Capítulo 200

Capítulo 200
Tudo ao redor estava em silêncio. Eu não ouvia nem o farfalhar das folhas ao vento. A voz da enfermeira continuava vindo de dentro da sala de exames.
— Imagina, com a Princesa Najima aí, o ômega engravidar primeiro. Sua Alteza tem que se casar com a princesa primeiro e só depois ter filhos, no momento certo.
— Sua Alteza já tomou Yohan como primeira esposa quando era Príncipe Herdeiro.
Meisa retrucou com calma. A enfermeira respondeu como se já esperasse por isso.
— Mesmo assim, todo mundo comenta. Um ômega como primeira rainha? Isso é inadmissível.
Ela estalou a língua, indignada, e acrescentou:
— E ainda aquele “se houver algo que eu possa fazer, vou retribuir”. Não é óbvio demais?
Até agora se fazia de ingênuo, mas é só mudar de posição que a verdadeira natureza aparece.
Já está querendo usar o poder do Príncipe Herdeiro.
— Chega. Isso não é da nossa conta.
Meisa a cortou com bastante severidade. A enfermeira não disse mais nada, mas eu senti que já tinha ouvido tudo.
Quando dei por mim, estava andando pelo corredor. O sol já estava se pondo, então meus olhos não doíam tanto. Meus passos trôpegos foram ficando um pouco mais rápidos. Fui até o escritório dele. Eu tinha dito que esperaria no quarto, mas não consegui. Queria encontrá-lo o mais rápido possível.
— Vossa Alteza…
Quando o criado que guardava a entrada do escritório me viu, inclinou a cabeça depressa. Minha expressão não devia estar das melhores, mas não me importei. O criado continuou, com a voz impassível:
— O que o traz aqui? Sua Alteza está em reunião.
Então ele devia estar na sala de reuniões. Perguntei ao criado, impaciente:
— Onde fica a sala de reuniões? Por favor, me leve até lá.
— Ninguém pode entrar durante a reunião.
— Tudo bem, espero na porta. Não vou atrapalhar a reunião.
Por algum motivo, eu estava nervoso e insisti. Estava tão aflito que não aguentava. O criado não parecia muito disposto, mas, no fim, me conduziu pelo caminho que eu queria. Seus passos eram lentos. Meu coração tinha pressa, mas tentei conter a impaciência e caminhei atrás dele em silêncio.
Enquanto andávamos, vários criados passaram por nós e inclinaram a cabeça, mas eu mal os enxergava. Meu coração estava todo voltado para Camar.
Sinto sua falta, Camar.
Continuei andando, controlando os passos, que queriam ultrapassar o criado. A sala de reuniões parecia longe demais. Será por isso que não consigo encontrar o Camar logo?
Com esse pensamento, uma porta enorme surgiu à minha frente, e vi rostos conhecidos guardando-a. Quando avistei Dive, o chefe da equipe de segurança, soltei um suspiro de alívio sem querer. Ele estava sempre ao lado do Príncipe Herdeiro.
Asgyle com certeza está ali.
Dive, que dava instruções aos outros guarda-costas, me notou, parou e inclinou a cabeça.
— Vossa Alteza, o que faz aqui?
A voz educada e profissional me deixou constrangido por um momento, mas reuni coragem e murmurei:
— Eu… Sua Alteza, o Príncipe Herdeiro… Quero vê-lo.
Diante das minhas palavras hesitantes, Dive ergueu o rosto, olhou para mim e disse:
— Ele está em reunião.
— Eu sei. Espero até acabar…
Enquanto eu falava, a porta da sala de reuniões se abriu de repente. Dive recuou depressa, e eu virei a cabeça. No momento em que vi o homem alto que saiu primeiro, meu rosto se iluminou sozinho. Ele também me viu e pareceu surpreso.
— Yohan.
— Camar.
Quando corri até ele, chamando seu nome, ele estendeu os braços e me pegou no colo na mesma hora.
— O que aconteceu? Disseram que você ia esperar no quarto.
A voz de Camar era tão doce. Quando vi aquele sorriso doce dirigido a mim, a ansiedade que eu sentia desapareceu de repente, e a tensão em meus ombros se desfez.
— Só queria te ver…
De repente, minha garganta se fechou, e me calei. Ao ver o rosto de Camar, de repente tive vontade de chorar. Ao me ver assim, ele piscou.
— Yohan, o que foi? O que aconteceu?
— Ah, não. Nada.
Neguei depressa com a cabeça e abracei seu pescoço.
— Não é nada mesmo.
Eu só preciso do Camar. Pensando nisso, acalmei meu coração acelerado. Ele hesitou por um momento, depois me abraçou com força e continuou:
— O trabalho de hoje acabou. Vamos para o quarto.
— Sim.
Assenti, obediente. Enquanto ele caminhava comigo no colo, enterrei o rosto e abracei seu pescoço. Fui com Camar, ignorando os olhares das pessoas que saíam da sala de reuniões.
***
De volta ao quarto, Camar só me soltou quando chegamos à cama. Abri os olhos, que até então mantivera fechados, e olhei para ele.
— O que houve? Ouviu alguma coisa da Meisa?
Camar perguntou, encostando a testa na minha. Seu rosto estava cheio de preocupação e dúvida.
Já está querendo usar o poder do Príncipe Herdeiro.
As palavras da enfermeira me vieram de repente à mente, e neguei com a cabeça, apressado.
— Não, está tudo bem. Os resultados completos saem amanhã, mas, por enquanto, acho que não há motivo para preocupação.
Se eu contasse, Asgyle poderia punir Meisa sem hesitar. Só de pensar nisso, um arrepio me percorreu a espinha. Com certeza ele faria isso. Bastava eu querer…
— Mesmo assim.
Camar olhou para o meu corpo.
— Você pode ter um bebê, então precisa tomar cuidado.
Ao ouvir essas palavras, fiquei com sentimentos confusos. Fiquei envergonhado, triste e com um humor estranho.
— Não tem bebê.
Diante da declaração repentina, seu olhar voltou ao meu rosto. Repeti, com calma, as palavras de Meisa:
— Ela disse que não estou grávido. Então ainda não há bebê.
— É mesmo?
Achei que ele também ficaria decepcionado, mas me enganei. Asgyle de repente sorriu e me abraçou. Abraçando-o com cuidado, perguntei:
— É melhor eu não estar grávido?
— Sim — respondeu Asgyle.
— Você é pequeno e frágil demais.
Ele virou a cabeça para beijar minha bochecha e soltou uma risada curta.
— E eu quero você só para mim por mais um tempo.
Era verdade que ainda era cedo demais. Depois do funeral do rei, a coroação de Asgyle aconteceria em breve, e ele estava ocupado com o trabalho todos os dias.
— …Eu queria um bebê.
Quando murmurei baixinho, Asgyle ergueu a cabeça. Olhou para mim com calma e disse, como se me consolasse:
— Quando você estiver mais forte, teremos um bebê.
Eu apenas disse que sim.
Eu queria estar grávido.
Asgyle me beijou logo em seguida, mas meu coração ainda não estava satisfeito. Asgyle, que alternava beijos entre meus lábios e minhas bochechas, ergueu a cabeça e olhou para mim.
— Está triste por não estar grávido?
— Sim.
Respondi com sinceridade. Ele acariciou meu cabelo e pensou por um momento.
— Yohan, quer sair comigo?
— Para onde?
Ergui os olhos, surpreso, e Camar sorriu.
— Para fora.
— Para fora?
Ao me ver repetir suas palavras, ele riu alto.
***
Acompanhados apenas do chefe da equipe de segurança e de um número muito pequeno de assessores próximos, Asgyle me levou para fora do palácio. Sentado ao lado dele no banco de trás do carro, eu piscava, perplexo.
— Já está quase escuro. Seus olhos estão bem?
Asgyle perguntou, segurando meu ombro. Assenti. De fato, depois que a escuridão começou a cair, meus olhos ficaram muito mais confortáveis.
— Para onde estamos indo?
Asgyle não respondeu à minha pergunta diretamente.
— Por causa do luto por Sua Majestade, o Rei, todos os eventos foram proibidos no país inteiro. Mas há exceções. É um mercado de pulgas bem grande, no centro da cidade.
— Um mercado de pulgas?
— Sim. Vendem objetos usados que têm em casa ou coisas que eles mesmos fazem. Alguns vendem comida e frutas.
Eu já tinha ouvido falar de algo assim, mas era a primeira vez que via um. Logo o carro chegou ao destino.
Assim que desci do carro, depois de Asgyle, ele tentou me pegar no colo. Recuei depressa e recusei.
— Tudo bem, quero andar.
Asgyle franziu a testa por um momento, mas logo recompôs a expressão e concordou.
— Então segure meu braço. Se você se perder, vai ser um problemão.
Como ele disse, o mercado que se estendia diante de nós era enorme, e uma multidão ia e vinha. Estendi a mão para segurar seu braço, como ele pedira.
Um mero ômega.
De repente, lembrei do que Asgyle me dissera um dia, e isso me fez hesitar. Eu sabia que agora ele pensava diferente de antes. E eu estava escondendo meus feromônios, então ninguém saberia que eu era ômega. Mesmo assim, não tive coragem. No fim, hesitei e segurei Asgyle pela manga. Asgyle me olhou, perplexo, mas fingi não perceber, desviei o olhar e perguntei:
— O que é aquilo?
— Aquilo?
Por sorte, consegui desviar a atenção de Asgyle, e andamos lado a lado pela multidão. Foi revigorante sentir o ar fresco depois de tanto tempo. Só então percebi como o palácio era sufocante. O barulho ao redor me envolveu. Havia gente vendendo, pechinchando, brigando e rindo. Mas nada daquilo me incomodava. Alguém esbarrou em mim e eu cambaleei; Asgyle me puxou depressa para perto, mas eu disse que estava tudo bem.
Não me importava mesmo. Pelo contrário, eu me sentia vivo. Pensando bem, fazia tempo que meu coração não batia assim, tranquilo, e que eu não sorria com tanta naturalidade.
— Queria ter trazido uma tapeçaria para vender aqui.
Quando murmurei baixinho, Asgyle disse:
— Então traga da próxima vez.
— Sim.
Assenti, e ele perguntou:
— Não está com fome? Quer comer alguma coisa?
— Sim — assenti de novo. — Quero um suco de frutas.
Enquanto eu me lembrava de uma barraca que tinha visto no caminho, Asgyle também a notou e mandou Dive, que estava por perto, comprar um suco. Depois ordenou que os outros guarda-costas se afastassem e me levou para uma rua menos movimentada.
Luzes cintilavam diante dos meus olhos. Só de ver o ânimo das pessoas que passavam, meu coração se enchia. Logo me animei e esqueci o vazio que sentia antes. Olhando para mim, Asgyle perguntou:
— Está se sentindo melhor?
Virei a cabeça e olhei para ele. Asgyle estava tentando me animar de algum jeito. Só isso já me deixava feliz, e sorri.
— Sim, obrigado.
Então Asgyle abriu os braços e disse:
— Então me dê um beijo.
— Aqui?
Sem querer, minha voz saiu alta diante do pedido inesperado, e cobri a boca depressa. Asgyle se fez de desentendido e perguntou:
— Não pode?
— Claro que não! Aqui?
Foi quando olhei rapidamente ao redor.
Hã?
De repente, meus olhos se fixaram em um ponto. Não podia ser aquela pessoa. Eu não conseguia acreditar no homem em meio à multidão. Talvez fosse engano? Fazia tanto tempo… Mas minha mente já revivia os acontecimentos daquele dia com tanta nitidez como se tivessem sido ontem.
— Yohan, o que foi?
Asgyle perguntou, curioso. Ele também olhou na direção para onde eu olhava, mas não viu nada de estranho e voltou a olhar para mim. Claro. Nem eu conseguia acreditar nos meus olhos.
— Yohan?
Ouvi Asgyle me chamar. Mas eu já estava correndo. Rápido. Tenho que alcançar aquele homem. Tenho que confirmar.
…!
— …O quê?
Abri caminho pela multidão e agarrei o braço do homem, que se virou, assustado. No momento em que vi seu rosto diante de mim, tive certeza.
É aquele homem.
O homem que meu pai salvou arriscando a própria vida estava parado diante de mim.
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør