Capítulo 194

Capítulo 194
— …Majestade.
Engoli a saliva seca e mal consegui forçar a voz, mas ela se misturou à respiração entrecortada e escapou fraca da minha boca. Iluminado pela luz pálida da lua, o rosto do rei, coberto de sangue, parecia o de um fantasma.
Pisquei várias vezes, tentando ajustar a visão embaçada, mas não foi fácil. Ao baixar lentamente o olhar, vi um homem deitado diante do rei. O sangue se espalhava ao redor dele, que continuava imóvel. Era óbvio que o sangue que cobria o rei também era dele. Juntei um pouco de saliva, engoli e abri a boca.
— Esse, essa pessoa…
Como eu não conseguia falar direito, o rei respondeu por mim.
— É o corpo do meu irmão. Não está vendo?
Respirei fundo, mal conseguindo não desmaiar. Eu estava tão tenso que parecia que meus nervos iam se romper, mas aquele era o momento de estar mais alerta do que nunca.
Um pequeno erro e tudo estaria perdido. Eu já estava preparado para morrer. Mas Asgyle não.
Camar, não.
Olhei para o rei, tentando acalmar a mente.
— Por que, Majestade… O que aconteceu…?
Eu não conseguia entender a situação. Zakriya só tinha entrado no palácio na noite anterior. Ele devia ter pedido uma audiência com o rei, e estava claro que algo fora dito durante o jantar.
Mas o que era aquilo?
Não fazia sentido algum.
— Majestade, o senhor Zakriya… Vossa Majestade o matou?
A voz trêmula que mal saía parecia a de outra pessoa. Um leve sorriso de escárnio permanecia no rosto do rei, mergulhado em sombras.
— Ele não servia mais, então tinha de ser eliminado. Não servia mais… Tudo já acabou, sabia?
Apenas repeti as palavras do rei em pensamento. Meus dedos gelaram enquanto um pensamento sinistro não parava de surgir. Não, não, não. Não pode ser.
— Asgyle está morto.
Por um momento, esqueci de respirar. O rei continuou falando comigo, que apenas o encarava de olhos arregalados.
— Zakriya me mostrou o corpo. Foi atingido por uma bomba e perdeu mais da metade do rosto.
— Então… existe a possibilidade de que não seja o Príncipe Herdeiro… não existe?
Os olhos do rei se estreitaram de repente quando me agarrei a essa última esperança.
— É isso que você deseja?
— Como?
De repente, minha mente clareou. Os olhos do rei, até então turvos, brilhavam intensamente.
Ele está desconfiando de mim.
O cheiro de feromônios ao meu redor ficou mais denso. O odor acre do sangue, misturado ao aroma doce, revirou meu estômago. Cobri a boca com a mão e baixei a cabeça para esconder a expressão, fingindo conter a náusea. Concentre-se no que vim fazer aqui e no porquê. Pense só nisso. Respirei fundo contra a palma da mão e ergui a cabeça de novo. O rei ainda me observava.
— Perdão, Majestade. O cheiro de sangue me deixou enjoado.
Falei tentando não olhar para Zakriya, e o rei me observou em silêncio. Era verdade que ver um cadáver ensanguentado me apavorava, então consegui mostrar minha expressão sem precisar fingir.
Por sorte, vi o olhar do rei se suavizar e criei coragem para perguntar:
— Majestade, perdoe-me, mas por que sujou as próprias mãos?
Bastaria uma palavra dele para que cortassem a garganta de Zakriya. Por que fazer aquilo pessoalmente, sujando a própria cama? Ele abriu a boca lentamente diante da minha pergunta.
— Porque eu queria fazer isso.
Havia um leve riso na voz do rei.
— Menino esperto. Eu queria fazer isso há muito tempo. Queria cortar a garganta desse porco.
Logo depois, ele soltou uma risada assustadora. Um som áspero e rouco ecoou tão alto que quase tapei os ouvidos. A risada estridente do rei embaralhou minha cabeça, e por um momento não entendi suas últimas palavras. Só quando ele parou de rir compreendi o que o rei dizia.
— Desde que esse desgraçado dormiu com a minha rainha e me humilhou.
Eu devia estar com uma expressão de espanto. O rei torceu os lábios e perguntou, sorrindo:
— Por que tão surpreso? Você devia imaginar.
Baixei a cabeça depressa para esconder a expressão. Não queria mostrar o choque. Como o rei dissera, eu já tinha me perguntado se não seria isso. Mas havia outro motivo para minha surpresa.
Então ele já sabia naquela época, e por isso mandou eliminar a criança que ela carregava no ventre.
— Exatamente.
Quando ergui a cabeça, hesitante, o rei sorriu e continuou:
— A criança que minha consorte carregava não era minha. Perdi a fertilidade depois que ele nasceu. Não importava o que eu fizesse, nunca mais tive um filho. Mas, no palácio, além de mim, havia outro alfa extremo capaz de engravidar minha consorte.
Era Zakriya.
O filho dele poderia enganar o rei. Pensei nisso olhando para o rosto do rei, tão parecido com o de Zakriya. Pelo mesmo motivo, o ômega que dera à luz o Príncipe Herdeiro tinha ido atrás do próprio filho para engravidar. Usavam o filho e o irmão do rei para enganar um rei que não podia mais ter filhos.
Mas por que ele fora tão cruel apenas com a rainha?
— Não posso matar meu próprio irmão, posso? Aquela mulher era imunda.
Ele sorriu, mas eu não ri de jeito nenhum. A raiva do rei tinha se acumulado em seu coração até finalmente explodir assim. No momento em que surgiu uma brecha.
O rei ainda está louco.
Percebi na hora. À primeira vista, ele parecia bem, mas, se estivesse completamente são, não teria matado Zakriya com as próprias mãos. A prova era ele estar ali, tagarelando, coberto de sangue.
Mas isso não significava que estivesse completamente louco. Ao vê-lo agarrado aos últimos fios de sanidade, pensei que ainda havia uma chance.
Calma. Isso é bom, não é? Um a menos.
De repente, minha cabeça esfriou e fiquei surpreendentemente calmo. Vou matar este homem. Não pensei no que viria depois, de propósito. Só importava que aquela era a única chance.
O rei se aproximou de mim. Quando vi suas mãos enrugadas, encharcadas e tingidas de vermelho, meu corpo estremeceu sozinho. O rei me perguntou:
— Você pode me dar um filho?
Desviei os olhos de suas mãos e olhei para seu rosto. A obsessão do rei pela linhagem não vinha de querer filhos. Era apenas o desejo pelo que havia perdido. Ele era um rei, representante de Deus, um alfa superior a todos. Não poder ter filhos… esse fato devia corroê-lo havia muito tempo. E agora esse desejo iria destruí-lo.
— Sim, meu senhor.
Engoli a saliva seca e abri a boca.
— Sou um ômega especial.
— …Um ômega especial? — O rei sorriu. — Sabe que só há um jeito de comprovar isso, não sabe?
Sua voz baixou, perigosa.
— Se não aparecer nenhuma mancha no seu corpo, sua cabeça vai rolar na mesma hora. Entendeu?
As manchas não aparecem necessariamente durante a relação. Segundo o Steward, isso depende inteiramente do ômega: se ele não estiver excitado, seja sexual ou emocionalmente, nenhuma mancha aparece. Eu estava disposto a apostar minha vida nisso.
— Na verdade, não importa se você é especial ou não.
O rei falou, com a respiração ofegante. Seu rosto transbordava superioridade.
— Tomar o ômega dele já me basta.
De repente, o rei soltou uma risada que pareceu ficar presa na garganta.
— O meu ômega foi atrás do meu filho com as próprias pernas, e o ômega do meu filho vem até mim com as próprias pernas.
Foi então. O rei estendeu a mão e pegou a taça sobre a mesa de cabeceira. Estava cheia de um vinho tinto brilhante. Observei enquanto ele inclinava a taça e bebia como se fosse água. Depois de esvaziá-la, pegou a garrafa e serviu outra dose.
— Aquele ômega presunçoso queria se tornar consorte dando à luz um filho meu. Ousou me enganar. Achou que alguma coisa mudaria se tivesse um filho?
Os olhos do rei se voltaram para mim.
— Seja como for, um ômega não passa de um receptáculo de sêmen.
Houve um silêncio entre nós. O rei estava me avisando. Era como se dissesse: não tenha a presunção de me enganar. Se não conseguir conceber meu filho, terá o mesmo destino de Zakriya.
— Sim, Majestade — respondi a muito custo. — Eu sei.
O rei esvaziou a taça seguinte devagar. Seus olhos continuavam fixos em mim.
— E você, que veio até mim, o que espera em troca?
O rei esvaziou a taça mais uma vez. Havia apenas uma coisa que eu queria. Desde aquele dia, sempre quis apenas isso. Por isso estou aqui.
— Majestade, tenho um pedido.
Quando evitei a resposta de propósito, o rei franziu a testa. Continuei, tentando controlar as batidas do coração.
— Posso esconder o corpo do senhor Zakriya? Estou com tanto medo.
Apertei a tapeçaria e encolhi os ombros. A ideia de me deitar ao lado daquele cadáver me dava arrepios. Mas, graças a isso, tive uma boa ideia.
— Não seja tolo. Venha cá.
O rei riu de mim. Era o que eu esperava, mas não consegui evitar o tremor. Ele queria me ter ali, ao lado do corpo de Zakriya, de propósito. Se se importasse com o cadáver de Zakriya, nem o teria matado ali.
— Então, Majestade.
Sem precisar fingir, minha voz tremia sozinha. Olhei para o rei e implorei:
— Perdoe-me, mas deixe-me beber também… Estou com tanto medo que temo não conseguir agradar Vossa Majestade.
O rei ficou em silêncio por um momento. As manchas nunca aparecem a menos que o ômega esteja excitado. Talvez o rei quisesse ver com os próprios olhos. As manchas tão raras de um ômega extremo.
Ele puxou de novo o cordão na cabeceira da cama e chamou o criado. O criado entrou apressado, parou diante da porta e baixou a cabeça. O rei deu a ordem ao criado, que não devia ter visto direito o que havia na cama.
— Traga vinho e uma taça.
— Sim, Majestade.
O criado respondeu de imediato e desapareceu depressa. Enquanto esperava sua volta, tateei a ponta da tapeçaria para confirmar onde estava o que eu escondera.
— …Haah.
De repente, o rei suspirou. Parecia muito cansado, com a mão na testa e os olhos fechados. Senti pena dele por um instante, e então o corpo de Zakriya entrou no meu campo de visão. O rosto estava acinzentado, sem uma gota de sangue, e os olhos bem abertos revelavam que ele fora atacado de surpresa e perdera a vida sem ter tempo de reagir.
Descartado assim que deixou de ser útil.
Engoli a vontade de rezar a Deus por sua alma. Considerando o que eu estava prestes a fazer, ousar rezar a Deus seria vergonhoso demais.
Asgyle está morto.
Enquanto um arrepio me subia pelas costas, o criado voltou. Ao ouvir a batida na porta, virei-me depressa e fui até ela. O criado colocou uma garrafa de vinho e duas taças em uma bandeja e a entregou a mim. Por sorte, a garrafa já estava aberta. Depois que o criado fechou a porta, virei-me com a bandeja, mas meus joelhos fraquejaram e caí.
— Ah!
— O que está fazendo?
O rei riu. Fingindo me recompor, puxei depressa a linha de dentro da tapeçaria. Ali estava o pó, embrulhado em papel fino.
— Não é nada. Perdoe-me, Majestade.
Baixei a cabeça depressa, fingindo me desculpar, e despejei o pó no vinho. A bandeja estava encoberta pela tapeçaria, invisível de fora.
Tentei me levantar com a bandeja, mas falhei duas vezes. Meus joelhos realmente não tinham força. Lutei para ficar de pé e comecei a andar. Um passo, depois outro.
Diante do rei, apoiei a bandeja e servi primeiro a taça dele. O líquido vermelho e brilhante não tinha nada de estranho.
Como o Steward dissera, fiquei surpreso ao ver o pó se dissolver num instante.
— Majestade, permita-me oferecer-lhe uma taça.
Baixei a cabeça e estendi a taça com as duas mãos. Meu coração batia como se fosse saltar pela boca.
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør