• Capítulo 102
Capítulo 102
Mesmo depois que o carro desapareceu completamente, Kwon Siyul continuou parado no mesmo lugar, imóvel. Sua mente estava em caos, incapaz de processar o que tinha acabado de acontecer. Só a dor permanecia vívida em sua mente. Sua bochecha queimava, e seu lábio partido ardia. Quando limpou o filtro nasal com a mão, sangue ressecado, de um marrom avermelhado, grudou na pele.
Ele tinha sido arrastado por homens, conhecera a família de Woo Hyunse, e então…
Enquanto relembrava lentamente os acontecimentos, abriu o envelope em sua mão. Descobriu que eram todos cheques. Os números impressos eram substanciais. Um, dez, cem, mil… dez mil. Havia cinco cheques no total.
50 milhões de wones.
Uma quantia que ele teria dificuldade em ganhar mesmo trabalhando até a morte por anos era, por acaso, o preço daquela violência. Era também o preço de nunca mais ver Woo Hyunse. A ameaça amaldiçoada de destruir todo lugar onde ele pisasse, caso voltassem a se encontrar, ecoava em seus ouvidos.
“…”
Kwon Siyul não tinha chorado quando foi esbofeteado ou chutado no estômago. Só agora, sozinho, seus olhos secos começaram lentamente a se encher. Um fungar escapou dele naquele instante.
O envelope em sua mão amassou. Kwon Siyul ergueu aquela mão para esfregar embaixo do nariz. Embora nem tivesse piscado, as lágrimas que se acumularam em seus olhos ficaram pesadas e caíram em grandes gotas pelo rosto.
Ele podia suportar a violência. Podia aguentar as críticas e o desprezo. Talvez até tivesse conseguido superar as ameaças. Mas tudo aquilo junto era mais fraco do que uma única coisa. A ordem para nunca mais ver Woo Hyunse, mesmo por acaso, foi a última adaga que cortou a respiração de Kwon Siyul.
No dia seguinte, Kwon Siyul ficou seriamente doente. Não queria tirar folga se pudesse evitar, mas não conseguia sequer mexer um dedo. Kwon Siyul mal conseguiu avisar a cafeteria e o restaurante de churrasco, e passou o dia inteiro deitado na cama.
Levou vários dias para seu corpo se recuperar gradualmente. Formaram-se crostas sobre os ferimentos, e o hematoma esverdeado entre a lateral e a barriga tinha desbotado consideravelmente.
Ele decidiu fingir não ter ouvido a proposta de se mudar para o officetel. Os dois estavam terminados agora. E essa não era mais a única razão. Ele não podia mais encontrar Woo Hyunse. Não tinha planejado ver aquele rosto novamente originalmente, mas se por acaso Woo Hyunse fosse lhe entregar um convite de casamento, ele havia pensado em usar isso como oportunidade de vê-lo só mais uma vez.
Mas agora tudo isso era água passada. A pessoa que tinha cometido violência contra ele tinha o poder de esmagá-lo. O envelope que recebera e a quantia dentro dele eram prova suficiente disso. Quem no mundo daria uma soma tão grande como dinheiro de consolação? Mesmo se denunciasse à polícia e exigisse indenização, não receberia tanto.
Além disso, duvidava que a polícia sequer se envolvesse. Amargamente, Kwon Siyul entendia a lógica do poder. Ele não era nenhuma flor de estufa ingênua. Embora não fosse velho, tinha vivido uma vida com muito mais dificuldade do que proteção, desde o orfanato até agora. Só de ver os muros altos da mansão, ele soube que alguém como ele não estava em posição de sonhar em buscar vingança ou denunciar às autoridades.
Mais do que tudo, Kwon Siyul estava preocupado com Kwon Yuwon. Não se importava se algo acontecesse com ele mesmo. Mas se a lâmina fosse apontada para quem estava ao seu redor, isso era outra história. A vida de Kwon Yuwon já era bastante cheia de eventos. Ele não queria acrescentar mais fardos a ela.
Só precisava desistir de Woo Hyunse.
Só isso.
Um sorriso amargo surgiu em seus lábios. Ele cobriu o rosto com as duas mãos, fingindo esfregá-lo.
Tinha saído daquela casa por vontade própria e dissera a Woo Hyunse com a própria boca para nunca mais se verem. Não era o bastante? O que mais queriam que ele fizesse? Estava se esforçando muito para dobrar seus sentimentos, mas será que seu esforço era só uma luta inútil? Será que o apego que persistia estava tão claramente visível aos olhos dos outros?
— Vou sair um pouco.
Aproveitando uma pausa dos clientes no restaurante de churrasco, Kwon Siyul se levantou do lugar. Todo mundo parecia relaxado demais para se importar para onde ele ia.
Kwon Siyul saiu pela porta dos fundos, para o beco. A rua escura e estreita estava vazia. Ele tirou os cigarros que tinha comprado na loja de conveniência antes do trabalho. Por coincidência ou não, era a mesma marca que Woo Hyunse fumava. Calmamente, tirou a embalagem e colocou um na boca.
Era a primeira vez que fumava desde que aprendera com Woo Taeju. Seu gesto de girar a pederneira do isqueiro foi extremamente desajeitado. Depois de faiscar só a chama três ou quatro vezes, mal conseguiu acender o cigarro.
Tentou inalar profundamente e exalar depois de um instante, como Woo Hyunse fazia, mas acabou tossindo violentamente. Tinha sido assim também na primeira vez que colocara um cigarro na boca. Naquela época, tinha jurado nunca mais fumar, mas as coisas eram diferentes agora.
Enxugando as lágrimas que se formaram, colocou o cigarro segurado entre os dedos de volta na boca. Já que não podia mais vê-lo, queria pelo menos se acostumar com aquele cheiro.
Tirou o celular. Abrindo o registro de chamadas, havia várias chamadas perdidas de um nome familiar. Kwon Siyul fitou aquele nome em silêncio.
“…”
Passou o dedo lentamente sobre ele. Tinha apagado todas as fotos que havia tirado até então. Tudo o que restava era apenas aquele número e o nome deixado nos contatos. Sentia que, se apagasse até isso, a chance tênue como um fio de encontrar Woo Hyunse desapareceria completamente do mundo.
Mesmo assim.
Não havia outro jeito. Tinha que bloquear e apagar.
— …Só depois que eu terminar esse cigarro.
Certamente o tempo que levava para fumar um cigarro estaria tudo bem, não estaria? Kwon Siyul fitou aquele nome como se tentasse gravá-lo na memória. Não era como se uma ligação fosse chegar só por causa disso.
A cinza na ponta não fumada do cigarro foi crescendo. O tempo que levava para um cigarro queimar até o fim parecia cruelmente curto. Determinado a que precisava apagar o número agora, ergueu o dedo até a tela.
Naquele momento, a tela mudou e o celular vibrou. Era uma chamada. Vendo o “Woo” que apareceu, Kwon Siyul se assustou muito, deixando cair o cigarro que segurava. Agarrou o celular com as duas mãos, atrapalhado. Olhando com os olhos arregalados, não era Woo Hyunse, mas sim Woo Taeju.
Os ombros tensos de Kwon Siyul relaxaram. O que, afinal, ele estava esperando? Escondendo sua expressão de decepção, apertou o botão de atender. Uma voz alegre do outro lado chamou: — Siyul hyung!
Ele deveria estar em alerta só de ver alguém com o sobrenome Woo depois de ter sido arrastado e espancado de repente, mas Kwon Siyul ficou até contente em ouvir Woo Taeju. Era como ver a sombra de Woo Hyunse.
— Hyung, você tem estado bem? Pode falar um pouco agora?
— Sim, se for rápido.
Ele abriu a porta dos fundos e checou o movimento dentro do restaurante. Talvez por ser antes do horário do jantar, ainda estava quieto.
— Hyung, eu… Você quer se encontrar comigo uma vez antes de eu ir estudar fora?
— Ah.
Ele talvez não soubesse antes, mas agora realmente não podia ir. Tinha que cortar tudo relacionado a Woo Hyunse. Mordeu o lábio inferior, então Kwon Siyul falou com dificuldade.
— Desculpa. Tenho estado bem ocupado com o trabalho ultimamente, então está difícil arranjar tempo.
Um silêncio veio pelo receptor. Kwon Siyul bateu a cinza do cigarro com a ponta do dedo e a jogou na lata vazia usada como cinzeiro.
— Você sabe que eu tenho dois empregos, né?
— Mas não é só isso, o pessoal do bar também vai.
— O pessoal do bar?
— Sim. Tipo o jantar que tivemos da última vez. Só tomando uma bebida casualmente assim.
Encontrar Woo Taeju sozinho poderia ser pesado, mas parecia que talvez não fosse problema se fosse com o pessoal do bar. Mas Kwon Siyul logo se recompôs e balançou a cabeça. Se fosse cortar os laços de qualquer jeito, era melhor encerrar as coisas de forma limpa com o pessoal do bar também.
— Eu não acho que…
— É muito difícil coordenar a agenda de todo mundo. Você também está ocupado ultimamente, né hyung, como todo mundo?
“…”
— Hyung, você não consegue arranjar um tempinho? A Hye-na disse que sente sua falta também.
Woo Taeju o interrompeu antes que pudesse sequer terminar a frase. As últimas palavras feriram a consciência de Kwon Siyul. Mesmo antes de ser arrastado até a casa da família de Woo Hyunse, ele raramente respondia direito às mensagens ocasionais, dizendo que estava muito ocupado. Tinha sumido de repente, então era compreensível se os outros se sentissem magoados.
Kwon Siyul sentia falta do pessoal do bar de vez em quando também. Olhando para trás, eram as pessoas mais gentis e atenciosas que conhecera em todos os seus empregos até agora.
Se fosse só ver os rostos deles rapidamente, não estaria tudo bem?
— …Quando é?
Kwon Siyul perguntou hesitante. Woo Taeju, que tinha soado desanimado, se animou e levantou a voz.
— Disseram que vão fechar o bar mais cedo e vir! Eu te mando o lugar e o horário por mensagem.
— Tudo bem então.
— Certo. Te vejo lá, hyung.
Uma mensagem chegou assim que ele desligou. Kwon Siyul memorizou o endereço e o horário escritos na mensagem repetidamente antes de baixar o celular. Ao mesmo tempo, a porta dos fundos abriu e um funcionário enfiou a cabeça para fora.
— Siyul, tem um cliente aqui. Vem rápido.
— Tá bom. Já vou.
Antes de entrar, Kwon Siyul mexeu na orelha sem perceber. Como se para mostrar que eram parentes, havia algo semelhante na voz de Woo Taeju com a de Woo Hyunse.
Ele achou que conseguia ouvir um tom grave sob a voz alegre. Kwon Siyul logo balançou a cabeça vigorosamente. Mas, uma vez lembrada, a voz banhava suavemente seu ouvido interno como o som de ondas dentro de uma concha do mar.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna