Capítulo 209

Capítulo 209
Por um tempo, esqueci até de respirar. Fiquei parado, atônito, sem emitir som algum, muito menos uma palavra. Só havia um silêncio girando ao meu redor, como se eu tivesse sido atirado em algum canto do universo.
— …
Aos poucos, os sons voltaram e, com eles, a razão. Pisquei, atrasado, e respirei depressa. O interfone ainda estava ligado. Eu tinha ouvido direito? Era mesmo ele? Hesitei, olhando para o interfone.
Eu não conseguia emitir som algum, e então ouvi a voz do Steward de novo.
— Yohan, Yohan?
Tentei responder ao meu nome, chamado sem parar, mas a garganta travou, e tossi.
— Sim, estou ouvindo.
Quando murmurei com a voz falhando, o Steward tentou dizer mais alguma coisa, mas o interrompi antes.
— Espere, Steward.
Depois de respirar fundo, acrescentei, com a voz trêmula:
— Ligo depois. …Tem alguém aqui.
— Alguém aí? Ah, Yohan, será que…!
O Steward queria dizer mais, mas desliguei. Meu coração estava disparado.
Respirei fundo e, a custo, abri a boca.
— …Ainda… está aí?
Minha voz trêmula saiu baixinha. Pelo interfone, ele respondeu:
— Sim, Yohan. Estou aqui.
Por um momento, senti tontura, e minha visão girou. Era, sem dúvida, a voz dele, mas eu não conseguia acreditar. O pulso latejava nas têmporas, e as pontas dos dedos estavam geladas e formigando.
Hah, hah.
Depois de respirar fundo algumas vezes, voltei a mim e percebi que o interfone tinha se desligado. Foi um sonho? Enquanto eu piscava, confuso, a campainha tocou de novo. Assim que apertei o botão, a voz dele saiu.
— Yohan, pode abrir a porta? Quero te ver e conversar.
Era a voz calma de que eu me lembrava, mas parecia tremer levemente.
Talvez eu esteja enganado. Será que estou sonhando? Isso é mesmo real?
Hesitante, meu dedo se moveu e apertou o botão. Com um breve ruído mecânico, ouvi a porta do prédio se abrir, e o interfone se desligou.
Como ele sabia onde eu morava?
Andando de um lado para o outro diante da porta, ansioso e aflito, parei diante desse pensamento. Mas, antes que eu pudesse pensar mais, ouvi passos fracos no fim do corredor. Corri até a porta e apurei os ouvidos. Os passos se aproximavam devagar, mas firmes. Sem aguentar a impaciência, esfreguei os polegares e esperei em silêncio. Um passo, depois outro. Em resposta, meu coração batia duas vezes mais rápido. Minha boca estava seca, e minhas mãos tremiam. Quando os passos finalmente pararam diante da porta, fechei os olhos.
Toc. Toc.
Devagar, como se marcasse o ritmo, ouvi as batidas. Por um instante, tive a ilusão de que era meu coração que batia.
— …
Demorei para reagir. Não tinha coragem de dizer nada e fiquei ali, hesitando. Os pés trêmulos se moveram primeiro, depois as pernas, depois o corpo, avançando aos solavancos. Engoli em seco várias vezes, em vão; a garganta subia e descia, mas não conseguia engolir nada.
Hah.
Depois de um suspiro trêmulo, girei a maçaneta devagar. A fechadura estalou, destravando, e a porta se abriu. Fechei os olhos por um momento.
Quando eu abrir os olhos, vou ver um corredor vazio e vou me decepcionar.
Sim, com certeza vai ser assim.
Era o que eu pensava, sem coragem de abrir os olhos.
— …?
Parei ao sentir, de repente, um cheiro doce. Não pode ser.
Ergui devagar as pálpebras trêmulas. Não pode ser.
Pouco a pouco, as coisas foram surgindo diante dos meus olhos. Primeiro os sapatos, depois as pernas, depois a cintura. Enquanto eu erguia o olhar devagar, meus olhos se arregalavam e meu campo de visão se ampliava.
Mesmo que tudo isso seja um engano meu…
Quando, por fim, olhei para o rosto dele, parei de respirar.
…esse perfume não pode ser mentira.
— Yohan.
Uma voz de que eu sentia tanta saudade soou bem diante de mim. Um rosto deslumbrante, de feições perfeitas, me encarava.
— Senti sua falta.
O homem sorriu de leve. Mas eu ainda não conseguia me mexer e só o encarava. Ele também. Ficamos nos olhando como se o tempo tivesse parado.
— Opa.
Asgyle foi o primeiro a se mexer. De repente, exclamou e inclinou o corpo grande para a frente. Logo depois, pegou um dos filhotes do Rical e o ergueu.
— Ah!
Voltei a mim, atrasado, e recuei depressa. Asgyle entrou na mesma hora, com o gatinho que não conseguira escapar. Fechei a porta depressa para os gatos não fugirem e só então me dei conta do que tinha feito.
Virei a cabeça devagar, e meus olhos encontraram os de Asgyle de novo.
Encostei-me na porta e olhei para ele.
…Ele emagreceu.
Foi o primeiro pensamento que me veio. Os movimentos ágeis continuavam os mesmos, mas ele estava muito mais magro do que antes; a linha do maxilar e as maçãs do rosto estavam salientes, e os traços, mais marcados. Eu nunca tinha imaginado vê-lo assim e só conseguia encará-lo. Ele também continuava calado. Mas o cheiro dos feromônios, que me envolvia com suavidade, era indescritivelmente terno e parecia dizer mais do que qualquer palavra.
— Quantos gatos.
Asgyle falou num tom bem leve. Ele tentou sorrir, mas o rosto se contorceu de um jeito estranho. Eu não consegui sorrir de volta.
— Por quê…
Depois de um tempo, abri a boca.
— Por que… você está aqui?
Enquanto falava, as coisas foram parecendo um pouco mais reais. Continuei, com a voz trêmula:
— Como… você soube?
— Mandei procurar você. Desculpe.
Fiquei surpreso de novo. Ele era do tipo que pedia desculpas assim? Arregalei os olhos e o observei, mas a expressão dele quase não mudou. Minha mente ficou em branco, e não consegui pensar em mais nada para dizer. Eu tinha tantas perguntas, mas não me lembrava de nenhuma. Ainda parecia um sonho. Asgyle, que me olhou por um tempo, abriu a boca.
— Desculpe por aparecer assim, de repente.
Eu só consegui gaguejar, surpreso. Asgyle suspirou e passou a mão no cabelo, nervoso.
— Então… quero dizer… se você ainda não tem ninguém de quem goste… pode me aceitar de novo?
As últimas palavras saíram atropeladas, de uma vez. Pisquei, atônito, com a impressão de que ele tinha espremido toda a coragem que tinha.
— Aceitar você… O que quer dizer?
Enquanto eu falava, as lembranças foram voltando uma a uma.
— Você é casado. Com a Princesa Najima.
— Havia um motivo.
Depois de respirar fundo, Asgyle confessou:
— Aquilo foi o que fiz como rei, como Asgyle da família real. Aqui, vim como Camar.
— Não entendo do que você está falando.
— Vou explicar.
Asgyle continuou, num tom bem calmo:
— Casei para estabilizar o reino e passar o trono adiante. Se o rei morre ou é obrigado a deixar o cargo, o trono passa ao herdeiro; se não houver herdeiro, a rainha assume. Foi por isso que me casei com Najima: para passar o trono a ela.
— …
— Entre mim e Najima só havia um acordo. Nem de mãos dadas andamos. Nos divorciamos assim que foi possível.
Sua voz ficou mais alta, como se jurasse inocência. Uma expressão desesperada surgiu no rosto de Asgyle, mas eu continuava confuso.
— E como você conseguiu abdicar?
Diante da minha pergunta, ele olhou de relance para o próprio ombro e depois voltou a olhar para mim. Depois de recuperar o fôlego por um instante e engolir em seco, Asgyle respondeu, calmo:
— Quem tem cicatrizes no corpo não pode ser rei.
Ou seja, ele mesmo tinha revelado as cicatrizes. As feridas que escondera com tanto desespero.
— Por quê…
Falei com dificuldade.
— Por que fez isso? Você se esforçou tanto para ser rei. Passou o trono para a princesa e deixou Al-Ad para vir até aqui? Por quê?
O país e o povo que ele tanto amava.
Asgyle sorriu, inesperadamente, diante da minha pergunta.
— Agora eu não posso mais.
Ele disse, olhando para mim com o rosto um tanto vazio.
— Um rei precisa fazer todos felizes. Mas a felicidade dos outros não me importa. Só penso em você, Yohan, e em mim.
Asgyle confessou, respirando fundo.
— Só preciso que você seja feliz.
Sem querer, prendi a respiração. As palavras dele, que começaram devagar, foram ficando cada vez mais rápidas.
— Só preciso que você sorria. Basta você ficar ao meu lado; não preciso de mais nada. Não consigo fazer nada além de pensar em você. Sinceramente, eu achava que não importaria se meu país desmoronasse e todos no mundo desaparecessem.
Fiquei completamente atordoado com aquela declaração apaixonada.
— …Então você veio para cá? Largando tudo?
Era inacreditável. Não pude deixar de perguntar de novo.
— Você abandonou o trono e o país? Por mim?
Um homem tão arrogante, que desprezava o mundo e tinha tudo.
Asgyle respondeu:
— Só preciso de você.
Você abriu mão de tudo por mim?
Na minha visão trêmula, vi Asgyle se ajoelhar.
— Yohan.
Isso não pode ser real.
Pensei. Diante de um ômega insignificante, aquele homem tinha dobrado os joelhos nobres e me olhava de baixo. Sem perceber, recuei um passo, e ele me olhou com uma expressão amarga e perguntou:
— Só há uma coisa que eu quero. Se você me aceitar de volta, nem que seja uma única chance, se você me der essa chance…
Ele mordeu o lábio e então disse:
— Não me importo de jogar fora tudo o que tenho.
Não consegui dizer nada. Apenas olhei para ele. Abri a boca, mas não saiu som algum.
— Se…
Forcei as cordas vocais e falei com a voz rouca:
— E se eu dissesse que a minha felicidade é você desaparecer?
Por um instante, o rosto de Asgyle empalideceu. Ficou tão branco que parecia que todo o sangue tinha sido drenado do corpo, o que deixou as bochechas magras ainda mais salientes. Então, ele sussurrou, mexendo só os lábios:
— …Então eu desapareço. Da sua frente.
Ele respondeu sem forças, como se fosse desmaiar ali mesmo.
Senti que ele faria isso de verdade. Se eu pedisse, ele seria capaz de morder a própria língua ali mesmo. Meus olhos arderam, por algum motivo.
— E se eu não quiser mais te ver?
Desta vez, Asgyle não respondeu com facilidade. Soltou um suspiro sofrido, baixou a cabeça e falou com dificuldade:
— …Desapareço para sempre.
— Mesmo?
Asgyle hesitou um pouco com as palavras, como quem faz uma promessa. Só depois de alguns segundos de pausa entendi o que ele dizia.
— …Vou ficar fora da sua vista.
— Então vai ficar escondido, só me observando?
Desta vez, não houve resposta. As coisas foram parecendo mais reais, e perguntei, provocando de propósito, para esconder os olhos marejados:
— Quer dizer que vai ficar escondido, só olhando, enquanto eu beijo outro alfa, me caso, tenho filhos e vivo feliz para sempre?
Vi a mão de Asgyle, caída sem forças, se fechar num punho, apertado a ponto de os nós dos dedos ficarem brancos. Ele soltou um gemido doloroso, lá de baixo.
— …Sim.
Era difícil ver sua expressão, porque ele mantinha a cabeça baixa, mas, pela voz, dava para perceber que rangia os dentes. Olhando para o chão, ele continuou:
— Você só precisa viver como se eu não existisse. E, se acontecer alguma coisa com você… não deveria acontecer, mas, se acontecer… uma vez, não, quantas vezes for… deixe que eu ajude. Só isso.
— Como?
Perguntei de novo. Então Asgyle disse algo que eu jamais teria imaginado.
— Entrei num escritório de advocacia.
— O quê?
Ouvindo-o, percebi que, no fundo, eu achava que ele voltaria para Al-Ad. Que, claro, ele voltaria para retomar o trono, resolveria tudo com a Princesa Najima e pronto.
Mas o que Asgyle dizia era completamente inesperado. Ele continuou:
— Consegui um emprego num escritório de advocacia. Assim, sempre que você precisar, posso ajudar na hora. Basta você pedir.
— …E ainda me espionar?
De repente, minha voz embargou e saiu num sussurro. Asgyle também não respondeu desta vez. Eu estava prestes a chorar de novo e mal consegui segurar a respiração trêmula.
— Sério… Sério? Você deixou tudo para trás? Por mim?
— Sim.
Asgyle ergueu a cabeça devagar.
— Vim viver com você, meu pequeno Yohan.
Nossos olhos se encontraram e, naquele momento, desabei em lágrimas e corri para ele.
— Camar…!
Ele abriu os braços e me abraçou na mesma hora. O aroma doce se espalhou ao meu redor num instante, e caí no choro.
— Desculpe por ter te deixado sozinho.
Camar me abraçou e pediu desculpas de novo. Apenas neguei com a cabeça. Está tudo bem, está tudo bem.
Está tudo bem…!
— Por que… você está tão magro?
Perguntei entre soluços, como quem reclama. Camar hesitou e respondeu, com amargura:
— Não conseguia dormir.
As lágrimas voltaram. Murmurei, chorando:
— Você não dorme bem sem mim.
— Não.
Camar me abraçou com força.
— Sem você, não consigo fazer nada.
Então segurou meu rosto com as duas mãos e o ergueu.
— Então nunca mais vamos nos separar.
Sim, assenti. Fechei os olhos, feliz, e logo seus lábios desceram até os meus. Os beijos estavam encharcados de lágrimas e tinham gosto de sal.
— Os bens da sua família vão ser administrados pela Najima.
Mal nossos lábios se separaram, Camar disse, como quem se lembra de algo que tinha esquecido:
— Você pode voltar quando quiser. São seus, então é natural que você tenha esse direito.
— …
Pisquei. De repente, as lágrimas pararam, mas os soluços continuavam, me deixando sem ar de vez em quando.
— Foi por isso que demorou tanto?
Quando perguntei, Camar sorriu.
— Tinha muita coisa a resolver. Aprovar a lei contra a discriminação de ômegas, por exemplo.
Depois, balançou a cabeça.
— Chega de assuntos chatos. Agora está tudo bem.
— Sim.
Assenti na mesma hora. Quando eu ia me jogar de novo em seus braços, Camar de repente me pegou no colo.
— Ah…!
Quando gritei, surpreso, ele disse:
— Vamos sair daqui. Primeiro, temos que ir à prefeitura.
— À prefeitura? Para quê?
— Para registrar nosso casamento. Antes que você mude de ideia.
— O quê?
Fiquei atordoado com a conversa repentina. Mas Camar já seguia para a porta.
— Um advogado do escritório se ofereceu para ser testemunha. A cerimônia oficial a gente faz depois; primeiro, vamos registrar.
— Espere um pouco!
Gritei, aflito, mas Camar já descia as escadas de dois em dois degraus e saía do prédio.
— Ah!
O carro de Camar era o sedã elegante que eu tinha visto mais cedo. Eu nunca imaginaria que fosse daquele homem, e arregalei os olhos de novo. Notando minha reação, Camar disse, indiferente:
— Veio com o contrato do escritório.
Só mais tarde descobri que, além do carro, tinham lhe prometido uma mansão de luxo e um salário altíssimo.
— Vamos, sente-se.
Camar me acomodou com cuidado no banco do passageiro, afivelou meu cinto e fechou a porta. Logo depois, deu a volta, sentou-se ao volante, olhou para mim e falou com a expressão mais séria do mundo:
— Você já disse que me aceita. Então nunca mais vou te deixar ir, pelo resto da vida.
Meu coração disparou, e eu ria. Ao mesmo tempo, queria chorar. Tomado por um sentimento indescritível, assenti.
— Sim.
Inclinei-me em direção a ele, beijei seus lábios e olhei para seu rosto.
— Não me perca de novo, Camar.
Camar sorriu e me beijou de volta.
— Mas por que tantos gatos?
Camar perguntou, como se tivesse se lembrado de repente. Só então me lembrei do Rical e, sem querer, olhei para o rosto dele.
— Vou te apresentar a eles aos poucos.
Sorri sem jeito, e ele sorriu de leve.
— Está bem. Temos muito tempo.
Meu peito se apertou com essas palavras; respirei fundo e soltei o ar devagar.
Sim, ainda temos muito tempo pela frente. Tempo para ficarmos juntos.
Eu te amo, Camar.
Repeti baixinho. Logo depois, ele ligou o carro, e o sedã partiu suavemente. O céu limpo se estendia sem fim sobre a estrada, excepcionalmente silenciosa.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør