Capítulo 228 - Extra 02
— Episódio Extra
Dentro do armário
Quando Ashley abriu os olhos, ele estava sozinho, deitado na cama. Ao reconhecer o cenário familiar entrando em seu campo de visão, piscou algumas vezes e então fechou os olhos novamente com um suspiro. A dor latejante na cabeça o trouxe de volta à realidade. Como sempre, era a mesma coisa. Nada havia mudado.
Sempre que perdia a consciência, ele voltava para o mesmo lugar. Esperando, esperando, esperando…
E então, quando recobrava os sentidos e abria os olhos, mais uma vez estava sozinho. Ainda assim, desta vez havia algo diferente. A causa não tinha sido o rut, mas uma convulsão por excesso de feromônios.
Finalmente.
Ainda deitado, ele pensou. Pelo fato de estar na cama, era certo que Bernice havia passado por ali. Provavelmente seu pai já tinha sido avisado, e Dominique certamente também já devia ter percebido que Ashley tivera um surto anormal.
Quando será que ele vai descobrir?
Bernice já devia ter notado há muito tempo que ele não liberava feromônios nas festas. O estranho era o fato de ela não ter reportado isso a Dominique. Se seu pai soubesse, jamais teria deixado a situação chegar a esse ponto.
Mas, por sorte — ou talvez por azar — Bernice não havia relatado isso, e Dominique também não estava em condição de monitorá-lo como antes. Isso porque o estado de “Ashley” estava extremamente grave.
O médico havia avisado que “Ashley” provavelmente não viveria muitos anos. Era natural. Quando um gama sofre mutação, há quase cinquenta por cento de chance de morte. E mesmo que sobreviva, ao dar à luz, na maioria dos casos acaba morrendo. “Ashley” havia passado por duas situações de risco de morte. Em troca, porém, havia se tornado tão fraco que sequer conseguia se levantar da cama sozinho.
Dizem que se você desejar com fervor, Deus realiza os desejos.
Então ‘Ashley’ também realizará o seu. Até mesmo aquele homem obstinado não pode desafiar a morte.
Bem feito.
Ashley pensou, torcendo levemente os lábios.
“Ashley” estava prestes a realizar seu desejo, mas ele próprio não fazia ideia de quando o seu se realizaria. Já haviam se passado anos, e ainda assim sua mente permanecia completamente intacta.
Quando será que vou finalmente enlouquecer?
Ashley permaneceu deitado, remoendo o pensamento. Tempo era o que não faltava. Mais cedo ou mais tarde, aquilo acabaria acontecendo.
Um riso vazio escapou de seus lábios, murcho como um balão sem ar.
Quando esse dia chegar, talvez eu nem perceba que finalmente realizei meu desejo.
— …e pode ser usado como evidência para um contra-argumento. Pretendemos reforçar ainda mais esse ponto.
— Espere, se isso acontecer, o júri pode até sentir compaixão. Não podemos atacar os pais da criança de forma tão direta.
— No entanto, as pessoas ficam ainda mais indignadas com pais negligentes. Vamos usar isso a nosso favor.
— Não há provas de que os pais tenham administrado o medicamento intencionalmente na criança.
— Existe alguma evidência de que não tenham feito?
Ashley observava em silêncio os advogados discutindo acaloradamente diante dele. O julgamento envolvendo uma grande empresa farmacêutica que o escritório representava e as vítimas era um caso de grande repercussão pública. Para se prepararem para o julgamento iminente, eles haviam se reunido para revisar as estratégias, mas há algum tempo apenas trocavam palavras vazias. Já passava muito da meia-noite.
— Então…
Quando Ashley falou, todos os advogados se voltaram para ele. Apontando com a caneta para o responsável pelo caso, continuou:
— Qual é a base para essa refutação que você acabou de mencionar, Harvey? As pessoas não gostam de jogos de palavras sem fundamento. Ainda mais do que de pais negligentes.
Alguns quase soltaram uma risada, mas rapidamente retomaram a compostura. O advogado chamado Harvey levantou-se prontamente, pegou os documentos e foi até Ashley.
— É esta parte aqui. Por favor, dê uma olhada.
Retornando ao seu lugar, ele roía os olhos de ansiedade enquanto Ashley examinava o papel. Por um tempo, a sala ficou em silêncio absoluto. Quando o breve instante — que não chegava a um minuto — pareceu uma eternidade, Ashley finalmente falou:
— Não está ruim.
Pequenos suspiros de alívio escaparam aqui e ali entre os membros da equipe, incluindo Harvey, quando ele continuou:
— Mas seria bom acrescentar mais uma coisa. Não houve aquele precedente do caso Mason? Use-o como citação.
Foi quando uma batida repentina soou. Ashley parou de falar e olhou para a porta. Logo em seguida, a secretária entrou, caminhou diretamente até ele, e parou antes de falar:
— Desculpe. Acabamos de receber uma ligação urgente.
Por um instante, o pensamento ‘finalmente ele morreu’ passou pela mente de Ashley, mas a previsão estava errada.
— É uma ligação da delegacia. Houve uma prisão em flagrante, e um dos detidos diz conhecer o Sr. Miller e solicita sua defesa.
Em vez de responder, Ashley franziu a testa. Não havia ninguém neste mundo que ousasse chamá-lo como advogado a esta hora. E, além disso, o fato de terem especificado Ashley Miller, e não qualquer outro advogado subordinado, o deixou mais perplexo do que irritado.
Talvez por isso tenha resolvido verificar a mensagem que, normalmente, teria ignorado.
Sem dizer nada, ele estendeu a mão, e a secretária rapidamente lhe entregou os documentos. Seus olhos passaram de forma desinteressada pela página cheia de nomes, sem encontrar nada de especial. Provavelmente algum bêbado ou drogado que mencionou o nome de um advogado que ouviu por aí. Não era a primeira vez que isso acontecia. Realmente, perdi meu tempo, pensou, e já ia devolver os papéis quando…
De repente, um nome entrou em seu campo de visão, chamando sua atenção.
A secretária, que estendera a mão para receber o documento de volta, hesitou ao ver Ashley se endireitar na cadeira e voltar a examinar a folha.
Ele não conseguia acreditar que o nome claramente visível em seu campo de visão fosse real. No entanto, não importava quantas vezes o lesse novamente, as letras não mudavam.
Connor Niles.
Ashley congelou no lugar, encarando fixamente apenas aquele nome.
Preciso confirmar.
Ele saiu da sala de reunião sem olhar para trás e correu direto para a delegacia, dirigindo ele mesmo. Tentava manter a calma, mas não foi fácil.
Como o Koy pode estar aqui?
Podia ser apenas alguém com o mesmo nome. Provavelmente era isso. Mesmo assim, Ashley precisava confirmar pessoalmente. E se — por menor que fosse a chance — for verdade.
E se for mesmo ele…
Seus dedos apertaram o volante com força.
Não é nada demais, pensou Ashley. Mesmo que fosse o verdadeiro Koy, ele acreditava que não se abalaria.
Já tinham se passado quase dez anos. Talvez ele tivesse mudado muito. Talvez nem se reconhecessem mais. Já não eram adolescentes — provavelmente não seria bonito como era antes. Ashley pensou que, mesmo que ainda fosse o mesmo, não conseguiria mais abalar seu coração.
Você destruiu a minha vida.
Com a mente fria, ele concluiu que o único sentimento que lhe restava era o ódio — e que estava indo até lá apenas para confirmar isso.
Atravessou as ruas desertas da madrugada em alta velocidade.
— O próprio senhor Ashley Miller veio pessoalmente?
O policial responsável arregalou os olhos, surpreso assim que o viu. Ashley já tinha recebido reações parecidas diversas vezes desde que entrou na delegacia, mas não deu a mínima. Após os procedimentos básicos, seguiu em direção à cela onde os detidos estavam sendo mantidos.
Sua mente estava fria e controlada, mas seu coração não. As batidas pesadas não era algo que pudesse controlar apenas com a vontade.
— É por aqui.
Ao virar o rosto na direção indicada pelo policial à frente, Ashley parou bruscamente.
Dentro da cela, várias pessoas estavam aglomeradas em meio a um verdadeiro caos. Alguns ainda estavam fora de si por causa das drogas, outros se esfregavam sem pudor, dominados pela luxúria — era um completo inferno.
E, mesmo assim… Ashley o encontrou de imediato.
Naquele instante, ele até se esqueceu de respirar. Sua mente ficou em branco, como se tivesse levado uma pancada forte na cabeça.
Eu quero te matar.
Sim… foi isso que eu pensei.
Incontáveis vezes imaginei ir atrás de você e te matar. E, quando até isso começou a perder o sentido, achei que tinha desistido de tudo. Pensei que, mesmo se te encontrasse de novo, não sentiria nada. O cérebro humano é realmente conveniente — nos faz esquecer as memórias dolorosas. Achei que as lembranças com você já tinham desbotado, que não significavam mais nada… que, ao te ver de novo, eu não sentiria absolutamente nada.
Sim, eu vim confirmar isso.
Eu estava confiante. Convencido de que o meu Koy já não existia mais neste mundo. De que o que restava em mim era apenas vingança e ódio. De que minha última vingança seria ver você sofrer ao me ver destruído — e que minha vida já não tinha mais sentido.
Mas então…
Por que agora tudo o que eu quero é simplesmente te abraçar e te beijar?
Ao ouvir seu nome, ele se levantou lentamente. Nossos olhos se encontraram, e sua expressão mudou, surpresa. Koy estava mais alto, seu rosto jovem e bonito havia amadurecido, tornando-se o de um homem maduro — mas, aos olhos de Ashley, ele ainda parecia aquele garoto de antes.
Meu pequeno amante que sempre corria em minha direção.
Ashley quis perguntar de novo.
Mas seus olhos não viam mais nada. Apenas a imagem de Koy caminhando em sua direção.
Aquele que me destruiu… agora tenta me dar vida novamente.
(Fim do Episódio Extra — Dentro do Armário)
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís