Capítulo 162

⚝ Capítulo 162
Acordei com um som estalo e agudo. Eu queria abrir os olhos, mas minhas pálpebras estavam pesadas e minha testa se contraía. Sem perceber, meu corpo fez menção de dar um sobressalto. Despertei de sobressalto com aquele ruído ríspido que fez minhas bochechas parecerem arder, mas, claro, não havia nada para ver. Apurei os ouvidos, tremendo de medo, e logo em seguida veio outro som estalado. Aquele barulho arrepiante se repetiu várias vezes. Quando eu já começava a temer quando aquilo terminaria, ouvi uma voz familiar.
— Pare.
“Asgyle”
Prendi a respiração de pavor, esperando pela próxima palavra.
“Quem diabos ele estava batendo daquele jeito?” A resposta logo ficou clara.
— Khalid, você tem noção do crime que cometeu? Você colocou a vida do meu bem pessoal em risco.
A pronúncia de Khalid soou um pouco arrastada e confusa. “Seria verdade que Khalid, o sucessor do senhor senhorial, estava levando várias bofetadas no rosto?” Eu ainda duvidava daquele fato inacreditável, mas, mais uma vez, um som agudo e cortante atingiu meus ouvidos.
Chocado, fechei os olhos com força sem perceber. Incapaz de suportar aquela atmosfera sinistra por mais tempo, abri os olhos na escuridão. Ao ouvir o ruído aterrorizante de novo, soltei um suspiro sutil e segurei o fôlego, até que de repente os arredores ficaram quietos.
Um silêncio pesado se instalou. Pisquei meus olhos invisíveis repetidamente, sem saber o que fazer, com as mãos tremendo de pavor.
— Yohan.
De repente, a voz familiar quebrou o silêncio. Em seguida, um braço forte me amparou e enterrei o rosto contra o peito dele.
— Você acordou? Está bem?
Era um tom de voz completamente diferente do de antes. Pisquei e segurei o fôlego enquanto me agarrava aos braços de Asgyle. Aos poucos, aquele aroma sutil e adocicado acalmou meu coração e relaxou meu corpo.
— Sim… Estou bem…
Mal consegui abrir a boca para emitir algum som, mas logo fui tomado por uma crise de tosse. Minha garganta estava travada e senti uma dor como se minhas cordas vocais tivessem se dilacerado.
*Cof, cof, cof.*
A tosse persistia e, então, houve uma movimentação agitada ao meu lado.
— Beba.
Asgyle falou e encostou delicadamente um objeto, provavelmente um copo, em minha bochecha. Soltei um suspiro e virei a cabeça devagar para beber a água. Foi só depois de esvaziar o copo inteiro que a tosse intensa diminuiu um pouco. Asgyle, que parecia avaliar meu estado, só voltou a falar depois que eu limpei completamente a boca.
— Não percebe o perigo que é tentar cruzar o deserto sem conseguir enxergar?
Ele parecia mais penalizado por mim do que propriamente me repreendendo. Ergui a cabeça com cuidado, imaginando o rosto do príncipe franzido olhando para mim. Eu queria muito ver suas feições, mas isso era impossível. Quando eu estava prestes a baixar a cabeça de novo em uma amarga decepção, de repente algo tocou meus lábios. O Príncipe Herdeiro me beijou.
Prendi a respiração, surpreso. O braço que segurava meu ombro se apertou e abri a boca enquanto me colava ao peito dele.
Naturalmente, ele pressionou sua língua contra a minha, com os lábios colados aos meus. Uma língua espessa que ultrapassava meus dentes e envolvia minha boca. Sem perceber, fechei os olhos e me entreguei ao momento. Reuni coragem para corresponder ao toque de sua língua, e ele a entrelaçou à minha como se estivesse esperando por isso. Meu corpo inteiro doeu diante daquela felicidade avassaladora.
Eu queria abraçá-lo de volta, mas me faltava audácia. Eu apenas hesitava com as mãos unidas até que, de repente, Asgyle me enlaçou e, segurando meu braço com uma das mãos, puxou-me para cima, suspendendo-me.
Involuntariamente, envolvi o pescoço dele com meus braços, mas abri os olhos que havia fechado sem perceber. Notando minha hesitação, Asgyle interrompeu o beijo e afastou os lábios. Sem saber direito o que dizer, abri a boca atônito:
— É a primeira vez que penso nisso… — murmurei, quase num monólogo interior.
Asgyle repetiu, intrigado:
— A primeira vez?
Pelo tom da voz dele, imaginei perfeitamente sua expressão confusa, e não contive um riso baixo.
— Sim.
Ele assentiu e completou:
— É a minha primeira vez também.
Meu coração estava disparado e não consegui dizer mais nada. Fechei os olhos de novo e ergui a cabeça. Asgyle não compreendeu totalmente, mas me beijou em silêncio. Um suspiro escapou espontaneamente. Embora tivéssemos nos beijado tantas vezes, parecia a primeira vez. Meu coração batia loucamente e minha respiração acelerava por si só, a ponto de eu perder o controle do próprio corpo. Apoiei-me por completo em Asgyle, totalmente entregue ao seu beijo. Eu queria que o mundo parasse ali.
“Se ao menos isso fosse possível…”
Do lado de fora, o rugido do vento continuava a ecoar. No conto de fadas que li na infância, uma casa levada pelo vento caía em um mundo mágico, e a protagonista partia em uma aventura para retornar ao seu mundo original. O que eu faria se fosse eu? Tentaria voltar de alguma forma? Ou não?
À medida que nossos lábios mal se separavam, nossas respirações ficavam pesadas.
Sentíamos o fôlego um do outro mais alto do que o som da tempestade de areia que soprava lá fora. Dei-me conta da situação tardiamente e olhei ao redor sem perceber. Conforme meu rosto esquentava com o pensamento de que haveria pessoas nos assistindo, Asgyle falou acima da minha cabeça:
— Não se preocupe, estamos só nós dois.
Após um suspiro de alívio, logo compreendi. Nenhum servo ousaria testemunhar a intimidade secreta do Príncipe Herdeiro. Pensando na minha sorte, deitei a cabeça no peito dele novamente, e Asgyle quebrou o silêncio:
— Não aja mais por conta própria. Se eu não tivesse encontrado você a tempo…
Ele murmurou, algo estranho de se ouvir. Senti que ele sequer conseguia imaginar o pior, e fui tomado pela culpa.
— Me desculpe…
— A culpa não é sua, não estou pedindo que se desculpe — enquanto eu murmurava, ele me interrompeu impiedosamente. — A culpa é do Khalid, que ousou me ameaçar usando seu título de esposa. Se ele não estivesse falando absurdos, você também não teria feito uma loucura dessas.
Aquilo era verdade. Após um instante de silêncio, Asgyle continuou:
— Haverá punição suficiente para isso. Depois disso, ninguém mais ousará fazer o mesmo.
Ao ouvir aquelas palavras, o som estalado que havia despertado minha consciência ecoou de volta em meus ouvidos. Não tinha sido o Khalid quem levou as bofetadas no rosto mais cedo? E não havia terminado ali? Como se percebesse meu desconforto, Asgyle soltou um riso ríspido:
— Fui eu quem deu as chicotadas nas costas dele. Você achou mesmo que eu hesitaria em fazer algo assim?
A voz dele transbordava desprezo. Apesar de ele não estar direcionando aquilo a mim, fiquei aterrorizado novamente. Asgyle perguntou em seguida:
— Você não queria isso?
— …Não.
Engoli a saliva seca e respondi.
— Ele também demonstrou muita misericórdia ao senhor senhorial… Até mesmo o jovem lorde não teria pensado de verdade em fazer algo ruim comigo. Eu entendi errado.
— Claro que pensou. Ele ousou tentar vender você, caso contrário, eu o teria feito implorar para que eu o deixasse morrer.
Asgyle rangeu os dentes e exalou o ar com força. Diante daquele rosnado, encolhi-me de leve outra vez. Então, ele imediatamente suavizou a voz e disse:
— Eu entendo o que você quis dizer, então não se preocupe.
— …Sim.
Incapaz de prolongar o assunto, murmurei baixinho. Em meio ao silêncio desconfortável, apenas o ruído do vento persistia. Encostei o ouvido no peito dele e escutei o ritmo calmo e regular dos seus batimentos cardíacos. Minha mente relaxou e a tensão se esvaiu por si só. Enquanto eu permanecia aninhado ali, Asgyle voltou a falar:
— Este é um seguro para a sua herança.
Sem perceber, ergui a cabeça e tentei focar nele. Do nada, acompanhado de um som sutil, algo tocou meus lábios e se afastou. Logo percebi que Asgyle havia me dado um selinho. Sem hesitar, ele continuou:
— Um Ômega não pode herdar terras, mas já que você se tornou minha esposa, a família real administrará a propriedade e eu lhe concederei todos os poderes de fato. Se você der à luz um menino, esse garoto se tornará oficialmente o senhor senhorial e também será o meu herdeiro.
Eu não conseguia compreender aquela história completamente inesperada. Eu nunca quis me tornar um senhor de terras. Nem sequer desejei essa posição como esposa real. Mas antes que eu pudesse contestar, Asgyle se adiantou:
— Quando alguém lhe perguntar sobre a sua identidade, diga a verdade. Todos os trâmites estão sendo finalizados.
Eu continuava confuso. “Será que a palavra ‘finalizado’ já havia soado tão sinistra antes?” Ele deve ter sentido minhas feições se enrijecerem, mas Asgyle interpretou mal mais uma vez:
— Não tenha medo, é uma cabana antiga, mas é bastante resistente, então não será destruída por uma tempestade de areia como esta.
“Cabana?”
De repente, senti minhas orelhas ficarem atentas. Focando nas palavras que chegavam aos meus ouvidos, Asgyle prosseguiu:
— Existem um oásis e cabanas neste lugar, que o pai dele, o antigo lorde, havia construído temporariamente para os viajantes e mercadores que passavam. Ele também era muito apegado a este lugar.
Meus olhos se arregalaram de surpresa. Asgyle disse com um tom risonho, como se achasse graça:
— Eu não podia imaginar que ele havia plantado tantas árvores frutíferas.
Fiquei chocado e minha respiração falhou por um instante.
Eu havia retornado.
Por um momento, o som do vento sumiu dos meus ouvidos e, em vez disso, apenas o meu próprio coração ecoava neles.
De volta ao meu oásis.
…Com o Asgyle.
Em um piscar de olhos, as lágrimas brotaram em meus olhos.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby