Capítulo 192

Capítulo 192
— …Será que eu entendi errado, Yohan?
Depois de algum tempo, Najima perguntou.
Sorri de propósito. Diante daquela pergunta feita em um tom quase casual, não pude deixar de sorrir.
— Não, você entendeu direito. Eu vou ter um filho com o rei.
Olhei para Najima, que havia ficado rígida, como se tivesse perdido a capacidade de falar.
— Eu contei isso a Sua Majestade.
Não gaguejei nem tremi porque estava apenas falando a verdade. Mas ver a Princesa Najima ferida foi de partir o coração. Mais uma vez, ela contorceu seu belo rosto e soltou um gemido baixo.
— Mas, Yohan… o que você acha que está fazendo?
Ela, que havia estado murmurando em protesto, imediatamente soltou uma risada nervosa.
— Eu pensei que você fosse diferente. Será que não tenho as pessoas certas ao meu redor ou todo mundo enlouquece assim que entra neste palácio?
— Princesa…
Abri a boca, mas não havia nada a dizer.
— Você não será prejudicada.
Najima inclinou levemente a cabeça e continuou falando com uma voz que eu nunca havia ouvido antes.
— Não serei prejudicada? Yohan, você faz ideia de como minha vida ficou depois que você apareceu?
Diferente de antes, suas palavras saíram carregadas de raiva.
— Eu deveria me casar com o Príncipe Herdeiro. Talvez Asgyle tenha feito o que fez, mas, se o Príncipe Herdeiro decide alguma coisa, existe alguém capaz de impedi-lo? Eu não consigo obedecer ao rei. Meu pai me disse que eu era uma mulher inútil que havia perdido o lugar de primeira esposa para um Ômega.
Ela respirou fundo, tentando conter a raiva.
— Não é óbvio? É só isso que me resta fazer pelo meu pai, mas nem isso eu consigo. Sim, eu pretendia aproveitar esta oportunidade para deixar este país maldito.
A voz dela começou a tremer.
— Mas agora que o rei recuperou a consciência, ele quer se casar comigo? Com aquele velho? O que eu posso fazer?
Ela riu, mas não havia humor algum naquele som.
— Não existe nenhuma brecha para eu escapar. E então você aparece e me diz o quê? Que dormiu com o rei e vai dar um filho a ele?
Sua voz ficava cada vez mais alta. O som dos gritos misturado à respiração ofegante quase fez meus ouvidos zumbirem. Por um instante, estremeci.
“Será que devo contar tudo?”
A Princesa Najima estava sofrendo muito. Mas, se eu contasse toda a verdade…
— Meu pai virá em breve.
Najima respirou fundo e soltou o ar lentamente, sua voz assumindo um tom frio.
Depois de recuperar o fôlego, ela ergueu o rosto, soltou uma risada amarga e se levantou.
— Eu estou ficando louca tentando decidir quem matar primeiro: você ou meu pai. Não importa se eu contar ao rei. Qual é a diferença entre morrer pelas mãos do rei ou pelas mãos do meu pai?
— Princesa.
Fiquei atrás dela, mas Najima continuou sem me ouvir.
— Se você veio aqui para me dizer a mesma coisa que a Meisa, então pare. Eu não vou fugir. Também não vou me esconder.
— Princesa…
— Que a paz esteja com você.
Najima, que deixou uma bênção sarcástica, virou-se e saiu do quarto.
Fiquei parado por algum tempo, atordoado.
Então, de repente, minha mente começou a funcionar.
“Zakriya está vindo? Como? Ele não estava no meio de uma guerra? Então a guerra acabou? E Asgyle? Se Zakriya viesse para cá agora, ele machucaria a Princesa Najima?”
Pensamentos demais surgiram ao mesmo tempo, e eu não conseguia organizá-los. Fechei os olhos, cobri o rosto com as mãos e respirei fundo. Seria impossível impedir que a Princesa Najima se ferisse. O objetivo de Zakriya estava claro. Talvez seja bom que Zakriya venha para cá.
Neste momento, Zakriya era uma grande vantagem para o rei. Se ele desaparecesse, o rei teria muitos problemas.
Eu ainda tinha uma carta escondida. Se a usasse corretamente, poderia fazer o rei eliminar Zakriya com as próprias mãos. Talvez a Princesa Najima passasse a me odiar ainda mais. Era doloroso pensar nisso, mas não havia alternativa.
Quando me lembrei do olhar frio de Najima ao me encarar, meus olhos rapidamente ficaram marejados. E chorei um pouco.
***
Só no dia seguinte compareci ao jantar a pedido do rei. Lavei o corpo, vesti as roupas que ele havia me dado e fui até o local preparado para a refeição. Era um salão de banquetes diferente daquele que eu conhecia. O rei estava esperando por mim sozinho.
— Obrigado pela graça.
Curvei as costas, abaixei a cabeça, sentei-me de joelhos e endireitei a postura.
Olhei ao redor. O rei parecia mais lúcido do que no dia anterior.
“Será que o efeito da droga ainda estava passando?”
Eu não sabia até que ponto ele havia recuperado a consciência.
Não havia como saber exatamente qual era o efeito daquele pó, quanto tempo duraria, se haveria efeitos colaterais ou se a toxina seria completamente eliminada com o tempo ou permaneceria em seu corpo.
Pensei que seria muito imprudente deixar tudo ao acaso, mas cheguei até aqui. Como fiz no dia anterior, segui o plano. Felizmente, o rei parecia não perceber minhas verdadeiras intenções.
— Beba.
Ao levantar a cabeça diante de suas palavras, vi um copo com água límpida. Conforme ordenado, levei-o à boca, tomei um gole e o coloquei de volta sobre a mesa. Os olhos do rei se estreitaram.
— Não acha que eu deveria ter colocado alguma coisa aí?
Sua voz ainda estava carregada de desconfiança. Depois de já ter sofrido uma intoxicação alimentar, ele não aceitaria tão facilmente qualquer coisa que lhe oferecessem. Olhei para ele com cautela e respondi:
— Porque Sua Majestade não tem razão para me prejudicar…
— Por quê?
— Ouvi dizer que Zakriya está vindo em breve.
Não perdi a oportunidade e falei as palavras que havia preparado. Vendo as sobrancelhas do rei se moverem ligeiramente, ganhei confiança.
— E por que isso seria um motivo?
A fala do rei desacelerou absurdamente. Era doloroso suportar aquele olhar inquisitivo, mas, quanto mais eu respondia, mais confiança sentia.
— Não acredito que a razão pela qual o senhor Zakriya está ajudando Sua Majestade com tanta dedicação seja apenas para transformar a princesa em sua primeira esposa.
— Mesmo sendo ela a única filha de Zakriya?
— Não consigo acreditar que o senhor Zakriya se importe tanto com a princesa.
O rosto do rei suavizou um pouco. Mostrando interesse, criei coragem para falar.
— Arriscaria dizer que é apenas uma hipótese, mas acho que o verdadeiro objetivo do senhor Zakriya é o trono. Se o Príncipe Herdeiro desaparecer, o único herdeiro também desaparecerá. E, mesmo que a Princesa Najima se torne a primeira esposa e tenha um filho, ainda levaria algum tempo até que essa criança crescesse. Até lá…
Parei de falar. Houve silêncio. Mas o rei provavelmente já havia entendido o que eu queria dizer. Afinal, o objetivo de Zakriya não era muito diferente do de Asgyle.
Depois que o Príncipe Herdeiro fosse eliminado sob o pretexto de ajudar o rei, o próximo alvo seria o próprio rei.
O rei provavelmente estava pensando a mesma coisa. No fim, os objetivos dos três eram iguais. A ordem era diferente, mas todos queriam chegar ao mesmo lugar.
E apenas um deles sobreviveria.
— Você é o único que sabe que eu não posso ter filhos. É um menino inteligente.
O rei continuou falando lentamente, quase para si mesmo.
— Nunca tive filhos depois que ele nasceu. Não importa o que eu fizesse, nunca consegui engravidar um Ômega. O Ômega que deu à luz a ele também falhou, apesar da promessa de uma grande recompensa. Depois, tentou atacar meu filho. Queria fingir que a criança era minha.
Se fosse verdade, a criança teria uma aparência semelhante à do rei. E, acima de tudo, havia uma grande possibilidade de manifestar características de um Alfa extremo.
— Ele merecia morrer.
Sua voz, que continuou como um diálogo interno, estava cheia de raiva. Parecia claro que Asgyle era filho deste homem. Não havia como ele não ter verificado. No entanto, o ódio deste homem não diminuiu.
— Ele é o diabo.
Era o próprio filho o alvo daquelas palavras cuspidas entre os dentes. O rei murmurou, cerrando a mandíbula:
— Deus amaldiçoou este país por causa dele… Este país será destruído. Ele precisa morrer.
Era apenas uma impressão, mas comecei a me perguntar se aquele homem já não havia enlouquecido muito antes de tomar aquela droga. O doce aroma dos feromônios que emanava de seu corpo era tão estranho que chegava a embrulhar meu estômago. Talvez houvesse algo errado com seus próprios feromônios e ele tivesse perdido a razão aos poucos. Uma coisa, porém, era certa:
“Era impossível que esse homem voltasse ao normal.”
Observei o rei continuar falando sozinho, murmurando coisas que mal conseguia entender, com uma calma que até me surpreendia. Você já armou uma armadilha para esse homem desde o primeiro momento em que o conheceu. Mas ele provavelmente nem imagina. Enquanto o suor molhava minhas palmas, esfreguei discretamente as mãos contra a roupa. Então, de repente, a pressão dos feromônios que parecia pesar sobre todo o meu corpo desapareceu.
A expressão do rei mudou. Ele me encarou com olhos tranquilos, como se tivesse recuperado completamente a lucidez.
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
“E se ele tivesse enlouquecido de uma maneira completamente diferente?”
— Essa é a razão?
Sua voz estava mais baixa. Balancei a cabeça.
— Não
— Se Sua Majestade enxergar uma criança em mim, essa criança se tornará seu herdeiro. Zakriya deixará de ser útil para Sua Majestade, e será seguro eliminá-lo imediatamente. Além disso, eu sou afetado por venenos e drogas. Diferentemente de Sua Majestade, se alguém me envenenar, acredito que isso também afetará a criança que eu estiver esperando. Eu poderia acabar perdendo a capacidade de ter filhos.
Talvez porque eu tivesse confirmado com meus próprios olhos que o rei realmente era louco, consegui continuar falando com mais calma do que nunca.
Eu me preparei com antecedência, mas nunca pensei que seria capaz de falar tão naturalmente. Quando estava um pouco satisfeito comigo mesmo, o rei abriu a boca.
— Você é um menino inteligente. É por causa da linhagem?
Seu rosto se encheu de um sorriso satisfeito. O rei pegou o copo e o levou à boca.
— A criança que veio de você também deve ser especial.
Não disse nada e sorri sem jeito. Abaixei a cabeça, fingindo comer apressadamente para esconder minha expressão, e logo peguei a comida e a coloquei na boca. Comecei a comer também.
Parti o pão e o coloquei na boca, peguei o cordeiro, mastiguei e bebi o suco de frutas.
Quando já havia conseguido encher um pouco o estômago, o rei perguntou de repente:
— Você já pensou por que Zakriya está aqui?
— …Ouvi dizer que foi por minha causa.
Quando respondi com sinceridade, o rei sorriu estranhamente. Quando senti algo sinistro, ele continuou.
— Eu deveria ter perguntado como, não por quê.
Ainda perplexo, o rei prosseguiu:
— Parece que a repressão está quase terminando. Recebi um relatório dizendo que o templo onde o Príncipe Herdeiro estava havia sido reduzido a pó. Parece que o exército de Asgyle está lutando bravamente, mas os mercenários que Zakriya trouxe são Prozi*. Já participei de várias guerras. Parece que esta também terminará em breve. Talvez já tenha acabado.
A imagem ensanguentada do Príncipe Herdeiro surgiu em minha mente, deixando-me atordoado. Quase gritei sem perceber, mas naquele momento, o rosto do rei apareceu diante da minha vista.
Ele me encarava atentamente. Então compreendi imediatamente a realidade.
Este homem está me testando.
— Entendo.
Falei o mais calmamente possível e tomei um pouco de sopa. Comi o resto da minha refeição fingindo estar bem. O rei, que me observou por um tempo, levantou-se e saiu. Quando fiquei sozinho, larguei a comida que havia sido obrigado a comer e respirei fundo.
Era uma mentira. Não pode ter acabado tão fácil e tão rápido. O rei estava me testando.
Quanto mais curta fosse a guerra, melhor.
Mas, naquele momento, eu esperava que ela durasse um pouco mais.
“Se Asgyle conseguir resistir até o fim…”
Mas isso não significava que Zakriya poderia abandonar o campo de batalha e vir para o palácio real?
“Será que Hayden me deixou alguma informação?”
Ele disse que me daria três dias. Então eu ainda estaria neste país. A única maneira de descobrir o que estava acontecendo era através do Steward. Mas, se eu me movimentasse agora, levantaria suspeitas.
“Vou esperar amanhecer.”
Bastava pedir para chamarem o Steward sob o pretexto de uma despedida. Então eu poderia descobrir o que estava acontecendo. Preciso mudar o plano.
Voltei sozinho para o quarto e passei algum tempo pensando calmamente. Era melhor assim. Afinal, aquilo também fazia parte do que eu havia planejado.
— Ufa…
Depois de respirar fundo, juntei as mãos.
Eu estava prestes a rezar normalmente, mas parei.
“Será que eu tenho o direito de rezar para Deus?”
Olhei para minhas mãos abertas e fiquei imóvel por algum tempo.
‘Eu não acredito em Deus.’
De repente, as palavras de Camar vieram à minha mente.
‘Se é um deus que faz você sofrer, então é melhor que um deus assim não exista.’
Sorri sem perceber, mas meus olhos se encheram de lágrimas. Em vez de rezar, fui para a cama, deitei-me e fechei os olhos.
Naquela noite, dormi sem sonhar. E, quando amanheceu, ouvi a notícia:
Zakriya havia entrado no palácio na noite anterior.
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↫─☫ Continua…. //
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Jør
N/R: Não consegui identificar o que seria “Prozi”, pesquisei em diversas fontes mas nada foi claro ou que batia no contexto da história. Mas o que ficou a entender era que são um grupo étnico, qualquer coisa faço uma segunda revisão melhorada.