parou no lugar quando entraram em um beco deserto nos fundos. Woo Hyunse mal conseguiu resistir ao impulso de acender um cigarro. Diante do rosto límpido de Kwon Siyul, algo escuro brotou dentro dele. Sentia-se indescritivelmente frustrado naquele momento.
Por que ele não estava ao seu lado, mas sim sentado tão perto de Woo Taeju, sorrindo tão inocentemente há pouco?
Ele não devia ter deixado Woo Taeju escapar tão facilmente. Devia ter quebrado pelo menos uma parte dele para mantê-lo longe da vista dele e de Kwon Siyul por alguns meses. Ou isolá-lo do mundo declarando-o incapaz.
…Ou impedi-lo de nunca mais ver Kwon Siyul.
— O que você quer dizer?
Kwon Siyul perguntou com ousadia. Woo Hyunse mordeu o lábio em vez de fumar e passou a mão pelo cabelo. Seus cabelos crescidos demais caíram de volta sobre a testa, tornando o gesto inútil.
Se pudesse encher os pulmões de fumaça, seus nervos talvez se acalmassem um pouco. A imagem de Kwon Siyul sorrindo com o braço de Woo Taeju ao redor de seu ombro pairava diante de seus olhos naquele momento.
— É por isso que você foi embora?
Kwon Siyul pareceu não entender. Woo Hyunse amaldiçoou-se em silêncio. Não queria mostrar uma aparência tão desalinhada diante de Kwon Siyul, se pudesse evitar. Embora soubesse racionalmente que o outro homem era muito mais novo do que ele, não conseguia mais fingir estar calmo e composto.
Desde que Kwon Siyul foi embora, ele tinha perdido o controle. Não conseguia mais usar a máscara como antes, não conseguia parar as palavras de vazarem, e desferia socos sem hesitar quando tinha a chance. Tinha se perguntado inúmeras vezes por que estava assim, mas a conclusão era sempre a mesma. Kwon Siyul era o problema.
No dia em que ele saiu e o abandonou, Kwon Siyul tinha roubado algo de dentro dele também.
— Estou perguntando se Woo Taeju é o novo parceiro de Kwon Siyul.
Ele explicou gentilmente. Kwon Siyul pressionou os lábios com força. Lançou um olhar fulminante para Woo Hyunse antes de virar bruscamente a cabeça. Seu cheiro desapareceu de novo. Tentar suprimi-lo era inútil. Kwon Siyul apagando seu cheiro na frente dele era como apertar um botão.
— Na minha frente.
Ele deu um passo à frente. Kwon Siyul recuou, vendo isso. A distância entre eles já era bastante grande.
Ele queria que Kwon Siyul se afastasse ainda mais dali. Queria agarrar seus ombros. Perguntando-se se quebraria os ossos se os agarrasse, Woo Hyunse cravou as unhas na palma da mão.
— Não esconda seu cheiro.
Ele emitia um cheiro primaveril para os outros, mas na frente de Woo Hyunse escondia o cheiro como se estivesse lidando com um completo estranho. Ele não conseguia entender. Não queria entender.
Desejava que Kwon Siyul voltasse a ser como antes. Queria que sorrisse com os olhos compridos curvados toda vez que o visse, como um botão de flor desabrochando. Deveria emitir um aroma de glicínia muito mais doce da nuca, dos pulsos e de atrás das orelhas especificamente só para ele. Aquela era a cortesia mínima que Kwon Siyul deveria mostrar a ele.
— Você consegue fazer isso, não consegue?
Mesmo que a relação estivesse acabada.
Ele não conseguiu se trazer a adicionar as palavras que se seguiam em sua mente. Em vez de abrir a boca, Woo Hyunse passou a mão pelo rosto. Apagou deliberadamente todos os traços dele, não querendo desencadear seu cheiro instavelmente oscilante.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna