Capítulo 199

Capítulo 199
O que foi que eu acabei de ouvir?
Olhei para Camar, atônito. Quem estava diante de mim era, sem dúvida, Camar, mas não parecia ele. Ao me ver rígido, Camar franziu a testa. Eu me encolhi de repente, e ele estendeu a mão e agarrou meu braço.
— Vamos, pegue.
Não consegui nem gritar de susto, mas Camar falou com aspereza e estendeu o chicote de novo. Neguei com a cabeça, apressado.
— Não quero, não consigo.
— Você vai fazer.
Eu queria puxar a mão, mas ela não se mexia, por mais que eu tentasse. Meu pulso preso tremia e meu rosto se contorceu, e então Camar puxou de repente o braço que segurava.
— …!
Sem nem conseguir gritar, fui puxado e quase caí no chão. Camar me amparou com o outro braço e colocou o chicote na minha mão. No mesmo instante, fiquei completamente rígido. Senti na mão o peso do chicote que tinha rasgado minhas costas.
— Ah… ah!
Joguei-o longe sem nem pensar. Recuei e me encolhi, mas não conseguia parar de tremer. Camar me olhou assim, pareceu surpreso e então recompôs a expressão.
— Yohan.
Diante da voz, agora mais suave, chamando meu nome, olhei para ele, piscando depressa.
Camar não se aproximou mais.
— Por que está assim? Me devolva o que eu fiz com você. Você deve ter me odiado, não é?
Apenas balancei a cabeça. Não que eu nunca tivesse ficado magoado com Camar, mas não a ponto de querer chicoteá-lo. Naquela época, Camar não se lembrava de mim, e as circunstâncias o tinham levado ao engano.
Eu nunca pensei em me vingar. Então por que Camar achava que eu queria?
A resposta logo ficou clara.
— Está tudo bem. Se fosse eu, teria devolvido dez, vinte vezes. Faça o que quiser.
— Vamos — disse ele, de braços abertos, olhando para mim sem se defender. Se eu tivesse uma faca na mão e o apunhalasse no coração, parecia que ele não se desviaria.
Camar está fazendo isso porque sente culpa por mim.
Eu ainda tremia, mas consegui organizar os pensamentos. Se eu não fizer isso, ele não vai ficar em paz. Ele quer se redimir comigo, nem que seja um pouco.
Se eu continuar dizendo que não quero, Camar vai sofrer.
Movi meu corpo trêmulo até ele. Camar me esperou, sem se mexer. Olhei para ele uma vez e ergui o punho fechado. E o baixei, de olhos fechados.
No momento em que meu punho o tocou, sem força alguma, os olhos dele se arregalaram de surpresa. Ao mesmo tempo, minhas lágrimas vieram.
— Desculpe, desculpe.
— …Só isso?
Camar perguntou, chocado. Mas eu só chorava e chorava. Ao me ver assim, Camar estendeu a mão de repente. Pegou o chicote que eu tinha jogado longe, pegou minha mão de novo e me obrigou a segurá-lo.
— Não, não quero!
— Bata em mim!
Camar tirou a camisa e a jogou longe. Expondo o tronco nu, insistiu:
— Bata em mim. Por que não consegue? Faça tudo o que eu mereço!
— Não, não!
Caí no choro, alto.
— Isso dói de verdade. Dói demais.
— Não importa. Bata em mim.
Ele insistia, obstinado. Mas eu não conseguia fazer o que Camar me pedia.
— Eu sei o quanto dói. Como posso bater em você?
Solucei e chorei sem parar. Meu coração doía só de pensar, e as lágrimas não paravam. Até hoje, às vezes, acordo com dor nas costas. Quando me lembro daquela época, meu corpo inteiro parece congelar. Como eu poderia fazer Camar sofrer tanto, com minhas próprias mãos?
Eu nunca conseguiria.
— Ugh…
Ouvi um suspiro profundo. Sem jeito, Camar me abraçou.
— Pare de chorar.
Ele deu tapinhas desajeitados nas minhas costas, parou e continuou, com a voz desanimada:
— Eu errei. Então, por favor, pare de chorar.
As lágrimas não paravam, e continuei soluçando. Camar apenas me abraçava.
Não sei o que fazer.
Ouvi seu murmúrio, como se falasse sozinho. Era claro que ele estava perdido porque eu não parava de chorar.
Nos braços de Camar, que me apertavam com força, pensei: este homem não é só o Camar.
Eu percebia isso vagamente. Camar, mas não Camar. Este homem era, originalmente, um príncipe herdeiro chamado Asgyle e, agora que recuperou as memórias de mim, está numa fronteira perigosa entre Camar e Asgyle. É por isso que, mesmo me amando e me tratando com infinita bondade, às vezes surge o príncipe cruel. Mas eu não sentia nenhuma estranheza nisso.
Porque ele é as duas coisas.
Talvez essa bondade seja só para mim. Pensei. As memórias de quando era Camar ganharam vida, e ele me trata com bondade, mas eu vi e senti na pele o quanto este homem é arrogante e cruel. Por isso, ele está se desculpando comigo do jeito que acha certo.
Sem nunca pensar no que eu quero.
— …Está tudo bem.
Mal consegui abrir a boca, e a voz saiu tão trêmula quanto meu corpo. Continuei falando, forçando as cordas vocais para diminuir o tremor, nem que fosse um pouco.
— Está tudo bem, Camar. Não guardo mágoa. Está tudo bem mesmo. Então não faça isso.
— …
— Eu não te odeio. Nunca te odiei.
Enquanto eu falava, o tremor foi diminuindo. Reuni coragem, ergui a cabeça e o beijei. Queria beijar seus lábios, mas ele não abaixou a cabeça, então o beijo acertou o queixo.
Camar continuava sem palavras. Apenas me olhava com uma expressão complicada que eu nunca tinha visto.
— Yohan.
Ele suspirou, acariciando minha testa.
— Eu tento, mas… não consigo te entender.
— Eu sei.
Respondi. Mas Camar continuou, com o rosto sombrio:
— Sinceramente, tenho dificuldade de entender seu coração. Até agora não entendo por que você não me odeia. Mesmo que tenha sido porque eu te esqueci, se fosse eu, odiaria a ponto de querer despedaçar a pessoa. Está tudo bem, Yohan. Pode descontar tudo em mim. Vou esperar até você me perdoar.
Ele parecia achar que eu o odiava e estava apenas me aguentando. Mas não era verdade.
— Eu te amo.
De repente, o tremor desapareceu por completo. Repeti para Camar, que não dizia nada:
— Eu te amo, Camar. Não, Asgyle. Nunca deixei de te amar.
— Então o passado não importa.
Sorri de verdade. Camar, que estivera em silêncio até então, me abraçou com força. Fiquei sem ar, mas aguentei.
— Eu te esqueci.
Asgyle sussurrou em meu ouvido. Desta vez, sua voz tremeu.
— Está tudo bem, Camar.
Eu disse, dando tapinhas em suas costas.
— Você voltou, então estou bem.
— Não faça isso.
A voz de Asgyle falhou.
— Não me perdoe tão facilmente.
— Mas é a verdade.
Eu queria mostrar a ele um rosto sorridente, mas Asgyle não se mexeu, com o rosto enterrado no meu ombro.
— Deixe-me compensar você pelo resto da vida.
Respondi que sim à voz fraca e trêmula. Se isso aliviasse o coração dele, não havia problema. Beijei Camar, que finalmente ergueu a cabeça. Desta vez, toquei seus lábios com firmeza, e um sorriso me escapou sem querer. Ele não sorriu, mas seus lábios se suavizaram um pouco. O beijo se aprofundou, e eu, feliz, envolvi seu pescoço com os braços.
Não importa se você é Asgyle ou Camar.
Ele ia me deitar na cama, mas parou e se deitou, me colocando por cima dele.
Deitado sobre seu corpo firme, beijei seus lábios o quanto quis e senti uma onda de emoção encher meu coração.
Eu te amo.
A noite estava avançada, e nós dois nos abraçamos com mais ternura e amor do que nunca. Conversamos sobre isso e aquilo até adormecer, mas não consigo me lembrar exatamente do que falamos, porque acabamos pegando no sono. Mas é verdade que, pela primeira vez, senti que estava de fato diante do homem que eu amava. Só isso já bastava. O importante é que eu o amo, e ele me ama de verdade.
***
— Vossa Alteza.
Neguei com a cabeça, constrangido, para Meisa, que se curvou educadamente.
— Não, Meisa. Pode me chamar de Yohan.
— Seria um desrespeito…
— Tudo bem, não é?
Quando perguntei a Asgyle, que me carregava até então, ele respondeu com o rosto indiferente:
— Faça como quiser.
— Me chame de Yohan, senhorita Meisa. Como antes.
— …Está bem, então.
Deixando Meisa com sua resposta hesitante, Asgyle disse:
— Então vou para o escritório enquanto você faz os exames. Você fica bem sozinho? Quer que eu espere?
Neguei com a cabeça.
— Não, está tudo bem. Pode ir. Só preciso fazer os exames.
Asgyle tinha me levado ao consultório de Meisa logo cedo. Quando me colocou no chão, o homem que me carregara até ali me abraçou e me beijou na mesma hora.
— Volto já.
— Sim.
Eu não queria me separar dele, mas tentei esconder o que sentia e sorri. Asgyle espalhou beijos por todo o meu rosto, como se lamentasse, e só então me soltou, relutante.
Ele se virou e saiu a passos largos, como sempre, apressado como se fugisse, sem olhar para trás nenhuma vez. Se nossos olhos tivessem se encontrado, Asgyle provavelmente não teria conseguido sair dali.
Eu entendia bem o que ele sentia. Só depois que a porta se fechou me virei, e levei um susto.
Meisa e a enfermeira me olhavam de olhos arregalados.
Piscando, confusa, Meisa tossiu, como se tivesse recuperado o juízo tardiamente, e sorriu sem jeito.
— É a primeira vez que vejo uma cena dessas.
— Ah, sim…
Fiquei envergonhado e desviei o olhar, e a enfermeira interveio, apressada:
— Senhor, por favor, sente-se aqui. Precisamos começar os exames.
— Sim. Pode me chamar de Yohan, como antes. É mais confortável.
Enquanto eu me sentava na cadeira, como ela indicou, a enfermeira hesitou, sorriu e logo começou a preparar o exame. Depois disso, seguiu-se uma bateria de exames tediosos, e o tempo passou rápido.
***
— Você não está grávido, Yohan.
As palavras de Meisa sobre o primeiro resultado, que saiu no fim da tarde, me deixaram com sentimentos confusos. Achei que era sorte, já que eu tinha passado por situações perigosas, mas também fiquei triste. Depois de esperar em silêncio, Meisa disse:
— Haverá outras oportunidades. Os resultados completos saem amanhã ou depois, mas, pelo que vi, está tudo bem de modo geral. Você vai ter que tomar mais cuidado com os olhos, mas, como o Steward disse, evite luz forte durante o dia o máximo possível e vamos acompanhar a evolução. Depois que se acostumar, logo vai enxergar como antes. Como está se sentindo agora? Tudo bem?
Estava tudo bem, porque eu tinha ficado vendado enquanto Asgyle me carregava, e agora a sala de exames estava com todas as cortinas fechadas por minha causa. Respondi que sim.
— Estou bem, Meisa. Muito obrigado por tudo.
— Imagine. Fico feliz que você esteja saudável, Yohan.
Ela sorriu com doçura, como antes, e, com um “Ah, é mesmo”, mudou de assunto.
— E o Rical? A namorada dele teve três filhotes. São uma gracinha.
— Sério?
— Posso vê-los também?
Eu mesmo ia perguntar sobre o Rical, então agradeci por Meisa ter tocado no assunto primeiro. Meisa riu da minha voz animada e disse:
— Claro, é o gato do Yohan. Trago todos amanhã. Vou pedir a Sua Alteza que prepare um quarto para o Rical.
— Obrigado, Meisa.
Incomodava-me que isso fosse tudo o que eu podia dizer. Reuni coragem e acrescentei:
— Com certeza vou retribuir. Se houver algo que eu possa fazer…
— Não precisa, Yohan. Não pedi nada em troca. Com o Rical por perto, eu é que fui muito feliz até agora.
Meisa me interrompeu, como quem diz para eu não falar assim. Não havia mais o que dizer, e hesitei. A única coisa que eu sabia fazer era tecer tapeçarias, mas isso não teria utilidade para Meisa. Quando me senti desanimado de repente, quis ver Camar. Quando disse que já ia, Meisa perguntou:
— Você não disse que Sua Alteza viria buscá-lo?
Parei e respondi:
— Ah, vou esperar no quarto.
— Está bem… Então, Yohan, venho amanhã com os resultados dos exames e com o Rical.
Meisa sorriu e acrescentou:
— A namorada do Rical ainda não tem nome. Dê nome a todos os filhotes, Yohan.
— Sim, obrigado.
Depois de sorrir largamente, saí da sala de exames. Não havia ninguém no corredor. Apressei o passo em direção ao quarto de Asgyle. Pensei em pedir a um criado que avisasse que eu tinha ido para o quarto. Enquanto me apressava para vê-lo, uma coisa me veio à cabeça de repente.
Ela vai mesmo trazer o Rical e os outros amanhã?
Achei que sim, mas ainda estava um pouco inseguro. Querendo confirmar com Meisa, dei meia-volta e voltei ao consultório.
Como não tinha ido muito longe, voltei rápido e vi que a porta da sala de exames não estava bem fechada. Bem, fui eu que não a fechei. Envergonhado, ia bater, mas uma voz escapou pela fresta da porta.
— Ainda bem que ele não está grávido.
Diante das palavras inesperadas, parei com a mão erguida, prestes a bater.
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør