Capítulo 208

Capítulo 208
— Sim, um latte, um cappuccino e um espresso. Ah, e mais um sanduíche de atum?
Assim que o pedido chegou, me mexi na mesma hora e comecei a preparar as bebidas. Eu ainda ficava só com as bebidas, porque não era bom no caixa, mas já tinha decorado o cardápio inteiro e conseguia preparar tudo sem me confundir. Daquela vez também, mal eu terminava um pedido, outro chegava em seguida.
Havia outro funcionário preparando bebidas além de mim, mas nos horários de pico era uma loucura. Entre bebidas, sanduíches e doces, eu ficava exausto só de tentar não errar os pedidos.
— Ufa.
Quando a onda de clientes passou, todos os funcionários, inclusive eu, soltaram um suspiro.
— Isto aqui é movimentado demais. A cafeteria onde eu trabalhava antes era melhor; não tinha cliente nenhum.
Enquanto o caixa reclamava, o outro funcionário perguntou:
— E por que saiu de lá?
— Faliu.
Deixando para trás a resposta inocente, fui limpar uma mesa suja. Ao me ver, o caixa falou comigo:
— Yohan, descanse um pouco. Você deve estar cansado.
— Ah, só vou limpar isto aqui.
Fazia pouco tempo que eu trabalhava na cafeteria, mas era divertido e gratificante. A alegria e a curiosidade de aprender coisas novas cansavam o corpo, mas eu estava sempre cheio de energia. Quando comecei a cantarolar sem perceber, o outro funcionário balançou a cabeça com um sorriso resignado.
— O Yohan é incrível.
— Eu?
Olhei para ele, perplexo, mas ele logo voltou a conversar com o outro. Fiquei sem graça à toa e continuei limpando as mesas.
— Sobraram uns brownies. Quer levar?
— Obrigado.
Na hora de fechar, o dono me entregou os brownies que tinham sobrado, embrulhados em papel. Despedi-me e saí. Naquele dia era minha folga na livraria, então trabalhei o dia inteiro na cafeteria. Estava com um pouco de fome, mas animado para ir para casa comer um brownie com café.
No dia seguinte não havia aula, e na livraria eu só trabalharia de manhã. À tarde, iria à biblioteca verificar o e-mail e pegar livros emprestados. E se eu levasse os brownies para comer lá?
Mudei de ideia, comprei um sanduíche para o jantar e fui para casa. Como sempre, os gatos me esperavam.
— Cheguei!
Assim que entrei, fui recebido por miados desesperados. Esvaziei o bebedouro, enchi de água fresca, tirei a ração velha e reabasteci. Minha refeição veio por último. Comi um sanduíche de presunto e ovo com água e fui para a cama.
No dia seguinte, fui à biblioteca por volta da hora do almoço e levei um susto.
A caixa de entrada mostrava o número 1.
Recebi um e-mail! Fechei os olhos depressa e voltei a abri-los com cuidado, tentando conter a empolgação.
Pode ser spam.
Às vezes, um spam ia parar na caixa de entrada, então era preciso cuidado para não se decepcionar. Mas, no momento em que vi o remetente, arregalei os olhos. Era um e-mail do Steward.
— …!
Cobri a boca com as duas mãos, mal contendo um grito. Fiquei tão animado que meu coração disparou. Respirei fundo e, com as mãos trêmulas, cliquei na mensagem, soltando um longo suspiro.
Estou bem, Steward.
Respondi baixinho e li devagar, letra por letra.
Ele contava como estava, como era a vida na Califórnia e como ia a pesquisa, e terminava o e-mail dizendo que se preocupava comigo. Só depois de ler mais três vezes consegui acalmar a empolgação e escrever uma resposta.
Digitei apertando cada letra com força, uma a uma. Mas eu esquecia o que queria dizer, então, por fim, peguei papel e caneta, escrevi primeiro no papel e depois passei para o e-mail, letra por letra. Duas horas tinham se passado quando terminei de digitar tudo e, finalmente, cliquei em enviar.
— Ufa.
Respirei fundo e esperei um pouco. Queria saber se o Steward tinha lido, mas, por mais que esperasse, nada mudava, e acabei me levantando. Estava com fome, então saí da biblioteca com o brownie e o café que tinha levado no lugar do almoço e me sentei num banco. O céu, limpo como havia muito tempo não ficava, parecia atravessar meu peito.
O vento estava fresco, e os passos das pessoas que passavam pareciam leves. Peguei meu precioso brownie e dei uma mordida.
— Que delícia.
A exclamação me escapou sem querer. Os brownies eram o orgulho da cafeteria; diziam que havia gente que vinha de outros bairros só para comê-los. Não é à toa. Tomei um gole de café, pensando. Não tem coisa melhor no mundo. É tão doce que derrete na boca…
Naquele instante.
De repente, minha visão ficou turva.
Hã? Fiquei atordoado por um momento, mas meu corpo se lembrou antes da cabeça.
Gosta de macarons?
— Ah.
A emoção explodiu de repente e transbordou, sem me dar tempo de me recompor. Não consegui conter as lágrimas que escorriam, então escondi o rosto nas mãos e comecei a chorar.
Há tantas pessoas no mundo… Por que tem que ser você?
Tudo acabou, então por que as lembranças me assombram assim? O começo é sempre incerto, mas o fim é claro. Eu sei disso muito bem, desde que fui embora.
Eu me arrependo. Por que não te amei com mais intensidade naquela época? Por que não aproveitei cada momento? Por que não disse “eu te amo” mais vezes, enquanto podia? Se tivesse feito isso, eu me arrependeria menos?
Agora nunca mais vou poder dizer.
— Hic, hic…
As lágrimas continuavam a cair. Uma respiração entrecortada escapou dos meus lábios.
Mesmo cobrindo a boca com as duas mãos, fechando os olhos e prendendo a respiração, as lágrimas, os soluços e o choro não paravam.
Achei que tinha esquecido.
Foi tudo em vão. Eu achava que tinha esquecido completamente.
Por que você abala meu coração assim, do nada? Será que vou conseguir amar de novo? Meu coração vai arder assim outra vez?
Não vai. Não existe mais ninguém no mundo com quem eu possa viver um amor tão profundo. Mesmo assim, vou continuar vivendo. Com o coração despedaçado, ainda respiro, falo e às vezes até sorrio.
— Ah… ah… hic…
Solucei e chorei, chorei como se fosse parar de respirar. Mas um dia, andando pela rua, olhando pela janela ou pensando em você assim, sem motivo, será que ainda vou chorar? Meu coração ainda vai doer assim?
Espero que sim.
Que você viva para sempre em mim. Ou não, para que meu coração não doa mais. Vou envelhecer sozinho. As estações vão mudar, vir e ir. Um dia, vou parar de respirar e me despedir do mundo. Então, Camar, posso ir te encontrar? Se eu sussurrar baixinho que te amo, você vai responder que também sentiu minha falta?
Espero que sim. Se for assim, vai ser bom.
***
— Olha, Yohan… eu gosto de você. Quer sair comigo?
Vendo o rosto de Luis vermelho como um pimentão, pisquei, surpreso. Era fim de semestre, e por um tempo não soube como reagir à declaração inesperada. Depois da aula, ele disse que queria conversar e me chamou para os fundos do prédio. Atrás de Luis, que se declarava todo envergonhado, vi Amanda e Laura escondidas, nos observando com curiosidade.
— Hã, então…
Esfreguei a nuca e falei com dificuldade.
— Desculpe…
— Haa.
Diante do longo suspiro, ergui os olhos, constrangido, e vi Luis franzir a testa. Ele continuou, desanimado:
— Eu sabia. Como um ômega tão fofo como você ia gostar de um beta como eu?
— Não, Luis. Não é nada disso.
Meu rosto esquentou. Acenei depressa, negando, mas ele não parecia acreditar.
— Então… você ainda não esqueceu quem te marcou?
Diante da voz hesitante, parei de acenar.
— Acho que nunca vou esquecer completamente. É só que… essa pessoa faz parte da minha vida. Foi isso que aconteceu.
Porque não dá para falar da minha vida sem falar do Camar.
Mas eu sabia melhor do que ninguém que tinha acabado. Acima de tudo, agora era hora de me concentrar nos estudos. Eu mal tinha tempo até para ler romances; não podia me dar ao luxo de me distrair. Recusei a declaração tomando todo o cuidado para não magoá-lo.
— Desculpe, Luis. Hoje tenho trabalho…
Precisava ir antes que ficasse tarde. Pedi desculpas a ele e saí apressado para não perder o trem. Enquanto me afastava, olhei para trás e vi Laura e Amanda consolando Luis.
Que alívio.
Senti um grande alívio no peito e corri para a estação de metrô. Consegui pegar o trem de sempre, por pouco.
— Ufa…
Mal soltei o ar e pigarreei. Era um dia como outro qualquer. Tirando a declaração inesperada do Luis.
— Bom trabalho hoje, Yohan.
Quando o dono disse que eu podia ir, coloquei a última revista no lugar e endireitei as costas. Naquele dia eu saía cedo, então pensei em brincar com os gatos, coisa que não fazia havia tempo. Era dia de pagamento semanal, então podia comprar uma lata de comida para eles no caminho. Saí da livraria com passos leves e fui para casa. A livraria ficava a 15 minutos a pé de casa. Era perfeito para uma caminhada, e no meio do caminho havia uma loja de conveniência, o que era ótimo. Como planejado, comprei uma lata para os gatos e fui para casa.
Ao me aproximar, senti algo estranho. Um carro de luxo preto, que eu nunca tinha visto, estava parado em frente ao prédio. Não era um bairro caro, então era raro ver um carro daqueles. Estranhei, mas logo deixei para lá e entrei. Subi as escadas, peguei a chave, abri a porta e entrei, soltando um suspiro.
— Rical! Blanche!
Assim que chamei os nomes, os gatos vieram correndo. Blanche quer dizer branca, e o nome combinava perfeitamente com a gata de pelo branco. Dei comida também aos filhotes, um por um, e, enquanto eles comiam, o celular tocou.
Quem será?
Fiquei confuso, porque não havia ninguém que me ligasse, e estranhei o número desconhecido. Ao mesmo tempo, a campainha começou a tocar.
— Ah…
Os gatos miavam, o celular não parava de tocar e, no meio disso, a campainha também, e fiquei atordoado. Atrapalhado, atendi o celular e fui até a porta.
— Sim, quem é…?
Falei ao interfone, mas, por um momento, ninguém respondeu. Logo depois, uma voz conhecida veio do celular.
— Yohan, Yohan? Está me ouvindo?
Steward?
Enquanto eu piscava, surpreso, ele falou depressa:
— Yohan, você soube? O Asgyle…
Quase ao mesmo tempo, uma voz inacreditável saiu do interfone.
— Yohan, sou eu.
No momento em que ouvi aquela voz, congelei. Então o Steward gritou, muito animado:
— O Asgyle abdicou do trono!
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør