Capítulo 223
<O Ash não te ama de verdade.>
Mesmo enquanto corria, as palavras de Ariel ecoavam na sua cabeça.
<Por que você acha que ele nega com tanta veemência? Não percebe por que ele não aceita que você é um ômega dominante? A resposta não é óbvia? Ele não consegue suportar que você esteja acima dele.>
<O Ash sempre te olhou de cima.>
<Dá para chamar isso de amor?>
Os passos apressados de Koy foram desacelerando pouco a pouco. Parado no meio da rua, ofegante, ele hesitou por um instante… mas logo balançou a cabeça e voltou a correr.
Agora não é hora de pensar nisso. Primeiro, ele precisa encontrar Ashley. Vou pensar nisso depois.
Se era isso que Ash queria…
Erguendo o olhar para o prédio familiar ao longe, Koy pensou:
Eu posso fazer isso, quantas vezes for preciso.
Cerrando os dentes, ele entrou correndo no prédio. O porteiro se assustou ao vê-lo, mas Koy o ignorou completamente, atravessando o amplo saguão direto até o elevador.
Então, por favor… só não fuja de mim.
— Haa… haa…
Quando finalmente saiu do elevador, Koy estava tão ofegante que parecia prestes a cair, cambaleando enquanto tentava recuperar o fôlego. Ao atravessar a porta dupla da entrada, um silêncio pesado o envolveu de uma vez. Ele respirou fundo e começou a subir em direção ao segundo andar.
Diferente de antes, seus passos estavam mais lentos agora. Enquanto caminhava em direção ao quarto, seu coração não se acalmava — pelo contrário, batia cada vez mais forte, inquieto, tremendo de ansiedade.
Ao abrir a porta do quarto, encontrou o mesmo cenário vazio de antes. Sem hesitar, atravessou o cômodo e seguiu direto para o closet. Abriu a porta que ligava os dois ambientes, mas, assim como antes, não havia ninguém ali.
Até aí, tudo igual, mas dessa vez… havia algo diferente. Parado no lugar, concentrando todos os sentidos, um arrepio percorreu sua espinha, fazendo seu corpo estremecer levemente.
Ele está aqui.
Koy percebeu instintivamente. Não conseguia sentir o cheiro… mas todo o seu corpo reagia com sensibilidade extrema.
Era o feromônio de Ashley.
— Huu…
Depois de inspirar profundamente mais uma vez, ele deu um passo à frente. E mais um. A cada passo, aquela sensação se transformava em certeza. Quando finalmente segurou a maçaneta do armário e a abriu com força, Koy congelou no lugar.
Ashley estava ali. Exatamente como Bernice havia dito — sozinho, dentro do armário.
— Oh…
Koy hesitou por um instante, então chamou por ele e estendeu a mão… mas, de repente, algo diferente entrou em seu campo de visão. No momento em que percebeu o que eram os objetos espalhados ao redor de Ashley, Koy parou completamente.
Um homem corpulento, conhecido como o maior advogado do leste, dito como um coração frio, sem sangue nem lágrimas, estava inconsciente, cercado por bonecos baratos. Bonecos feios, claramente de baixa qualidade… completamente incompatíveis com alguém que estava no topo do poder e da riqueza.
E, no instante em que viu o boneco de elefante rosa que Ashley abraçava com tanto cuidado enquanto dormia… Os olhos de Koy se encheram de lágrimas de uma vez.
— Yeolping.
<Eu quero te dar isso, pode levar>
<Isso era um elefante?>
<Aqui, esse é um tamanduá.>
Todos os bonecos que ele havia dado estavam ali. Ele tinha certeza de que Ashley os tinha jogado fora. A lembrança da enorme mansão vazia naquele dia ressurgiu em sua mente. Naquele momento, ele tinha acreditado que tudo havia acabado… que estava sozinho, e desabou no chão em lágrimas.
Mas ele estava enganado. Koy não era o único sozinho E… quem tinha levado Ashley a esse estado… foi ele.
— Ash…
Com a voz embargada pelo choro, Koy mal conseguiu sussurrar. Abaixando-se lentamente, ele segurou os ombros de Ashley com mãos trêmulas e, contendo as lágrimas com esforço, falou:
— Por que você está aqui… sozinho desse jeito…?
Ashley não abriu os olhos.
Koy se lembrou das palavras de Bernice, dita naquele tom indiferente, dizendo que Ashley estaria ali. Koy não sabia se ele estava dormindo ou inconsciente… mas uma coisa era certa: Sempre que algo assim acontecia, Ashley provavelmente vinha para aquele lugar… e ficava ali, sozinho.
Enxugando as lágrimas às pressas, Koy pegou o celular e ligou para Bernice. Ela saberia o que fazer nesse tipo de situação.
— Deixa ele.
A resposta dela foi simples.
— Ele está embriagado pelos próprios feromônios. Depois de um tempo, vai recuperar a consciência.
— Mas quando?
Percebendo a ansiedade de Koy, Bernice acrescentou:
— Se tiver algo que queira perguntar ao Junior, pergunte agora. Nesse estado, ele vai responder qualquer coisa.
Depois de desligar, Koy voltou a olhar para Ashley.
Ele continuava inconsciente.
Hesitando por um instante, Koy chamou seu nome com cuidado:
— Ash…
Ele pigarreou, tentando dar mais força à voz que estava baixa demais, tomada pela emoção.
— Ash, sou eu… o Koy.
Sua voz tremia tanto que ele precisou respirar fundo no meio da frase.
— Abra os olhos, por favor…
Chamando novamente, ele sacudiu levemente seus ombros.
— Ash…
Depois de alguns segundos de silêncio, como um milagre, Ashley abriu os olhos. Koy prendeu a respiração ao observar aquelas pálpebras se erguendo lentamente, piscando com dificuldade.
— …Koy?
Ashley murmurou, com uma voz arrastada, como se estivesse embriagado. Segurando as lágrimas que ameaçavam cair novamente, Koy assentiu rapidamente.
— Sim, sou eu… você está consciente?
Quando perguntou, com urgência, Ashley ficou em silêncio por um momento antes de murmurar, em voz baixa:
— O Koy você veio…? De verdade?
— Sim, eu estou aqui. Eu vim mesmo.
Koy se apressou em segurar a mão de Ashley e levá-la até o próprio rosto. O boneco que ele segurava caiu de lado com um leve som, e Ashley ergueu o olhar lentamente. Seus olhos se encontraram. Por um tempo, Ashley apenas ficou olhando para Koy… até que, aos poucos, um sorriso surgiu em seu rosto.
Koy apressadamente pegou a mão de Ashley e a levou à sua própria bochecha. Ashley, que largara o boneco que abraçava, ergueu lentamente o olhar. Seus olhos se encontraram. Por um tempo, Ashley apenas ficou olhando para Koy… até que, aos poucos, o rosto de Ashley foi gradualmente se iluminando com um sorriso.
— …Koy, você veio.
Ashley estendeu os braços, e Koy imediatamente se inclinou para abraçá-lo.
— Haa…
Inspirando profundamente, Ashley murmurou como se estivesse desabafando:
— Eu esperei… e continuei te esperando.
— Eu sei… me desculpa.
Koy se desculpou rapidamente, e Ashley continuou, ainda com a voz entorpecida:
— Eu tive um sonho estranho… Eu estava te esperando na estação de trem, mas você não vinha… Eu esperei… esperei… e esperei…
Koy arregalou os olhos e ficou paralisado. Com os braços ainda envolvendo a cintura dele, Ashley fechou os olhos e continuou sussurrando:
— Estranho, né…? Você nunca me abandonaria… você veio mesmo, não veio? Agora nós vamos embora juntos… só nós dois.
Ashley perguntou, mas Koy não conseguiu responder de imediato. Sentindo algo estranho em sua hesitação, Ashley ergueu a cabeça.
— Koy?
No instante em que viu aqueles olhos ainda enevoados, Koy entendeu. As palavras de Bernice vieram à sua mente.
Perda de memória.
Ashley estava delirando. Ele achava que ainda estava naquela estação, esperando por Koy… e que finalmente tinham se reencontrado.
Quantas vezes ele já tinha voltado para aquele dia, há mais de dez anos atrás?
Esperando… esperando… e esperando… Por um Koy que nunca vinha.
— …Sim, é isso mesmo.
Koy conseguiu responder, com dificuldade.
— Desculpa a demora, Ash…
Desculpa por ter chegado tão tarde…
Desculpa por ter te abandonado…
Era disso que Bernice estava falando. Se toda vez que ele sofresse uma intoxicação pelos feromônios passasse por essa confusão de memória… então, mesmo depois de acordar, provavelmente seria o mesmo. Quando abrisse os olhos, talvez Ashley não se lembrasse desse momento.
Não… não só isso. Ele devia estar perdendo muito mais.
De novo, e de novo… sempre voltando para aquele mesmo dia.
Koy mordeu os lábios, soltou e respirou fundo. Com mãos trêmulas, ele segurou o rosto de Ashley, inclinou a cabeça… e o beijou. Seus lábios estavam frios. Ashley fechou os olhos e, envolvendo novamente a cintura de Koy, se aninhou em seu colo.
Koy abraçou a cabeça dele com cuidado, como se o acalentasse em silêncio.
— Ash… eu quero te perguntar uma coisa.
Agora ele vai me responder com sinceridade.
Inspirando e soltando o ar lentamente, Koy falou com dificuldade:
— Por que… eu não posso ser um ômega dominante?
Completamente tenso, Koy esperava a resposta. Ashley, que parecia adormecido, respirava de forma regular com os olhos fechados… então abriu os lábios.
— Porque… não é possível.
— Por quê?
Ao ouvir sua voz baixa, como se estivesse sonolento, Koy perguntou às pressas:
— A Ariel disse que você está negando isso porque quer estar acima de mim… não é isso?
— O quê?
Ainda com aquele tom arrastado, Ashley respondeu como se achasse aquilo absurdo:
— Koy… eu nunca estive acima de você. Em nenhum momento.
— Então por quê…?
Sem conseguir se conter, Koy o pressionou:
— Me diz a verdade, Ash… do que você tem medo?
Ele sentia o coração bater forte no peito.
Ashley murmurou, quase como um sussurro:
— Porque… se você for um ômega dominante… então quer dizer que você está escondendo seu feromônio de propósito…
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís