Capítulo 201

Capítulo 201
Por um tempo, não consegui dizer nada. Ou não me vinha palavra alguma, ou vinham palavras demais. Ergui os olhos, arregalados, e o homem franziu a testa e xingou.
— Seu idiota, não vai me soltar? O que pensa que está fazendo?
— Você…
Ele tentou se soltar com violência, mas apertei ainda mais e não larguei o homem. O rosto dele se fechou, e ele ergueu a mão enorme para me bater.
— Me solte, seu…
— Meu pai.
Falamos quase ao mesmo tempo. O homem parou, e eu continuei.
— Meu pai salvou você uma vez… Há muito tempo, quando você quase foi atropelado por um carro.
O homem me olhou, ainda com a mão erguida. Franziu a testa, como se tentasse lembrar. Abri a boca de novo, tomado por um sentimento confuso de saudade, emoção e alegria.
— Faz muito tempo. Não se lembra? Meu pai foi atropelado no seu lugar.
— …
A cena daquele dia voltou, e meu nariz ardeu. Engoli em seco e mal consegui falar.
— Você está vivo. Tão saudável, tão vivo. O homem que meu pai salvou.
Comecei a soluçar, e uma voz fria veio de cima de mim.
— E daí?
— …?
Enxuguei as lágrimas e ergui a cabeça; o homem me olhava com raiva. Falou com aspereza, diante da minha reação inesperada.
— Está esperando alguma coisa em troca? É isso?
— Ah…
Fiquei atordoado com aquela reação. Esperar algo em troca? De jeito nenhum. Mas a reação dele também era inesperada. O homem continuou me atacando.
— Isso foi sabe-se lá quando, e você vem atrás de mim para dizer uma coisa dessas? Quer arrancar dinheiro de mim? É isso? Hein?
Pisquei, atônito. As lágrimas já tinham parado.
— Não é isso… Eu só estou feliz.
— Feliz? Com o quê? Porque eu estou vivo? E daí? O que você quer ouvir?
A voz dele foi ficando cada vez mais alta. Eu não entendia aquela reação. Mas o que mais me desconcertou foi perceber que o homem não tinha a menor gratidão pelo meu pai.
— Meu pai morreu naquele dia.
Tentei manter a calma, mas minha voz tremia sem controle. Prendi a respiração e continuei:
— Ele foi atropelado e morreu naquele dia, no seu lugar.
Eu acreditava que aquele homem, salvo pelo meu pai, estava vivendo bem em algum lugar. Era isso que me consolava: por mais difícil e dolorosa que tivesse sido, a morte do meu pai tinha um sentido.
— Quem pediu para salvarem a minha vida?
O homem gritou, implacável. Enquanto eu ficava paralisado, ele cuspiu as palavras:
— Eu queria morrer! Naquele dia, achei que ia morrer e me joguei, mas o desgraçado do seu pai estragou tudo! Por isso ainda estou vivo, morrendo aos poucos. E daí? Graças ao seu pai, estou vivendo deste jeito, então tenho que agradecer? Ele morreu no meu lugar? Parabéns! Por que ele foi se meter na vida dos outros? Por que me salvou, por quê?
O homem despejou tudo em cima de mim, uma vez atrás da outra. Ressentimento contra o meu pai, que o salvara.
Não consegui dizer uma palavra.
— …Yohan!
Fiquei parado até que alguém chamou meu nome. Quando ergui os olhos, atônito, Asgyle segurava meu ombro e me olhava.
Quando virei a cabeça de novo, o homem já tinha desaparecido. Asgyle, que me encontrara sozinho no meio da multidão, continuou:
— O que houve? Levei um susto quando você saiu correndo. Sabe como é fácil se perder aqui…
— …
— Yohan?
Sentindo que havia algo errado, Asgyle chamou meu nome de novo.
Aos poucos, enquanto eu recuperava os sentidos, as palavras do homem foram entrando em meu coração, uma por uma.
Ele guarda rancor do meu pai.
Por que o salvou, por que não o deixou ir quando ele queria morrer, se ele odiava estar vivo.
O homem que queria morrer está vivo, e meu pai se foi.
Num instante, as lágrimas vieram. Eu não conseguia nem enxugar as lágrimas que escorriam e soluçava. Asgyle, chocado, me abraçou depressa, mas as lágrimas não paravam.
Então.
Então por que meu pai morreu?
— Ugh…
Enterrei o rosto no peito de Asgyle e chorei.
***
— Hic, hic…
Chorei e chorei até ficar exausto. Asgyle me deu um copo d’água enquanto eu soluçava e lutava para respirar. Eu não conseguia nem mexer os dedos, então bebi em silêncio o que ele me dava. Quando terminei de beber aos poucos e fechei a boca, Asgyle pousou o copo e me abraçou com força com os dois braços, como antes.
Ele me manteve nos braços o tempo todo enquanto eu chorava e não me soltou. No começo, perguntou o que tinha acontecido, mas, como eu continuava chorando, parou de perguntar e apenas me segurou e esperou. Só de vez em quando me dava água ou batia de leve em minhas costas. Quando parei de chorar, porque já não tinha forças nem para isso, Asgyle chamou um criado e mandou trazer água morna e uma toalha. Depois, molhou a toalha e limpou meu rosto com cuidado.
— Já chorou tudo o que tinha para chorar?
Assenti de leve à pergunta suave.
— Quer tomar banho?
Desta vez, neguei com a cabeça. Não tinha energia para entrar na banheira quente. Só queria descansar. Depois de limpar meu rosto, Asgyle beijou minha cabeça e perguntou de novo:
— Que tal uma sopa? Você nem jantou.
Desta vez, fiquei em silêncio. Asgyle pensou um pouco e, em vez de toalhas e água, pediu sopa e pão. O pedido foi atendido na mesma hora.
— Vamos, coma.
Asgyle me segurou com um braço, pegou a sopa e a levou à minha boca. Entreabri os lábios, e a colher entrou depressa. O sabor suave e salgado aqueceu meu corpo. Toda vez que eu abria a boca, ele me dava mais sopa. Eu não precisei fazer nada.
Mas por que meu coração está tão vazio?
— Vai parar de comer?
Asgyle perguntou quando fechei a boca. Assenti. Asgyle pousou a tigela, ainda pela metade, e mandou o criado levá-la. Quando ficamos só nós dois de novo, ele perguntou, passando a mão em meu cabelo:
— Está mais calmo?
Assenti de novo, e ele beijou minha têmpora. Parecia ter muitas perguntas, mas também parecia disposto a esperar para sempre se eu não falasse primeiro. Então abri a boca para explicar do jeito mais simples possível.
— …Vi o homem que estava lá quando meu pai sofreu o acidente.
Só disse isso e senti que ia chorar de novo, então parei depressa. Senti Asgyle ficar imóvel. Depois de respirar fundo, consegui falar outra vez.
— Sem pensar, corri atrás dele e o segurei. E, quando disse que meu pai tinha morrido para salvá-lo, ele…
Meu nariz ardeu, e tive de recuperar o fôlego de novo. Soltei o ar devagar e disse:
— Disse que queria morrer, então por que o salvaram… Ele estava com raiva de quem o fez continuar vivendo.
O braço de Asgyle que me segurava ficou mais firme. Não consegui continuar e me calei. Asgyle, que ficou um tempo em silêncio, perguntou:
— E por isso você chorou?
A voz era calma, mas estava claro que ele estava contendo as emoções.
— Eu só pensei…
Murmurei, como num gemido.
— Então qual foi o sentido da morte do meu pai? Por que ele morreu?
— Quer que eu mate aquele homem?
— Não, não é isso.
Neguei, apressado.
— Não é isso.
Por mais que eu repetisse, a reação de Asgyle continuava fria.
— Diga. Se você quiser, faço qualquer coisa. Quer que eu o encontre e o mate? Ele mesmo disse que queria morrer, não disse?
— Não.
Eu estava chorando de novo.
— Não é isso, Asgyle.
Quando o chamei de Asgyle, ele pareceu surpreso. Mas, naquele momento, eu realmente não me importava com isso.
— Deixe-o em paz… Eu estou bem, estou bem.
Eu disse, enxugando as lágrimas com as costas da mão.
— É só que… está tudo bem, de verdade. Eu só… não sei.
Não havia palavras para expressar aquele sentimento. Nem a Asgyle eu conseguiria fazer entender. Senti-me mais sozinho do que nunca. Mas isso não era culpa de Asgyle.
Ele queria me consolar e fez tudo o que pôde, mas não conseguiu. Asgyle também soltou um suspiro profundo acima da minha cabeça, como se soubesse disso. Enxuguei as lágrimas de novo e solucei. Asgyle me abraçou com força e não se moveu até eu adormecer. Quando acordei por um instante de madrugada, ele continuava deitado, me abraçando. Assim que me mexi um pouco, Asgyle me apertou mais e deu tapinhas em minhas costas. Me aninhei ainda mais em seus braços.
Queria sentir seu calor só mais um pouco. A longa noite passou em paz.
·:*¨༺ ♱✮♱ ༻¨*:·
↫─☫ Continua…. //
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Jør