Capítulo 158

⚝ Capítulo 158
— Uh, uh… Oh.
Um som de dor escapou da minha boca. Minha mente estava vagamente desperta, mas uma parte da minha consciência ainda se encontrava em um estado estranho, vagando por um sonho. Embora soubesse que era um pesadelo, eu não conseguia abrir os olhos. Enquanto continuava a andar e andar na escuridão, olhei ao redor com urgência. Eu estava procurando por algo, mas não sabia o que era. Sentia que, se encontrasse, seria capaz de escapar daquela penumbra. O que era? O que seria?
*”Yohan.”*
Quando ouvi de longe uma voz suave, abri os olhos com uma dor aguda.
O som sutil da chuva podia ser ouvido do lado de fora da janela. Abri os olhos, mas tudo ao meu redor ainda estava escuro, então, por um tempo, lutei para distinguir se aquilo era realidade ou se ainda permanecia no sonho.
— …Ai!
Só quando contive um gemido ao tentar mover meu corpo sem perceber, foi que tive certeza de que era a realidade. A dor nas minhas costas, que eu havia esquecido por um momento, cortou minha respiração e me causou uma dor de cabeça.
Depois de prender o fôlego por um instante, finalmente consegui mexer o corpo. O único som audível era o da chuva. Aquele silêncio estranho misturado ao som da minha respiração pesada começou a me incomodar; então segurei o fôlego, e apenas o ruído da chuva torrencial alcançou meus ouvidos.
“…Você está bem?”
De repente, um canto do meu coração doeu, como se estivesse dormente. Como aquele homem estaria se saindo debaixo daquela chuva? Mesmo sabendo que nada mudaria pelo simples fato de eu estar ao lado dele, ainda assim não pude evitar que meu coração se apertasse.
“Deve ser aterrorizante…”
Senti necessidade de um abraço. Encolhi-me um pouco na cama e fechei os olhos novamente. Asgyle não estava ali.
***
Abri os olhos mais uma vez com o som de um rangido. A chuva ainda continuava. Desta vez, prestando atenção e me levantando com cuidado, ouvi uma voz familiar.
— Ah, você acordou? Acabei de preparar um chá, gostaria que eu trouxesse a refeição?
Era a voz do servo que estava encarregado de cuidar de mim. Como sempre, respondi um “sim” em voz baixa, sentindo-me um pouco sem jeito. Só depois que Asgyle partiu foi que passei a ter alguém para me ajudar com a rotina diária logo após a cerimônia. Pensei que provavelmente era uma consideração do velho senhor, mas a verdade é que eu achava difícil me adaptar.
Até aquele momento, eu fazia todas as minhas tarefas sozinho. Era a primeira vez que alguém preparava minha comida e cuidava do meu dia a dia daquela maneira.
“As pessoas daqui devem estar acostumadas com isso.”
Para mim, Shahin costumava vir ao meu quarto para conversar ou dar um passeio comigo. Mais uma vez, como se ele tivesse entrado junto com o servo, pude perceber vagamente a presença de alguém além de mim no aposento.
— Yohan, dormiu bem? Desculpe entrar sem permissão.
Ele sempre falava desse jeito. Então eu dizia que estava tudo bem, e Shahin me dava uma leve bronca.
— Você não pode dizer isso.
Mais uma vez, ele acrescentou em tom de provocação:
— Você precisa se acostumar com isso, Yohan. Ninguém deve ter permissão para entrar neste quarto sem o seu consentimento, e nenhuma atitude deve ser tomada em relação a você sem uma ordem sua.
Era algo que eu sempre ouvia, então não dei muita importância. Afinal de contas, essa vida não duraria muito. Pensava que, mesmo se me acostumasse, seria ainda mais desconfortável voltar a ficar sozinho depois; mas não queria que Shahin, que cuidava de mim, se sentisse mal, então apenas assenti.
Depois que o servo arrumou os pratos e saiu, Shahin me conduziu até a mesa e me ajudou a sentar. Antes disso, não faltou o auxílio de outro servo que trouxe água para eu lavar o rosto e as mãos.
— Você come de um jeito tão delicado, Yohan.
Quando eu estava prestes a pegar o pão com a mão, Shahin de repente puxou assunto.
Essa também era uma frase que eu costumava ouvir dele, mas quase não conseguia me habituar. Senti meu rosto esquentar sem motivo e murmurei: “Eu não sou pequeno”. De repente, me peguei pensando: “Como será a aparência de Maqal?”
“O homem que tomou para si o Ômega que antes era o amante do seu próprio filho”
Tendo recordado vagamente a história que ouvira antes, tratei de afastar esses pensamentos depressa. É indelicado ser curioso sobre a vida dos outros. Mais do que tudo, eu não estava em posição de ficar bisbilhotando a situação de ninguém.
— Quanto tempo devo permanecer aqui?
Imaginei que Shahin pudesse não saber, mas abri a boca alimentando uma pequena esperança.
Mais uma vez, ele respondeu com uma voz misturada a um riso brando:
— Sinto muito, Yohan. Eu também não sei.
— Entendo…
Pensando que havia feito uma pergunta tola, parti o pão em silêncio e o levei à boca. Shahin sentou-se à mesma mesa que eu e comeu, assim como fizera no outro dia. Estava claro que aquilo também era uma demonstração de consideração comigo, que estava comendo sozinho.
Ele permanecia a maior parte do tempo em silêncio, mas ocasionalmente dizia coisas triviais, seja para quebrar o gelo ou para me tranquilizar.
— Choveu bastante a noite passada.
Novamente assenti, dizendo um “sim” para ele, que também havia trazido um tópico leve desta vez.
— Costuma chover com frequência por aqui?
Como se percebesse meu esforço para manter a conversa fluindo, Shahin respondeu com um tom sorridente:
— Não é como em Al-Ad. Como fica perto do mar, chove com frequência.
— Entendo… — murmurei baixinho.
Eu tentava não pensar nisso, mas meu coração insistia em pender para um lado.
“Será que vai ficar tudo bem…? Asgyle é o Príncipe Herdeiro. Ele é o único herdeiro do trono. E não importa o quão ruim seja a relação deles, ele ainda é filho do rei…”
— Yohan?
— Ah.
Quando despertei ao som do meu nome sendo chamado, percebi que minha mão havia parado no meio do caminho.
Rapidamente retomei a refeição e levei o cordeiro à boca. A carne cozida de forma macia se desmanchava na boca, mas por alguma razão parecia difícil de engolir.
Enquanto eu comia, Shahin de repente me questionou:
— Você está preocupado com o Príncipe Herdeiro?
A comida que eu estava engolindo ficou presa na minha garganta diante daquela pergunta abrupta.
Procurei pela água às pressas e acabei derrubando o copo. Senti uma umidade fria em meu joelho, e em seguida Shahin rapidamente enxugou minha perna com alguma coisa.
— Espere um instante, vou pedir para trazerem uma muda de roupa para você se trocar.
Sem me dar tempo para falar, ele resolveu a situação rapidamente com movimentos ágeis. Felizmente, usando a refeição finalizada como desculpa, recusei a oferta de Shahin para dar um passeio e permaneci sozinho no quarto. A chuva que havia caído intensamente no dia anterior parecia uma mentira; hoje o dia estava silencioso, exceto pelo canto ocasional de um pássaro.
“Não há nada que eu possa fazer.”
Repreendi-me por deixar meus pensamentos divagarem daquela forma, mas não conseguia conter o aperto no coração. Sabia que era impotente diante da situação, e isso me deixava ainda mais angustiado. Perdido em meus dilemas, acabei fazendo um pedido a Shahin quando ele veio almoçar comigo:
— Você poderia conseguir um tear para mim?
A voz de Shahin carregou um leve tom de dúvida. Era uma reação natural questionar o uso de um tear para alguém que não podia enxergar.
— Sim, fico entediado por não ter nada para fazer o dia todo… Apenas um tamanho adequado para produzir uma tapeçaria pequena seria o suficiente.
— Isso não é difícil de conseguir, mas… Como você pretende fazer isso?
Dei uma resposta curta à pergunta curiosa:
— Apenas através do tato.
Shahin, logicamente, não parecia totalmente convencido, mas atendeu ao meu pedido sem contestar.
Após o almoço, algum tempo se passou e o servo entrou no quarto trazendo o tear.
— Seria deste tamanho, meu senhor?
Ele perguntou, pegando minha mão e me ajudando a tatear a estrutura. Após verificar as dimensões corretas do tear, assenti.
— Sim, obrigado.
— Na verdade, eu os organizei na ordem que o senhor havia pedido.
Depois de perguntar se eu precisava de mais alguma coisa, ele se retirou do aposento. Ao ficar finalmente sozinho, sentei-me na cadeira e soltei um suspiro. Assim que segurei os fios e me posicionei, minha mente pareceu se acalmar um pouco. Concentrar-me ali seria capaz de afastar os pensamentos complexos até certo ponto. Senti um pouco de nervosismo por fazer tanto tempo desde a última vez que havia trabalhado com isso, mas não demorou muito para que a familiaridade retornasse. Fiquei completamente absorvido no trabalho e, quando Shahin chegou no fim da tarde, eu havia perdido totalmente a noção das horas.
— …Yohan, você é realmente cego?
Shahin, que havia permanecido em silêncio por um instante, fez uma pergunta que me deixou sem graça.
— Os fios eram pequenos e foram bem preparados, por isso não foi difícil.
— Estou ansioso para ver o resultado final. Trabalhar tanto assim deve ter lhe dado muita fome, por favor, levante-se. Vamos primeiro encher o estômago.
Ele murmurou como se não estivesse totalmente convencido e logo mudou de assunto. Enquanto me sentava com a ajuda de Shahin, de repente percebi que meu estômago estava vazio ao notar o cheiro da comida logo em seguida. Após uma refeição acompanhada de conversas casuais como de costume, Shahin se despediu. Em um dia em que a mesma rotina vinha se repetindo, um convidado inesperado chegou.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby