Capítulo 159

⚝ Capítulo 159
Naquele dia também, assim que abri os olhos, sentei-me em frente ao tear.
Felizmente, o tempo passava muito bem enquanto eu esvaziava a cabeça e me concentrava no meu trabalho. O que eu estava bordando era o Rikal, mas como eu nunca tinha visto a gata que o acompanhava, imaginei-a e teci uma gata branca junto dele, conforme o Steward havia me dito. À medida que o tempo corria, lento e sem pressa, minha mente ficava mais calma.
No fim da tarde, Shahin veio me visitar como de costume. Eu não sabia as horas, mas ele se aproximou, talvez por já ser a hora do jantar, e puxou assunto enquanto eu ponderava vagamente sobre o tempo:
— Yohan.
Hesitei por um instante, achando que a voz dele ao chamar meu nome parecia de certa forma mais pesada do que o normal. Shahin continuou:
— Alguém veio ver você, Yohan. Disseram que vieram do palácio real.
— Me ver?
A primeira coisa que me veio à mente ao ouvir a expressão “palácio real” foi o rosto da Princesa Najima. Quando ele percebeu que minhas feições se enrijeceram rapidamente, Shahin disse:
— Você conhece um homem chamado Norman Steward? Eles o chamaram de médico.
— O quê? O doutor?
Diante daquele nome inesperado, minha voz se elevou sem que eu percebesse. Shahin notou minha reação e perguntou em seguida:
— O que você prefere fazer? Se não quiser se encontrar com ele…
— Ah, não. Eu preciso vê-lo. O doutor é meu amigo.
— Entendo…
Por alguma razão, o tom final da fala dele pareceu vago, mas antes que eu pudesse questionar, ele se adiantou:
— Então vou avisá-lo. O lorde respeitou a sua vontade, Yohan, e disse que você pode fazer o que quiser.
“Ele está dizendo que eu não poderia encontrá-lo só porque eu queria?”
Shahin acrescentou em um tom leve, como se meus pensamentos tivessem ficado evidentes em meu rosto:
— Não é fácil se encontrar com outros homens em uma situação como a nossa. Além disso, o seu parceiro é o Príncipe Herdeiro. Mas agora que o lorde, que é o meu guardião, deu permissão, está tudo bem.
“Se preciso de permissão para me encontrar com alguém, as coisas continuarão sendo assim daqui para frente?”
Tive uma sensação estranha, mas por algum motivo não consegui perguntar. Shahin falou após eu manter a boca fechada:
— Já está ficando tarde, então tenham um breve encontro antes do jantar. Tudo bem por você?
O clima parecia indicar que seria inútil dizer não.
— Sim — respondi, e ele logo concluiu:
— Então vou preparar o lugar. Desculpe incomodar, Yohan.
Shahin deixou o quarto após fazer uma saudação formal. Quando fui deixado sozinho, pisquei atordoado e belisquei com cuidado o dorso da minha mão. A dor aguda confirmou que aquilo tudo não era um sonho.
*O que o doutor estaria pensando?*
Eu queria encontrá-lo e conversar logo, mas, ao mesmo tempo, um canto do meu coração esfriou. Torci para que ele não trouxesse nenhuma notícia ruim. Ao me recordar de Camar, que havia surgido diante de mim momentaneamente coberto de sangue e inconsciente, uma batida soou na porta, como se acompanhasse os sobressaltos do meu coração. No instante em que prendi a respiração sem perceber, a voz familiar do servo ecoou:
— Yohan, você tem uma visita. É o doutor Norman.
— S-sim… Pode entrar.
Respondi depressa e me levantei da cadeira. Pouco depois, a porta se abriu e uma brisa fresca entrou no ambiente. Muito nervoso, virei-me na direção de onde imaginei que ficava a porta. Enquanto eu respirava fundo, ouvi uma voz nostálgica:
— Yohan.
Virei-me para a direção de onde vinha o som, mas fiquei sem saber o que fazer; então o doutor, aproximando-se, segurou-me e me puxou para um abraço.
“Doutor.”
Uma sensação de realidade finalmente me atingiu com o toque daquele corpo firme em contato com o meu calor. Ele me abraçou enquanto meus olhos ardiam rapidamente, e acariciou a parte de trás da minha cabeça com sua mão grande.
— Que bom que você parece saudável, de verdade. Eu estava tão preocupado.
— …Doutor.
Assim que pronunciei seu nome, fui tomado por uma emoção que não consegui conter, então fechei os olhos. No momento em que envolvi as costas dele com minhas mãos trêmulas, não aguentei e o apertei com todas as minhas forças.
— Doutor!
— Yohan.
Meu coração estava disparado e não consegui dizer mais nada. Compartilhamos a alegria do reencontro sem saber direito o que fazer, apenas chamando pelo nome um do outro alternadamente.
***
— …Ufa.
Depois que o momento do abraço passou, o doutor me afastou de leve. Também me distanciei dele com um sentimento de nostalgia e mal consegui abrir a boca:
— Doutor, como o senhor tem passado? Está tudo bem?
Quando erguia a mão para tatear o rosto dele, Steward compreendeu o que eu sentia e aproximou a face da minha mão. Ele respondeu gaguejando um pouco enquanto eu tocava seu rosto:
— Tenho passado muito bem. Estava preocupado pensando em como você estaria, Yohan, mas fico aliviado ao ver que você também parece bem.
— Sim, eu também estava bem — respondi com um sorriso caloroso.
Senti o sorriso de Steward através das minhas mãos e continuei a falar:
— O Rikal também está bem. Acho que a gata branca ficou grávida.
— O Rikal vai ser pai?
Surpreso, minha voz se elevou sem que eu percebesse. O doutor assentiu e disse:
— Não se preocupe, estou cuidando para garantir um lugar seguro e tranquilo para eles. Os dois não se desgrudam e se dão muito bem. O temperamento do Rikal está ainda pior do que antes, então eu é que tenho que protegê-lo.
— Isso…
— Internamente, eu temia que ele pudesse se machucar. Por mais feroz que o Rikal seja, ele não é um leão, é apenas um gato. Eu preciso protegê-lo — o doutor acrescentou logo em seguida, pensativo: — Você não precisa se preocupar com isso, porque você não deve aparecer por lá, Yohan.
Aquela justificativa me pareceu um pouco estranha.
“Havia algo mais com o que se preocupar?”
Quando de repente fiquei apreensivo, o doutor soltou um suspiro. Ao ouvir aquela respiração estranhamente longa, sobressaltei-me, e ele começou a falar com um tom de voz mais pesado do que antes:
— Na verdade, existe um outro motivo para eu ter vindo até aqui para ver você, Yohan.
— Sim.
Engoli em seco e esperei que ele continuasse. O doutor logo revelou:
— Para começar, eu voltarei para os Estados Unidos em breve. Já estou providenciando o voo e acabei de empacotar todos os meus pertences do palácio real. Se você quiser ir comigo, é claro que será muito bem-vindo. O problema é que é difícil levar o Rikal, e será ainda mais complicado depois que os filhotes nascerem. Sendo assim, acho que terei que deixar o Rikal onde ele está agora, e depois você poderá vir buscá-lo ou levá-lo de vez.
Senti meu coração afundar com aquelas palavras. Desde que descobri que o Rikal havia formado um par com uma nova gata, eu já cogitava a possibilidade de nos separarmos. Mas quando a realidade bateu à porta, minha mente de repente pareceu ficar em branco.
— O lugar onde o senhor vai deixar o Rikal… Onde fica?
Uma voz trêmula ecoou em meus ouvidos. Parecia que era outra pessoa quem estava falando.
O doutor respondeu sem hesitar:
— É na casa da senhorita Meisa. É muito seguro lá.
— Ah.
Senti um leve alívio, então soltei um suspiro profundo sem perceber. Se fosse com a Meisa, o Rikal também não ficaria arisco, então ficaria tudo bem.
— A senhorita Meisa vai cuidar dele… Ela é uma pessoa muito boa.
— Sim. Ela é uma mulher adorável.
O doutor, que havia acrescentado um elogio espontâneo, murmurou apressado, pigarreou e logo mudou de assunto:
— De qualquer forma, diante dessa situação, você não precisa se preocupar demais com o Rikal. Afinal, a senhorita Meisa chegou a dizer que faria uma breve viagem de visita aos Estados Unidos levando os gatos.
— A senhorita Meisa faria isso…?!
Exclamei surpreso, e ele me perguntou com uma voz bem-humorada:
— O que acha? Assim você conseguirá ir para os Estados Unidos comigo em paz?
Fiquei extremamente grato e feliz, mas ao mesmo tempo me senti ansioso. A conversa fluía de maneira tão fácil e rápida. Poderia haver tantas coisas boas acontecendo ao mesmo tempo?
O doutor disse para mim, ao me notar subitamente assustado e hesitante:
— Tem algo preocupando você?
— Sim…
Assenti e respondi com franqueza:
— Tudo o que o senhor está dizendo parece bom demais.
— …É verdade.
Após um momento de hesitação, a resposta dele me deixou ainda mais apreensivo. Ele voltou a falar enquanto eu o encarava, incapaz de continuar sorrindo:
— Na verdade, Yohan, há uma razão para eu ter vindo tão longe.
— Sim, por favor, me diga.
Instiguei-o com pressa, mas por algum motivo o doutor continuou hesitante.
— O motivo de eu ter deixado o palácio foi porque não havia mais razão para estar lá, mas também porque eu não podia mais permanecer.
— Por quê?
Com aquela demora dele, comecei a ficar nervoso, sentindo como se algo estivesse prestes a desabar sobre mim. Diante dos meus olhos invisíveis, meu coração acelerou como um sinal de alerta.
“Que diabos ele está tentando dizer?”
— Yohan.
Ele chamou meu nome mais uma vez e suspirou:
— Nós fizemos algo que não deveríamos ter feito.
Não consegui pressioná-lo e segurei o fôlego. Finalmente, ele confessou com uma voz aguda e trêmula, como se fosse algo realmente difícil de exteriorizar:
— Você não deveria ter pegado aquele pó.
Por um instante, meus olhos se arregalaram.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby