Capítulo 154

⚝ Capítulo 154
O Príncipe Herdeiro retornou pouco tempo depois. Eu, que o esperava sozinho no quarto, ouvi os passos e me levantei da cadeira. Após alguns instantes, a porta se abriu e o Príncipe Herdeiro veio diretamente em minha direção.
— …!
O impacto daquele abraço repentino e forte me fez estremecer sem perceber. Asgyle me apertou firmemente contra si, distribuindo beijos pelo meu pescoço, orelhas e rosto, inalando meu perfume enquanto sussurrava:
— Voltei.
— …Sim.
Respondi a contragosto. Ele interrompeu os movimentos após me beijar repetidas vezes. Esperei em silêncio pela reação de Asgyle, que continuava abraçado a mim, imóvel.
— …!
Seus lábios se moveram e tocaram o pavilhão da minha orelha. A marca cravada ali pareceu enrijecer assim que o sopro quente da respiração dele passou por ela. Ignorando minha relutância, Asgyle abriu a boca e abocanhou o local marcado. Forcei-me a ficar firme e cerrei os dentes; não chegava a ser uma dor excruciante, mas senti arrepios pelo meu corpo inteiro. Involuntariamente, uma sensação muito parecida com o tesão correu pelo meu ventre, fazendo-me tremer de forma espontânea. Asgyle me apertou ainda mais, me segurando por completo em seus braços, e eu puxei o ar com dificuldade. Aquele aroma adocicado penetrou profundamente em mim. Senti-me como se estivesse inteiramente afogado nos feromônios do príncipe, e percebi, de forma vaga, que aquilo era o efeito da marca.
Ela tornava meu corpo impotente, reduzindo minha existência a apenas um Ômega submisso, não a um ser humano.
Um Ômega moldado e preparado para aquele homem.
Naturalmente, ele me deitaria na cama e me possuiria como bem entendesse.
Alheio à minha própria vontade, o meu ânus já começava a lubrificar. Agarrei-me a ele, roçando meu corpo excitado contra o dele. Eu apenas desejava que aquela situação terminasse logo. Afinal, nada iria mudar.
Com esse pensamento, o aroma dos feromônios desapareceu de repente. Até mesmo minha mente confusa clareou um pouco. Sem que eu entendesse o que estava acontecendo, Asgyle falou:
— …Essa não era a minha intenção.
“O que não era a intenção dele? Qual era, afinal, o seu propósito?” Enquanto eu ainda tentava organizar os pensamentos, ele me pegou no colo de repente. Prendi a respiração involuntariamente ao sentir meu corpo ser erguido no ar, mas Asgyle apertou os braços ao meu redor, segurando-me com firmeza para me passar segurança. Logo em seguida, ele me deitou na cama.
— Você ficou entediado sozinho? Ou alguém veio aqui?
Como a verdade viria à tona de qualquer forma, respondi com sinceridade:
— Um homem chamado Shahin veio me ver. Ele disse que o senhor senhorial queria conversar comigo.
— Você conheceu o Maqal?
Ele perguntou sem qualquer tom de cobrança ou pressa. Quando assenti, Asgyle continuou, com a voz sem nenhuma alteração:
— O que o Maqal lhe disse?
Ele parecia não ter previsto que Maqal desejaria se encontrar comigo. Tive a impressão de que o príncipe estava se esforçando ao máximo para não demonstrar receio, mas, de alguma forma, eu conseguia ler o que se passava na mente dele. Claro que eu podia estar errado. O que eu realmente sabia sobre aquele homem?
— O senhor senhorial perdeu o filho mais velho… Ele disse que Vossa Alteza passou por muitas dificuldades na vida, por isso pediu que eu o compreendesse.
A mão que acariciava meu cabelo parou. Eu ainda não conseguia sentir cheiro nenhum de feromônio, mas percebi que ele havia ficado desconcertado.
— …E então? — Após um breve silêncio, Asgyle perguntou: — O que você respondeu para ele?
Eu respondi:
— Não houve tempo para conversarmos muito. O senhor senhorial estava tossindo demais.
— …
— A doença dele parecia estar em um estágio muito avançado.
Asgyle permaneceu calado por um momento antes de dizer:
— Ele não deveria ter pedido uma coisa dessas a você.
Ele continuou com a voz baixa e densa:
— Você não precisa me compreender. Apenas aja de acordo com o que você mesmo sente.
Em seguida, seus lábios macios tocaram minha bochecha. Ele se afastou logo depois e se retirou por um instante.
— E a refeição? O Shahin cuidou bem de você?
— Sim… — Assenti com a cabeça. — Ele até preparou tortas de ovo.
— Como estava o gosto? — Parecia haver um leve sorriso na voz de Asgyle. Mais uma vez, fui sincero:
— Estava delicioso, de verdade.
— Que bom.
Depois disso, ele murmurou algo consigo mesmo, mas meus ouvidos ficaram subitamente sensíveis e parei de prestar atenção.
— Quer que eu contrate o confeiteiro para o palácio?
— Não, não precisa — apressei-me em dizer, soltando um som assustado. Asgyle perguntou rapidamente assim que fechei a boca:
— Por quê?
Aquilo pareceu divertido para ele por algum motivo. Resmunguei baixinho, um pouco tenso:
— Se o senhor o levar, as pessoas daqui não vão mais poder comer bolos tão gostosos… Eu estou bem. Além disso… eu tenho os macarons.
— Não podemos apenas trazer os macarons também? — sugeriu Asgyle.
— É melhor quando se pode ter os dois. No entanto… — acrescentei com seriedade: — É bom guardar um pouco de saudade. Se você tiver absolutamente tudo o que deseja, haverá muitas coisas das quais não conseguirá abrir mão.
— Você não precisa abrir mão de nada — Asgyle rebateu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Você pode ter tudo o que quiser, basta me pedir.
Não me importei com aquelas palavras arrogantes. Achei que era uma atitude natural demais para um príncipe herdeiro. Quando me remeti ao silêncio, Asgyle deu um passo à frente:
— Diga-me se houver algo que você queira, eu farei qualquer coisa.
Enquanto esse homem nutrisse sentimentos por mim, talvez eu pudesse realmente ter o mundo inteiro aos meus pés. Mas só havia uma única coisa que eu desejava, e era justamente o que ele jamais poderia me dar. Por isso, não tive escolha senão dizer:
— …Nada.
— …
— Eu não quero nada.
Ele soltou um suspiro profundo e pesado, perfeitamente audível. O Príncipe Herdeiro levou a mão à testa, exibindo uma expressão preocupada e frustrada.
— Se eu estivesse no seu lugar, eu desejaria muitas coisas.
Dei a resposta definitiva para ele que estava se queixando:
— É porque eu não existo em função de Vossa Alteza.
Ele perdeu as palavras novamente. A atmosfera tornou-se um tanto tensa, mas fingi não notar. Aquele momento passaria logo.
— Diga-me alguma coisa.
Ouvindo aquela ordem dele após tanto tempo, senti-me sem jeito.
— …Sobre o que quer que eu fale?
— Qualquer coisa.
— …
— Conte-me tudo o que você tem vontade de fazer.
Asgyle estava me concedendo liberdade em certo sentido, mas eu não gostava daquela liberdade. Porque, na realidade, não havia nada a ser dito. Ansioso, comecei a esfregar os polegares com os dedos entrelaçados e falei com dificuldade:
— O senhor Shahin não parece gostar muito do senhor senhorial…
— É claro que não.
Asgyle confirmou com indiferença o que eu havia sentido vagamente. Arregalei os olhos involuntariamente enquanto ele continuava a falar naquele mesmo tom desapegado:
— Shahin era o amante do filho mais velho que morreu.
Aquilo foi completamente inesperado. Não era de se espantar que Asgyle tivesse chegado a uma conclusão antes mesmo de pensar a respeito.
— Aquele filho morreu porque não pôde aceitar o casamento do pai com seu Ômega.
Foi difícil processar a informação ao juntar o que Maqal havia me dito com o que os outros comentavam. Talvez percebendo a confusão estampada em meu rosto ao lembrar da voz suave e do corpo debilitado de Shahin, Asgyle acrescentou:
— Obviamente, é verdade que esta mansão é tolerante com os Ômegas, e o Maqal é uma pessoa muito esclarecida entre os nobres. Mas a história muda de figura quando se trata do próprio filho.
O desfecho daquela história soou como uma careta amarga na minha mente. Sem perceber, soltei impulsivamente:
— Assim como Vossa Alteza?
Em um piscar de olhos, a paz aparente foi estilhaçada e um silêncio cortante se instalou. Cobri a boca, envergonhado com o meu próprio atrevimento, mas já era tarde demais. Asgyle quebrou o silêncio compassado:
— O que você quer dizer com isso?
Era impossível decifrar o seu estado de espírito apenas por aquela voz controlada. Fiquei apavorado, mas não tive outra alternativa senão responder:
— Vossa Alteza também… Parece mais esclarecido do que os outros homens, mas, no fundo, continua desprezando as mulheres e os ômegas.
— Eu não desprezo as mulheres. Não acho que os homens sejam superiores a elas ou algo do tipo.
— Mas e quanto aos Ômegas?
Ele emudeceu novamente. Após um longo silêncio, Asgyle perguntou com a voz consideravelmente ríspida:
— Você acha que pode me julgar?
— Não — respondi honestamente. — Porque o próprio Príncipe Herdeiro disse que as coisas mudam de figura quando o assunto envolve os nossos próprios interesses.
— …
— Acho que isso é o normal.
Ao fechar a boca, ele soltou mais um suspiro sufocado.
— …Você não entende.
A voz de Asgyle soou um pouco impaciente, mas continuei a pontuar com serenidade:
— Eu também sou um Ômega. E o senhor me marcou.
Assim que levei a mão à orelha marcada e a soltei, ouvi o som de sua respiração pesada. Asgyle puxou o ar algumas vezes, como se tentasse dominar a própria fúria, e então exalou:
— E você não acabou de dizer que quer me deixar por causa disso?!
Recusei sem hesitar diante daquelas palavras que pareciam ser expelidas por entre seus dentes:
— Sim, porque Vossa Alteza não é o meu alfa.
Agora, eu sequer conseguia ouvir o som da minha própria respiração. Parecia que todo o ar havia sumido do quarto. Por um breve instante, indaguei-me se conseguiria suportar o peso daquele silêncio absoluto, quando, de repente, uma onda de calor me atingiu.
— Deixe uma marca em mim.
Asgyle, que imediatamente agarrou meu braço, deu uma ordem implacável.
— Morda a minha orelha agora mesmo ou eu arranco a sua cabeça.
— Eu não quero — recusei mais uma vez. — Não vou fazer isso.
O aperto em meu braço ficou tão forte que tive vontade de gritar de dor, mas cerrei os dentes. Prometi a mim mesmo que jamais abriria a boca para aquilo.
Subitamente, o aroma dos feromônios desabou sobre mim. Asgyle estava tentando me subjugar novamente. A marca me deixava completamente indefeso. Sem qualquer dúvida. Minha boca foi se abrindo lentamente enquanto meu corpo inteiro derretia e cedia. Ele puxou meu braço e o colocou ao redor de seu pescoço, e fiz exatamente o que ele mandou.
— Yohan — sussurrou Asgyle.
Ao ouvir aquela voz, a saliva escorreu pelos meus lábios. Meu coração batia feito louco. Tive a nítida impressão de que morreria se não me entregasse àquele homem naquele exato segundo.
Então o Príncipe Herdeiro ordenou:
— Marque-me.
Abri a boca conforme as instruções.
“Como seria deixar uma marca? Eu posso ceder a isso dez ou cem vezes…”
“Não!”
De repente, um pequeno grito de alerta ecoou no canto da minha mente entorpecida.
“Eu só tenho uma única chance na vida. Se eu marcar este homem, ninguém mais poderá gerar um filho dele… Exceto eu. Minha única oportunidade de tornar este homem inteiramente meu até o dia da minha morte… NÃO!”
— …Yohan!
Subitamente, Asgyle soltou um grito desesperado. Em meio à minha mente fraca e dopada que derretia, percebi vagamente que eu havia mordido a minha própria língua. E não era apenas saliva que estava escorrendo pelos meus lábios.
·:*¨༺ ♱✮♱ ༻¨*:·
↫─☫ Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Jør&Faby