Capítulo 161

⚝ Capítulo 161
O carro permaneceu em silêncio enquanto percorríamos uma distância considerável. Apesar do ar-condicionado frio estar ligado, eu continuava inquieto. Não conseguia me acalmar de tanta aflição e nervosismo, até que Khalid quebrou o silêncio do assento ao meu lado:
— O que tanto preocupa você?
Assustado com a voz repentina, hesitei antes de abrir a boca:
— O quê… Mas o Príncipe Herdeiro não disse que ele estava em segurança…?
— Ainda não.
A resposta dele veio de forma direta e concisa. “Ainda não.” Isso significava que logo haveria perigo? Enquanto eu apertava a tapeçaria com força em minhas mãos, Khalid continuou:
— Não vai adiantar nada você ficar preocupado, então relaxe. Existe uma razão para o Príncipe Herdeiro ter afastado você dele.
No entanto, se a mente pudesse se acalmar com a facilidade que queremos, nada no mundo seria difícil. De certa forma, me senti ofendido e desabafei com ele:
— O senhor nunca gostou de ninguém?
— Está dizendo que você até que gosta do Príncipe Herdeiro?
Não respondi a isso. Quando virei a cabeça rapidamente, Khalid ironizou com um tom de quem já sabia a resposta:
— Você ainda tenta manter as aparências dizendo coisas que nem pensa de verdade.
Desta vez, preferi ficar de boca fechada. Khalid parecia nutrir sentimentos ruins por mim, então nada do que eu dissesse funcionaria. Além do mais, não havia motivo para tentar deixar uma boa impressão para aquele homem.
— …Ainda falta muito? Para o palácio.
Quebrando o silêncio mais uma vez com a minha pergunta, ele respondeu com total indiferença:
— Eu não vou para o palácio.
Por um instante, não consegui compreender aquelas palavras ditas de forma tão casual. Para mim, que apenas piscava atordoado, Khalid acrescentou com um tom frio:
— Vou vender você desse jeito mesmo. Existem muitos pervertidos por aí que adorariam se divertir até com um ômega cego.
Em um piscar de olhos, meu corpo inteiro congelou.
“Ele está brincando comigo? Não pode ser.”
Para fazer uma piada tão absurda, esse homem tinha um caráter terrível…
— Você acha que eu estaria brincando na sua frente?
Ele zombou de mim, como se estivesse lendo meus pensamentos. E continuou a falar comigo, que havia estacado a ponto de nem conseguir respirar direito:
— Já vi inúmeras pessoas como você, achando que eu ia simplesmente entregar alguém que desdenhou do Príncipe Herdeiro e que agora está se vendendo para o rei. Se você pensa que ninguém é capaz de acompanhar essa sua mente astuta, está muito enganado. Você vai descobrir o seu lugar num piscar de olhos se continuar vagando por aí.
Balancei a cabeça com urgência, mas tudo o que recebi em resposta foi o deboche dele.
— Ouvi dizer que existem pessoas que cortam os membros e deixam apenas os orifícios, fico me perguntando o que vai acontecer com você.
— …!
Esse homem estava falando sério.
Eu conseguia perceber perfeitamente. Ele me odiava.
“Ele seria tão leal assim ao Príncipe Herdeiro?”
A ponto de achar que sou um traidor e tentar se vingar.
É claro que eu estava errado aos olhos dele. Mas eu sequer podia revelar a verdade. Aquela era a minha própria estratégia e, se falhasse, todos correriam perigo. Tudo precisava terminar com o plano que eu mesmo havia arquitetado.
“Se ao menos eu pudesse enxergar…”
Se eu pudesse ter ido sozinho desde o início, o fardo seria muito menor. No entanto, era impossível atravessar o deserto infinito sem a visão. Por fim, implorei:
— Tudo bem, não me leve ao palácio real… Eu não vou para lá. Me deixe na cidade… Eu vou embora deste país, por favor.
Supliquei com a voz trêmula, mas ele apenas soltou uma risada ríspida:
— Nunca vi alguém que não sabe mentir tanto quanto você. Suas ambições são grandes demais para ousar seduzir o príncipe herdeiro com um papo tão tolo e ainda tentar alcançar o rei.
Fui desmascarado rápido demais e não consegui dizer mais nada. “Ele vai me vender? Ou não vai? Será que vou ficar sem ver o Camar para sempre por causa disso?”
Afinal, eu estava pensando em partir. Meu plano era viver quietamente, rezando pela felicidade de Camar de longe, após confirmar que ele estava seguro.
Mas eu não conseguiria fazer nem isso.
Diante daquela situação, só restava uma opção. Eu precisava escapar de alguma forma. Mesmo que tivesse que morrer no meio do deserto, não podia ficar ali.
“Mas como?”
Foi então que o destino pareceu me dar uma resposta pela primeira vez. Senti o carro balançar violentamente com um ruído estridente e, em seguida, um cheiro de queimado começou a se espalhar.
— O que está acontecendo? — Khalid perguntou com a voz alterada.
O homem que parecia estar no banco do motorista falou apressadamente:
— Sinto muito, senhor. Parece que o carro ficou preso em alguma coisa.
— Droga.
Khalid soltou uma breve exclamação. O ar-condicionado desligou e o ambiente ficou sufocante.
— Com licença, vou verificar um instante.
A porta do carro se abriu e logo se fechou. O silêncio tomou conta dos arredores. “Por favor, por favor.” Eu rezava intensamente por dentro e, felizmente, senti o movimento do homem sentado ao meu lado.
— Que diabos está acontecendo lá fora?
No momento em que Khalid saiu do veículo, estendi a mão rapidamente em direção à maçaneta. Se o destino estava me ajudando agora, com certeza não me deixaria falhar.
“Se ele trancar a porta, eu estou perdido. Por favor…!”
O carro deu um solavanco.
Meus olhos arderam com o som da porta se abrindo. Sem hesitar, agarrei a tapeçaria e pulei para fora do carro.
— …O que é aquilo?
Alguém me viu e gritou. Mas não parei e continuei correndo. Os gritos de Khalid ecoaram logo atrás:
— Pare! Uma tempestade de areia está vindo! Por que você não está parando…?!
A voz dele pareceu sumir e, num instante, uma lufada forte de poeira me atingiu. Cobri o rosto rapidamente com a tapeçaria, mas não consegui resistir à força do vento. Desabei onde estava, e o vento carregado de areia soprou violentamente sobre mim.
*Cof, cof.*
Tossi repetidamente enquanto a areia ardida açoitava meu corpo inteiro. Minha respiração ficou sufocada.
“Eu posso morrer assim.”
Um pensamento vago me ocorreu. O que seria menos doloroso: ser vendido ou morrer aqui?
“Não desista.”
“Você precisa continuar. Precisa ir até o fim.” Exausto, tentei me levantar de qualquer jeito. Dei um único passo, mas o vento me empurrou três ou quatro passos para trás. Pensei que seria melhor esperar o vento estiar, mas, se fizesse isso, Khalid me capturaria imediatamente. Eu precisava ir o mais longe possível agora. De alguma forma, ir além…
Deitei-me no chão e comecei a rastejar lentamente. Era melhor do que ficar parado. “Será que estou no caminho certo? Ou estou indo na direção oposta?” Com um pouco mais de paciência, talvez eu conseguisse ajuda de alguém que estivesse passando. Assim como o destino me permitiu encontrar Camar antes, um milagre poderia acontecer desta vez também…
“Se ao menos eu pudesse vê-lo mais uma vez.”
De repente, minhas forças se esgotaram e fiquei estendido no mesmo lugar, imóvel. Talvez a dor tivesse amortecido ou a areia que cobria meu corpo tivesse aliviado o impacto. “Vou descansar um pouco. Só um pouquinho. Não vai demorar muito. Logo, logo… Até breve…”
— …!
Pareceu haver uma voz distante. Misturada ao som da tempestade de areia, ela se espalhava como um eco em uma caverna; era difícil ter certeza porque mal dava para compreender. Fiquei imóvel, mas, desta vez, a voz ecoou com mais clareza:
— …Yohan!
“…Camar?”
Será que eu estava sonhando? Isso seria o céu? Minha consciência estava turva e eu não conseguia discernir a realidade. O som se aproximava gradualmente de mim, que não conseguia mover um único dedo. Ergui as pálpebras com dificuldade. Parecia haver uma silhueta imprecisa em meio à forte tempestade de areia. “Não pode ser. Eu já devia saber. Meus olhos não conseguem ver nada…”
Quando eu estava prestes a fechar os olhos novamente, captei um aroma suave e adocicado. Antes mesmo que eu pudesse formular um pensamento, percebi que uma grande sombra se projetava sobre mim e, em seguida, ela me ergueu da areia.
— Yohan, mantenha a consciência! O que houve?
“O que diabos aconteceu?”
A voz dele tremia como se estivesse prestes a chorar. Eu, que até então estava sem reação, soltei um suspiro trêmulo e fechei os olhos com uma sensação de alívio.
“Deus atendeu ao meu pedido.”
Reuni o resto das minhas forças e o abracei. Suas costas largas preencheram meus braços.
“Camar.”
Os cantos dos meus olhos arderam, mas nenhuma lágrima escorreu porque eu estava coberto de areia. Com um suspiro de alívio, perdi completamente a consciência.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby