Capítulo 163

⚝ Capítulo 163
— Yohan?
Asgyle chamou meu nome, confuso. Cobri a boca com as duas mãos, deixando escapar um som abafado, tentando me conter de qualquer maneira. No entanto, as emoções que borbulhavam dentro de mim não podiam mais ser reprimidas.
— Uh…
Quando finalmente comecei a chorar alto, Asgyle hesitou por um instante, mas logo me abraçou e deu leves batidas nas minhas costas.
— Eu dei ordens para que a mansão onde você morava seja restaurada para ficar o mais parecida possível com o que era antes. Da próxima vez que você for lá, poderá ver tudo com seus próprios olhos.
Apesar de abalado emocionalmente, aquelas palavras me despertaram ceticismo. “Da próxima vez? Eu poderei ir lá de novo? Eu não consigo enxergar, como vou conferir?” Não havia uma única palavra ali que fizesse sentido para mim. Enquanto eu mantinha a boca fechada, perdido em vários pensamentos, Asgyle continuou:
— Quando a tempestade de areia parar, volte para a propriedade e espere lá. Hayden está procurando um médico para operar os seus olhos, então chamarei você assim que estiver tudo pronto. Se não for possível fazer a cirurgia aqui, você irá com ele para os Estados Unidos. Todos os trâmites formais já foram concluídos.
Ele falava com indiferença, mas algo naquela história me incomodava. Abri a boca com dificuldade:
— O senhor está se despedindo de mim?
Asgyle, que até então falava sem hesitar, parou. Um silêncio se instalou e eu esperei.
— …Por que você está perguntando isso?
O fato de ele evitar a resposta transformou minha ansiedade em certeza.
— O doutor Steward esteve aqui — confessei. — Ele me disse que há uma movimentação perigosa no palácio real e que estão mandando os estrangeiros embora. Por isso achei que o senhor me enviou para cá apenas para garantir que eu ficasse em segurança.
— Ele está fazendo o trabalho dele.
— Mas e quanto ao senhor?
O tom de voz dele continuava o mesmo de sempre, mas parecia tenso de alguma forma. Criei coragem para perguntar:
— Diga-me, onde o senhor vai estar?
Asgyle fechou a boca novamente. Eu não conhecia o Príncipe Herdeiro profundamente, mas pelo menos tinha certeza de que ele não era de mentir. O Príncipe Herdeiro estava em uma posição onde não precisava mentir para se esquivar de suas responsabilidades.
Sendo assim, qual era o método que pessoas não acostumadas a mentir usavam para evitar uma resposta? O silêncio absoluto. Ele simplesmente não respondeu.
Insisti com uma pergunta difícil em uma situação que eu já previa, mas que não me agradava:
— Vossa Alteza… O senhor vai entrar em guerra contra Sua Majestade, o Rei?
Senti o braço que me envolvia se mover. Foi um tremor muito sutil, mas eu não podia ignorar, pois estava totalmente atento à reação dele.
— Eu ouvi do senhor Shahin. O lorde de Al Rahman estava do lado do Príncipe Herdeiro, e é por isso que o senhor Khalid veio apoiá-lo com um exército.
Na verdade, ele não havia me comunicado os fatos claramente. Era apenas uma dedução minha para estruturar as palavras escondidas nos boatos que circulavam. Mas se eu estivesse certo, Asgyle com certeza reagiria.
— …A propósito, você pediu ao Khalid para levá-lo ao palácio?
Depois de um tempo, ele perguntou com a voz baixa. Soou dolorosamente como se ele estivesse forçando as cordas vocais. Asgyle não conseguia sequer imaginar o que eu pretendia fazer no futuro.
Todos deviam me desprezar, pensando no que um ômega seria capaz de fazer.
Por isso era possível.
Ninguém desconfiaria de mim. Mas esse homem poderia ser diferente. Veja bem, a atmosfera já havia mudado. Desta vez, eu mudei de assunto.
— O senhor não gostou de eu ter vindo aqui?
Acrescentei apressadamente, antes que Asgyle pudesse me questionar de novo:
— O senhor disse que tinha gostado.
— …Sim, eu gostei.
Asgyle admitiu com um tom de relutância. Ele provavelmente não queria que eu fosse ao palácio para vê-lo.
Ainda havia dúvida em sua voz. Ele não conseguia adivinhar o que eu estava tentando fazer, mas pelo menos aquilo parecia deixá-lo inquieto.
— Mas sou grato a Deus por encontrá-lo novamente assim — eu disse sinceramente.
Talvez eu nunca pudesse me confessar para ele, mas queria transmitir meus sentimentos mesmo assim. No entanto, minhas palavras não pareceram atingi-lo.
— Só porque eu gosto de você, você não precisa retribuir esse sentimento.
Ele falou calmamente, em um tom indiferente. Antes que eu pudesse negar, ele me confortou primeiro:
— Está tudo bem, eu já estou acostumado com isso.
De repente, lembrei-me de Asgyle naquele dia. Um homem parado sozinho em um jardim silencioso, olhando para o horizonte. Uma sombra densa projetada sobre seu rosto, que parecia infinitamente desolado.
“Será que este homem passou a vida inteira assim, sozinho, encarando um lugar distante que ele não conseguia alcançar?”
— …O senhor realmente gosta de mim?
— Sim.
Ele respondeu à minha pergunta sem qualquer hesitação. Precisei de um pouco mais de coragem para dizer o passo seguinte:
— …Se eu lhe pedir algo, o senhor me ouvirá?
— Qualquer coisa.
Desta vez, ele não hesitou nem um pouco. Minha garganta travou por algum motivo e tossi rapidamente.
— Então, eu tenho dois desejos.
— Diga-me.
Mais uma vez, ele respondeu prontamente. Quando expressei o meu primeiro desejo, Asgyle permaneceu em silêncio por um instante, como se estivesse surpreso. Eu conseguia perceber que pensamentos muito complexos passavam pela mente dele. Mas não demorou muito para que ele respondesse:
— …Faça como quiser.
Sem perder tempo, Asgyle perguntou em seguida:
— E qual é o segundo?
— Só falarei sobre ele depois que o primeiro pedido for cumprido.
Se o primeiro desejo não se realizasse, o segundo não teria sentido. O Príncipe Herdeiro havia prometido ceder à minha vontade, mas eu não relaxaria meu coração até que aquilo se concretizasse.
— …O senhor não pode fazer isso? — minha voz saiu trêmula.
Asgyle, que havia ficado em silêncio por um momento, abriu a boca:
— Minha única esposa.
Sua voz baixa soou como um sussurro:
— Qualquer coisa que você quiser se tornará realidade.
Não consegui conter minhas emoções e respirei fundo. Meus olhos se encheram de lágrimas rapidamente. As pontas dos meus dedos tremiam e meu coração batia loucamente.
Incapaz de conter o ímpeto, ergui os braços hesitantes e enlacei o pescoço dele. Asgyle me abraçou com força e permanecemos imóveis por um bom tempo. Do lado de fora, o ruído da tempestade de areia ainda podia ser ouvido.
***
— O que o senhor quer dizer com Vossa Alteza e o ômega ficarem aqui sozinhos por três dias, meu lorde?
A primeira coisa que ouvi foi a voz áspera de Khalid. Ele imediatamente se rebelou contra o anúncio feito aos assessores. Em seguida, outra voz se manifestou:
— Sim, meu lorde. É impossível deixar o Príncipe Herdeiro e Vossa Majestade sozinhos em um momento como este.
Quem se opunha firmemente era Dive. Seguiram-se algumas outras vozes que eu ouvia pela primeira vez. No entanto, diante daquela oposição unânime, Asgyle não hesitou em contê-los:
— São apenas três dias. Nesse meio-tempo, preparem as tropas. Vocês sabem bem que ninguém poderá se movimentar por enquanto.
Se bem me lembrava, era o período do Ramadã. Aqueles que rezavam e lutavam juntos não podiam iniciar uma guerra em um momento de reconciliação. Eles tinham cerca de um mês de trégua. Novamente, diante do argumento do Príncipe Herdeiro, todos silenciaram, até que Khalid hesitou por um momento:
— Antes disso, se o rei agir primeiro…
— Está tudo bem por agora — Asgyle interrompeu as palavras de Khalid. — As informações vindas do palácio são verdadeiras. Tudo corre de acordo com o planejado, nada muda. Nossa ação será logo após o término do Ramadã. Até os soldados não aceitariam se mover durante o mês sagrado.
— Mas, meu lorde, o que o senhor vai comer enquanto estiver aqui? — Dive manifestou-se.
Não apenas isso, mas ele demonstrava preocupação com as condições de vida no local de forma geral.
— São apenas três dias. No futuro, podemos passar por provações por um período muito mais longo.
A vontade do Príncipe Herdeiro era inabalável. Havia sinais de que ninguém estava totalmente convencido, mas eles não podiam mais se opor. Após mais algumas queixas, eles finalmente cederam.
— Esperarei por perto. Se acontecer qualquer coisa, por favor, entre em contato imediatamente.
Dive retirou-se do local após fazer aquele último pedido. E, depois de cerca de uma hora, os arredores ficaram completamente silenciosos.
— Agora me diga, qual é o segundo desejo?
Diante da pergunta de Asgyle, olhei ao redor. Não havia nada para ver, mas fiz isso para confirmar se havia mais alguém ali. Asgyle esperou por mim em silêncio.
O ambiente estava ainda mais quieto. Naquele silêncio onde era possível ouvir até os batimentos cardíacos do homem que me segurava, finalmente confirmei que estávamos sozinhos.
— …Vossa Alteza, o senhor não tem nenhuma dúvida de que eu possa estar tramando algo diferente?
Temendo aquele silêncio sufocante, segurei o fôlego e perguntei. Sem hesitar, ele me abraçou e sussurrou acima da minha cabeça:
— Mesmo se esse fosse o caso, como eu poderia recusar um pedido seu, Yohan?
A voz dele chamando meu nome ecoou na minha mente como se tivesse acontecido ontem. Um homem que estava disposto a me dar tudo, mesmo que eu não tivesse nada a oferecer.
— …Para mim só existe o Camar.
Finalmente externalizei o último segredo que guardava no coração. Asgyle não respondeu. Continuei a falar com ele, que havia congelado os movimentos:
— Apenas durante os três dias em que o senhor e eu estivermos aqui sozinhos, por favor, seja o Camar… Esse é o meu segundo desejo.
Ele se lembrava das palavras que dissera outrora, de que substituiria o Camar em minha vida. A resposta logo veio:
— …Tudo bem.
Asgyle abriu a boca:
— Eu serei o seu Camar.
A voz de Asgyle não estava em nada diferente do habitual, mas, por alguma razão, senti que ela tremia.
— …Obrigado, Camar — sussurrei para ele e o abracei apertado.
O vento, que mal havia diminuído, passou por mim mais uma vez.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby