Capítulo 157

⚝ Capítulo 157
Dormi por alguns instantes, mas despertei ao sentir uma presença. Logo, uma voz veio de perto:
— Você acordou? Só precisa se levantar e se arrumar.
A voz suave provavelmente pertencia ao servo. Perguntei, sentando-me na cama:
— Já está tudo pronto?
Confuso, fiz a pergunta sem hesitação.
— O Príncipe Herdeiro e o senhor senhorial estão esperando por você.
Aquelas palavras me fizeram lembrar do que havia acontecido no dia anterior.
“Será que ele estava sendo sincero? Ele vai mesmo se casar comigo?”
Como havia pegado no sono tomado pela dúvida, ainda achava difícil acreditar na situação atual. Fui conduzido pela mão, banhado e trocado; enquanto caminhava pelo corredor, ainda parecia que eu estava sonhando.
Ali de pé, percebi que calçava sapatos novos, diferentes dos que costumava usar. As roupas, obviamente, também eram novas. A textura engomada das vestes inéditas e o toque fresco em meus pés faziam meu coração disparar a cada passo, mas eu continuava sem conseguir acreditar naquela realidade.
“Talvez eu ainda não tenha acordado.”
No momento em que assenti para mim mesmo, o servo que me guiava interrompeu a caminhada. Assim que paramos, outra voz foi ouvida:
— Meu senhor, os convidados chegaram.
Após alguns segundos de pausa, ouvi o som da porta se abrindo e ele me conduziu para dentro. O aroma adocicado que logo flutuou no ar fez com que eu não pudesse mais negar que aquela situação era real.
A cada passo que eu dava, o perfume se tornava mais forte. O cheiro dos feromônios, que me envolvia de forma mais gentil do que nunca, deixou minha mente desnorteada. Quando soltei um suspiro involuntário, o servo soltou meu braço que segurava delicadamente.
— …!
De repente, o calor de uma mão grande envolveu a minha. Enquanto eu vacilava diante daquela situação inesperada, ouvi uma voz abafada e baixa logo em seguida:
— Calma.
Fui instantaneamente cativado pela voz que surgiu como um sussurro.
“…Camar?”
Embora soubesse que era impossível, mergulhei em total confusão. Quem segurava minha mão agora era, definitivamente, o Príncipe Herdeiro. Eu não estava enganado. Não havia como confundi-lo com o Camar.
“Mas por quê? Por que sinto como se fosse o Camar?”
Eu mal podia acreditar. *“Está tudo bem se eu assumir o lugar do Camar.”* Assim que essas palavras dele me vieram à mente, tratei de repeli-las imediatamente. Não havia a menor chance de o Príncipe Herdeiro estar imitando o Camar de propósito. Para começar, ele não fazia ideia de quem era o Camar, nem de como ele me chamava ou me abraçava.
Portanto, mesmo que tentasse imitar, ele não conseguiria.
Mas por que eu me sentia daquela forma? Obviamente, aquele homem era o Asgyle.
Enquanto eu lidava com aquele estranhamento, a porta se fechou atrás de nós e o ambiente mergulhou em silêncio num piscar de olhos. Eu estava prestes a dar um passo para trás por instinto, mas Asgyle de repente segurou meu braço. Prendi a respiração pelo susto, e ele afrouxou o aperto das mãos, mas não me soltou.
— Acalme-se — Asgyle disse calmamente, como se tentasse me encorajar. — Isso vai acabar logo. Como eu disse ontem, este é apenas um procedimento formal. Por favor, seja paciente.
— M-mas… — Hesitei antes de abrir a boca. — O que a Princesa Najima vai fazer?
— Isso não é problema seu.
A voz de Asgyle de repente se tornou mais fria. No entanto, ele logo mudou o tom e acrescentou:
— Você só precisa pensar em si mesmo. Eu não vou machucar você, eu juro por Deus.
De repente, tive uma sensação estranha. O Camar negava a existência de Deus, mas o Asgyle sempre falava Dele. Desta vez, a mesma coisa aconteceu. Sendo assim…
“O que o Camar me diria se estivesse nesta situação? Com certeza seria diferente”, convenci a mim mesmo. O Camar dizia que morreria comigo, mas esse homem jamais faria isso. Asgyle é o Príncipe Herdeiro e nunca poderá ser meu.
No fim, não tive escolha senão abaixar a cabeça e consentir. Asgyle não me aceitaria de verdade de qualquer forma; eu provavelmente era apenas um estorvo para o que estava por vir. No mínimo, eu não tinha outra opção a não ser aceitar que me dessem um lugar para ficar e garantissem o meu status.
Após ouvir minha resposta, Asgyle apertou minha mão com força uma vez e depois a soltou. Quando ele pensou que eu estava mais calmo, por algum motivo, o velho senhor começou a falar após o som de um pigarro:
— Sendo assim, darei início ao casamento.
Asgyle pegou minha mão e a estendeu para a frente, e imediatamente senti o toque de uma mão magra. Colocando minha mão sobre a mão que devia ser a do lorde, e com a palma grande de Asgyle cobrindo o dorso da minha mão, o senhor conteve o fôlego e continuou:
— O Príncipe Herdeiro de Al-Ad, Asgyle Shaqiel Al Harun ibn Tariq Shazad Al-Ad… E Yohan de Al Fatih.
Era óbvio o motivo pelo qual ele hesitou por um instante ao pronunciar meu nome. Mas mantive a boca fechada sem recuar. Afinal, eu não tinha uma identidade real agora.
O senhor, que havia feito uma pausa como se esperasse por um momento, continuou a dizer:
— Abençoe estas duas almas que estão diante de Deus. Hoje, elas anunciam a união de suas almas perante o Criador.
Escutei-o em silêncio, ouvindo o som de sua tosse intermitente. Enquanto permanecia deitado na cama, o senhor confirmou sua fé em Deus e perguntou se manteríamos os votos, após nos pedir para confiar um no outro. Asgyle respondeu primeiro que sim, e eu também respondi com um “sim” contido. Aguardando o desfecho, ouvi o lorde declarar:
— Portanto, eu aprovo este casamento. Que Deus abençoe este novo casal.
Foi um procedimento muito mais simples do que eu esperava. Eu me tornei a primeira esposa de Asgyle. Parecia que as coisas haviam avançado e fiquei ansioso, mas não houve tempo para reflexões profundas. Eu mal podia acreditar que já tinha acabado, então me senti perplexo.
“É só isso?”
Enquanto eu piscava os olhos, Asgyle segurou meus ombros e me puxou para um abraço repentino. Assim que fui pressionado contra ele, um toque macio alcançou meus lábios. Só depois que nossos lábios se separaram é que percebi que ele havia me beijado.
“Isso faz parte do protocolo original?”
Fiquei confuso, mas como era meu primeiro casamento e eu nunca tinha visto ninguém passar por isso, apenas permaneci ali, em silêncio. O riso do velho senhor pareceu ser ouvido de forma distante, mas pode ter sido apenas o som de mais uma tosse.
— Teria sido bom poder segurar você logo no início da noite — Asgyle disse, com uma voz que parecia carregar um leve sorriso por algum motivo. Parecia que ele estava triste por alguma razão, então tentei confortá-lo:
— O senhor já me abraçou algumas vezes antes.
O Príncipe Herdeiro respondeu alguns segundos depois:
— …Sim, é verdade.
Tardiamente, pensei que havia dito algo diferente do que ele esperava, mas não houve tempo para corrigir. Com a ajuda de Asgyle, beijei o dorso da mão do velho senhor e recuei. Asgyle me soltou por um momento, provavelmente para se despedir do lorde, mas não demorou muito. Ele voltou logo em seguida e me abraçou com naturalidade. Agora que eu estava acostumado, não me assustei, embora o constrangimento ainda estivesse presente.
Enquanto saíamos do quarto e caminhávamos pelo longo corredor, Asgyle mergulhou no silêncio. Eu também não abri a boca. Imaginei que estaríamos fazendo o mesmo caminho que o servo havia traçado, mas a sensação era completamente diferente de antes. Talvez fosse pelo aroma adocicado na ponta do meu nariz, talvez pelo braço forte que me segurava, ou talvez eu estivesse apenas com um humor diferente. Interrompi meus pensamentos e fechei os olhos.
“…Ah!”
Percebi que não ser capaz de enxergar é realmente perturbador. Quer você abra os olhos ou não, como não consegue ver nada, os sentidos do seu corpo se tornam totalmente aguçados, e até mesmo as coisas que você não deseja sentir acabam sendo transmitidas. Por exemplo, o bater acelerado e poderoso do coração desse homem, que eu conseguia sentir nitidamente.
“…Você ainda me lembra o Camar.”
De repente, as lágrimas brotaram em meus olhos e interrompi os passos. Pouco depois, o som da porta se abrindo foi ouvido e Asgyle se moveu novamente. Já estávamos de volta ao quarto. Abri os olhos, ainda atordoado.
— Isso ainda é um sonho…?
Enquanto eu murmurava baixinho, uma voz misturada a um riso brando veio de cima da minha cabeça:
— Não, é a realidade. Você acabou de se tornar minha esposa.
— …
Continuei piscando os olhos. Então, Asgyle inesperadamente soltou uma risada sincera. Claro, o som sumiu antes que eu pudesse demonstrar minha surpresa.
Assim que o eco da risada desapareceu, o silêncio ao redor pareceu diminuir. Em silêncio, fixei meu olhar na direção onde imaginei que o rosto dele estaria. Não se ouvia nada. Nós sequer respirávamos. O tempo passou dessa maneira. Talvez um longo tempo.
— …Yohan.
Depois de um momento, ele quebrou a quietude e chamou meu nome. Eu não consegui responder; apenas prendi o fôlego e pisquei. Asgyle não disse mais nada.
Em vez disso, senti um sopro fresco tocar meus lábios e fechei os olhos. Foi só quando nossos lábios se uniram que compreendi vagamente.
“Eu estava esperando por este beijo, com tanta ansiedade.”
Minhas mãos tremiam com a vontade de enlaçar o pescoço dele. Após hesitar, finalmente cerrei os punhos e os segurei com força. Asgyle abriu a boca e coloquei minha língua ligeiramente para fora antes que ele avançasse. Assim que o toque úmido de nossas línguas se consumou, perdi o fôlego. Para a minha vergonha, o aroma que eu vinha contendo até agora se espalhou de uma só vez. O corpo de Asgyle enrijeceu com o cheiro dos meus feromônios. Senti-me tanto envergonhado quanto excitado ao perceber que o braço que me envolvia se apertou e a respiração dele se tornou um pouco mais rústica.
Mas, mesmo assim, um canto do meu coração continuava confuso. “Eu me casei com o Asgyle, não com o Camar. Eu não posso errar. Então, isso é apenas uma reação fisiológica. Porque sou um Ômega.”
— Sinto muito…
Assim que nossos lábios se separaram, pedi desculpas sem perder tempo. Senti Asgyle hesitar.
— …Pelo quê?
Sua voz controlada estava mais baixa do que o habitual e um tanto relaxada. Confessei com sinceridade:
— Porque eu sou um Ômega… Não consegui evitar e deixei meus feromônios escaparem. Me desculpe…
Ele ficou em silêncio por um tempo. Um tipo diferente de quietude se instalou. Então, sem dizer uma palavra, o Príncipe Herdeiro se moveu e me deitou na cama. Pensei que ele iria se virar e ir embora logo em seguida, mas ele agiu de forma totalmente inesperada.
— …?
De repente, senti uma sensação quente em meu pescoço. Sem perceber, encolhi os ombros, mas ele não recuou e puxou o ar profundamente. Tinha o cheiro dos meus feromônios. Prendi a respiração de vergonha, mas Asgyle se inclinou sobre mim e respirou fundo repetidas vezes. Como se quisesse absorver meu perfume um pouco mais intensamente.
No entanto, ele não liberou seus próprios feromônios sobre mim. Pelo contrário, ele apenas inalava os meus, um após o outro, sem emitir nenhum odor corporal, como se tivesse ocultado o próprio aroma.
Quando compreendi que a razão de não sentir o cheiro dele era porque Asgyle estava se contendo apenas para se preencher com o meu perfume, ele finalmente ergueu a cabeça.
Justo quando eu estava prestes a sentir a falta do calor de seu corpo, uma mão grande tocou minha testa.
— …Yohan.
Asgyle disse, acariciando suavemente meu cabelo.
— Eu não odeio o seu cheiro. …Na verdade, eu gosto muito.
Quando ele terminou de falar, sua mão permaneceu sobre minha cabeça por mais um momento. Mas aquele instante não durou muito. Por fim, o último vestígio de seu calor desapareceu e Asgyle me deixou sozinho, sem dizer mais nada.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby