⋆。˚ ◉ Capítulo 07
Capítulo 7
MANSAENGJONG
──── ⋆。˚ ◉ ˚。⋆ ────
Bem quando Cahaya estava prestes a abrir os lábios, BAM! Alguém escancarou a porta semi aberta do terraço e irrompeu por ela. Era um homem carregando sacolas plásticas pretas e pesadas nas duas mãos.
Sangue pingava sem parar das sacolas seguradas pelo homem de olhos arregalados.
— Sseowooooon!
O homem gritou com uma mistura de alegria e ressentimento.
A gente conversa depois.
Cahaya só disse as palavras com os lábios e puxou a máscara de volta para cima.
✦ ── ☽ ── ⋆ ── ☾ ── ✦
— Aigoo, por que o Sseowoon está tão magro?
Abdulaziz virou o rosto de Seowoon de um lado para o outro com as mãos grossas. O dedo anelar e o mindinho dele continuavam cortados rentes, onde duas falanges tinham sido decepadas.
— Que criança? Eu estive sozinho.
Seowoon brincou de volta, sem esperar que Abdulaziz tivesse perguntado se ele tinha um filho. [por favor, veja a nota!!!]
— É, isso mesmo, eu também vivi bem, num tô dizendo.
Abdulaziz era um trabalhador do Uzbequistão.
Ele tinha passado cinco anos no Complexo Industrial de Seongseo, em Daegu, antes de despertar como Mansaengjong um belo dia. Como tinha aprendido coreano com vários gerentes de fábrica, misturava dialetos de todas as regiões sem filtro nenhum.
— Puhahaha, eu senti muita falta disso, sabia? Mesmo quando vocês dois falam coisas completamente diferentes, a conversa ainda funciona. Seowoon hyung, o Abdul hyung perguntou por que você está tão magro.
— É? Estou meio magro?
Seowoon esfregou a própria bochecha na direção de Kangsan.
Abdulaziz falava coreano bem, mas quando Seowoon entendia errado como agora, ele nunca corrigia. Era por isso que os dois muitas vezes acabavam despejando palavras completamente diferentes.
Não tinha jeito. Sempre que Seowoon perguntava “Abdul hyung, o que isso quer dizer?”, ele só respondia “É, deixa para lá” e seguia em frente. No começo Seowoon se perguntava por que o hyung agia assim, mas depois de morar junto conseguia mais ou menos adivinhar o motivo.
Se ele tivesse aprendido uzbeque em forma de dialeto e depois um uzbeque mandasse ele explicar de novo em língua padrão, ele provavelmente também ficaria como um mudo que comeu mel.
Assim como agora, a pergunta de Abdulaziz em dialeto era como uma língua completamente diferente.
— Vamos comer. Até fantasma morto que comeu fica com boa aparência, dizem.
Abdulaziz tinha ido perto da Encruzilhada, por sorte conseguido um porco mutante e enchido as sacolas com a carne que ele mesmo desossou. Como se sempre tivesse sido o encarregado das refeições, subiu com dois fogareiros portáteis para o terraço, colocou um de cada lado e começou a assar a carne de porco.
Os outros sentaram em engradados de leite de plástico em volta dos fogareiros e esperaram a carne assar. Yoochan e Han Donhee ainda não estavam ali, mas ninguém esperava por gente sem sorte de comer.
— O nosso Abdulaziz hyung nunca deixa nenhum moleque passar fome onde quer que vá.
— Isso. Em Naraka eu sou o mais útil.
Ele arregaçou as duas mangas, dizendo que até já tinha feito o abate quando morava no Uzbequistão. Abdulaziz tinha vindo para a Coreia para ganhar dinheiro, mas assim que se tornou Mansaengjong nunca mais precisou se preocupar com dinheiro.
Especialmente depois que a agência nacional sob o Ministério do Interior e Segurança, o Centro de Controle de Desastres Mutantes, foi criada, isso ficou ainda mais verdadeiro.
O Centro de Controle de Desastres Mutantes pagava recompensas de acordo com o nível de perigo dos mutantes, e o dinheiro que Abdulaziz recebeu em meio ano foi mais de dez vezes o que ele tinha guardado trabalhando na fábrica. O motivo de ele ainda não poder voltar para a terra natal era simplesmente que ele era um Mansaengjong.
Mansaengjong e mutantes só apareciam na República da Coreia.
Pesquisas para encontrar a causa foram conduzidas ativamente, mas ninguém descobriu porque aquilo só acontecia dentro do país. Os países estrangeiros trataram aquilo como um vírus e revogaram a função dos passaportes dos Mansaengjong coreanos. Claro que houve vários casos de pessoas que não se registraram como Mansaengjong e viajaram para o exterior, e por sorte mutantes ou Mansaengjong nunca se espalharam como um vírus.
— Sseowoon, cê deve ter ficado bem magoado. Naquela época o coração dos moleque da guilda tava tudo entalado, é por isso, mas cê nem conseguiu segurar e foi embora.
— Mas hyung, você pode comer carne de porco?
Seowoon deixou de propósito a bronca de Abdulaziz passar e chupou um hashi de madeira.
— Claro. Eu posso comer um pouco de porco.
Abdulaziz assentiu. Ele já era um muçulmano localizado. Mesmo quando estavam em Seul, Seowoon nunca o tinha visto rezar.
— Mas Seowoon hyung, eu só estou dizendo isso agora que você está aqui, mas mesmo sendo duro, viver assim não é tão ruim depois que a gente se acostuma. Me faz pensar que a gente curtia luxo demais antes.
Kangsan cortou a carne com a tesoura.
Quando moravam em Seul, o prédio inteiro de vinte andares pertencia à Tacheon. Eles tinham caprichado ao máximo no refeitório, então restaurantes que pareciam pertencer a um complexo com churrascarias, bares, alta gastronomia e tudo mais ficavam concentrados ali.
Como funcionava com o fundo da guilda, só membros podiam usar, então foram apontados mais de uma vez por desperdício de dinheiro. O motivo de nunca terem melhorado apesar das críticas externas não era nada de especial. Era por causa da vida privada das pessoas chamadas de membros da guilda Tacheon e Mansaengjong.
— Sinceramente os Mansaengjong agiam de um jeito arrogante do caralho. Na Coreia diziam que a gente tinha levado a maça de ferro de deus ou sei lá o quê, e eu tava a um passo de simplesmente matar todo mundo.
— Você está bêbado? Como você vai de refletir para ficar puto?
Seowoon riu porque era ridículo demais. Kangsan também deu risadinhas “hehe” e relaxou.
— Sseowoon, come. Toma, Cahayaa.
Abdulaziz estendeu um prato descartável para Cahaya, que só encarava a grelha. O prato estava empilhado de carne.
— Cahayaa.
Só então Cahaya, que estava perdido em pensamentos, aceitou o prato.
— No que cê tá pensando tanto?
Cahaya puxou para baixo a máscara que estava usando enquanto a carne assava.
— Obrigado, hyung.
— Que seja.
Abdulaziz, que tinha uma personalidade calorosa, só resmungava muito na direção de Cahaya. Seowoon já tinha perguntado o motivo uma vez, mas mesmo então não tinha conseguido entender tudo o que o homem disse.
“Eu morava no interior mesmo em Samarcanda. Sem eletricidade de noite. Bando de cachorro selvagem correndo por aí. Cruza o olhar deles pela janela, eles ficam tudo cheio de si. Como é que um bicho selvagem encara um humano desse jeito? Eles mordem quando cê sai, mas quando amanhece, tão abanando o rabo de novo.”
“Mas hyung, o que isso tem a ver com você ser ríspido com o Cahaya?”
“É, exatamente.”
Era o tipo de conversa que perseguia nuvens flutuantes. Mesmo quando as palavras não se conectavam, Abdulaziz só cuspia coisas positivas como “isso, exatamente”. Seowoon só podia supor que era uma habilidade de sobrevivência aprendida enquanto trabalhava na fábrica.
— Graças a você, hyung, eu consigo comer carne depois de muito tempo.
A carne tinha um leve cheiro de caça, mas não era nada comparado a cogumelos. Seowoon cobriu tudo com uma camada grossa de sal para disfarçar o cheiro. Enquanto Cahaya mastigava a carne repetidamente, a máscara pendurada no queixo dele se destacava.
— Mas por que você está usando máscara?
Seowoon estava curioso porque Cahaya não fazia muito isso quando moravam em Seul.
— O cheiro dos mutantes é nojento.
— Assim de repente?
— Assim de repente.
Seowoon se perguntou se algum fenômeno estranho também tinha surgido em Cahaya depois de vir para Naraka. Para alguém que dizia odiar o cheiro dos mutantes, ele estava comendo a carne cozida numa boa. O próprio Seowoon odiava yukhoe, mas carne cozida era outra história, então ele não achou aquilo especialmente estranho.
— Então Seowoon hyung, você vai voltar como o nosso vice-líder agora, né?
Kangsan cortou com força a carne ainda mal passada.
— Por que uma guilda com só cinco pessoas precisa de vice-líder?
— Você passou tanta fome que nem sabe contar? Incluindo você, Cha Seowoon, são seis pessoas.
— Seja seis ou cinco, eu abri mão do cargo de vice faz tempo e não pretendo fazer isso de novo.
— Então deixa vago.
Cahaya respondeu secamente.
— Eu confio que você não é o tipo de desgraçado sem-vergonha que comeria carne de graça e depois sumiria sem dizer nada de novo? A Matahari chorou a noite inteira procurando pela mãe
— Beleza, para com isso. E se for pensar bem, eu seria o pai.
— Não fala nada para o Seowoon hyung. A gente é que errou.
— A gente?
O rosto de Cahaya endureceu por algum motivo. O olhar que ele deu em Kangsan foi afiado.
— Eu não fiz nada de errado.
— Tá bom! Só eu que pisei na bola, não a gente. Estou refletindo de novo.
Kangsan fez um gesto de esfregar as mãos. Seowoon decidiu apagar completamente o pouquinho de resíduo que restava. Quando o cara vinha desse jeito, continuar emburrado só faria ele ser chamado de mesquinho.
O motivo de ele ter sido frio com Kangsan no instante em que se reencontraram foi porque ele achava que eram próximos daquele jeito. A traição tinha parecido maior porque ele confiava nele.
— Mas você disse que devorou o Sudeste, então por que veio para o Sudoeste?
Diante da pergunta de Seowoon, Kangsan pareceu surpreso e se virou para Cahaya. Cahaya estava molhando a boca com uma bebida em lata.
— Pensando bem, o Cahaya hyung disse vamos lá, mas por que era mesmo?
Kangsan também franziu a testa, dizendo que ele também não sabia o motivo.
— Ouvi dizer que tinha um Searcher decente lá, então fui fuçar, e aí capturei o Cha Seowoon vivo.
— Isso, o Cahaya se saiu bem nessa.
— Hã? Era isso, hyung?
— Eu nunca te contei nada disso, Kangsan, e daí?
— Que absurdo. Então você não estava só me procurando?
— …….
Ele tinha dito aquilo como piada, mas não houve reação nenhuma, então ficou bem constrangedor. Ele não sabia dizer se acharam que ele estava se achando ou se aquela era de fato a resposta certa.
— Ah!
Sem aguentar mais o silêncio, Seowoon se levantou como se tivesse lembrado de alguma coisa.
— Espera um pouco.
— Sseowoon, aonde cê vai?
— Vou pegar a minha bolsa no escritório.
Antes que alguém pudesse segurá-lo, Seowoon desceu as escadas às pressas. Era só um prédio de cinco andares, então chegar ao primeiro andar não demorou. Quando voltou com a bolsa, Cahaya não estava no lugar dele. Não, o cara estava em pé no parapeito do terraço olhando para baixo. Achando que ele talvez estivesse esperando Yoochan ou Han Donhee, Seowoon não deu importância e simplesmente tirou o pote de plástico.
— Ah~ hyung, por que você está tirando restos de comida enquanto a gente está comendo?
— Cala a boca. É bolsa-de-pastor e artemísia, tá? Eu lavei bem, dá para comer na hora.
Cahaya se aproximou e pareceu um pouco surpreso, como se perguntasse se ele tinha vivido comendo aquilo mesmo.
— Esses são cogumelos-ostra.
— Uau, você até desenterrou cogumelo, hyung?
O rosto de Kangsan mostrava nojo, não admiração. Seowoon mal conseguiu impedir que se formasse novo resíduo e pousou o pote, dizendo para comerem à vontade. Compartilhar historinhas pessoais sobre como cada um tinha vivido durou pouco tempo.
Eles tinham ficado separados só uns três meses e, como Seowoon não tinha tido contato com pessoas, as coisas que ele podia contar eram ainda menos. Ele também não estava a fim de lamentar o quanto tinha vivido duro.
— Vocês todos já usaram o Portal?
No fim, voltou ao ponto principal.
──── ⋆。˚ ◉ ˚。⋆ ────
Nota:
[1] É um trocadilho/mal-entendido. Abdulaziz não é coreano nativo e as falas dele frequentemente usam alguns dialetos. Ele disse “얘볐노”, que é um dialeto de “애볐다”, que significa magro, mas Seowoon confundiu o “애” das palavras dele com o sentido de criança.
──── ⋆。˚ ◉ ˚。⋆ ────
♤ Nada contido se refere a realidade♧
■ Se puder, apoie o autor nas plataformas oficiais □
· ⋆ · ─ ✦ ─ · ⋆ · Continua
☪ Tradução, revisão e Raws: Belladonna & Othello