Capítulo 155

⚝ Capítulo 155
Pouco depois que o choque passou, os arredores mergulharam no silêncio.
Felizmente, o ferimento na língua não era grave. Depois que o médico aplicou o remédio e lhe deu uma receita, acrescentou uma recomendação preocupada e deixou o quarto. Os servos que se movimentavam de um lado para o outro pareceram segui-lo e, em seguida, fez-se o silêncio; sentei-me na cama em meio àquela quietude, sentindo minha língua arder. Mesmo depois que nós dois fomos deixados a sós, o Príncipe Herdeiro não pronunciou uma única palavra por um longo tempo.
— …Você está tentando se ferir?
A princípio, não consegui compreender o fluxo repentino de suas palavras. Após uma pausa de um instante, Asgyle ergueu a cabeça e falou novamente:
— Daqui em diante, desconte em mim. Mesmo que eu saia machucado, se fizer isso novamente, só você sairá perdendo. — Era difícil dizer se aquilo era amargura, raiva ou que tipo de emoção o dominava. No entanto, suas palavras soavam como se ele estivesse magoado com o meu ferimento.
É claro que balancei a cabeça imediatamente, indicando que aquilo não era verdade.
Após outra pausa, ele abriu a boca:
— Eu não gosto nem um pouco disso.
Desta vez, também não respondi. Minha língua doía, mas pensei que ele saberia a resposta sem que eu precisasse dizer nada. Mais uma vez, seus feromônios, que haviam silenciado por um momento, emanaram sutilmente. Reagi contra a minha vontade àquele aroma tênue, como se ele estivesse se infiltrando em mim mesmo que eu tentasse contê-lo.
— Você…
Asgyle, que havia começado a falar, parou de novo. O cheiro dos feromônios ficou ainda mais forte. A voz dele soava tão distante que nem parecia estar perto, mas o aroma era intenso: se ele estivesse próximo, eu teria enlaçado o seu pescoço no mesmo instante. Com as mãos trêmulas, agarrei silenciosamente o lençol que cobria meus joelhos, e um perfume adocicado de repente tomou conta de mim. Asgyle, aproximando-se abruptamente, segurou meu braço.
— Eu vou arrancar todos os seus dentes.
Ele rangeu os dentes e cuspiu as palavras com uma voz áspera.
— Se você não se entregar a mim, farei com que seja impossível para você deixar uma marca em qualquer outra pessoa no mundo. E assim? Você ainda vai se recusar a se entregar para mim?
Em vez de responder, mantive a boca fechada. Meu corpo inteiro estava congelado e eu não conseguia sequer balançar a cabeça, então aquilo era tudo o que eu podia fazer.
— …
Um silêncio pesado se instalou. Um feromônio espesso transbordava ao meu redor, mas ele não tentou me subjugar como antes. Quando pensei no que faria se ele insistisse naquilo, o aroma de repente começou a se atenuar. O cheiro, que havia enfraquecido como se tivesse encontrado uma razão para cessar, logo desapareceu, deixando apenas um rastro de feromônios no ambiente.
— Você pode me chamar de Camar.
Fui pego de surpresa pelas palavras que saíram como um sussurro, como se ele estivesse expelindo um fôlego sufocado. Apenas pisquei os olhos, incapaz de reagir, então Asgyle continuou, desta vez com uma voz que parecia alterada:
— Sim, vamos fazer assim. Você não vive dizendo que ele se parece muito comigo? Então apenas pense em mim como se eu fosse o Camar. Assim vai dar certo, não vai? Afinal de contas, você nem sabe onde o Camar está. Não sabe sequer se ele está vivo ou morto. Então não haverá problema nenhum se eu assumir o lugar do Camar.
Ele parecia feliz, como se finalmente tivesse encontrado uma solução. Infelizmente, não tive escolha senão balançar a cabeça diante da emoção expressa naquela voz que ninguém poderia ignorar.
— Não.
— …
O silêncio retornou. Perguntei-me se ele estava conseguindo respirar.
— Por quê?
Foi só depois do que pareceu uma eternidade que Asgyle perguntou com a voz ligeiramente rouca. Eu respondi:
— Porque o Camar e Vossa Alteza são completamente diferentes. — Continuei a falar para ele, que novamente havia emudecido: — Eu era o único para o Camar.
*”Yohan.”*
— Não havia nada além de amor por mim.
*”Eu te amo, Yohan.”*
Senti como se estivesse me afogando de repente, então puxei o ar profundamente e terminei de falar:
— Ele não me impõe nada. Vossa Alteza tem coisas demais. — No silêncio, sussurrei. E eu não queria que esse homem abrisse mão de nenhuma delas. Que ele pudesse manter tudo o que era seu desde o nascimento, tudo o que possuía. Eu tenho minhas memórias com o Camar, então está tudo bem.
Tendo compartilhado o que queríamos, não era justo para nós dois?
Eu pensava assim, mas Asgyle parecia ter uma visão diferente. Senti o aperto em meu braço afrouxar de leve e um suspiro profundo ecoou.
— …Por quê?
Depois de um tempo, uma voz surgiu dele, parecendo reprimida, como se suas cordas vocais estivessem sendo esmagadas.
— Por que não pode ser eu?
Aquilo não era algo que eu pudesse responder. Mesmo que fosse uma pergunta real, eu não tinha o que dizer. Apenas mantive a boca fechada e ele não me pressionou mais. Na quietude, pareceu haver um som fraco, quase imperceptível, de choro, dando a impressão de ser uma ilusão. Ele não estava chorando.
***
— Sua condição melhorou bastante. Ainda há um leve desconforto, mas logo vai passar.
O médico falou como se estivesse me elogiando, aplicou a pomada e se retirou. Havia se passado alguns dias desde o incidente. Deixado sozinho no quarto, soltei um curto suspiro.
Depois daquilo, não houve mais conversas entre Asgyle e eu. Ele não falava nada, como se tivesse medo do que eu pudesse dizer. Quando eu perguntava alguma coisa, ele se limitava a responder de forma simples, com um “sim” ou “não”. Além disso, Asgyle parecia mais ocupado do que quando estávamos no palácio; pela manhã, ele saía antes mesmo de eu abrir os olhos e, à noite, quando eu já estava dormindo ou cochilando, ele banhava meu corpo novamente e adormecia me segurando em seus braços.
Estranhamente, ele não tentou mais se deitar comigo, apesar de eu carregar a sua marca. O máximo que fazia era me beijar. Talvez hoje não fosse diferente.
Durante esse tempo, preparei minha mente de várias maneiras. Estava pensando em tudo o que precisaria fazer quando retornasse.
“O que eu vou fazer com o Rikal?”
Essa era a minha maior preocupação. Quando fui levado, eu tinha interesse em arrumar outro gato para fazer companhia ao Rikal, mas agora não tinha certeza se seria capaz de assumir a responsabilidade de cuidar de ambos. Eles são alimentados e bem tratados no palácio real, então talvez fosse melhor que ficassem por lá. O Rikal já está velho e ficará muito doente; se for comigo, não será capaz de receber nem mesmo um tratamento médico decente.
A recompensa que o Príncipe Herdeiro me deu será deixada para trás. Se eu puder retornar ao Oasis e viver sozinho, isso será o suficiente. Não era um sonho impossível de realizar, agora que não tenho mais meu tio e sua esposa. Mas com o Rikal seria diferente.
A última vez que toquei em seu corpo, ele havia ganhado bastante peso e estava pesado. Não era mais aquele gato magro que me acompanhava. A ponta do meu nariz franziu ao sentir culpa por não estar cuidando bem do Rikal. No momento em que funguei involuntariamente, a porta do quarto se abriu e alguém entrou. Só havia uma pessoa que podia surgir do nada e se aproximar de mim com tanta naturalidade.
— Yohan.
Ergui a cabeça calmamente ao ouvir a voz que já esperava. Momentos depois, uma mão grande tocou minha bochecha. Ele primeiro pronunciou meu nome para me tirar do susto e depois acariciou meu corpo. A mão que afagava minha bochecha parou por um instante e Asgyle voltou a falar:
— Como está o seu corpo? O médico veio ver você?
— Sim…
Disse exatamente o que o médico havia relatado. Quando terminei de falar, ele segurou meu queixo e forçou minha boca a se abrir. Com a boca aberta, coloquei a língua ligeiramente para fora, revelando a parte que ele queria inspecionar. Essa ação vinha se repetindo há vários dias, mas desta vez o exame foi surpreendentemente longo.
“O ferimento é tão profundo que ele precisa olhar por tanto tempo assim?”
Cheguei a me questionar. De acordo com o médico, a ferida estava quase cicatrizada, e eu também sentia mais um incômodo do que dor, portanto não havia nenhuma lesão que exigisse um exame mais detalhado; ainda assim, ele segurou meu queixo por mais tempo do que o necessário.
— …Ufa.
Asgyle finalmente soltou um suspiro, e eu fechei a boca e relaxei o queixo.
— A consciência de Sua Majestade retornou — Asgyle disse de repente.
Ele me abraçou de surpresa e deu tapinhas nas minhas costas, como se quisesse me tranquilizar.
— Terei que retornar para avaliar a situação, mas é provável que o clima não esteja bom. O Maqal não mencionou isso? Existem forças se movendo contra mim.
“Seria a mesma facção que tentou matá-lo quando ele era jovem?”
Sentindo uma ansiedade interna, lembrei-me do pó que encontrei nos aposentos do rei. Não seria útil falar sobre isso para que fizessem uma investigação adequada?
Justo quando eu estava prestes a abrir a boca, Asgyle continuou:
— Assim que voltarmos ao palácio, iniciarei as conversas sérias com a Najima. Isso havia sido adiado devido à doença de Sua Majestade, o Rei.
— Sim…
Era de se esperar. Eu também havia prometido. Por isso, meu coração não desmoronou e nem doeu. Nem um pouco.
Enquanto eu juntava as mãos distraidamente, Asgyle disparou:
— Antes disso, vou me casar com você aqui.
— …?
“Meus ouvidos estão ruins?”
Pisquei os olhos em total perplexidade. Asgyle, que me mantinha colado a si, afastou-se um pouco e declarou:
— Vou me casar com você. Seja minha esposa, Yohan.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby