Capítulo 207

Capítulo 207
— Ei, espere aí! Ei!
Ao ouvir os chamados repetidos, olhei para trás. Um homem que eu nunca tinha visto estava parado ali, ofegante.
Quando ergui os olhos, desconfiado, ele sorriu sem jeito e me estendeu alguma coisa.
— Achei isto. Não é seu?
O que o homem segurava era uma carteira velha. Respondi que não, negando com a cabeça.
— Não é minha. Com licença.
— Só um minuto!
Quando eu ia me virar, ele me chamou de novo. Quando olhei para trás, a contragosto, ele disse, coçando a cabeça, constrangido:
— Desculpe. Na verdade, a carteira é minha. Eu não sabia como puxar conversa com você.
Como eu ainda não estava acostumado com o inglês, demorei um pouco para entender. Quando soltei um “ah”, o homem continuou, como se tivesse criado coragem:
— Eu te vi há alguns dias. Você sempre pega o trem neste horário? Tem alguma coisa para fazer aqui perto?
— Estudo aqui perto.
Num curso de idiomas, completei em pensamento. Quando respondi, ele disse mais alguma coisa, franzindo a testa. Não entendi os detalhes, mas era algo como perguntar se eu era alfa ou ômega.
— Sou ômega.
Enquanto dizia isso, toquei de leve a marca perto da orelha. Como se só então notasse a marca, o homem ficou perplexo por um instante e logo fez uma expressão decepcionada. Não era a primeira vez que eu via aquela reação, então me despedi rapidamente e me virei.
Por sorte, o homem desistiu fácil. Como a marca de um alfa pode ser sobreposta por outra, às vezes alguém insistia em me seguir usando isso como desculpa, mas até ali eu tinha conseguido me livrar.
Você precisa parecer mais durão, Yohan.
Quando vi meu rosto refletido na vitrine de uma loja, as palavras do Steward me vieram à mente. Forcei os olhos para fazer uma cara brava, mas logo desisti. Envergonhado, apertei o passo. Eu não estava longe do destino.
— Yohan, chegou!
Amanda, que estuda na mesma turma, me cumprimentou com entusiasmo.
Os colegas que tinham chegado antes me cumprimentaram, um de cada vez; cumprimentei-os também e me sentei.
— Yohan, você fez toda a lição de ontem? Me deixa ver as respostas?
— Claro.
Quando Laura pediu, comecei a procurar na bolsa, e Luis interveio na mesma hora:
— Yohan, não mostre assim. Cada um tem que fazer a própria lição.
Eu já tinha tirado a folha e parei, “Hã…”, mas Laura a pegou rapidinho.
— Chato, sempre dando sermão.
Depois disso, não entendi mais nada, porque eles começaram a falar em espanhol. Deixei os dois discutindo, tirei minhas coisas da bolsa e me preparei para a aula. De repente, pela janela aberta, algumas folhas entraram com o vento. Tirei as folhas que caíram sobre o livro e sorri de leve.
Fazia seis meses que eu tinha vindo para os Estados Unidos.
***
— Como foram os estudos hoje, Yohan?
Depois da aula, quando fui ao laboratório, o Steward me recebeu com carinho. Duas vezes por semana, eu ajudava na pesquisa dele, e às vezes ele colhia meu sangue ou fazia alguns experimentos com feromônios.
Fosse qual fosse a pesquisa, eu ficava feliz em ajudar.
— Foram bons. Estudar é muito divertido, Steward.
Eu ainda era fraco no idioma, mas tentava usar só o inglês, sempre que possível.
O Steward também me respondia só em inglês, mas usava expressões fáceis e pronunciava devagar e com clareza, por consideração a mim.
Sorri para o Steward, que falava devagar para eu entender, e ele sorriu de volta e foi direto ao assunto.
— O trabalho de hoje é simples. Só preciso que você responda a uns questionários e me ajude com as medições de feromônios.
Disse o Steward, entregando-me os papéis.
— Obrigado, como sempre, Yohan.
— Imagine, fico feliz em ajudar.
Fiquei um pouco tímido e acrescentei:
— E ainda ganho um dinheirinho.
Sempre que eu vinha ajudar na pesquisa, o Steward me pagava alguma coisa.
No começo, relutei muito em aceitar, mas a lei do país exigia o pagamento, e o Steward poderia ser punido se não pagasse, então não tive escolha.
— O trabalho na livraria não é cansativo?
Enquanto eu escrevia as respostas com cuidado, uma a uma, olhando o questionário em inglês, o Steward perguntou de repente. Fora ele quem me arranjara o emprego de meio período numa livraria perto de casa.
— Não, gosto muito. Posso ler livros.
Por enquanto, ainda eram livros infantis, mas era ótimo porque eu podia estudar inglês. No mês anterior, o dono disse que eu estava me esforçando muito e me deixou escolher um livro de presente, então escolhi um romance, todo animado. Levei duas semanas para ler tudo, mas era tão interessante que decidi ler de novo.
Teria sido ainda mais divertido se meu inglês fosse melhor; isso era um pouco frustrante.
— Não é difícil? Um lugar desconhecido, e você ainda não domina o idioma.
O Steward, que tinha acabado de me explicar numa linguagem fácil uma questão em que eu empacara, perguntou:
— Ainda quer ser advogado?
— Sim.
Respondi enquanto escrevia.
— Mesmo que leve alguns anos, quero ser. Quero ajudar quem precisa, quem não tem a quem recorrer.
Eu tinha começado a ler um livro sobre advocacia, mas não passava de uma ou duas páginas. Ainda estava só começando a estudar inglês, então estudar Direito ali seria muito difícil. Mas eu queria muito.
O tempo não era problema; o dinheiro, sim. Quando deixei Asgyle, não levei um centavo sequer. Ter me virado sozinho até ali também era motivo de orgulho para mim. Fazer e vender tapeçarias também ajudou muito.
— Não se esforce demais, Yohan.
Depois de conferir com cuidado as respostas do questionário, o Steward me levou à sala de testes. Às vezes, eu liberava feromônios até o limite numa sala fechada e fazia exames de sangue e de fluidos corporais, mas, naquele dia, eram só os sinais vitais e um exame físico. Depois do trabalho, o Steward sempre me levava para casa.
— Espere um pouco, Yohan. Vou arrumar as coisas e já saio.
— Sim, pode ir com calma.
Respondi ao Steward, que saiu apressado como sempre, e esperei na sala de descanso. Eu não tinha computador e meu celular não tinha internet, então aqueles eram uns dos poucos momentos em que eu podia usar a internet.
Na primeira vez em que o Steward me ensinou a usar a internet, passei o dia inteiro na frente do computador e depois fiquei um tempo sem conseguir me levantar, de tão tonto e enjoado. Agora, só usava no laboratório, nesses intervalos curtos.
Sentei-me depressa diante do computador e, como sempre, abri primeiro o e-mail. Também fora o Steward quem o criara para mim. Mais uma vez, fiquei um pouco decepcionado ao ver zero mensagens na caixa de entrada, mas fiquei feliz ao ver três na pasta de spam. O Steward tinha me dito para não abrir spam, então eu só olhava os títulos, mas era bom receber e-mails, mesmo assim. Guardei-os com cuidado na pasta. Já eram 37 spams.
— Yohan, vamos.
Enquanto eu matava o tempo clicando aqui e ali, o Steward me chamou, apressado.
Desliguei o computador às pressas e me levantei.
Quando me sentei ao lado dele, o Steward ligou o carro e perguntou:
— Hoje tem livraria, não tem? Te deixo na porta?
— Sim, obrigado.
Conversando sobre várias coisas, logo chegamos à livraria. Acenei e entrei.
— Boa tarde.
— Ah, Yohan. Entre.
O dono da livraria me cumprimentou com carinho e olhou para o relógio na parede. Eu sempre chegava de 5 a 10 minutos antes do horário, e daquela vez também faltavam 10 minutos.
— Gosto disso em você, Yohan. Sempre tão dedicado.
Sorri, coçando a cabeça. Deixei a bolsa no lugar de sempre e comecei a ajudar a organizar os livros. Como eu ainda não falava nem lia bem, era difícil trabalhar sem as orientações dele. Em muitos sentidos, não havia saída senão aprender o idioma depressa. Grato ao dono por me aceitar mesmo assim, trabalhei duro naquele dia também.
Quando cheguei em casa, depois de fechar e limpar a livraria, estava exausto.
Minha rotina era tomar banho no banheirinho, limpar a caixa de areia dos gatos e cair na cama. O tempo voava, e eu nem tinha tempo de pensar em nada. Por isso, quando dei de cara com a manchete de um jornal que peguei por acaso, não fiquei tão abalado.
“O casamento do rei de Al-Ad”
Pisquei e olhei a foto. Nela, Asgyle e a Princesa Najima, ambos em trajes tradicionais, estavam lado a lado, cada um com uma mão erguida, como se respondessem aos aplausos do povo. Ele continuava bonito, e a princesa, linda.
Achei que tinha esquecido, mas, no momento em que vi a imagem, as lembranças voltaram vívidas, como se fossem de ontem.
Mas foi só isso. Coloquei o jornal de volta no lugar e voltei para terminar o trabalho. Fiquei surpreso por não sentir nada. Naquela noite, dormi profundamente, sem sonhar.
***
— O senhor vai para a Costa Oeste?
A notícia caiu como um raio na semana seguinte. O Steward me contou no carro, ao me levar para casa depois do trabalho. Minha voz subiu sem querer, e ele falou com uma expressão constrangida:
— Desculpe, Yohan. A decisão saiu de repente.
— Costa Oeste… Onde fica? Fica longe daqui?
— Hum…
O Steward pareceu pensar um pouco e sorriu sem graça.
— Umas seis horas de avião?
Fiquei sem palavras. O Steward vai embora? Então vou ficar sozinho nesta cidade?
Sozinho nesta cidade enorme e desconhecida.
Fiquei com medo, mas era inevitável. Aquela também era uma despedida que eu precisava suportar.
— Vou ligar sempre, Yohan. Nas férias, venho te visitar.
O Steward deu um tapinha em meu ombro, como se quisesse me consolar. Como era o último dia, ele me pagou o dobro do normal. Recusei, mas o Steward acabou enfiando o dinheiro na minha mão e fugiu. Não tive escolha a não ser voltar para casa com ele.
Como tinha dito, o Steward deixou Nova York três dias depois, e eu fiquei realmente sozinho. Seja forte.
No ônibus, voltando da despedida, fiz uma promessa. Tenho um sonho que quero realizar. Vou ser advogado, custe o que custar.
Você consegue.
Por sorte, no dia seguinte consegui um emprego de meio período numa cafeteria.
Fiquei tão contente que me dei ao luxo de abrir uma lata de comida para os gatos.
E os dias corridos seguiram, um após o outro.
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør