Capítulo 203

Capítulo 203
Passou um silêncio gelado. Ninguém disse nada. Eu estava envergonhado e com medo ao mesmo tempo, paralisado. Um dos homens que me viram assim disse ao que saíra primeiro:
— Primeiro-Ministro, por favor, vamos.
O Primeiro-Ministro me olhou mais uma vez e se virou. Assim que suspirei de alívio, ouvi uma voz áspera.
— Um ômega como rainha. Isso é um absurdo.
Por um momento, fiquei chocado e voltei a enrijecer. Ele falava como se fosse consigo mesmo, mas alto o bastante para qualquer um ouvir. Inclusive eu.
Os homens seguiram o Primeiro-Ministro e se afastaram em grupo. Fiquei para trás com os criados, apenas olhando suas costas.
— Vo-Vossa Alteza…
Voltei a mim com a voz cautelosa do criado. Quando virei a cabeça, eles me olhavam com expressões ansiosas. Pareciam com medo de sobrar para eles. Forcei um sorriso e perguntei, como quem não quer nada:
— Vim ver o Príncipe Herdeiro. Ele já saiu?
— Sim, Vossa Alteza. Saiu pouco antes de o senhor chegar.
O criado respondeu de imediato, me olhou e acrescentou:
— Não sei para onde foi. Perdão.
— Ah, sim. Tudo bem. Obrigado.
Falei no tom mais leve possível, para não deixá-los nervosos, e me virei. Sentia os olhares na nuca, mas fingi não perceber.
Não precisava confirmar só para me machucar.
Só depois de virar o corredor e ficar completamente sozinho soltei o ar. Parei e me encostei na parede.
O Primeiro-Ministro devia ter planejado fazer da filha a rainha, então, claro, não gostava de mim.
Ouvi dizer que Shadia tinha voltado para a Itália. Quando lembrei do quanto ela olhava para Asgyle, apaixonada, até achei que a reação do Primeiro-Ministro era inevitável.
É natural que me odeie.
…É tão natural.
Pensando assim, eu deveria me sentir melhor, mas não me sentia. Não sabia dizer se era culpa ou outra coisa, e pisquei, perdido. Não posso ficar parado aqui, mas também não sei para onde ir.
Depois de ficar parado um tempo, me mexi a custo, lembrando que precisava ver a Meisa.
Será que ela trouxe o Rical? Ela prometeu, não foi? Talvez tenha vindo e voltado porque eu estava dormindo. Ainda não pedi o quarto a Asgyle… Preciso pedir à senhorita Meisa que cuide dele por mais um dia…
Cheguei à sala de exames cheio de pensamentos, mas hesitei diante da porta. Não tive coragem, lembrando do que a enfermeira dissera no dia anterior. Parado no corredor, erguendo a mão para bater e baixando de novo, várias vezes, achei ter ouvido um som lá dentro, e a porta se abriu de repente.
— Ah!
— Ah!
Gritei, recuando um passo quase ao mesmo tempo, e Meisa, que saía da sala, me encarou de olhos arregalados. Foi ela quem falou primeiro.
— Yohan, quando chegou? Por que não entrou?
— Meisa…
Mal tendo acalmado o coração acelerado, segui-a para dentro da sala de exames.
Encolhido, olhei ao redor, mas não havia mais ninguém.
— Parece que você estava de saída. Desculpe.
Pedi desculpas, mas, por outro lado, fiquei aliviado por não haver mais ninguém.
Meisa, sorrindo como sempre, me ofereceu uma cadeira.
— Tudo bem. Aliás, fui ver você de manhã, mas me disseram que estava dormindo.
— Sim…
Enquanto eu pensava que devia me desculpar por isso também, Meisa falou depressa:
— Desculpe, Yohan. Tentei trazer o Rical, mas ele se enfiou debaixo da cama com os filhotes e não houve jeito. Trago amanhã. Eu devia ter me organizado ontem.
— Não, Meisa. Tudo bem.
Respondi depressa a ela, que se desculpava sem parar. Só o fato de cuidar do Rical e dos outros gatos já era motivo de gratidão.
— Na verdade, ainda não pedi a Sua Alteza um quarto para ele, e vim justamente perguntar se você poderia ficar com ele mais um dia. Até fico aliviado que não tenha conseguido trazê-lo hoje. Você poderia… me avisar primeiro, quando o quarto estiver pronto, e só depois levá-lo até os aposentos de Sua Alteza? Se ainda não estiver pronto…
Seria um problema se o Rical avançasse em Asgyle de novo. Era melhor preparar tudo para que os dois se aproximassem aos poucos. Meisa assentiu, como se tivesse entendido minhas intenções.
— Está bem, farei isso.
— Desculpe por incomodar tanto.
— Imagine. Quanto mais tempo com os gatinhos, melhor.
Meisa sorriu, disse “Ah!”, levantou-se e voltou com um envelope.
— São os resultados dos exames. No geral, está tudo bem. Seus olhos não estão mal, mas ainda estão sensíveis à luz, então, por enquanto, recomendo cuidado.
— Obrigado.
Depois que recebi o envelope, houve um silêncio estranho. Eu devia me despedir e ir embora, mas, por algum motivo, as palavras não saíam. Enquanto eu ganhava tempo mexendo no envelope, Meisa perguntou:
— Quer me dizer mais alguma coisa, Yohan?
— Hã?
Quando ergui a cabeça, surpreso, ela me olhava com a gentileza de sempre.
— Pode falar, Yohan. O que aconteceu?
Senti meu coração congelado derreter devagar com aquela voz carinhosa, a primeira que eu ouvia naquele dia. Abri a boca e pigarreei depressa. Meisa esperou em silêncio que eu falasse.
— Eu…
Mal consegui me acalmar e abrir a boca, mas minha voz tremia um pouco. Olhei para Meisa e falei com dificuldade:
— Eu… posso ficar aqui?
Meisa pareceu surpresa com a pergunta.
— Por que está dizendo isso?
Vendo-a claramente perplexa, falei olhando para baixo:
— Acho que… eu não combino com este lugar.
— …
Meisa ficou em silêncio por um momento. Naquele silêncio estranho, eu não sabia o que ela estava pensando.
— Yohan, você ouviu alguma coisa de alguém?
Diante da voz preocupada, não soube o que dizer. Ao me ver incapaz de responder, Meisa continuou:
— Está tudo bem, Yohan. Seja sincero comigo. Assim posso conversar com você.
— É que…
Abri a boca com dificuldade. Era preciso outro tipo de coragem para contar a verdade.
— Na verdade, ontem eu ouvi você e a enfermeira conversando.
Por um instante, Meisa se sobressaltou visivelmente. A perplexidade em seu rosto era evidente, e eu também fiquei sem graça. Enquanto eu me arrependia de ter dito algo desnecessário, Meisa soltou um suspiro profundo.
— Não tenho o que dizer, Yohan. Vou ter uma conversa séria com ela.
— Peço desculpas no lugar dela. Ela não devia ter dito aquilo. Me desculpe.
— Não, está tudo bem. De verdade.
Neguei com a cabeça, apressado. Não queria ouvi-la se desculpar.
— Está tudo bem mesmo. …E é verdade que me sinto em dívida com a Princesa Najima. Ela foi muito gentil comigo.
— …
Um silêncio estranho se seguiu. Sentindo algo esquisito, pisquei, e Meisa abriu a boca depois de um suspiro.
— Yohan, vou ser franca. Por enquanto, você não tem motivo para se sentir culpado em relação à Princesa Najima.
— Como? O que quer dizer?
Perguntei sem pensar. Meisa respondeu com franqueza, embora mostrasse claramente algum desconforto.
— Na verdade, o Príncipe Herdeiro não tem controle total das forças armadas. Ainda há tropas leais ao falecido rei e as unidades de mercenários que o senhor Zakriya trouxe. Como o senhor Zakriya e Sua Majestade, o Rei, morreram de repente, eles ficaram sem alternativa e, por enquanto, estão quietos, mas há muita insatisfação. Manter essa gente sob controle é um dos deveres do Príncipe Herdeiro. Não, talvez seja o mais importante. Se não conseguirmos, haverá rebelião e outra guerra civil.
Ela esfregou a testa, como se doesse. Fiquei imóvel, os olhos indo de um lado para o outro. Pensando bem, Asgyle continuava em reuniões e parecia muito ocupado. Será que tinha a ver com isso?
— A posição dos ministros, incluindo o Primeiro-Ministro, também é importante. Enfim, é complicado. Temos muito trabalho pela frente.
— Eu… não fazia ideia.
Enquanto eu murmurava, surpreso, Meisa assentiu.
— É natural. O Príncipe Herdeiro não iria contar essas coisas a você.
— Sim…
Baixei a cabeça.
— Eu não sirvo para nada…
— Não, Yohan. Eu não quis dizer isso.
Meisa negou, apressada. Mesmo assim, havia um traço de preocupação em sua expressão, que não me escapou.
— Não é isso. Provavelmente ele só não quer te preocupar. Pode acreditar, tenho certeza.
— Sim, eu acredito.
Assenti devagar e perguntei, com cautela:
— Então por que você disse que eu não preciso me sentir culpado em relação à Princesa Najima…?
O que isso tinha a ver com o que ela acabara de dizer?
Enquanto eu a olhava, ansioso, Meisa soltou um suspiro breve antes de continuar.
— Enfim, numa situação dessas, dizem que o Príncipe Herdeiro precisa de uma carta para acalmar os militares e os mercenários. Algo que satisfaça os dois lados.
Um canto do meu coração esfriou. Como se lesse isso em meu rosto, Meisa assentiu, tensa.
— O Príncipe Herdeiro vai tomar a Princesa Najima como esposa e ter com ela o primeiro filho. Assim, a linhagem real será mantida, a família do senhor Zakriya ganhará prestígio, e todos ficarão satisfeitos.
Naquele momento, minha mente ficou em branco.
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør