Capítulo 10
Capítulo 10
Grayson continuou a me observar como se estivesse esperando uma resposta. O que ocupava minha mente naquele momento era, por mais estúpido que parecesse, a existência do cachorro que estava deitado obedientemente aos seus pés.
“Por que as palavras de Steward estão surgindo na minha mente logo agora?”
Engoli em seco sem nem perceber. Grayson inclinou a cabeça, sem dúvida achando minha reação estranha. O sorriso que permanecia em seu rosto, mesmo assim, parecia um pouco forçado. Pela primeira vez, me ocorreu que aquele sorriso dele poderia ser algo puramente ensaiado.
Forcei a boca a se abrir para dizer algo, mas não consegui emitir nenhum som, intimidado pelo silêncio. O leve odor de seus feromônios continuava a acelerar meu pulso. Se eu tivesse sentido o cheiro dos feromônios dele em um ambiente fechado, teria perdido o controle mais uma vez. Agradeci mentalmente ao vento que soprava por trás.
Eu precisava me recompor. Apressei-me em fechar os dedos em punho e depois os relaxei, lutando para não perder a consciência. Prometi a mim mesmo que ficaria tudo bem. Havia muitas pessoas que poderiam me ajudar ali, então eu ficaria bem.
De repente, as palavras frias de Keith ecoaram em meus ouvidos, mas decidi ignorá-las. Iria dar tudo certo. Quando cerrei os dentes e me levantei do chão, senti uma onda de fadiga. Era como se aquela ação tivesse esgotado todas as forças do meu corpo.
Forcei-me a falar.
– Boa noite, Sr. Miller – disse eu. – Como foi a reunião hoje? – Endireitei meu corpo o máximo que pude, mas a pressão avassaladora que sentia vinda de Grayson parecia não diminuir.
Ele ergueu as sobrancelhas bem esculpidas e olhou para mim de cima, com o sorriso ainda estampado no rosto.
– Você não respondeu à minha pergunta.
O comentário dele me pegou de surpresa. Que pergunta? Vasculhei freneticamente meu cérebro e só a duras penas consegui me lembrar do que ele havia perguntado. Abri a boca como se não tivesse me abalado nem um pouco.
– Ouvi dizer que haveria uma reunião, então saí um pouco. Afinal, não era da minha conta.
– Não era da sua conta? – perguntou Grayson com uma expressão surpresa, como se nem tivesse cogitado essa possibilidade.
– Sim – respondi estoicamente. – Hoje é meu dia de folga.
– Oh – murmurou Grayson.
Eu não entendia por que tinha que fazê-lo aceitar minha desculpa, mas, de qualquer forma, parecia que a crise havia passado. Eu estava prestes a me despedir e encerrar o encontro de vez, quando Grayson abruptamente puxou mais um assunto.
– Todo mundo já foi embora, mas tive que ficar por causa deste carinha aqui – disse ele. Ele olhou para baixo com um sorriso afetuoso para o mesmo Rottweiler que tentara me atacar. O cão abanava o rabo calmamente, com uma expressão tão dócil que a ferocidade demonstrada há poucos instantes quase parecia mentira. – Perdi ele de vista por um segundo e ele sumiu, então eu estava procurando por ele. Sabe como é, ele fica louco com ômegas.
Ele riu, mas eu não consegui de forma alguma rir junto. Quase fui despedaçado até a morte. Quantas outras pessoas ririam em uma situação como essa?
Mais importante, eu não era o único ômega naquela casa. Se bem me lembrava, alguns dos funcionários da mansão também eram ômegas. Além disso, eu não devia estar exalando quase nada de feromônios no momento. Seria porque os cachorros têm narizes sensíveis? Será que os outros funcionários estavam bem?
Como se tivesse lido meus pensamentos, Grayson continuou.
– Ainda assim, ele geralmente não ataca desse jeito. Acho que ele gostou mesmo de você, Yeonwoo. – Ele deu um sorriso sarcástico. – Interessa se acasalar com o Alex no seu próximo cio? Ele é imbatível, sabe.
A fala dele me causou arrepios na espinha. Percebi que minha máscara havia caído por terra.
Diante do meu silêncio, Grayson deu de ombros.
– Eu estava só brincando.
Não importa como eu olhasse para a situação, ele parecia estar falando sério no momento. Pelo menos, estava meio sério. Lutei para conter minha respiração acelerada, preparando-me para fugir.
– Sr. Miller, é melhor eu…
– Espere – chamou ele de repente. Não tive escolha a não ser parar onde estava. O único motivo pelo qual olhei de volta para ele foi porque estava ficando difícil falar. – Por que você está aqui, afinal? Você não tem trabalho para fazer mesmo.
Eu não tinha certeza se ele perguntava por estar falando sério ou se estava tentando zombar de mim. Nunca fui capaz de enxergar as verdadeiras intenções daquele homem, e nunca nem tentei. No momento, não via razão para tentar descobrir logo ali e logo agora.
– Com licença – consegui arquejar. Então, virei-me de costas. Queria voltar para dentro da mansão imediatamente. Ou, mais precisamente, queria correr para o meu quarto e me esconder. Sentia como se fosse sufocar com o cheiro dos feromônios dele, por isso precisava me apressar, mas as coisas nem sempre funcionam de forma tão fácil.
– Espere um segundo, Yeonwoo. Qual é a pressa? – insistiu Grayson, com a voz carregada de riso. Ele provavelmente não tinha más intenções e só queria implicar comigo de brincadeira, como sempre fizera no passado. Eu tinha plena consciência disso de um ponto de vista racional, mas meu corpo simplesmente se recusava a obedecer.
Então, ele segurou meu ombro, e eu perdi o fôlego, soltando um grito estridente e me virando abruptamente para encará-lo. O rosto espantado dele entrou no meu campo de visão, mas foi só isso. Encolhi-me de pavor e desabei no chão.
– Yeonwoo, Yeonwoo? O que houve? – perguntou Grayson repetidas vezes, pego de surpresa pela minha reação.
No entanto, não respondi nada. Parecia que meus pulmões haviam parado de funcionar. Abri a boca em busca de lufadas rasas de ar, mas nada parecia adiantar; eu não conseguia expirar. Minha mente estava se trancando, minha visão oscilando por trás da minha barreira mental.
“Será que eu vou morrer?”
O medo agarrou meu corpo com mãos gélidas. Minha consciência começou a se esvair. Em meio a tudo isso, o odor enjoativamente doce dele impregnava a ponta do meu nariz.
Justo então, alguém atrás de mim me puxou pela cintura. Seus braços me envolveram em um abraço firme, seus feromônios densos me cobrindo e limpando meus sentidos.
– Está tudo bem – disse sua voz suave e calma, as palavras escorrendo gentilmente em meus ouvidos. – Está tudo bem. Devagar… Isso mesmo.
Aquele barítono reconfortante e baixo era perfeitamente familiar para mim. Eu conhecia o dono daquela voz, e o conhecia muito, muito bem.
O oxigênio inundou meus pulmões famintos, e puxei o ar gole após gole com um choro sôfrego. Continuei tossindo. Meu sistema respiratório não era a única coisa em colapso, porém. Meu corpo inteiro tremia, meus dentes batiam.
“Graças a Deus.”
Meus canais lacrimais transbordaram, inchados de umidade. Sem conseguir conter minhas mãos trêmulas, agarrei firmemente a camisa do meu salvador com os punhos fechados. Então, afundei o rosto em seu ombro e aspirei profundamente. Meu peito parecia prestes a explodir, mas continuei assim mesmo.
“Afinal, eu estava com Keith. Estes eram os feromônios dele.”
Soltei um gemido baixo e então desabei em prantos lamentáveis. Eu não conseguia mais conter o que estava sentindo. Enquanto meus ombros sacudiam, chorei silenciosamente.
Grayson, que estivera sem palavras até o momento, pronunciou-se.
– Que diabos aconteceu? O que está havendo?
– Fique quieto, Grayson – Keith cuspiu as palavras, com a voz muito mais afiada do que usara comigo. – Recolha seus feromônios.
Grayson ficou confuso.
– O quê?
– Você me ouviu. Recolha seus feromônios – repetiu Keith friamente.
O silêncio se instalou por um breve instante. Diferente do habitual, Grayson não fez nenhum comentário bobo. Ele pausou por um segundo e então a corrente de ar mudou. Os feromônios que eu sentia ao nosso redor diminuíram drasticamente em quantidade. Soltei um suspiro trêmulo, inalando com cautela. O cheiro de Keith me invadiu. Controlei minha respiração com cuidado, lentamente.
Mal consegui acalmar meus canais respiratórios castigados, o som do meu suspiro era desesperado e incessante. Minha consciência flutuava para longe, meu corpo perdeu as forças e meu cérebro parecia uma gelatina derretida. Keith sustentava meu corpo desfalecido.
– Por que ele está assim? – Grayson perguntou impaciente, como se não conseguisse mais segurar a pergunta.
Quando desloquei meu olhar turvo para cima, Keith não olhava para mim.
– Aconteceu do nada – disse ele. – Quando ele sente o cheiro dos feromônios de outras pessoas, ele entra em uma crise de pânico.
– Como isso começou?
Keith pareceu não querer se estender com aquela linha de questionamento e respondeu rispidamente.
– Na noite em que Ken sofreu o acidente. Por causa daquilo.
Grayson ficou em silêncio por um momento, mas logo exclamou, chocado.
– Mas já se passaram alguns meses desde então!
Em vez de responder, Keith olhou para mim de soslaio. Encarei-o de volta com o olhar vago.
Grayson inclinou a cabeça, confuso.
– Mas ele fica bem com os seus feromônios, e apenas os seus? Mesmo reagindo assim com os de todo mundo?
– Sim.
Um silêncio tenso preencheu o ar.
– Então você tem que acalmá-lo toda vez que algo assim acontece? Até quando? – Keith não respondeu. Grayson também não parecia fazer muita questão de uma resposta. Ele acrescentou em tom de brincadeira: – Por que você não transa logo com ele? Acho que ele iria gostar.
Keith cerrou os dentes e franziu o cenho.
– Cale a boca, Grayson.
Grayson soltou uma gargalhada, mas seu riso logo se desfez em um sorriso amargo.
– Pobre Yeonwoo.
Lancei um olhar furtivo para ele através dos meus olhos embaçados. Agora, ele voltara a me encarar fixamente com mais um daqueles seus sorrisos característicos.
“Ele percebeu”, me dei conta vagamente.
“Aquele homem notou o que eu sinto por Keith.”
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør