Capítulo 195

Capítulo 195
Por um momento, o rei apenas encarou a taça que eu lhe oferecia. Minhas mãos tremiam tanto que eu estava prestes a derramar o vinho, mas tinha de esperar, calmo, que ele a aceitasse. Por fim, o rei moveu a mão e pegou a taça.
Quando eu estava prestes a suspirar de alívio, o rei falou de repente:
— E aquela tapeçaria?
— Como? Fui eu que fiz.
Diante da pergunta repentina, acabei dizendo a verdade sem querer. Sem entender a intenção da pergunta, ergui a cabeça com cuidado e encontrei os olhos do rei. Para minha surpresa, ele sorria levemente.
— Você é muito habilidoso. Para um ômega homem, como aprendeu isso?
Olhei em seus olhos e respondi com cautela.
— Foi… minha mãe que me ensinou.
— Hum.
Então ele levou a taça à boca.
— Ninguém imaginava que o falecido nobre e a esposa partiriam tão cedo. É uma grande pena.
Assim que ele mencionou meus pais, meus olhos arderam. Tive de cerrar os punhos com toda a força para resistir à vontade de lhe perguntar mais.
Enquanto eu esperava que ele esvaziasse a taça, ele parou com ela junto à boca e sorriu.
— Seus pais eram muito leais a mim.
Tive um pressentimento sinistro. O sorriso do rei gelou minha espinha. Ele olhou para mim, que tremia, e disse devagar:
— Mas você não parece ser assim.
— Eu?
A voz me escapou mais alta do que eu queria. Pisquei depressa, e ele deu de ombros suavemente e sorriu. O vinho na taça em sua mão balançou com força. Quando senti meu coração bater cada vez mais rápido, o rei disse de repente:
— Consigo ouvir seu coração, querido.
— …!
Por um momento, quase gritei sem perceber. Fiquei imóvel, olhando fixamente para o vinho na mão do rei.
— Não sei o que tem aqui, mas, se você está tão apavorado, até uma criança de três anos perceberia. Que tolo.
Ele riu de mim e pousou a taça. Ao mesmo tempo, comecei a pensar como um louco. Se eu não superasse aquele momento, tudo teria sido em vão. O que fazer? Como?
— …Eu sei que veneno não faz efeito em Vossa Majestade.
A voz saiu aguda e trêmula. A tensão parecia ter contraído minhas cordas vocais. O olhar do rei se voltou para mim. Ainda havia um sorriso em seus lábios, mas seus olhos tinham um brilho afiado. Reuni coragem e mal consegui continuar.
— Por causa da constituição especial da família real, Vossa Majestade raramente é afetado por remédios ou venenos, e não adoece. Todos sabem disso. Por que eu colocaria veneno?
— Sim, é verdade.
O rei concordou. E, sem hesitar, sussurrou:
— Mas, infelizmente, criança, alguém já me envenenou uma vez.
Desta vez, não consegui emitir som algum. O rei continuou falando com um leve sorriso no rosto, enquanto eu apenas o encarava de olhos arregalados.
— Cheguei muito perto da morte. Enquanto estava drogado, minha mente vagava. …Mas há uma coisa de que me lembro claramente.
De repente, ele ergueu o tronco e aproximou o rosto do meu. Os olhos semicerrados, fixos num rosto pálido e fantasmagórico, eram como uma caverna vazia. Exalando um cheiro agridoce, o rei disse:
— Você roubando o pó da minha caixa de joias.
Eu não conseguia nem respirar. Ele olhou para mim, parado e trêmulo, e assentiu.
— Sim, na época eu não sabia o que era. Mas, depois que você o pegou, pouco a pouco voltei a mim. Achei que fosse só uma droga qualquer, mas não era. É natural concluir que foi aquele pó que me fez perder o juízo, não é?
Quando ele pediu uma confirmação, não consegui responder; apenas tremi.
Como se nem esperasse uma resposta, o rei soltou uma risada áspera, como se as cordas vocais estivessem rachadas.
— Eu ia investigar você, mas Asgyle descobriu primeiro, te levou e se casou com você. Mas o que você quer, voltando para mim assim? Veio tirar a minha vida desta vez? Com as próprias mãos? Ou foi Asgyle que mandou?
— Majestade…
— Diga. Você sabe? O que era aquele pó e quem estava me dando aquilo? Se me contar com franqueza, pouparei sua vida. Então, diga.
Apenas balancei a cabeça. Eu precisava dizer alguma coisa, mas minha cabeça estava em branco e nada me vinha à mente. O rei continuava me olhando nos olhos, sorrindo. Abri e fechei a boca, abri e fechei de novo, mas não saiu som algum. O rei, que apenas me encarava, de repente estendeu a mão.
— …!
Sem querer, gritei e me encolhi, mas o golpe que eu esperava não veio. Percebendo que o rei não ia me bater, abri os olhos que tinha fechado com força e, diante de mim, surgiu uma cor vermelha. Era a taça que eu oferecera ao rei.
— Pegue.
Oferecendo-me a taça, disse o rei:
— Se você é inocente, querido, pode beber sem medo.
O cheiro dos feromônios dele era denso e enjoativo, como água com açúcar evaporando no ar úmido. A náusea subia como se eu fosse parar de respirar, mas, mesmo assim, aquele homem não piscava.
O que acontece se eu beber isto?
Um veneno que funcionava em alfas extremos, imunes a venenos e drogas, seria fatal para mim. Bastaria encostá-lo nos lábios para eu parar de respirar.
O que acontecerá se eu beber este veneno? Vai doer? Vou morrer como quem adormece?
Estendi a mão trêmula. O rei esperava, impassível. A taça veio parar em minha mão. O rei não piscou nenhuma vez, esperando que eu bebesse. Segurei a taça com as duas mãos e a levei à boca. Bastava incliná-la devagar, mantê-la na boca e engolir. Então tudo estaria acabado. Eu tinha uma única chance.
— …Hah!
Atirei a taça no rei com toda a força. O rei soltou um grito curto quando o vinho respingou em seu rosto e recuou. Sem perder tempo, puxei a caneta-tinteiro que tinha escondido na tapeçaria e a cravei na coxa dele.
— …O que pensa que está fazendo?!
— Ah!
O rei gritou e me esbofeteou, mas antes disso eu já tinha apertado o botão da caneta.
— Seu…
Praguejando, o rei arrancou a caneta presa na coxa e a jogou longe. O veneno já tinha entrado em seu corpo. Agora eu só precisava esperar que fizesse efeito.
No entanto, talvez a quantidade de pó fosse pequena, ou ainda fosse cedo demais, porque o veneno não pareceu surtir efeito no rei. Um sangue vermelho-escuro escorria de sua coxa enquanto ele saía cambaleando da cama. Ele mancava, mas era impossível saber se era pelo veneno ou pelo ferimento. Tentei fugir, mas ele me agarrou pelo tornozelo e me puxou de volta. Arrastado sem forças, fiquei preso sob o rei, que subiu em cima de mim.
— Ômega atrevido.
Ele rangeu os dentes e me agarrou pelo pescoço. De cima de mim, que nem conseguia gritar, o rei cuspiu as palavras:
— Vou cortar sua cabeça e jogá-la no chiqueiro. Como ousa ferir o meu corpo, como você…
Ele disse mais alguma coisa, mas eu já não conseguia ouvir. Provavelmente estava me xingando. Tentei com todas as forças me livrar da mão em meu pescoço, mas ela não se movia. O veneno com certeza tinha entrado em seu corpo. Mesmo que não atingisse a dose letal, teria algum efeito. Só mais um pouco, só mais um pouco.
Se ao menos meus feromônios fizessem efeito.
Naquele momento, minha prece chegou a Deus.
— …Ugh.
Os olhos do rei ficaram turvos, e ele soltou um som estranho. Ao mesmo tempo, a força da mão em meu pescoço afrouxou, e de repente consegui respirar.
— …!
Tossindo e puxando o ar desesperadamente, vi o rei, acima de mim, sacudir a cabeça com violência, como um cachorro. Não havia tempo para hesitar. Rastejei pelo tapete e escapei de debaixo dele. O rei tentou me alcançar, mas foi só isso. Virei-me na mesma hora e empurrei o ombro do rei. Desta vez, ele caiu no chão, e eu subi em cima dele.
— Seu ômega desgraçado.
O rei rangeu os dentes e me deu um tapa no rosto. Caí, mas voltei a me lançar sobre ele.
Está funcionando.
Pensei. A teoria do Steward está funcionando.
— É uma hipótese, Yohan. Betas sofrem mutação quando expostos a grandes quantidades de feromônio de alfa extremo, certo? Será que o contrário também é possível?
— Feromônio de ômega extremo transformando beta em alfa?
— Sim. Partindo desse exemplo, vamos levantar outra hipótese. Alfas extremos entram no cio quando são expostos temporariamente ao feromônio de ômega extremo. E se essa exposição fosse constante? Ou seja, fazê-los beber feromônios continuamente, sem perceber. Fracos no início e, depois, mais fortes. Assim, os feromônios do alfa extremo aumentariam aos poucos. Então, se ele fosse exposto a uma grande quantidade de uma só vez, o cio desencadeado seria muito mais forte do que o normal.
— E então?
— Se for o cérebro de um alfa extremo encharcado de drogas, não derreteria por completo com os feromônios?
Levei vários golpes, mas o rei foi ficando cada vez mais fraco.
Seus olhos roxos, quase negros, de repente ficaram dourados.
Hah, hah.
A respiração do rei continuava ofegante e descontrolada, como se fosse se romper a qualquer momento. Rastejei até ele de quatro. Ele tentou me esbofetear de novo, mas já não tinha forças. O cheiro dos feromônios dele e dos meus se misturava no quarto, embaralhando completamente minha cabeça. Ofegante, subi em cima dele, que tinha desabado. Eu segurava a garrafa de vinho na mão.
— Majestade — sussurrei, ofegante. — Por favor, descanse em paz.
Então segurei seu queixo, abri sua boca e enfiei a garrafa de cabeça para baixo. O líquido vermelho jorrou e o rei se debateu, desesperado, mas não me importei e despejei meus feromônios sobre ele. Até não sobrar nada em meu corpo, com a intenção de derramar tudo o que eu tinha.
Depois de um tempo, só o cheiro dos meus feromônios preenchia o ambiente. O aroma doce dele já não podia ser sentido. Mesmo assim, não parei e despejei nele todo o vinho que restava.
— Cof… glub, glub…
De vez em quando, o vinho transbordava de seus lábios com um som de tosse. Eu só via seu pomo de adão subir e descer sem parar.
Depois de um tempo, o rei parou de se mexer. Tirei a garrafa vazia e recuei. Não tive coragem de confirmar se estava morto. Se não estivesse agora, morreria em breve. Eu só precisava esperar.
Enquanto pensava nisso, de repente ouvi um barulho do lado de fora, e a porta se abriu.
— Majestade! Majestade, o que está acontecendo…!
Os criados que entraram às pressas cobriram o nariz e pararam.
Mesmo sendo betas, eles também se agitaram por um instante com o cheiro de feromônios que tomava o quarto. O primeiro a recobrar a consciência viu o rei caído no chão e soltou um grito de espanto.
— Majestade! Como isso aconteceu?
— Esperem, o senhor Zakriya está na cama!
De repente, houve uma comoção. As pessoas iam e vinham, e logo minha presença foi descoberta.
— Foi aquele ali?
Ao grito do primeiro homem, os outros criados gritaram ao mesmo tempo:
— Ele ousou assassinar Sua Majestade e um membro da família real! Prendam-no imediatamente!
— Ele tem que ser condenado à morte! Chamem o Primeiro-Ministro agora mesmo!
— Peguem-no antes que fuja!
Apenas observei enquanto corriam em minha direção. Eu tinha feito tudo o que precisava fazer. Não tinha forças nem para fugir.
— Ômega imundo, como ousa atentar contra o Rei…!
O primeiro homem que correu até mim gritava e ergueu a mão para me esbofetear.
…!
Ouviu-se um estrondo, e o corpo dele desabou no chão, sem forças. Assustado com o som repentino, apenas pisquei, e então irrompeu um tumulto. Alguns gritaram, outros prenderam a respiração. Em meio ao caos, alguém gritou, com a voz fria:
— Afastem-se todos da minha consorte.
Por um momento, tudo ficou em silêncio. Sentado ali, nu, virei a cabeça, atordoado. Vi um homem alto parado. O homem atrás dele ergueu a mão em silêncio, sem hesitar, e apontou a arma para o rei caído no chão.
Seguiu-se outro estrondo aterrorizante. Os criados gritaram e se agacharam, mas ele virou a cabeça para mim sem se abalar. E, sem hesitar, o homem caminhou em minha direção.
Ele me parecia familiar, mas eu não conseguia lembrar quem era. Estava atordoado. O homem veio direto até mim, ajoelhou-se sem hesitar, tirou o bisht que vestia e cobriu meu corpo.
Até então, eu continuava entorpecido. Não conseguia acreditar naquela situação. Vi o homem olhar para o meu rosto com uma expressão complicada. Achei aquela expressão estranha. Então abri a boca com dificuldade.
— Ele está morto…
O homem franziu a testa.
— Quem?
— O senhor Zakriya contou a Sua Majestade, o Rei…
A voz, que mal saía, tremia cada vez mais.
— Metade do rosto… destruída pela explosão… morto.
Então ele relaxou a expressão, como se entendesse o que eu estava dizendo, e suspirou.
— Você deve ter confundido com outro corpo. Estou vivo, Yohan. Veja.
Asgyle abriu os braços e olhou para mim. Nossos olhos se encontraram, e por um momento nenhum de nós falou.
Depois de me encarar assim por um tempo, Asgyle abriu a boca. Sussurrou com a voz embargada, como quem se afoga.
— Desculpe por chegar tarde.
Ele disse só isso e se calou. Seus olhos, de um roxo escuro, estavam estranhamente marejados. Balancei a cabeça com força e tentei dizer que estava tudo bem, já que ele estava vivo. Mas, antes disso, Asgyle falou primeiro.
— Sinto muito por ter demorado tanto.
Depois disso, Asgyle não conseguiu mais falar. Apenas murmurou “Yohan” com os lábios. De repente, senti algo estranho. O Príncipe Herdeiro com pena de mim? Por quê? O Príncipe Herdeiro nunca pede desculpas. Por que ele estaria arrependido?
Demorado? Para quê?
— Joguei fora a tapeçaria.
Asgyle confessou.
— Você trabalhou tanto nela. Me desculpe.
Por um momento, não entendi o que ele estava dizendo. Apenas encarei o rosto contorcido de Asgyle, que me olhava. As palavras escaparam antes que eu pensasse.
— …Hã?
Não consegui emitir um som direito, então juntei a saliva seca, engoli e abri a boca de novo.
— Camar…?
Diante da minha voz trêmula, sem confiança, Asgyle me abraçou na mesma hora.
O corpo de Asgyle tremia enquanto me abraçava. Meu ombro ficou um pouco molhado.
Por incrível que pareça, ele estava chorando. Preso em seus braços fortes, sentindo seu cheiro doce, a realidade foi aos poucos ficando clara para mim. Quando ergui a mão, hesitante, e o abracei, seus braços me apertaram ainda mais.
Camar.
— Você é mesmo o Camar?
Perguntei de novo, com um soluço fervendo no fundo da garganta.
Depois de um momento sem responder, Asgyle assentiu.
— Sim.
Uma voz rouca respondeu.
— Sou eu, Yohan.
Prendi a respiração. Ao mesmo tempo, o oásis de que eu sentira tanta falta ganhou vida diante dos meus olhos. O calor sufocante, o cheiro da areia e os beijos que trocamos.
Meu Camar. Você voltou.
Naquele momento, desabei em lágrimas.
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør