Capítulo 204

Capítulo 204
Nem ela nem eu dissemos nada. Só o silêncio continuou. Depois, Meisa suspirou e falou, com o rosto sombrio:
— Desculpe, Yohan, por falar assim.
Eu devia dizer que estava tudo bem, mas as palavras não saíram. Meisa, que me observava, continuou como se tivesse tomado uma decisão:
— Agora, todos os dias há alvoroço por toda parte. As reuniões não acabam, e há muita discussão. Vai ser muito difícil, mas você precisa aceitar, Yohan. Neste país, não há o que fazer.
— …Sim.
Assenti com força. Não havia o que fazer. Se eu queria ficar ao lado de Asgyle… Ela disse, tentando me consolar:
— Mesmo assim, Sua Alteza está se esforçando muito para mudar as coisas. Mesmo que agora seja difícil, vai melhorar. Não dá para mudar tudo de uma vez.
Meisa continuou dizendo alguma coisa, mas eu não conseguia ouvir direito. Quando ela fez uma pausa, abri a boca.
— …É porque eu sou ômega que os militares reagem tanto?
Meisa não respondeu de imediato. Antes que ela abrisse a boca e emitisse um som, eu já tinha um pressentimento.
— Sim.
Diante da resposta, que saiu como um suspiro, não disse nada.
***
— Yohan!
Quando saí da sala de exames e voltava para o quarto, encontrei Asgyle no corredor; ele veio depressa até mim e me abraçou.
— O que houve? Onde você estava? Procurei você por toda parte.
Fechei os olhos, inalando o aroma doce que me envolvia. Minha cabeça estava cheia das palavras de Meisa.
— …Yohan, o que foi?
Como não respondi, Asgyle, sentindo algo estranho, perguntou de novo. Respondi apenas em voz baixa:
— Estou um pouco cansado.
— É? Quer que eu te dê banho?
— Quero — respondi, assentindo de leve desta vez. Talvez ele estivesse brincando, porque pareceu surpreso por um momento, mas logo sorriu e me pegou no colo.
Sentado em seu braço, como já era natural, apoiei-me em seu ombro e olhei para o alto. Eu já tinha colhido frutas assim antes, no oásis.
Agora não é mais preciso. Frutas ou o que for, basta pedir. Nada me faltava, mas meu coração estava vazio.
— Quando vai ser a coroação?
Quando perguntei, sentado quietinho, Asgyle, que fazia espuma esfregando o sabonete em minhas costas, respondeu:
— O mais cedo possível.
— Quando?
— Conforme o planejado.
— Feche os olhos — ele disse e, assim que fechei, começou a ensaboar meu cabelo e massageá-lo com delicadeza. Enquanto Asgyle lavava meu cabelo, fiquei em silêncio. Depois de me lavar inteiro, Asgyle me vestiu com um roupão, me acomodou num banco ao lado e começou a se lavar. A cicatriz em um dos ombros se destacava.
Se alguém descobrisse, ele não poderia herdar o trono.
Asgyle nunca tinha mostrado a área ferida na minha frente antes de recuperar as memórias. O motivo de agora mostrar o corpo nu tão à vontade devia ser que eu já conhecia as cicatrizes e ele confiava que eu não contaria a ninguém. Observei em silêncio Asgyle terminar o banho.
Voltei ao quarto do mesmo jeito, no colo de Asgyle, e o jantar já estava pronto. Depois de comer o que ele me deu na boca e de nos deitarmos juntos na cama, Asgyle me abraçou. Antes que o beijo se prolongasse, afastei os lábios e perguntei:
— …Como aconteceu?
— O quê?
— A perda de memória.
Sussurrei baixinho, como se alguém pudesse ouvir.
— Ah — respondeu Asgyle, entendendo.
— Fui caçar e caí numa armadilha. O rei tentou me matar simulando um acidente. Veio uma tempestade de areia e consegui escapar, mas os ferimentos eram tão graves que desmaiei e, depois, perdi a memória.
— Entendi…
— Tive sorte de encontrar você.
Asgyle sorriu e beijou a ponta do meu nariz. Eu também ri, mas parei quando a mão que acariciava meu corpo tocou minhas costas. Asgyle ficou imóvel por um momento e sussurrou:
— Vou encontrar um hospital que consiga tirar essas cicatrizes.
— Está bem.
Assenti.
— Vou fazer todo o possível para que você não sofra mais e para que ninguém o machuque.
— Está bem.
Assenti de novo, devagar. Ao ver a expressão de Asgyle escurecer, sorri de propósito.
— Eu confio em você, Camar. Você vai conseguir.
Naquele momento, a expressão de Asgyle se suavizou, e ele beijou meus lábios. Abraçou-me de novo e suspirou acima da minha cabeça. Perguntei baixinho, com a cabeça apoiada em seu peito:
— E a Princesa Najima… o que vai ser dela?
— Não sei.
Asgyle respondeu sem rodeios.
— Eu disse que atenderia a qualquer pedido dela, mas ela ainda não disse nada.
— Entendi — sussurrei.
— Yohan.
Asgyle chamou meu nome. Quando respondi, ele falou com a voz cheia de entusiasmo, como antes:
— Depois da coroação, vamos fazer um casamento formal. Desta vez, vou preparar tudo direito.
E a Princesa Najima?
A pergunta chegou à ponta da língua, mas consegui engoli-la. Em vez disso, perguntei outra coisa.
— Você pode fazer isso?
— Posso. E vou devolver os bens da sua família; você vai herdá-los oficialmente.
Surpreso com as palavras inesperadas, olhei para ele sem querer. Quando nossos olhos se encontraram, Asgyle sorriu, como se esperasse essa reação. Mas eu não conseguia acreditar totalmente.
— Mas eu sou ômega…
— Vou mudar a lei.
Asgyle disse, sem hesitar.
— Vou dar direitos aos ômegas. O direito de fazer qualquer coisa, sem discriminação, como todos os outros.
Era inacreditável. Abri a boca, mas as palavras não saíam com facilidade.
— Então…
Minha voz falhou; tossi depressa e mal consegui perguntar:
— …Então eu posso ficar aqui?
Asgyle riu. Encostou a testa na minha e sussurrou com doçura:
— Fique ao meu lado. Para sempre, para sempre.
Achei que ia chorar de novo, então fechei os olhos. Os lábios de Asgyle pousaram em minhas pálpebras fechadas, e respirei com dificuldade, tremendo.
— …Se eu ficar, você vai ficar bem?
Quando perguntei baixinho, Asgyle respondeu sem hesitar:
— Sem você, não consigo fazer nada.
— Você tem muitas coisas que quer fazer?
— Tenho.
Asgyle continuou:
— Felizmente, a guerra civil acabou mais cedo do que o esperado, mas não podemos ignorar as pessoas que foram prejudicadas. Por elas, precisamos reorganizar o sistema e criar várias alternativas. E, enquanto Sua Majestade, o Rei, esteve fora de si, surgiram muitos problemas por toda parte. Temos que corrigir isso e dar direitos às mulheres. Também vamos construir escolas para as tribos do deserto. E precisamos de mais hospitais.
Ele continuou falando sobre o futuro do país. Seus olhos roxos brilhavam mais do que nunca, e a expressão estava cheia de esperança.
Eu já tinha visto aquele rosto tão radiante? pensei, distraído.
— Há tanto trabalho a fazer…
— Sim.
Asgyle assentiu.
— Sou da família real e vou ser rei. Tenho que cumprir meu dever.
A resposta era tão óbvia que não tive o que dizer. Apenas murmurei que sim.
Mesmo sentindo o calor do corpo de Asgyle, ele parecia distante demais.
Fingi dormir de propósito e respirei fundo, e Asgyle apenas me abraçou por um tempo. Depois de um bom tempo, quando ouvi sua respiração regular, abri os olhos devagar e me ergui. Asgyle tinha adormecido. Fiquei olhando para ele, mergulhado num sono profundo, inacreditável para um homem que sofria de insônia.
— Eu te amo, Camar.
Sussurrei baixinho, mas Asgyle não respondeu. Como eu esperava. Sorri com amargura, e então o sorriso se desfez.
Queria que você não fosse o príncipe herdeiro.
O sussurro se dissipou. A longa noite passou em silêncio.
***
Acordei com um farfalhar. Vi as costas de Asgyle, que se vestia, e continuei deitado, piscando. Asgyle se movia em silêncio, como se não quisesse me acordar. O cabelo ainda estava úmido; ele já devia ter tomado banho. Fiquei só observando seus movimentos lentos enquanto ele vestia as roupas que o criado tinha preparado na véspera. Sem perceber que eu o olhava, Asgyle vestiu a kandura e, por fim, pegou a capa e o agal para a cabeça.
Quando terminou de se arrumar, Asgyle encontrou meus olhos. Ao ver seus olhos surpresos, ri, brincalhão.
Logo, Asgyle sorriu, veio até mim e beijou meus lábios, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Quando acordou?
— Agora há pouco, antes de você começar a se vestir.
— Ah, é?
Asgyle exclamou, com pesar:
— Queria ter percebido antes.
— E o que você teria feito?
Quando perguntei de propósito, com malícia, Asgyle também sorriu com malícia.
— O que eu mais queria fazer ontem e não fiz.
Dito isso, colou os lábios nos meus. Uma língua grossa deslizou entre meus lábios entreabertos. Fechei os olhos e envolvi seu pescoço com os braços. Os braços fortes de Asgyle me seguraram firme, e o beijo se aprofundou. Correspondi com vontade e colei meu corpo ao dele. Senti suas carícias nas nádegas através do tecido fino. Se Asgyle quisesse, eu abriria as pernas de bom grado. Como sempre, daria tudo o que ele quisesse. A única coisa que eu podia dar a Asgyle era este corpo.
— Haa…
Mas, no último instante, Asgyle interrompeu o beijo. Ofegante, ergui os olhos e vi seus lábios molhados. Ele franziu as sobrancelhas e praguejou baixinho.
— Tenho que ir.
— Sim.
Assenti, contendo a vontade de me agarrar a ele. Asgyle roubou meus lábios depressa mais uma vez e acrescentou:
— Hoje à noite, então. Prepare-se, porque vou fazer tudo o que não fiz ontem.
Respondi com um sorriso:
— Vou esperar.
— Haa…
Asgyle suspirou, frustrado, cobriu minha bochecha, meus lábios, meu nariz e meu pescoço de beijos e, por fim, me soltou. Depois de fechar e abrir o punho várias vezes, virou-se de uma vez e saiu sem olhar para trás, como se fugisse de mim. Sozinho, fiquei um tempo na cama, depois chamei um criado, tomei um café da manhã rápido e fui ver Meisa.
Surpresa com as visitas seguidas, ela ouviu meu pedido, surpreendeu-se de novo, mas acabou concordando.
— Não é tão difícil. Tudo bem, eu faço.
— Obrigado.
Depois de agradecer, acrescentei:
— Muito obrigado, Meisa. Nunca vou esquecer.
— Parece até que você vai para muito longe, Yohan.
Diante da brincadeira de Meisa, apenas sorri e saí da clínica. O próximo lugar aonde fui foi o laboratório do Steward.
— Yohan! Que surpresa.
O Steward também me recebeu com o rosto surpreso, mas logo ficou contente. Restavam poucas coisas no laboratório onde eu tinha passado tanto tempo.
— Está se preparando para partir?
Quando perguntei, olhando para a grande mala no meio da sala, o Steward assentiu.
— Eu ia justamente me despedir de você. Eu te contei antes: tenho uns assuntos urgentes. Por sorte, o Shepard aceitou emprestar o avião. Parto amanhã cedinho.
— Entendo…
Desviei os olhos da mala e olhei para o Steward.
— Posso lhe pedir um favor?
— Se houver algo que eu possa fazer, é só dizer.
Embora surpreso, ele respondeu na hora. Agradeci e disse:
— Obrigado. Na verdade, combinei de buscar hoje à tarde o Rical e os outros gatos de que a Meisa estava cuidando. Eles podem ficar aqui no laboratório por um tempo?
— Tudo bem, Yohan. Como parto amanhã cedo, vai ser por menos de um dia. Tem certeza?
— Sim.
Assenti.
— E tenho mais um favor a pedir, Steward.
***
— Yohan? Como…?
Quando Najima me viu entrar na sala, pareceu surpresa e não conseguiu terminar a frase. Ela desviou os olhos do livro aberto sobre a mesa e me olhou; curvei a cabeça numa reverência.
— Perdoe-me por vir cumprimentá-la só agora. Queria vê-la, mas não consegui vir antes.
— Não, Yohan. Está tudo bem. Eu…
Ela murmurou e se calou. Havia entre nós uma atmosfera que eu nunca tinha sentido.
Comecei pelas palavras que tinha preparado.
— Quero lhe pedir desculpas, Princesa. …O senhor Zakriya morreu por minha causa.
— Não, não. Foi Sua Majestade, o Rei, quem fez aquilo.
Najima negou com a cabeça, com amargura.
— E eu também fui dura com você.
— Porque eu não lhe contei quais eram meus planos.
Falei com respeito.
— Se tudo tivesse saído conforme o plano, eu mesmo teria matado o senhor Zakriya. Sinto muito por não ter podido lhe contar. O pai da princesa… eu…
Desta vez, fui eu que não consegui continuar. Depois de um tempo em silêncio, Najima abriu a boca devagar.
— Se não fosse por você, um dia eu teria morrido nas mãos do meu pai. Ou teria sido eu a matá-lo?
Um sorriso vazio passou por seu belo rosto. Por um tempo, não dissemos nada. Uma brisa fresca entrou pela janela e acariciou nossas faces.
— …E agora, o que a princesa vai fazer?
— Bem, ainda não sei.
Ela deu uma resposta vaga. Imaginei que fosse verdade. Depois de um tempo, ela continuou, num tom casual:
— O Príncipe Herdeiro parece ter muito trabalho pela frente. É natural.
— …A princesa tem algum desejo?
— Como não?
Quando perguntei com cuidado, ela respondeu sem hesitar.
— Tenho muitos. Na verdade, estudei na Inglaterra na mesma época que o Príncipe Herdeiro. Lá, me formei em arquitetura.
— Arquitetura?
— Sim.
Como se minha expressão fosse engraçada, Najima soltou uma risada agradável.
— Pensei muito em como desenvolver o deserto, em que tipo de construção seria útil para as pessoas que vivem lá, e conversava sobre isso com meus amigos. Ah, era tão divertido naquela época.
Depois de um momento perdida nas lembranças, ela deu de ombros.
— Mas de que adianta? Aqui, sendo mulher, não há nada que eu possa fazer.
— …Sua Alteza vai ouvir com atenção a sua opinião.
— Talvez.
Najima disse, brincando com a xícara de chá, que já tinha esfriado.
— Nesse sentido, Sua Alteza, o Príncipe Herdeiro, e eu poderíamos ser bons parceiros.
O vento soprou de novo. Desta vez, parecia um vento diferente do de antes.
Abri a boca e disse as palavras que tinha preparado.
— Muito obrigado, Princesa. A senhora foi uma das poucas pessoas que foram gentis comigo neste palácio.
Najima sorriu e negou com a cabeça. Inclinei a cabeça e acrescentei, baixinho:
— Tudo será como a princesa deseja.
Najima me olhou, perplexa. Eu apenas sorri.
— Tudo vai se realizar.
***
Saí do quarto da princesa e andei devagar pelo corredor. Tudo estava em silêncio; só se ouvia, de vez em quando, o farfalhar das folhas ao vento. Enquanto caminhava, fui me lembrando do passado, uma coisa de cada vez. Eu tinha chorado muito mais, mas as lembranças felizes ficaram ainda mais marcadas no meu coração. As pessoas que foram gentis comigo, a bondade que me deram, o calor que senti — tudo voltou, um por um.
Já as coisas dolorosas foram ficando apagadas, e só restaram lembranças vagas. Pensei que a memória humana é mesmo uma coisa estranha.
Ah…
Enquanto eu caminhava para onde os pés me levavam, meu olhar se deteve na paisagem que surgiu de repente diante de mim.
Meus passos foram diminuindo e, por fim, um jardim luminoso se abriu à minha frente. A fonte que espalhava jatos de água fresca não tinha mudado desde aquele dia.
Exceto pela luz do sol, que caía em torrentes.
Caminhei devagar e parei onde ele estivera naquela noite.
O que ele estaria olhando naquela hora? Eu não sabia na época e não sei agora. Provavelmente nunca vou saber. O sol ofuscava meus olhos, mas fiquei ali, sem me mover, no vento misturado às gotas d’água.
Talvez eu nunca esqueça aquele dia.
Pensei. Mesmo assim, espero que ele nunca mais fique aqui com um olhar tão desolado. Que todos os seus desejos se realizem, radiantes como o sol. Que ele não perca nada.
Então, seja feliz.
Fiquei ali por muito tempo, desejando isso, desejando, desejando e desejando de novo.
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør