Capítulo 160

⚝ Capítulo 160
À medida que a noite avançava, os arredores ficavam ainda mais silenciosos. Eu sabia disso porque, em vez do som dos pássaros e das pessoas do lado de fora da janela, agora só se ouvia o cricrilar ocasional dos grilos noturnos.
Eu não saberia dizer quanto tempo havia se passado desde que o dr. Steward tinha ido embora. No entanto, era certo que eu permanecera completamente absorto por um bom tempo.
“O que foi que eu fiz?”
Não importava quantas vezes eu revivisse as palavras do doutor, só existia uma resposta: Asgyle poderia morrer por minha causa.
“Você não deveria ter vindo para cá, em primeiro lugar.”
Eu deveria ter desistido de tudo. Não deveria ter ido ao palácio só porque queria reencontrar Camar. Se era para terminar assim, eu deveria ter esquecido tudo e partido.
“Tudo teria corrido de acordo com o plano de Asgyle.”
Tomado por um sentimento de culpa que se renovava a cada instante, enterrei o rosto nas mãos e soltei um gemido profundo.
“Eu arruinei tudo.”
Minha respiração ficava curta diante da tensão. Apenas as últimas palavras do doutor ecoavam na minha mente: *”O Rei provavelmente vai matar o Príncipe Herdeiro”*. Não. Só de imaginar aquela silhueta coberta de sangue, meu coração parecia parar.
Houve um farfalhar na minha mão, que eu havia fechado sem perceber, e senti uma textura estranha. Era o envelope que o doutor havia me entregado; continha o resto do pó. Mordi o lábio e segurei o fôlego. Eu precisava recuperar a lucidez. Aquele não era o momento para ficar paralisado.
“Vou proteger Camar a qualquer custo.”
*’O Príncipe Herdeiro vai morrer’*
“Nunca vou deixar que termine assim.”
Desta vez, eu jamais falharia. Eu faria qualquer coisa por Camar. Seria capaz de cometer qualquer crime. Sim.
Tomei minha decisão e me levantei. Eu não tinha muito tempo. Mesmo que precisasse passar a noite em claro, eu tinha que terminar tudo. Sentei-me novamente em frente ao tear e comecei a trabalhar. E não saí dali até que Shahin veio ao quarto para anunciar que a manhã havia chegado.
***
— Você vai voltar para o palácio?
Ao ouvir minhas palavras, a voz de Shahin se elevou mais do que o de costume. Como ele havia me observado durante a noite toda e dito que estava preocupado, parecia não conseguir controlar as emoções. Ele pigarreou rápido e continuou a falar com mansidão, como se tentasse me acalmar:
— Isso não seria um pouco precipitado? Não seria melhor ir quando o Príncipe Herdeiro vier buscar você? Afinal, Asgyle disse para você esperar aqui antes de partir.
Shahin tinha razão. Mas uma dúvida me corroía: “Ele realmente viria me buscar? Esse dia realmente chegaria?” Do jeito que as coisas estavam, aquilo parecia impossível.
— Por favor, me deixe ir. Me ajude.
Eu apenas repetia a mesma súplica. Shahin permaneceu em silêncio por um instante, como se estivesse sem saber o que fazer. Então, ele suspirou, disse que falaria com o senhor senhorial e se retirou. Quando fui deixado sozinho, sentei-me outra vez diante do tear e continuei o trabalho. Estaria terminado em cerca de meio dia.
Enquanto eu me concentrava na tarefa, inesperadamente quem veio me ver primeiro não foi Shahin, mas sim o doutor.
— Yohan!
Assim que abriu a porta, ele exclamou e se aproximou a passos largos, disparando a falar:
— O que é isso de voltar para o palácio? Você está falando sério? Perdeu o juízo de vez?
— Doutor…
Diante daquela enxurrada de perguntas, respondi com estranheza, mas mantendo a calma:
— Estou falando sério. E estou muito consciente.
— Ah, Yohan. Como você pode…?
Ele soltou um suspiro abafado e continuou a falar, a curta distância:
— Você não sabe como está a situação agora? Para ser sincero, eu praticamente fugi de lá. Estamos à beira de uma guerra civil. Ou o rei ou o príncipe herdeiro terá que morrer. E você quer voltar para lá? É uma loucura, Yohan. Eu não posso permitir que faça isso.
— Sim, talvez eu esteja louco — murmurei baixinho.
Talvez por já ter preparado tudo, meu coração estava em paz.
— Mas estou decidido. Quero retornar ao palácio real. Vou voltar e me encontrar com Sua Majestade, o Rei.
— Yohan, o que você pretende fazer se não consegue enxergar? — ele alterou a voz, frustrado.
— Eu apenas ficarei de boca fechada. Daqui para frente, o senhor não precisa se envolver no que vou fazer. Se continuar aqui, até o senhor correrá perigo.
Ao me ver irredutível e em silêncio, ele soltou um suspiro pesado.
— …Sinto muito, doutor. O senhor já me ajudou demais.
— Não, eu não quero ouvir desculpas — Steward suspirou novamente, dando-se por vencido. — Você não vai me dar ouvidos, não é? Você nunca recua quando o assunto é o Camar.
— …Me desculpe.
Eu não tinha nada a dizer além de pedir perdão outra vez. Minha cabeça pendeu involuntariamente, incapaz de erguê-la. O doutor acrescentou:
— Você realmente pode morrer desta vez. Ou você, ou o Príncipe Herdeiro. Ou talvez ambos.
— Tudo bem.
A decisão já estava tomada.
— Eu não conseguiria viver em um mundo onde o Camar não existisse.
Diante da minha confissão, ele não disse nada por um longo tempo. Quando ouvi outro suspiro, alguém bateu à porta e ela se abriu. Senti o doutor se mover e eu também me levantei. Pensei que fosse Shahin, mas, surpreendentemente, uma voz inédita ecoou:
— Você quer que eu o leve ao palácio?
Assustei-me com o som daquela voz grave e profunda e, sem perceber, ergui a cabeça. O homem logo se apresentou:
— Sou Khalid Ahil ibn Ma’qal al Rahman, o segundo filho do antigo senhor senhorial e atualmente substituindo o primogênito. Você vai mesmo retornar ao palácio real? Seria muito mais seguro permanecer aqui.
A fala parecia formal, mas transparecia um certo incômodo. Naturalmente, eu era apenas alguém trazendo mais trabalho desnecessário para ele. Assenti prontamente, embora internamente compreendesse a situação.
— Sim, por favor. É importante.
— Se o Príncipe Herdeiro morrer, você vai se deitar com o Rei? É isso o que os Ômegas fazem, não é, mãe?
Assustei-me com a provocação deliberadamente sarcástica, mas a pessoa a quem ela foi direcionada teve uma reação calma. Era Shahin, e só então percebi que ele havia entrado junto com o homem.
— Sim. De que serve a castidade para os Ômegas, afinal? Eu já me deitei com o irmão mais novo do meu amante, então se deitar com o pai não seria nada demais.
Diante da resposta de Shahin, o homem, que silenciou por um instante, rangeu os dentes e rosnou em voz baixa:
— Desavergonhado.
Mesmo sem poder enxergar, senti a hostilidade dele cortar o ar. Constrangido, estendi a mão devagar para verificar se o doutor ainda estava ali. Felizmente, ele estava por perto e segurou minha mão com firmeza, sem se importar com a cena. Khalid voltou sua atenção para mim com um tom de voz bastante rude:
— Então, posso levá-lo ao palácio? Partiremos logo após o almoço, entendido?
Ele não parecia ter a menor intenção de perder tempo comigo. Assenti rapidamente.
— Sim, por favor.
Ouviu-se um estalo de língua impaciente, mas foi só isso. Pouco depois, o som da porta se abrindo e fechando ecoou, e o silêncio retornou.
— Deve ser perigoso, Yohan.
Percebi que Khalid havia saído e que restara apenas Shahin no quarto. Tratei de agradecê-lo por toda a gentileza que tivera até ali.
— Eu tinha algo para terminar… Muito obrigado pela atenção de vocês durante esse período. Nunca vou esquecer.
— Não precisa agradecer. Eu apenas segui as ordens do lorde. Você não vai conseguir ver o trabalho terminado… Falta pouco, você passou a noite inteira fazendo isso?
O tom final dele pareceu um tanto surpreso. Aquelas palavras me despertaram; eu não tinha tempo para hesitar. Precisava terminar logo para partir. Notando minha óbvia ansiedade, Shahin acrescentou em seguida:
— Então vou deixá-lo sozinho para não atrapalhar. Que Deus o abençoe.
Shahin também se retirou do quarto com aquelas últimas palavras de benção. O doutor Steward desistiu de tentar me convencer e o acompanhou. Sozinho, concentrei todos os meus sentidos e terminei o trabalho às pressas. Minhas costas e ombros doíam, mas eu não podia descansar. O nervosismo não me permitia parar as mãos por um segundo sequer. Continuei a tecer sem tomar uma gota de água durante todo o tempo. Quando Khalid finalmente veio me buscar, eu estava dando o último ponto.
— …Você terminou.
Ao entrar no aposento, ele murmurou para si mesmo ao me ver concluir o trabalho.
— Onde você pretende usar algo em que trabalhou tanto? Você não vai dar isso ao rei, vai?
Diante do acréscimo sarcástico, respondi calmamente:
— Sim, vou entregar a Sua Majestade, o Rei.
Terminei o arremate sem sequer me dar ao trabalho de conferir a reação dele, e cambaleei ao tentar me levantar. Imediatamente, um braço forte me segurou, e me apoiei no corpo dele para recuperar o fôlego.
— …Sua Majestade é digno de pena.
Ele resmungou baixinho, mas o som chegou nítido aos meus ouvidos. Fingi que não escutei e segurei a tapeçaria finalizada com as duas mãos.
O doutor estava do lado de fora da porta me esperando. Ele segurou meu braço em silêncio e caminhamos pelo corredor sem dizer uma palavra.
— Yohan, não se esqueça de que estarei esperando por você a qualquer momento.
Quando finalmente chegou a hora da despedida, ele me pediu mais uma vez. Apenas o abracei em silêncio antes de me afastar.
— Obrigado, doutor. Gosto muito do senhor.
— Eu também gosto muito de você, Yohan.
Ele disse em tom de brincadeira, mas eu sabia que era verdade. Após reafirmarmos nossa amizade, entrei no jipe que nos aguardava. De repente, captei um leve aroma de feromônios. Logo percebi que era o cheiro de Khalid e que ele era um Alfa. Quando, inadvertidamente, toquei a marca de Asgyle gravada em minha orelha, senti o local arder como se estivesse pegando fogo.
“Camar.”
Mantive os dedos pressionados contra a cartilagem da orelha, imerso em pensamentos.
“Não seria maravilhoso se eu pudesse ver você mais uma vez?”
À medida que meus olhos subitamente se aqueceram com as lágrimas, o jipe deu a partida com o estrondo forte do motor.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby