Capítulo 206

Capítulo 206
Ele me encarou de olhos arregalados, sem se mover, como se tivesse esquecido até de piscar. Sorri para Asgyle, atônito.
Fechei e abri os olhos devagar; a imagem dele, que sumira por um instante, voltou às minhas pupilas, e abri a boca.
— Vamos acabar com isso agora.
— …Por quê?
Depois de um tempo, ele abriu a boca, como se não pudesse acreditar. Mal conseguiu murmurar essa palavra e voltou a ficar em silêncio; respondi a Asgyle, sem me abalar:
— Não tenho mais motivo para ficar aqui.
Ele apenas me olhou, como se tivesse esquecido o que dizer. Baixei os olhos e acrescentei, como se falasse comigo mesmo:
— Porque já acabou.
— Acabou?
Asgyle abriu a boca, com a voz rouca. Com o rosto rígido, perguntou com dificuldade, como quem diz palavras que não queria dizer:
— Do que está falando, Yohan? Explique de um jeito que eu entenda.
— Como eu disse. Quero ir embora deste lugar.
Como ele não respondia, repeti a mesma coisa de outro jeito.
— Quero me afastar de você.
— Por quê?
Desta vez, a voz saiu depressa. Repeti as palavras que eu tinha remoído tantas vezes.
— O homem que eu amei não está mais aqui.
A expressão de Asgyle escureceu. Ele não parecia entender o que eu dizia.
Era natural. Ele é Camar, mas não é Camar.
— Você disse que morreria comigo.
Sorri ao me lembrar daquele dia.
— Mas agora você não pode morrer comigo.
Asgyle me olhou sem dizer uma palavra. Abriu a boca, mas não conseguiu falar. Não sei se não tinha nada a dizer ou se tinha coisas demais. Apertou os lábios várias vezes antes de, enfim, conseguir emitir um som.
— Do que está falando? Eu sou o Camar. O seu Camar está aqui.
Foi o que ele disse. De repente, um sorriso me escapou, e meus lábios se curvaram.
Perguntei a Asgyle, que franzia a testa:
— Então você pode morrer comigo?
Por um instante, Asgyle hesitou. Diante do embaraço evidente dele, lembrei de um passado distante — na verdade, nem tão distante assim.
Veja só.
Naquela época, ele não hesitou nem por um instante.
Agora você tem coisas demais.
Agora não pode mais. É diferente de quando eu era tudo o que você tinha.
Houve um tempo em que tive medo: e se você tivesse alguém que amasse antes de mim? Uma esposa esperando ansiosa por você, um filho que você amasse mais do que tudo? O que eu faria?
Mas o mundo tirou você de mim de um jeito completamente diferente. Você não tem uma esposa amada nem filhos adoráveis, mas há muitas pessoas que dependem de você. Seus ombros carregam obrigações muito maiores do que isso.
Então você não pode mais morrer por mim. Nunca mais.
— …Yohan.
Asgyle falou com a voz sofrida, como se a espremesse da garganta.
— Isso é absurdo… Não consigo entender. Você vai me deixar?
Ele repetiu a mesma coisa de antes. Provavelmente já não conseguia raciocinar direito.
Ele franziu a testa e pareceu tentar recuperar os sentidos, mas não parecia fácil.
Claro. Ele tinha sido exposto aos meus feromônios durante toda a relação, e eu continuei liberando feromônios mesmo depois. Do mesmo jeito que fiz com o rei.
Em breve, a cabeça de Asgyle ficaria confusa, a consciência se apagaria, e talvez ele esquecesse tudo o que estava acontecendo agora. Era meu último presente para ele.
Em memória do meu amor.
— Yohan…!
Quando me levantei, Asgyle me agarrou de repente. Sua consciência devia estar indo e vindo, mas, para minha surpresa, ele ainda tinha força de vontade para me segurar. Asgyle se ergueu e me puxou com força, e tive de encará-lo.
— Não, não vá.
— Tenho que ir.
Beijei-o com carinho.
— Se eu ficar, você não vai realizar seus sonhos.
Falei com ele, que piscava, atordoado.
— Há muitas pessoas pelas quais você é responsável. Você precisa fazê-las felizes.
— …Não, não. Não…
Olhei em silêncio para o rosto de Asgyle. Uma expressão desesperada, que eu via pela primeira vez, tomava conta dele.
— Yohan, por favor.
A voz de Asgyle tremia violentamente. Ele abriu e fechou a boca várias vezes, sem saber o que fazer.
— Não vá. Eu disse que ficaria ao seu lado pelo resto da vida.
— Asgyle.
— Não, não diga nada!
Por fim, sua voz se elevou. Seus dedos apertaram meu braço até deixá-lo dormente, mas me soltei.
— Não me deixe, Yohan.
Seus olhos de um roxo escuro se turvaram, e as lágrimas escorreram devagar. A voz de Asgyle logo se transformou em soluços.
— Não vá, por favor. Não me deixe.
— Asgyle.
— Por favor, por favor… Faço qualquer coisa, posso fazer qualquer coisa. Então…
As lágrimas encheram os olhos daquele homem, que mordia o lábio inferior.
Por fim, ele gritou com a voz rouca:
— Não me deixe…!
E então caiu no choro. Abracei com carinho o corpo daquele homem tão maior do que eu.
— Está tudo bem, Camar. Logo você vai esquecer.
— Não.
Camar negou, soluçando.
— Não, não consigo.
Balancei a cabeça.
— Você já me esqueceu uma vez. Pode esquecer de novo.
Ele não conseguiu mais falar. Com a cabeça encharcada de feromônios, não conseguia nem pensar direito. Mesmo assim, tentava desesperadamente me segurar. Acariciei com delicadeza o rosto daquele homem, molhado de lágrimas.
— Eu não era nada.
De vez em quando, seus olhos roxos cintilavam dourados. Ah, que lindo. Ergui os olhos para o rosto dele e sorri.
— Eu não era nada para você. Então, com o tempo, vai passar.
Inclinei a cabeça em direção a Asgyle, que apenas me olhava sem dizer nada. Nossos lábios se encontraram, e seus olhos se fecharam. Ele não abriu os lábios, e eu não usei a língua. Um beijo leve, que apenas tocou os lábios. Mas, sentindo o calor dele por mais tempo do que nunca, afastei os lábios devagar. Asgyle continuava com o rosto vazio.
— Adeus.
Com esse último sussurro, dei um passo para trás. Asgyle tentou me segurar de novo, mas não conseguiu. A força escapou de sua mão, e seu corpo desabou.
— Ugh…
Com um gemido, Asgyle tentou se levantar, mas era impossível. Abracei-o e derramei meus feromônios sobre ele. Sua respiração pareceu ficar mais ofegante e depois se acalmou.
Depois de receber uma quantidade excessiva de feromônios em pouco tempo, ele entrou no cio e logo caiu num sono profundo. Fiquei abraçado a ele por um tempo e depois me afastei com cuidado. Asgyle não acordou. Olhei para o rosto dele e acariciei sua bochecha com delicadeza. Minha mão ficou molhada com as lágrimas que ainda não tinham secado.
Pronto. Acabou.
Afastei a mão do rosto dele, levantei-me devagar e saí da cama. Vesti as roupas que tinha separado e fui dando um passo de cada vez, me afastando dele. Era, de verdade, a última vez.
Por que você veio até aqui?
De repente, a pergunta que Asgyle me fizera um dia voltou a ecoar em meus ouvidos.
O que você quer?
Repeti a pergunta para mim mesmo, e os pensamentos foram voltando devagar.
Eu só…
Sentindo um leve cheiro de areia, pensei. Eu só queria ver você.
O calor do deserto, subindo como névoa, se dispersou ao longe como poeira. De repente, pisquei.
Por que você me deixou; se ainda me amava; se sentiu minha falta, nem que fosse por um instante; se, talvez, só talvez, mesmo agora, você ainda seria capaz de morrer comigo.
Eu só queria saber.
Assim que saí para o corredor, um vento quente soprou contra mim, como se quisesse me empurrar de volta. Segui em frente, devagar. Deixando aquele homem para trás, com uma dor aguda me atravessando as costas, fui me afastando dele.
Agora está tudo terminado.
Pensei. Vi que você está vivo, soube que está seguro e entendi por que me deixou.
Fechei e abri os olhos devagar. Não foi por ter perdido a memória, nem por ter me esquecido, nem por ter muito mais coisas, coisas mais importantes a proteger — não foi por nenhum desses motivos.
Você me deixou simplesmente porque já não me ama. Agora eu sei.
Foi porque o você que me amava já não existe.
De repente, um sorriso vazio surgiu em meus lábios e logo desapareceu.
Então eu tenho que ir.
Agora não existe mais ninguém que morreria comigo.
— Yohan!
O Steward, que já me esperava, acenou.
Ele já tinha colocado toda a bagagem no carro e abriu a porta do passageiro para mim quando saí do palácio.
— Desculpe a demora, Steward.
Quando o cumprimentei, ele negou com a cabeça.
— Acabei de terminar de arrumar tudo. Chegou na hora certa.
Assim que me sentei, rindo, ouvi um miado familiar.
— Rical!
Eu estava com medo de que ele tivesse me esquecido; quando me virei e vi o gato ronronando, meu nariz ardeu.
— Obrigado por me esperar.
— Vamos, para o aeroporto.
Disse o Steward, sentado ao volante. Afivelei o cinto depressa e olhei para trás: havia uma caixa de transporte grande.
Devia ser a mãe com os filhotes.
— Achei que a caixa ficaria pequena se o Rical também fosse lá dentro, então o deixei solto. Ainda bem que ele obedeceu.
— Sim.
Era como se ele soubesse que eu viria. Mesmo achando impossível, abracei o Rical com alegria. Enquanto saíamos do palácio pelo grande jardim, o Steward falava sobre a viagem e a quarentena dos gatos. Eu tentava prestar atenção, mas minha mente insistia em se desviar. Uma voz que me chamava enchia meus ouvidos.
— Yohan.
Talvez fosse amor.
— Yohan.
Mas agora tudo tinha acabado.
— Yohan.
Fechei os olhos. Um nó quente subiu pela garganta, mas nenhuma lágrima caiu.
Já não existe Camar.
Logo o carro passou pelo portão principal e deixou o palácio para trás.
Adeus, meu príncipe.
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør