₊˚ Capítulo 01
• Capítulo 1
Ele não devia ter se metido nisso.
Existem algumas coisas que ninguém deveria fazer na vida. Uma é, sem dúvida, a jogatina; outra é ser fiador de empréstimo; e a última são as drogas. Há muitas outras, mas essas três são o trem expresso para o fundo do poço.
Infelizmente, Siyul se envolveu com uma delas: drogas. Ele não chegava a usar, só dava uma mãozinha na distribuição.
Siyul era, no geral, uma pessoa medrosa. Nem fumava, porque não entendia por que as pessoas faziam coisas que fazem mal à saúde. Então por que um Siyul desses foi se envolver com drogas? Para descobrir o motivo, precisamos voltar bastante a partir deste instante em que ele está de joelhos.
Até onde deveríamos voltar? Procurar a causa leva ao arrependimento fundamental de que, para começar, o espermatozoide não deveria ter se fixado no óvulo. Siyul tentou organizar os pensamentos, mordendo os lábios. O primeiro culpado era ele mesmo, por ter feito uma escolha idiota; o segundo era Kwon Yuwon, que crescera com ele no orfanato.
Siyul vinha de um orfanato. A diretora, de bom coração, escondeu dele quem era sua mãe, mas ele acabou descobrindo graças à fofoca inofensiva das funcionárias. Sua mãe era uma mãe solteira adolescente.
Quando ainda era um pirralho ranhento, ele sonhava que a mãe voltaria para abraçá-lo um dia, mas, conforme cresceu, abandonou essa esperança vã. Sua mãe não existia em lugar nenhum do mundo. Mesmo que morresse e atravessasse o rio para o além, provavelmente não conseguiria encontrá-la. Como encontrar alguém de quem nem se conhece o rosto?
De todo modo, ainda que o começo de sua vida tenha sido trágico, felizmente o orfanato era um bom lugar. A diretora e as funcionárias eram gentis, a comida era boa e havia pouca discriminação. No Dia das Crianças, vários grupos de voluntários levavam presentes, e havia refeições especiais deliciosas. Comparado a outro orfanato da região, que desviava doações e dava batatas podres às crianças, aquele lugar era o paraíso.
Foi ali que ele conheceu Kwon Yuwon. A diretora dava o próprio sobrenome às crianças sem nome e as batizava. Então, a não ser que já tivessem um nome, o sobrenome de todos era Kwon.
Entre eles, Kwon Yuwon era particularmente próximo de Siyul. Tinham a mesma idade e ambos haviam sido abandonados no orfanato logo após o nascimento, então tinham um laço especial. Embora Siyul não tivesse parentes de sangue, ele sabia o que era amor fraterno por causa de Kwon Yuwon.
Diferente de Siyul, que era um pouco lerdo e vivia no mundo da lua, Kwon Yuwon era esperto. Ia bem na escola sem estudar e fazia um bom dinheiro com bicos, como vender cigarro para os alunos ou aplicar película de celular sem deixar uma bolha sequer.
Apesar de terem a mesma idade, Kwon Yuwon era como um irmão mais velho para Siyul. Quando alguém implicava com Siyul, ou quando estouravam brigas no orfanato, Kwon Yuwon vinha correndo e distribuía socos.
Numa sociedade capitalista, a maioria dos problemas surge por causa de dinheiro. Pensando bem, Kwon Yuwon também podia ser uma vítima digna de pena, apanhada no grande jogo do dinheiro.
Foi depois que chegaram à idade da independência compulsória do orfanato. Havia um auxílio de desligamento, mas, nesta era de preços nas alturas, era uma ninharia. Mesmo dormindo quase nada e se matando de trabalhar, não era fácil se manterem alimentados. E o mundo era ainda mais duro com jovens sem responsáveis.
Depois do serviço militar, juntaram dinheiro como formigas juntando migalhas e conseguiram um quartinho, mas o locador fugiu com o depósito deles, alegando alguma dívida de imposto. O corretor parecia estar metido também, porque o número dava desligado quando ligavam. Foram passados para trás em plena luz do dia, e agora não tinham escolha a não ser dormir na rua.
Kwon Yuwon fez o possível, jurando que arrancaria a cabeça daquele locador. Registrou boletins de ocorrência e até juntou dinheiro para contratar um detetive particular. Mas foi tudo em vão.
Os golpistas havia muito tinham fugido para o exterior, e a polícia não fazia esforço nenhum para esconder a irritação. Só repetiam feito papagaio que não havia nada a ser feito. Não seriam as autoridades, que ficavam indiferentes até quando aconteciam golpes imobiliários gigantescos, que iriam mexer um dedo por dois órfãos que perderam um depósito de aluguel mixuruca.
Empacotaram as coisas às pressas e se mudaram para uma pensão caindo aos pedaços. Kwon Yuwon, com os olhos brilhando de loucura, ligou para um conhecido. Siyul deveria ter reconhecido a loucura naqueles olhos ali mesmo.
— Eu vou fazer aquele trabalho.
Siyul não entendeu o significado daquelas palavras. Enquanto apenas inclinava a cabeça feito bobo, Kwon Yuwon declarou que sustentaria Siyul e saiu de casa pisando duro. Quando voltou, algumas horas depois, a bolsa dele continha vários saquinhos de sal, iguais aos que dão em restaurante de frango frito.
— Você não está querendo dizer que…
Não havia chance de Kwon Yuwon trazer uma pilha de sal para fazer bico numa situação em que tinham acabado de ser passados para trás. Até Siyul, alheio como era às coisas do mundo, sabia o que aquilo era.
Kwon Yuwon já tinha dado a entender antes. Comentou que um dos caras do orfanato tinha ganhado muito dinheiro. Não era legal, mas existiam formas de ganhar dinheiro fácil.
— Só vou fazer até a gente recuperar o depósito. Não se preocupa.
— Ei! Isso não está certo. Devolve isso. Por pior que esteja a nossa situação, não vamos cruzar essa linha. Tá?
— Você não confia em mim? Porra, se a gente for expulso daqui, não temos para onde ir. Precisamos pelo menos de um lugar para dormir. Não aguento ficar na rua.
Não era porque Kwon Yuwon fosse cheio de frescura com limpeza. Era porque ele era um Ômega. Por causa da natureza dele, poderia sofrer algo terrível dormindo no meio da população de rua. Kwon Yuwon vivia dizendo que ser Ômega era muito pior do que ter sido abandonado pelos pais. Ser ômega é uma merda, minha vida é uma merda, ele costumava dizer.
— E se a gente for preso?
Para Siyul, que tremia de medo…
— Não vamos. E não tem outro jeito além desse.
Os olhos de Kwon Yuwon brilharam enquanto ele empurrava o saquinho de sal na frente do rosto de Siyul como se fosse uma faca. Mesmo Yuwon não tendo proferido a ameaça, Siyul conseguia ouvi-la na própria cabeça: se você não me acompanhar, eu uso a sua cabeça de enfeite em vez da do locador.
— Mas mesmo assim…
— Ou você faz, ou a gente segue caminhos separados a partir daqui. Uma das duas.
Kwon Yuwon era inteligente e astuto. Sabia que Siyul jamais o deixaria ir. Mesmo que ficasse bravo e desse as costas, Siyul derreteria com um único pedido de desculpas. Como poderia abandonar a única pessoa no mundo que era como família, mesmo sem laço de sangue?
Felizmente, eles não estavam envolvidos a fundo. Quando eram acionados, bastava deixar o sal nos lugares indicados, e era isso. Os pontos costumavam ser lugares em que ninguém prestava atenção, como dentro de uma caixa de telefonia, a caixa d’água de um banheiro público ou a fresta atrás da placa com o endereço de um prédio.
Às vezes também faziam entregas. Era um serviço usado por clientes fiéis que mal conseguiam esperar uma hora. Ele batia cinco vezes na porta, dizia que era entrega, e zumbis de olhar fundo saíam para pegar o sal.
O trabalho era fácil e o dinheiro jorrava. Mesmo sendo só uma comissão, era uma quantia enorme para jovens jogados na sociedade sem nada em nome deles. Naquele ritmo, parecia que conseguiriam juntar não só para o depósito do aluguel, mas até para uma caução integral.
— A gente vai ficar rico nesse ritmo?
Os pensamentos de Kwon Yuwon não eram muito diferentes dos de Siyul. O dinheiro não gera ganância naturalmente quanto mais a gente o manuseia? O desejo por um depósito de aluguel mensal se transformou em desejo por uma caução integral, que então se transformou na grande ambição de ter uma casa em Seul.
Os pacotes de sal aumentavam visivelmente no canto úmido do quarto da pensão. De forma inversamente proporcional, a frequência com que Kwon Yuwon voltava para casa diminuía. Ele parecia estar ocupado, correndo de um lado para o outro sem parar. Ultimamente, parecia até estar abrindo novos canais para o negócio.
Ainda que a atitude proativa nos negócios fosse louvável, o ramo que Kwon Yuwon estava empurrando não era apreciado por todo mundo. O dono do novo clube em que Kwon Yuwon tinha acabado de entrar era uma dessas pessoas.
Clubes existem para funcionar à base de álcool, cigarro, dança e daquela droga autorizada pelo governo chamada música. Achando que uma droga era igual à outra, Kwon Yuwon começara a ter algum sucesso por lá.
Mas, infelizmente, realmente infelizmente…
Justo na noite em que Yuwon passou o trabalho para Siyul porque tinha algo a resolver, o próprio dono do clube apareceu para caçar o rato.
E assim, de volta ao presente.
Siyul abria e fechava as mãos trêmulas e dormentes. Seus joelhos dobrados havia muito tinham perdido a sensibilidade por falta de circulação. Ainda assim, não conseguia mudar de posição. Se demonstrasse o menor sinal de desafio, poderia receber outro golpe daqueles punhos brutais.
O estômago, que levara um chute mais cedo, quando ele foi pego tentando fugir, ainda latejava. Nem tinha sido um chute forte, mais um empurrão leve com a perna erguida, mas Siyul caíra de costas antes de ser agarrado pelos capangas e recolocado no lugar.
O homem estava sentado confortavelmente na cadeira, com as pernas abertas. Siyul encarava fixamente aqueles sapatos lustrosos. Tinha medo de fazer contato visual, temendo outro golpe. Ainda que o homem não fosse um dos capangas que o haviam arrastado até aquele escritório bagunçado, os sapatos brilhantes e os vincos afiados da calça emanavam uma aura perigosa e opressiva.
E os pés dele eram enormes. Largos e compridos, Siyul nunca tinha visto pés tão grandes na vida. Nem o cara mais avantajado do orfanato tinha pés daquele tamanho.
Se ele me chutar de novo, vou morrer de hemorragia interna, pensou Siyul. Enquanto a dor voltava a arder no lugar onde tinha sido atingido, Siyul encolheu o corpo o máximo que pôde.
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Continua *ੈ🍸✩‧₊˚
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna