Capítulo 193

Capítulo 193
Naquele dia, recebi ordens de ficar no quarto até a noite, sem poder encontrar o Steward nem mandar chamá-lo. Também quis enviar-lhe um bilhete, mas o risco de ser pego era tão grande que tive de desistir.
O que eu faço?
Enquanto andava de um lado para o outro pelo quarto, o sol que entrava pela janela me ofuscou. Cobri o rosto às pressas com as duas mãos, e, naquele instante, uma ideia me veio à cabeça.
Isso.
Com as mãos sobre os olhos para fazer sombra, fui tateando até a porta, abri uma fresta e falei com o criado que vigiava do lado de fora.
— Estou com um problema nos olhos e preciso de um médico. Posso chamar o Steward? Será que o Rei me daria permissão?
— Então chamarei o médico real…
O rosto de Haham surgiu imediatamente em minha mente, e quase gritei. Só de lembrar do homem que me esbofeteara e me insultara, senti que ia desmaiar de medo, mas havia um motivo mais importante do que esse. Tentei acalmar a mente e continuei a falar com tranquilidade.
— O Steward conhece bem o meu corpo. Gostaria de ser examinado por ele. Poderia informar Sua Majestade? Tem que ser o Steward.
O rei entenderia o que eu queria dizer. Como esperado, depois de um tempo o criado voltou acompanhado do Steward. Ele se sentou diante de mim com o pretexto de examinar meus olhos e fazer um curativo, avaliou a situação com seriedade e franziu a testa.
— Acho que tiramos os curativos cedo demais. Seus olhos ainda doem? Se perder a visão de novo, vai ser complicado, então não deve se esforçar. Vamos manter o curativo por um ou dois dias e, amanhã, avaliamos o estado e decidimos.
— Sim…
Depois de enrolar um pouco, o Steward inclinou a cabeça e falou de repente:
— Preciso que ele tire a roupa por um momento para examinar o corpo. Pode nos dar licença?
O criado, que até então estivera parado ao lado, olhou para nós e hesitou.
Se fosse um ômega qualquer, talvez não houvesse problema, mas eu era o ômega que estava recebendo cuidados especiais antes de dormir com o rei; não era qualquer um que podia me ver nu. O Steward não deixou a oportunidade passar e acrescentou, como quem não quer nada:
— É bom ter um forte senso de responsabilidade, mas ser inflexível demais pode complicar as coisas.
A escolha era difícil. Responsabilidade ou flexibilidade? Depois de pensar por um tempo, o criado finalmente inclinou a cabeça e disse em voz alta:
— Darei apenas dez minutos.
A porta se fechou e, assim que ficamos sozinhos, fui direto ao assunto. Quando ouviu o nome de Zakriya, o Steward assentiu.
— Também fiquei sabendo. Por isso tentei falar com o Shepard, mas não consegui.
Fiquei rígido por um momento, e ele balançou a cabeça na mesma hora.
— Não, acho que não aconteceu nada. É só um palpite, mas, conhecendo aquele rapaz, se ele não deu notícias, acho que significa que, se você chegar a tempo, ele te leva no avião; se não, vai embora sozinho.
Era uma suposição plausível, e me senti um pouco aliviado. O fato de Hayden estar seguro não garantia que Asgyle também estivesse, mas, se algo acontecesse com Hayden, Asgyle certamente estaria em perigo.
— Não é um mau sinal que o senhor Zakriya tenha entrado no palácio?
— Não é nada bom.
O Steward repetiu minhas palavras e murmurou com seriedade.
— Por enquanto, estou acompanhando a situação de perto. Primeiro, pegue isto, Yohan. Consegui o mais rápido que pude.
O que ele segurava era uma pequena caneta-tinteiro. Enquanto eu inclinava a cabeça, confuso, o Steward apertou o botão na ponta. Na mesma hora, uma lâmina fina saltou para fora.
— Parece uma caneta comum, mas na verdade é uma lâmina. Um leve toque já corta a carne.
Meus olhos se arregalaram de surpresa, e o Steward continuou:
— Acho que dá para escondê-la junto ao corpo. É simples de usar. Cuidado: em vez de tinta, ela está cheia de veneno, então, se você furar alguém, a pele absorve na hora. Dissolvi o pó e coloquei aí dentro.
— Como conseguiu isso?
Enquanto eu a pegava com cuidado com as duas mãos, ele respondeu com um sorriso amargo.
— Foi presente do Shepard. Ele já comentou que o meio-irmão dele trabalha com armamentos? É uma arma de assassinato fabricada pela empresa dele.
Foi com essa empresa que Zakriya montou o exército de mercenários, contou o Steward, tenso.
— Sabe o que é engraçado? Por fachada, a empresa trabalha com moda. O design é de uma marca de luxo, e o produto normal é uma caneta-tinteiro que as pessoas usam no dia a dia. Por trás dos panos, fabricam isto com o mesmo design.
— E se alguém trocar uma pela outra sem querer?
— E daí? A culpa é do comprador, que não soube manusear. Por mais acidentes com armas que aconteçam, nenhum fabricante é responsabilizado, certo?
Minha pergunta pareceu boba, e fiquei calado. A pequena caneta em minha mão parecia infinitamente pesada. Escondi-a junto ao corpo antes que o criado voltasse, endireitei-me, e o Steward começou a vendar meus olhos.
— Asgyle está bem?
— Se algo tivesse acontecido com ele, o Shepard já teria ligado. Como não há tempo a perder, vou partir primeiro.
Ao ouvir isso, a tensão em meus ombros diminuiu. Naquele momento, a porta se abriu e o criado entrou. O Steward saiu do quarto depois de lhe dar as recomendações de costume.
Naquela noite, o rei jantaria com Zakriya, e recebi ordens de descansar no meu quarto.
Como estava com os olhos enfaixados, não pude insistir que estava bem. Não tive escolha a não ser jantar sozinho no quarto, pensando no que viria a seguir.
Quanto mais o tempo passasse, pior seria. Qualquer que fosse a decisão, eu a colocaria em prática no dia seguinte. Pedir uma audiência com Sua Majestade logo pela manhã…
Respirei fundo enquanto repassava os planos que já tinha repetido várias vezes na cabeça. Mesmo que o rei morresse, Zakriya seria o próximo. Talvez ele fosse um adversário mais difícil. Como eu conseguiria enganá-lo com minhas palavras e ações?
Só me restava confiar que Asgyle daria conta do exército de Zakriya.
Mais uma vez, em vez de rezar a Deus, fui para a cama. Com os olhos enfaixados, não havia nada que eu pudesse fazer. Como de costume, me encolhi, respirei fundo e adormeci profundamente.
***
Mal tinha pegado no sono quando o criado bateu à porta. Acordei com a batida, mas não consegui abrir os olhos. Saí da cama aos tropeços, lembrando tarde demais que estava com os olhos enfaixados. Fazia tempo que eu não ficava sem enxergar, e meus sentidos estavam embotados. Enquanto eu ainda estava confuso, a porta se abriu, e o criado entrou e acendeu a luz do quarto.
— O Rei o chama.
— Como?
Fiquei paralisado, e ele continuou, com a voz sem emoção:
— Sua Majestade ordena que o senhor compareça esta noite. Mandou que se preparasse para receber a graça real.
Por um momento, minha mente ficou em branco. Não entendi o que estava ouvindo.
Agora? Assim, de repente?
— Ah, esta noite? Agora?
— Sim, agora mesmo.
O criado confirmou e acrescentou:
— Ele ordenou que o senhor viesse da mesma maneira que na primeira audiência.
— Como?
Perguntei sem pensar, mas logo recuperei o juízo. Claro. Era isso que ele queria.
— Bem, então… Tenho que me preparar… Poderia esperar lá fora um minuto?
Torci para que ele achasse que minha voz trêmula era nervosismo pela alegria de servir ao rei. Queria conferir, mas não conseguia ver a expressão dele, então não havia como saber. Felizmente, ao contrário do que acontecera durante o dia, ele saiu sem dizer uma palavra. Afinal, eu era o único no quarto; ele devia ter pensado que nada aconteceria. Tirei a roupa depressa e parei.
Não tire os curativos.
O aviso do Steward ecoou em meus ouvidos, mas não havia outro jeito. Firmei a mão trêmula e desamarrei os curativos sem dó. A pressão sobre as pálpebras foi diminuindo e, depois de um tempo, desapareceu por completo. Dava para sentir uma luz fraca através das pálpebras fechadas. Fiz uma viseira com as duas mãos para criar sombra e abri os olhos devagar. Por um instante, senti uma dor como se meus olhos estivessem sendo rasgados, mas não podia desistir.
Cobri os olhos com as mãos e esperei um pouco, até me acostumar com a luz. Depois que minha visão se ajustou, eu tinha algo a buscar.
Peguei a tapeçaria de que eu tanto gostava e prendi depressa a caneta que o Steward me dera em uma das pontas. Desfiz o acabamento, soltei a linha e amarrei a caneta; depois, enrolei a tapeçaria sobre o ombro de propósito e segurei a ponta, de modo a escondê-la por completo.
O fundo dos meus olhos ainda doía e a visão estava ofuscada, mas não havia outro jeito. Abri a porta eu mesmo e saí. Por sorte, as luzes estavam apagadas, como se o corredor tivesse sido escurecido de propósito. Enquanto eu caminhava com o criado, tudo ao redor estava silencioso como a morte.
O que será que ele conversou com Zakriya?
Eu não sabia quando o rei me chamaria para dormir com ele. Meu plano era ficar atento e agir o mais rápido possível, mas era estranho ele me chamar assim, tão de repente. Será que tinha algo a ver com a visita de Zakriya?
Quanto mais eu andava, mais minha ansiedade crescia. Apertei a caneta na mão e respirei fundo, devagar. Aquela era a hora de implorar a Deus, mas, infelizmente, para mim não havia mais Deus.
— Majestade, trouxe o ômega, conforme ordenou.
Depois que os criados que guardavam a porta do rei fizeram o anúncio, abriram-na passado um momento. Soltei um suspiro trêmulo e dei um passo à frente. Assim que a porta se abriu, o cheiro doce dos feromônios se derramou e envolveu meu corpo como veneno. Entrei devagar, a porta se fechou atrás de mim, e enfim eu estava no quarto do rei.
…Hah.
A tensão parecia queimar meus nervos. Pensando no que faria a seguir, meu coração disparava e minha cabeça doía. Reuni coragem e avancei pelo quarto em direção à cama, um passo de cada vez. Pouco a pouco, o lugar onde o rei estava deitado foi ficando mais perto. O quarto estava tão escuro que era difícil distinguir os objetos. Bati a perna em um banquinho, desviei rapidamente e voltei a andar.
— Majestade…
Foi quando eu mal tinha aberto a boca para chamá-lo. Misturado ao cheiro doce dos feromônios, que parecia derreter meu cérebro, senti um odor estranho. Eu já tinha sentido um cheiro parecido antes. Instintivamente, meu cérebro vasculhou as lembranças. Logo depois, a cena daquele dia se desenrolou como um panorama. Ômegas largados como cadáveres, o rosto do rei louco me encarando com o corpo nu tingido de vermelho, o chão inteiro encharcado…
Sangue!
Sem perceber, cobri a boca com as duas mãos. Ao mesmo tempo, a tapeçaria que envolvia meu corpo caiu no chão, e um calafrio percorreu meu corpo nu.
— …Você veio.
Havia dois homens na cama. Um estava coberto de sangue e não se mexia; o outro, sentado atrás dele, olhava para mim.
Um deles era o rei.
Mas qual?
Nesse instante, a luz da lua que entrava pela janela iluminou o rosto do homem voltado para mim. Prendi a respiração.
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↫─☫ Continua…. //
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør