Capítulo 227 - Extra 01
— Episódio Extra
Dentro do armário
Um aroma doce preenchia todo o ambiente.
Assim que entrou pela porta, Bernice franziu fortemente a testa ao ser atingida pelo cheiro de feromônios e cobrindo o nariz com a manga.
Depois de confirmar que o sistema de purificação de ar da casa estava totalmente ligado, conforme havia solicitado previamente à administração, ela imediatamente seguiu em passos largos, quase correndo escada acima em direção ao segundo andar. Já sabia exatamente para onde ir. Não era a primeira vez que passava por aquilo, então não havia motivo para hesitar.
Abrindo a porta do armário com um estrondo, Bernice soltou um suspiro sem pensar — e logo percebeu que ainda estava com o nariz coberto pela manga. Já tinha uma idade considerável, então as chances de sofrer uma mutação eram praticamente inexistentes, mas não custava tomar precauções.
Ao abaixar o braço com cautela, o aroma doce e denso a atingiu de imediato, deixando sua mente atordoada. Ouvindo o som mecânico suave do purificador de ar funcionando intensamente acima de sua cabeça, ela olhou para baixo. Ali estava, inconsciente, o filho de seu antigo chefe — uma cópia quase perfeita dele.
Então, aqui está ele de novo.
Pensando isso consigo mesma, ela se agachou. Seu atual chefe, que fora jogador de hóquei no gelo durante o ensino médio, tinha um físico impressionante, condizente com o seu passado: mais de dois metros de altura e uma grande quantidade de massa muscular. Arrastá-lo dali não seria fácil, mas ela não tinha escolha.
— Ngh…
Com esforço, ela agarrou o braço dele e tentou puxá-lo. Nesse momento, o boneco que ele segurava caiu no chão. Com o leve impacto, parecia que parte de sua consciência retornou, e seu grande corpo se moveu.
Bernice parou e o viu abrir os olhos lentamente.
— Senhor Miller, acorde e saia daí.
Ela o chamou em um tom mais frio e áspero do que o habitual, mas Ashley Miller apenas piscou lentamente os olhos semicerrados e os fechou novamente.
— Haa…
Suspirando, Bernice tentou puxá-lo à força novamente, mas, de repente, Ashley afastou sua mão de forma brusca. Ela se assustou por um instante, pensando que ele ainda estava inconsciente — mas, ao ouvir o que ele disse em seguida, franziu o cenho.
— Não… tenho que esperar o Koy… não vou…
A fala arrastada parecia de alguém bêbado, mas o que o deixava naquele estado eram os feromônios. Já que, naturalmente, alfas dominantes nunca ficam bêbados.
Vendo Ashley novamente abraçar o boneco e encolher seu corpo enorme, Bernice falou em tom baixo.
— Ele não vem.
Essa conversa já se repetira várias vezes. Sempre que se trancava no armário, Ashley repetia as mesmas palavras e os mesmos comportamentos.
Mesmo ainda embriagado pelos feromônios, parece que as palavras de Bernice chegaram até ele. Ashley murmurou lentamente:
— Não vem…?
A pergunta, sussurrada, parecia ser dirigida a si mesmo, e não a Bernice. Piscando os olhos, que mal conseguiam se abrir, ele perguntou:
— O Koy… não vem…?
— Não vem.
Bernice respondeu novamente, com implacável firmeza — em um tom absolutamente frio.
— Ele não vem. Porque ele abandonou você.
Ashley ficou sem reação por um momento. Como se ruminasse as palavras de Bernice dentro de si, ele abriu a boca devagar:
— …Me a…ban…? O Koy…?
— Sim. Então já chega! Acorde!
Quantas vezes aquilo já tinha acontecido? Bernice sentiu uma pontada frustração crescer dentro de si.
Ashley começou a apresentar aqueles sintomas pouco depois de se formar na universidade. Mais precisamente, logo após terminar com a pessoa com quem estava em negociação de casamento — no momento em que teve seu primeiro rut.
Parecia que tudo estava indo bem.
Mesmo relembrando aquela situação várias vezes, Bernice ainda não conseguia entender. Ninguém jamais imaginou que o noivado terminaria. Ashley tinha gostado bastante dela, a ponto de ter instruído alguém a comprar o anel.
Mas o resultado foi esse. Sem motivo aparente, Ashley rompeu o noivado unilateralmente e, desde então, sempre que entrava em rut, se trancava daquela forma dentro do armário. E repetia as mesmas palavras todas as vezes:
Tenho que esperar o Koy.
Mesmo sabendo melhor do que ninguém que aquele garoto não viria…
— Isso não pode ser verdade.
Mesmo com a consciência oscilando, Ashley negou as palavras dela com uma pronúncia bastante clara.
— O Koy não me abandonaria. Ele vai vir… com certeza… vai vir…
— Tenho que esperar…
Com essa última frase, ele perdeu a consciência novamente.
Depois de observá-lo por um tempo, Bernice pegou o celular e chamou os seguranças que aguardavam no andar de baixo. Quando eles chegaram, ela deu instruções para levá-lo até a cama. O médico que os acompanhava aplicou imediatamente uma injeção para suprimir os feromônios.
Após tudo terminar, Bernice verificou mais uma vez o estado de Ashley antes de sair.
— Sim, senhor Miller. O Júnior está dormindo agora. Sim… sim.
Sentada no banco de trás do carro, ela relatou a Dominique e, após uma breve pausa, continuou:
— Peço desculpas. Como o senhor disse… este não é o período de rut.
Mas ele entrou em choque de feromônios. Era a primeira vez que acontecia aquilo. Após dizer que, quando Ashley recuperasse a consciência, realizaria um exame detalhado, Bernice desligou o telefone.
Ela permaneceu em silêncio, olhando pela janela. Assim como o carro que avançava lentamente preso no congestionamento, sua mente também parecia completamente travada.
No fim… ele não aguentou mais.
Desde que despertou, Ashley não teve mais nenhum relacionamento com ninguém. Por isso Dominique insistia ainda mais em apressar seu casamento — mas, nas circunstâncias atuais, parecia praticamente impossível que Ashley se casasse com alguém.
Felizmente, Dominique acreditava que Ashley estava liberando seus feromônios nas festas. Claro, porque Bernice não relatava a verdade.
Ashley ia às festas. Mas não fazia sexo para liberar os feromônios. Ele apenas comparecia para enganar Dominic e voltava. Bernice sabia disso — e, mesmo assim, fingia não ver.
Sempre que Ashley perdia a consciência por causa do rut, Bernice recorria àquela injeção para extrair seus feromônios. Porém, os efeitos colaterais eram severos, e aquilo não passava de uma medida temporária. No fim, não impedia que os feromônios continuassem a se acumular.
Se Dominique descobrisse, talvez trancasse Ashley e contrataria um ômega para estuprá-lo. Bernice escondia esse fato justamente por não conseguir prever o que Dominique faria.
Se isso acontecesse, o Júnior realmente enlouqueceria.
Lembrando disso, um pensamento lhe ocorreu de repente. De qualquer forma, se continuasse assim sem liberar os feromônios, o resultado seria o mesmo — apenas aconteceria um pouco mais cedo.
Pela primeira vez em muito tempo, ela não conseguiu chegar a uma conclusão.
Desde o início, aquilo não era um problema do qual ela deveria se envolver. Era apenas a vida privada do seu chefe, e o papel dela era simplesmente seguir ordens e resolver as questões que aparecessem.
Como foi que cheguei a esse ponto?
Ela se fez essa pergunta — mas já sabia a resposta. Seu maior erro foi não conseguir separar a si mesma deles. Se soubesse desde o começo que aquilo não passava de um fogo passageiro entre jovens, que acabaria naturalmente com o tempo, não teria se envolvido tão profundamente.
Fui longe demais.
Cruzando os braços, ela sentiu um leve desprezo por si mesma. No fim, também era humana — e estava na hora de admitir que havia se deixado levar por sentimentos pessoais.
Dizer aquelas palavras quase ofensivas, que beiravam o abuso verbal para eles que ainda eram apenas crianças, tinha sido excessivo em vários sentidos. Embora ela já esperasse que acabasse assim, por outro lado, se no fim daria nisso, por que não apenas observou?
Talvez não relatar isso ao senhor Miller seja, de certa forma, minha maneira de pedir desculpas..
Depois de organizar assim seus pensamentos , ela refletiu em seguida: O que o Júnior está pensando? Ele sabe melhor do que ninguém quais seriam as consequências se os feromônios se acumulassem tanto.
Será que…
Por um instante, um pensamento repentino lhe atravessou a mente, fazendo-a ficar séria — mas logo ela relaxou a expressão.
Não… isso não faz sentido. Destruir o próprio cérebro de propósito? É um exagero.
Além disso, o que ele ganharia com isso? Se fosse apenas para desafiar Dominique, seria um preço alto demais.
Bernice voltou ao seu pensamento inicial. Ashley estava apenas com o coração partido. Ela só podia concluir que ele havia desistido de si mesmo por puro desespero. Chegaria o dia em que ele se recuperaria. Todo mundo passa por isso. Com o tempo, as feridas cicatrizam e, de alguma forma, seguimos vivendo.
Talvez leve mais tempo do que o normal.
Mas não havia nada que ela pudesse fazer — e, mesmo que houvesse, ela não envolveria. Já havia ultrapassado excessivamente os limites uma vez. Agora, ela apenas observaria. Deixaria cada um com seus próprios julgamentos. Afinal, esse era o seu papel como secretária.
Nesse momento, o sinal abriu, e o carro voltou a ganhar velocidade. Bernice pegou o celular, conferiu sua agenda e voltou a se concentrar no trabalho.
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís