₊˚ Capítulo 02
• Capítulo 2
⚠️ Aviso de gatilho ⚠️ : Este capítulo contém descrições explícitas de violência
— É esse o desgraçado? A mosquinha que se meteu nisso.
— Sim. Tem mais um além desse; parece que estão distribuindo juntos.
— “Parece”? Ou eles são um par? Fale com precisão.
A voz era grave e ressonante. Embora não fosse aguda, perfurava os tímpanos como uma sovela. A cada palavra, a cabeça de Siyul afundava mais. A voz do homem carregava esse peso.
— São um par, senhor.
A voz que respondeu estava carregada de tensão, contrastando com a indiferença da pergunta. Siyul só conseguia mexer os dedos, inquieto. Se fosse Kwon Yuwon, ele de algum jeito teria resolvido a situação e escapado em segurança, mas, com aquele cérebro dele — apelidado zombeteiramente de peixe-dourado lá no orfanato —, Siyul não enxergava saída para aquela crise. Só queria chorar.
O homem agarrou o cabelo de Siyul com força e puxou sua cabeça para trás. Siyul soltou um som engasgado. Apertando os olhos contra o brilho das lâmpadas fluorescentes, ergueu o olhar. As lágrimas se acumularam e escorreram, tanto pela dor do couro cabeludo sendo puxado quanto pela luz agressiva.
O homem observou Siyul com um “hmm”. Parecia estar examinando que tipo de idiota ousaria espalhar imundície em seu clube sagrado. Depois de piscar algumas vezes, a visão embranquecida de Siyul voltou ao normal.
No instante em que seus olhos encontraram os do homem, os olhos estreitos de Siyul se arregalaram de surpresa. Mesmo naquela situação de risco de vida, o rosto diante dele o fez esquecer momentaneamente o perigo. Que tipo de ser humano tinha uma aparência daquelas?
Os traços que todo mundo tem estavam delicados e harmoniosamente iluminados no rosto do homem. O contorno do nariz, a linha do maxilar, até cada fio de sobrancelha pareciam perfeitamente posicionados, sem um único elemento fora do lugar ou formado por descuido.
Siyul se perguntou se ele seria uma celebridade, se já teria visto alguém assim na TV.
— Esse desgraçado… Por que um desgraçado com pinto é tão atraente assim? Você é um Ômega?
Siyul arfou, voltando à realidade. Torceu a cabeça, ainda preso pela mão do homem em seu cabelo. Um tapa seco pousou em sua bochecha. Mesmo que a palma do homem parecesse relaxada, o lugar atingido ardeu.
— Responde com a boca.
— N-não, não sou.
O homem estreitou os olhos. A atmosfera pareceu mudar ligeiramente, mas Siyul não percebeu. Piscou sem entender e baixou o olhar. Não conseguia encarar os olhos do homem. Não queria apanhar de novo.
— …É melhor se livrar das moscas.
O homem murmurou enquanto soltava o cabelo de Siyul. Ainda que soasse como um resmungo consigo mesmo, cada palavra perfurou os ouvidos de Siyul com clareza, graças à pronúncia precisa do homem. O rosto de Siyul ficou instantaneamente lívido. Só então ele ergueu a cabeça de supetão.
— Não, por favor!
— O quê?
— Eu juro, é a primeira vez que venho aqui! Quer dizer… eu nunca mais venho aqui. Nunca mesmo. Nem vou virar a cabeça para esse lado, nem vou dormir com a cabeça apontada nessa direção. Por favor, me poupe.
Com as mãos amarradas às costas, ele não conseguia implorar direito. Contorceu-se em direção ao homem como uma lagarta. Seus olhos já estavam vermelhos. Logo, lágrimas como pérolas começaram a cair.
— Por favor…
Siyul pressionou a bochecha contra o sapato do homem, encolhendo-se feito uma bola. Se mandassem, ele lamberia a sola do sapato. Faria qualquer coisa para sobreviver. Siyul tinha mais medo de morrer do que de fantasma. Ainda criança, quando todos os outros atravessaram a cerca de arame do reservatório desativado para um teste de coragem, ele se recusou teimosamente, preferindo apanhar a ir. Era esse o tamanho do medo dele.
— Eu nunca mais volto. Sério.
— …
O homem esfregou o queixo e ficou encarando em silêncio a nuca de Siyul. Se aquilo era uma atuação para sobreviver, era uma performance digna de prêmio.
Será que já não o tinha assustado o bastante? Bastava olhar para o garoto para perceber que a coragem dele não era maior que uma ervilha, então provavelmente não ousaria voltar e causar problemas. Além disso, ele próprio não era um bandido completo. Se realmente quisesse, poderia se livrar do garoto, mas isso era coisa que talvez tivesse feito na juventude de sangue quente, não agora, na idade em que estava.
A sensação de ter feito uma criança chorar também pesou. O rosto choroso de Siyul era perfeitamente projetado para provocar a consciência alheia. O nariz vermelho, as bochechas coradas, os lábios e a pele ao redor dos olhos igualmente avermelhados. Parecia uma ameixa madura de verão, chorando com lágrimas grossas e gordas escorrendo pelo rosto…
O homem pigarreou e olhou para o teto. Aquilo já bastava para atormentar o garoto.
— Diga isso ao seu parceiro. Se vocês se meterem mais uma vez no negócio dos outros, da próxima vez eu deixo um tambor pronto. Se não quiserem a barriga cheia de cimento, comportem-se.
O homem parecia alguém que de fato prepararia um tambor. Siyul assentiu freneticamente, ainda escorrendo lágrimas e ranho. Se Kwon Yuwon estivesse ali, teria dito que de que servia um homem com tanta lágrima, que era melhor cortar as bolas dele; mas, como não estava, Siyul chorou à vontade.
— Jogue-o para fora.
— Mas, chefe, deixar ele ir assim…
— De que serve pegar um moleque que ainda cheira a leite? Não me faça repetir.
O homem se levantou, arrastando a cadeira. Os capangas ao redor todos se curvaram noventa graus e responderam com um “sim” alto. De qualquer forma, o homem enfiou as mãos nos bolsos e deixou a sala com displicência.
Enquanto isso, Siyul, que estava caído de bruços como um morto, ergueu o tronco devagar assim que ouviu a porta se fechar.
Estava vivo.
Achou que fosse morrer, mas sobreviveu. As lágrimas de alívio que escorriam pararam de repente. Sem poder sorrir abertamente com os outros olhando, apenas contraiu os lábios. Jurando internamente nunca mais voltar ali e nunca mais encontrar aquele homem assustadoramente bonito, Siyul saiu do clube pelos próprios pés.
— Ei! Por que você não estava atendendo o telefone?!
Enquanto Siyul estava enrolado no cobertor feito um casulo no quarto da pensão, a porta se escancarou e entrou justamente a pessoa que quase pregou seu caixão. Kwon Yuwon gritou alto o bastante para sacudir o quarto, marchou até a cama e arrancou o cobertor.
Deu um tapa seco nas costas encolhidas de Siyul e, enquanto ele guinchava e se afastava para um canto, Kwon Yuwon flexionou os bíceps redondos e o puxou para cima.
— Por que você não atendia o telefone? Sabe quantas vezes eu liguei?! Sabe o quanto eu fiquei preocupado…
Kwon Yuwon, que disparava palavras como uma metralhadora, parou de repente. Estreitou os olhos, examinando o rosto de Siyul, e, não satisfeito com isso, agarrou seu queixo e o virou para a esquerda e para a direita.
— O que aconteceu com você? Por que sua bochecha e seus olhos estão inchados? Que desgraçado ousou…
As pessoas podem ser tão imprevisíveis. Primeiro estava furioso pelas ligações não atendidas, agora fumegava por causa das bochechas avermelhadas de Siyul. Siyul estabilizou a cabeça tonta pelo sacolejo e afastou as mãos de Kwon Yuwon.
— Eu fui pego pelo dono do clube.
— O quê? Isso não devia ter acontecido.
— Pois é, mas aconteceu. Eles sabiam de tudo. Achei que fosse morrer. Foi assustador de verdade.
Kwon Yuwon mordeu a unha do polegar repetidas vezes. Era um hábito que tinha desde criança. Com medo de que ele tirasse sangue de novo, Siyul rapidamente segurou aquele polegar, com a unha bem mais curta e roída que as outras. Ainda que sua vida tivesse corrido perigo por causa de Kwon Yuwon, ele não conseguia odiá-lo. Mesmo que Kwon Yuwon o apunhalasse pelas costas, Siyul poderia perdoá-lo duas vezes, dependendo da gravidade.
— Ele disse que, da próxima vez que a gente for pego, vamos parar dentro de um tambor. E que vai encher a nossa barriga de concreto também. Nunca mais vamos voltar lá.
— …Me desculpa.
Kwon Yuwon pediu desculpas, parecendo completamente abatido. Se tivesse orelhas de animal, elas teriam murchado. Então abraçou Siyul com força, enterrando o rosto em seu pescoço.
— Me desculpa mesmo. Vou tirar aquele lugar dos nossos contatos. Droga… Eu nunca imaginei que ia acabar assim.
Aquilo já bastava. Kwon Yuwon não era do tipo que voltava atrás na palavra. Siyul ergueu os braços e afagou as costas de Kwon Yuwon. Ouviu um breve som de fungada perto da orelha.
— Mas, sabe, aquele dono do clube era incrivelmente bonito. Nunca vi ninguém tão bonito assim na vida. O cara era assustador, mas o rosto dele era absurdamente lindo.
Detestando o clima sombrio, Siyul soltou a primeira coisa que veio à cabeça. Mas, mesmo enquanto falava, sentiu uma pontada de arrependimento. Por mais impensado que fosse, elogiar a aparência de alguém que tinha acabado de ameaçar matá-lo? Ainda que tivesse sido a cena mais chocante que ele presenciara naquele dia.
— Você acha mesmo bonito o cara que ameaçou te matar?
Como esperado, os olhos de Kwon Yuwon se afiaram. Siyul riu sem jeito.
— Não, é só que… ele era muito bonito mesmo.
— …Eu não devia ter mandado você. A culpa é toda minha.
Se o deixasse por conta própria, Kwon Yuwon se enterraria num buraco. No fim das contas, já era passado, e ele tinha voltado em segurança para a hospedagem, então não bastava? Siyul deu tapinhas no próprio peito para tranquilizá-lo.
— Vai, vamos só comer um frango. Você paga.
— Vou pedir para tirarem o sal.
Kwon Yuwon falou fanhoso. Desde o incidente em que Siyul confundiu o saquinho de sal que veio com o frango com droga, o que causou o maior alvoroço, os dois tinham feito a regra de nunca aceitar sal nos pedidos de comida.
Siyul enxugou com a mão os olhos avermelhados de Kwon Yuwon e sorriu. Empurrou as lembranças assustadoras para o fundo da mente. Hoje tinha sido só um dia de azar tão grande que ele quebraria o nariz até caindo de costas. Amanhã seria um novo dia, com um novo sol nascendo.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna