Capítulo 09.4
Capítulo 09.4
Consegui de alguma forma fugir para o quarto vazio do anexo. Finalmente soltei o ar que vinha prendendo enquanto me deitava na cama vazia. O quarto devia ter sido deixado vago por um bom tempo porque eu podia sentir o cheiro de uma fina camada de poeira. Tinha que esperar aqui às cegas por Deus sabe quanto tempo, mas já estava começando a parecer sufocante.
Encarar o teto de costas me atingiu com uma sensação de vazio. Apressei-me em abrir o livro, mas não conseguia processar as letras impressas.
“Na França do século XVIII, viveu um homem…”
Repeti a mesma linha na minha cabeça várias vezes. No entanto, o texto simplesmente continuava a flutuar diante de mim sem nenhuma intenção de ser compreendido.
***
Acordei com o som de um toque abrupto. Deitei na cama e pisquei devagar antes de finalmente sair do torpor sonolento que me dominava. Checando o número às pressas, descobri que era o da Emily.
– Oh, sinto muito, Emily – desculpei-me rapidamente. – Tudo terminou bem?
Ela riu e respondeu:
– Imaginei que o senhor pudesse estar dormindo porque demorou a atender. Deve estar bastante entediado.
Senti-me um pouco envergonhado porque era verdade. Fez-me sentir especialmente mal pensar no quão ocupada ela devia estar cuidando dos convidados.
– Estou ótimo… Os convidados saíram? Devo retornar para a mansão agora?
– Sim, o senhor pode voltar agora. Provavelmente estará um pouco bagunçado porque ainda estamos limpando, no entanto. Oh, certo. O senhor não jantou ainda, não é? – acrescentou ela, tendo acabado de se lembrar. – Gostaria que eu levasse o jantar até o seu quarto?
Eu não poderia de forma alguma incomodá-la mais. Apressei-me em recusar.
– Eu mesmo preparo algo para mim. Não se preocupe com isso, Emily. Obrigado.
Após a minha expressão de gratidão, Emily encerrou a conversa com naturalidade e desligou. Já estava escuro lá fora. Os convidados deviam ter comido já. Perguntei-me o quão ocupados todos estavam. Embora não fizesse parte do meu trabalho, senti-me culpado por ter pegado no sono sozinho enquanto todo mundo estava trabalhando duro.
Achei que deveria pelo menos ajudar com a limpeza, então me arrumei rapidamente, juntei minhas coisas e saí do quarto. Minha única posse, na verdade, era o livro e meu celular. O anexo estava silencioso e desprovido de qualquer sinal de pessoas, mas isso fazia sentido já que estavam no meio da limpeza agora. Todos deviam ter se reunido no prédio principal. Tomei um cuidado especial para não incomodá-los o máximo possível, adivinhando rapidamente onde todos poderiam estar.
Não era difícil desenhar um mapa na minha cabeça de para onde as pessoas teriam ido se eu dedicasse um tempo para pensar em como elas se moveriam a fim de atender aos convidados. Elas provavelmente receberam os convidados na sala de recepção, foram para o salão de jantar e depois se deslocaram para a sala de chá. Isso significava que o lugar mais movimentado agora tinha que ser a cozinha.
Pensei em Emily e Charles, que sempre recusavam rigidamente minha oferta de ajuda. Provavelmente seria da mesma forma dessa vez, mas eu ainda queria ao menos tentar perguntar.
A única fonte de luz que brilhava no jardim era a iluminação vinda da mansão, mas isso era mais do que suficiente. As luzes que acendiam a mansão inteira transbordavam para o jardim e chegavam até a uma parte do anexo. Mexi as pernas e comecei a caminhar rapidamente. Primeiro, eu precisava devolver o livro.
Justo então, contudo, travei abruptamente. Um ruído sinistro ecoou vindo de trás de mim. Antes que eu pudesse sequer verificar o que era, calafrios percorreram minha espinha. “Tinha que ser apenas o vento”, implorei para que tivesse sido o vento. Lutando para me acalmar, virei-me lentamente para checar o que poderia ter causado o som.
Vi o jardim escuro e vasto diante de mim primeiro. Depois, verifiquei o caminho de onde eu viera por hábito antes de deslocar meu olhar para baixo… bem devagar.
Foi então que meus olhos se travaram com a criatura que mostrava as presas para mim. Seu corpo inteiro estava tenso, posicionado não muito longe de onde eu estava.
Um Rottweiler.
O cão de combate gigantesco que eu só vira em fotos rosnava para mim e eu permaneci paralisado de medo no lugar, feito um cervo diante dos faróis de um carro. O que havia acontecido? Por que um cachorro assim estava ali? Algum dos convidados o trouxera? Emily me dissera que todos haviam ido embora, porém…
Inúmeros pensamentos inundaram minha mente, todas perguntas sem sentido que se provavam inúteis para a situação atual. Eu tinha que pedir ajuda.
Abri a boca, mas nenhum som me escapou. Se eu não conseguisse… Meu Deus. A ansiedade me invadiu em ondas. Será que alguém passaria por aqui e me salvaria? Quando? Quanto tempo levaria? Se chegassem tarde demais…
Uma ilusão do meu corpo ensanguentado estendido pelo chão e lutando para respirar refletiu-se na minha mente. Quase ao mesmo tempo, o cachorro latiu violentamente e saltou para a frente. Cobri a cabeça com os braços e me encolhi por instinto, com a mente horrivelmente em branco. Até o próprio chão pareceu ceder sob o peso maldito daquele cão de grande porte. Incapaz de soltar sequer um grito, congelei no lugar.
Justo então, um grito agudo ecoou do nada:
– Alex, pare!
A massa pesada de músculos atingiu meu ombro e passou direto. Cambaleei e caí no chão. Isso foi tudo. Não houve mais ataques.
Processei a situação um segundo atrasado. O cachorro havia recuado sua hostilidade seguindo a ordem de alguém. Viajando por um momento, assisti o cão preto correr para se juntar a uma pessoa que devia ser seu dono, parada não muito longe dali.
– Alex, sente – ordenaram. Era a mesma voz de antes. O cachorro obedeceu à ordem gélida como uma ovelha dócil, diferindo completamente do que parecia quando estava se preparando para me atacar. Combatendo o surrealismo da situação, desloquei meu olhar lentamente.
Eu conhecia o homem que segurava a guia do cachorro. Ele me reconheceu também.
– Yeonwoo? – perguntou ele com um sorriso familiar. – O que você está fazendo aqui?
Grayson.
Ainda caído no chão, encarei pateticamente o homem alto.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør