Capítulo 09
Capítulo 09.1
– Acalme-se, Yeonwoo. Isso, respire devagar… Muito bem, agora solte o ar. Isso mesmo.
Seguindo as instruções de Steward, consegui regular minha respiração. Minha visão voltou lentamente, saindo da penumbra. Antes disso, tudo havia ficado completamente escura. Quando me estabilizei um pouco, Steward me entregou meus remédios e um copo de água.
Estendi a mão com hesitação, e ele deixou cair um comprimido na minha palma. Para o meu alívio, consegui pegar o copo de água sem tocá-lo. Depois de esperar que eu bebesse a água e engolisse o medicamento, ele voltou a falar:
– Você melhorou bastante, Yeonwoo – elogiou ele. – O Sr. Pittman certamente parece estar ajudando.
Ergui os olhos e encarei Steward, sentindo-me impotente. Três dias haviam se passado desde então. Por mais óbvio que parecesse, eu ia e voltava do trabalho com Keith. O problema, contudo, era que eu não conseguia mais circular livremente pelo prédio da empresa como antes. Embora ainda não tivesse sofrido outro ataque de pânico, tinha pavor de que aquilo acontecesse de novo do nada.
Eu estava aprendendo pela primeira vez o que significava ser dominado pelo medo. No fim das contas, mal conseguia sair da minha sala e passei a resolver tudo por telefone. A partir daquela noite, Steward começou a visitar pessoalmente a mansão de Keith.
– O Sr. Pittman me disse que eu tinha uma semana para “dar um jeito” em você. Típico de um alfa dominante – disse Steward com um sorriso.
Ele trabalhava comigo por duas horas todas as noites e me receitava medicamentos. Eu não conseguia notar a diferença por mim mesmo, mas ele garantia que eu estava muito melhor, que em apenas quatro dias eu já demonstrava menos pânico cada vez que o via.
Talvez fossem apenas os remédios fazendo efeito. A tensão começou a sumir do meu corpo e meus ombros relaxaram pouco a pouco. Também estava ficando mais fácil respirar.
“Mas se continuar assim, serei demitido mais cedo ou mais tarde”, pensei. Devia haver um limite para o quanto Keith conseguiria tolerar. Fiquei impaciente e ansioso com essa ideia. Steward, que também estava sentado em uma poltrona como eu, esperou silenciosamente que eu me acalmasse.
Durante as nossas sessões de terapia, Steward sempre me fazia sentar perto da porta. Ele a mantinha bem aberta, o que me deixava muito mais aliviado do que se estivéssemos trancados em um espaço fechado só nós dois. Se algo acontecesse, Charles e os outros funcionários da casa poderiam vir me ajudar. Isso era o que mais me confortava desde que tinha passado a morar na mansão. Foi exatamente o que Steward sugeriu.
Para a minha surpresa, ele era um médico muito habilidoso. Descobri que ele se especializava em atender pessoas de alto status social e que meros plebeus como eu não conseguiriam sequer marcar uma consulta em circunstâncias normais. Ele era exigente com seus pacientes. Além disso, soube que, embora fosse o médico da família de Keith, Keith não fazia terapia desde a adolescência.
– É apenas uma formalidade, na verdade – explicou Steward. – Afinal, alfas dominantes precisam ser cautelosos.
Ele disse isso de passagem, mas aquilo instigou minha curiosidade.
– Existe um motivo para isso?
Steward percebeu que meus olhos recuperaram o foco e perguntou:
– Há quanto tempo você trabalha como secretário do Sr. Pittman?
– Um pouco mais de dois anos.
– Você já conheceu algum outro dominante além do Sr. Pittman?
Grayson Miller me veio à mente, mas balancei a cabeça. Ele era apenas um amigo de Keith que aparecia de vez em quando. Provavelmente estava fora do propósito da pergunta, já que eu apenas o “conhecia” no sentido literal e nunca tinha passado um tempo com ele.
– Não – respondi.
– Então não é de se estranhar que você não saiba. Afinal, não é comum que o público em geral saiba muito sobre eles – murmurou ele, quase para si mesmo. – Como você deve saber, os feromônios são as maiores armas deles. A ciência exata por trás de como isso afeta o cérebro para produzir tais resultados ainda é desconhecida, mas, em essência, há uma teoria amplamente aceita de que os feromônios revelam várias características; coisas como uma inteligência notavelmente alta, habilidades atléticas excepcionais, traços estéticos acima da média e uma potencial predileção por tendências sociopáticas, todos traços comuns para alfas dominantes.
Steward sorriu e, em tom de brincadeira, acrescentou outro fato interessante.
– Você ouviu falar sobre os resultados de um estudo recente? Sabe como os dominantes têm um sistema imunológico forte, certo? – Ele continuou: – Eles raramente ficam doentes e se recuperam rapidamente quando se machucam. Além disso, conseguem desintoxicar medicamentos e álcool algumas vezes mais rápido do que os outros. Mesmo que misturem cocaína e ecstasy com vinho, a sobriedade pode vir de forma bastante fácil para eles. Tudo o que isso faz é diminuir um pouco a capacidade motora. Não é interessante? Tudo isso graças aos feromônios. Bem, suponho que existam algumas drogas raras por aí que funcionem em alfas dominantes, mas realmente não são muitas, e mesmo assim, eles teriam que tomar o medicamento com álcool ou passar por alguns outros processos trabalhosos.
– …Quase parece que os feromônios os tornam onipotentes – murmurei baixinho. Confesso que me senti um pouco derrotado.
No entanto, Steward sorriu misteriosamente e balançou o dedo indicador de um lado para o outro.
– Ninguém neste mundo existe sem uma desvantagem. Afinal, Deus também tem um pouco de crise de consciência. – Confuso, esperei que ele continuasse. Ele o fez, falando de maneira descontraída e com um toque de diversão: – Ter feromônios fortes traz tanto grandes méritos quanto riscos. Quando eles transbordam, tornam-se venenosos. – Ele deu um leve toque na própria cabeça com o dedo. – Isso aqui quebra.
– Como assim? – Abri bem os olhos diante do comentário inesperado.
Steward continuou como se não estivesse discutindo nada de especial.
– Enlouquecer, ou algo nessas linhas, por assim dizer. Eles perdem o juízo até gastarem totalmente seus feromônios. É por isso que os exalam antecipadamente no dia a dia — para não terminarem assim. O que aconteceria se acumulassem seus feromônios e a quantidade represada se combinasse com os feromônios que liberam durante o cio? O cérebro deles entraria em pane.
Como permaneci em silêncio, Steward sorriu.
– Entende agora? É por isso que eles não conseguem parar de transar. Bem, também ouvi dizer que conseguem liberar uma quantidade extraordinária de feromônios em um curto período de tempo se quiserem. No entanto, há um limite para expeli-los de forma artificial.
Incapaz de esconder o cenho franzido, comentei:
– Isso apenas parece uma tentativa de justificar a promiscuidade deles. Afinal, isso não significa que precisem trocar de parceiro o tempo todo.
Steward sorriu e deu de ombros diante da minha firme objeção, como quem pergunta qual era o grande problema.
Esperei um pouco antes de fazer outra pergunta.
– O que acontece quando eles enlouquecem?
Steward respondeu com franqueza:
– Pelo visto, perdem todo o sentido naquele momento. – Ele semifechou os olhos e acrescentou: – Eles pegariam até um cachorro se for o que estiver bem na frente deles na hora.
Ao ouvir aquilo, quase deixei cair o copo. Ele estava falando sério? Encarei-o em choque, e ele apoiou o queixo na mão, sorrindo.
– Eles não têm escolha se não houver mais ninguém por perto. No fim das contas, não vão se lembrar de nada de qualquer forma assim que caírem em si.
Fiquei olhando para ele sem piscar, incrédulo. Como ele podia dizer algo assim com tanta naturalidade? Abri a boca para falar, mas nenhuma palavra saiu por alguns segundos porque eu simplesmente perdi a voz.
– Isso é apenas um cenário hipotético, certo? Uma suposição? – perguntei.
Eu esperava que ele sorrisse e dissesse que era uma piada. No entanto, ele não reagiu como eu previa. Pareceu refletir por um instante antes de me lançar um sorriso enigmático.
– Isso é apenas boca a boca, mas corre um boato por aí de que um dos irmãos Miller realmente pegou um cachorro uma vez.
Minha voz morreu na garganta. Pisquei desconfiado.
– Um Rottweiler, se bem me lembro – acrescentou ele placidamente. – O cio dele chegou e ele não conseguiu se preparar a tempo, então pegou o cachorro. Um cão daquele tamanho até que se adequaria ao físico de um alfa dominante, no entanto. Ninguém pensaria que seriam capazes de fazer algo com um Spits Alemão. É o porte deles, sabe? A diferença de tamanho é drástica, como um boxeador peso-pesado contra um peso-leve. – Ele riu satisfeito com a própria metáfora. Contudo, eu não consegui acompanhá-lo no riso.
Era um detalhe muito específico para ser apenas um boato. “Quem teria sido entre os irmãos Miller?” Eu não queria acreditar naquele escândalo, mas fui atraído por uma curiosidade mórbida.
Os seis irmãos Miller eram famosos por serem todos alfas lúpus. Além disso, o pai deles foi dono de um grande escritório de advocacia. Quando entrou para a política, passou o cargo para o primeiro filho, Nathaniel Miller, o advogado corporativo de sangue frio que era conhecido como o demônio do setor jurídico. Eles eram verdadeiramente uma família de celebridades, insuperáveis tanto em riqueza quanto em linhagem. Graças a isso, todos na família eram amplamente reconhecidos pelo público, exceto por uma única pessoa.
O primeiro filho, Nathaniel, era o mais parecido com o pai. O segundo, Grayson, era um playboy que vivia sorrindo. O terceiro, Chase, era considerado um infame cachorro louco. O quarto e o quinto filhos também eram alfas dominantes, mas eram mulheres. Como o boato mencionava apenas os irmãos Miller, as filhas estavam fora de cogitação.
O sexto filho era um homem, mas seu rosto nunca foi exibido publicamente ao mundo. Como a família inteira consistia em dominantes, incluindo o ômega dominante que dera à luz os filhos, todos presumiam que ele também seria um dominante por direito próprio.
Após recordar o rosto de cada um deles, estremeci. Não importava quem fosse, eu não conseguia imaginar a cena. Obviamente não poderia ter sido Nathaniel com sua expressão gélida, nem o cínico do Grayson. Não poderia ser nem mesmo Chase, conhecido por sua personalidade difícil.
“Será que foi o mais novo, então?”
*Estalo!*
Algo de repente piscou diante dos meus olhos. Recuei e pisquei, apenas para dar de cara com o rosto de Steward bem na minha frente. Percebi com atraso que ele havia estalado os dedos na frente do meu rosto.
Apressei-me em me desculpar.
– Ah, desculpe. Me perdi nos meus pensamentos…
Steward sorriu.
– Está tudo bem, sério. Mais importante, você não sentiu nada agora há pouco, sentiu?
Fiquei verdadeiramente surpreso; ele tinha razão. Ele ergueu o queixo com orgulho.
– Você está começando a aprender lentamente a lidar com o trauma. Tente se concentrar em outra coisa. Você vai notar que seus ataques de pânico começarão a acontecer com menos frequência.
– Entendi – sorri em um súbito alívio. – Finalmente compreendi. Foi por isso que o senhor inventou aquela história sobre os Miller. Para desviar a minha atenção.
– Oh, não – disse Steward com inocência. – Aquilo foi real. – Meu sorriso congelou no rosto. Ele soltou uma risadinha. – Eu jamais conseguiria inventar algo assim. Ninguém sabe se é verdade ou não, mas certamente existe um boato assim em algum lugar por aí. Além do mais, você conhece os alfas dominantes agora. Eles seriam capazes de fazer algo do tipo sem nem piscar.
Infelizmente, eu não podia negar aquilo. No fim, não tive escolha a não ser fechar a boca.
De repente, alguém tossiu para chamar nossa atenção. Foi no momento exato, e virei a cabeça para encontrar Charles parado junto à porta aberta.
– A sessão de terapia terminou – anunciou ele. – Gostaria de estender o tempo?
– Não, está bem. Por hoje é o suficiente – disse Steward, levantando-se da cadeira.
Ao ouvir isso, Charles entrou no quarto sem hesitação, parando diante de mim para fazer uma reverência.
– Com licença – murmurou polidamente, retirando a xícara vazia da minha mão com a máxima elegância.
Steward esperou que ele se virasse de costas e o seguiu para fora.
Despedi-me de Steward pelas suas costas.
– Obrigado por hoje.
– Vejo você amanhã, Yeonwoo… – Steward começara a dizer, mas logo se corrigiu: – Não, é fim de semana. Vejo você na segunda-feira.
Acenei para ele enquanto ele sorria e se despedia.
– Sim. Segunda-feira.
Quando Steward saiu do quarto com Charles, fiquei ali sentado por um momento, viajando. Minha mente estava um caos após receber todas aquelas novas informações. Meu cérebro zombava da ideia, mas meu coração insistia em querer compreender Keith.
“Não tem jeito, não é?”, pensei. Talvez ele tivesse apenas nascido assim, um produto da sua natureza física. Sua falta de compaixão pelos outros e a maneira como ele revezava continuamente uma lista de parceiros, deixando-me perpétuamente fora do páreo, tudo devia ser por causa dos seus feromônios.
Pelo menos, era o que eu tentava dizer a mim mesmo. No fundo, porém, eu sabia que tudo aquilo era apenas quem ele era. Ele era simplesmente esse tipo de pessoa, e eu me sentia patético por me esforçar tanto para justificar as ações dele.
Assoei o nariz com força, tentando me livrar da sensação incômoda na ponta do nariz quando, de repente…
– O que foi? – alguém me perguntou.
Dei um salto da cadeira, sobressaltado. Keith estava parado do outro lado da porta aberta. Meus olhos se arregalaram e pisquei rapidamente, meus cílios batendo contra minhas bochechas.
Keith franziu o cenho enquanto me observava.
– Você estava chorando?
Minha surpresa devia estar evidente, mas ele apenas continuou ali parado.
– Não – respondi após uma pausa.
O vinco entre as sobrancelhas dele se acentuou. Ele abruptamente deu passos largos em minha direção. Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, ele já estava parado na minha frente, tendo me alcançado num piscar de olhos. Atordoado, encarei seus dedos longos e graciosos conforme se aproximavam do meu rosto. Suas articulações elegantemente dobradas roçaram o canto dos meus olhos.
– Seus olhos estão vermelhos. – Quando ele falou, sua voz grave fluiu direto por mim. Agora eu realmente queria chorar.
Eu precisava responder, mas não conseguia emitir som nenhum, então tossi apressadamente, com a garganta seca.
– Estou apenas… um pouco cansado – consegui dizer finalmente. – O senhor acabou de chegar? O Charles foi lá fora acompanhar o Dr. Steward.
Mudei de assunto rapidamente e Keith permaneceu em silêncio por um breve momento. Ele pegou a mão que havia roçado suavemente a área ao redor dos meus olhos e a usou para afastar o próprio cabelo. Observei suas mechas escuras enquanto se envolviam suavemente em seus dedos e voltavam para o lugar.
– O Steward disse alguma coisa?
– Perdão?
– Você me ouviu – disse ele calmamente. Foi então que percebi que ele devia ter entendido errado. Provavelmente pensou que eu estava chorando porque algo dera errado durante a terapia.
“Que estranhamente gentil da parte dele.”
– Ele não disse nada em particular… Eu só tive um momento difícil. Pessoalmente. – Sorri debilmente, esperando que ele aceitasse minha mentira. Era inútil esperar qualquer tipo de interesse romântico dele, em primeiro lugar. Bem, ele provavelmente nem perceberia que eu estava mentindo sobre isso. Afinal, ele não se importava comigo o suficiente para notar.
Fixando esse fato na minha cabeça, apressei-me em reatar a conversa.
– Como foi o seu encontro? – perguntei em vez disso. – O senhor voltou cedo.
Keith havia se encontrado com sua parceira em um hotel mais cedo naquele dia. Fui eu quem agendou o encontro, bem como reservou o hotel. Após o expediente, ele me deixou na mansão e foi direto para o hotel sem nem colocar os pés para fora do carro. Aparentemente, no entanto, pisei em um campo minado ao tentar mudar de assunto fazendo essa pergunta. Questionei-o apesar de saber melhor do que ninguém qual tinha sido o real propósito da reunião deles.
Ele desdenhou.
– Encontro?
Eu não sabia o que responder a isso, então apenas me calei. Não era como se eu pudesse simplesmente dizer: “Ops! Erro meu. Na verdade, como foi a transa?”. De qualquer forma, aquilo não era algo que eu realmente quisesse saber, então para que insistir?
Ah. Minha visão começou a embaçar do nada, fazendo-me notar os feromônios de Keith finalmente. Não havia percebido antes porque eles haviam se misturado de forma tão sutil à respiração dele. Quando minha visão turva começou a oscilar, Keith de repente segurou meu braço e me puxou com força em sua direção. Meu corpo colidiu com o dele, mas não senti nada, pois tudo o que consegui fazer foi fechar os olhos e absorver sua fragrância adorável.
– Quando você vai se acostumar com isso? – perguntou ele. Eu não tinha certeza se ele estava realmente curioso ou apenas reclamando. Tudo o que pude fazer foi desabar como uma boneca e apoiar a cabeça no ombro dele.
Embora ele tenha eventualmente soltado o meu braço, continuei apoiado nele. Ele me deixou ficar sem se dar ao trabalho de me empurrar, provavelmente para que eu pudesse absorver o máximo de seu cheiro que precisasse. Junto com seus feromônios, captei um toque do aroma revigorante do seu terno misturado a um leve vestígio de sabonete líquido e uma loção pós-barba de fragrância fresca. O retrogosto de uma relação sexual. Senti-me um pouco melancólico.
Bêbado dele, murmurei:
– O Dr. Steward… me disse que eu melhorei bastante.
Inalei profundamente e expirei devagar. Os feromônios de Keith me lavaram por dentro, fazendo minha consciência gradualmente ficar turva. Estava tudo bem relaxar. Nada aconteceria, já que eu tomava mais remédios do que o recomendado todos os dias para não ficar excitado na frente dele, para que ele não sentisse nojo de mim.
“O que aconteceria se eu enlouquecesse? Perderia toda a memória disso como os alfas dominantes?”
Eu preferiria isso se chegasse a esse ponto.
A expiração profunda que me escapou quase pareceu um suspiro. Eu nunca me acostumaria com aquilo. Afinal, eu era um ômega. Um ômega caidinho logo por esse cara, além do mais.
“Algum dia, se esse sentimento desaparecer, passarei a não sentir nada mesmo depois de sentir o cheiro dele?”, continuei a me perguntar coisas assim, mesmo que meu coração latejando de dor tornasse tais dias difíceis de imaginar.
Eu poderia ter sido capaz de me conter para não ter uma ereção, mas não consegui evitar que minha consciência se esvaísse. Apaguei por uma fração de segundo e meus joelhos, que mal conseguiam sustentar meu peso, cederam. A sensação de queda rápida abruptamente trouxe um pouco de clareza de volta para mim. Felizmente, Keith me segurou pelos braços e consegui evitar bater a cara no chão. No entanto, acabei em uma posição constrangedora, pateticamente ajoelhado diante dele.
Olhei para cima para poder pedir desculpas. Quando nossos olhos se cruzaram, porém, nada me veio à mente. Como continuei apenas encarando, ele sustentou meu olhar em resposta.
Naquele momento, ele soltou um suspiro. Eu apenas pisquei os olhos letargicamente.
Sem preâmbulos, ele me ergueu no ar, praticamente me jogando de volta na poltrona.
Meu corpo atingiu com força as almofadas, mas eu ainda me sentia completamente fora de órbita. Quando virei a cabeça devagar, vi Keith com as mãos apoiadas em cada um dos meus braços da poltrona, inclinado sobre mim e me analisando. Engoli em seco de forma autoconsciente.
“Eu já o vira de tão perto assim antes?”, minha mente confusa não me permitia lembrar muito bem. No entanto, notei vagamente que seus olhos roxos estavam muito mais escuros do que o habitual hoje.
Como uma íris.
Exatamente enquanto pensava nas elegantes pétalas violetas da flor, Keith se inclinou mais. “Ele vai me beijar?” Fechei os olhos, esperando desajeitadamente que sim, mas então de repente senti sua respiração no meu pescoço. Levado pelo calor do momento, prendi a respiração.
Senti-o inspirar profundamente. Ele tentava absorver o meu cheiro, exatamente como costumava acontecer entre alfas e ômegas quando se uniam fisicamente. Meu pulso batia forte sob a pele. A crença geral era de que a maioria das pessoas farejava o cheiro do parceiro em potencial primeiro antes de decidir se o aceitariam, mas eu sempre considerei isso o tipo de desculpa mínima que os humanos usavam para ocultar seus desejos animais. Ironicamente, contudo, o ato em si não diferia em nada do de um bicho.
“Isso apenas os faz parecer animais selvagens” lembrei-me vagamente de Whittaker dizendo. Como eu era diferente agora?
Respirar os feromônios de Keith era inebriante. “Será que é assim que se sente ao usar drogas?” Todo o meu corpo parecia mais leve que o ar e minha alma parecia prestes a voar para longe, cruzando a galáxia. Não me assustava nem um pouco, contudo. Uma apatia agradável e uma sensação de flutuação me invadiram.
A voz de Keith me trouxe de volta à realidade.
– Por que não sinto cheiro nenhum vindo de você? – perguntou ele.
Mal consegui erguer minhas pálpebras pesadas. Ele ainda me encarava. Por um momento, distrai-me com a proximidade do rosto dele com o meu. Parecia que nossos lábios se encontrariam se eu apenas fizesse um biquinho de nada. Se minha consciência fina como papel não tivesse me segurado desesperadamente, eu teria feito. Felizmente, eu não estava tão fora de mim ainda.
– Tenho… tomado remédios… mais… do que a… dosagem recomendada – disse eu, com a voz vacilante.
Ele estava solene. Seus olhos — que eu nunca conseguia decifrar — escureceram ainda mais.
– Desde quando?
– Desde que… o senhor me pediu para apagar meus feromônios… Sr. Pittman – respondi languidamente.
Por um momento, ele não reagiu. Então, suas sobrancelhas se franziram e ele murmurou um suspiro de compreensão. Ele devia ter se lembrado do que dissera, finalmente. Foi um pouco surpreendente; não esperava que ele esquecesse.
“Ele costuma ter uma memória boa, afinal”, refleti de forma turva.
– Você não tem cheiro nenhum desde então? – perguntou ele. Foi mais um murmúrio, contudo. Um resmungo guardado em grande parte para si mesmo.
Mais uma vez, não consegui entender como ele queria que eu reagisse. Pensando nisso, em vez de tentar qualquer coisa, respondi de forma simples.
– Sim – disse-lhe, e ele silenciou mais uma vez.
Então, notei que ele exibia uma expressão estranha no rosto. “Havia traços de impotência, surpresa, aversão, irritação e desânimo”, pensei. Talvez. Imaginei tantas opções porque a feição dele era complexa o bastante para justificar. Perguntei-me se Keith sempre foi tão expressivo assim.
De repente, ele se levantou. Seu corpo alto e robusto imediatamente se ergueu em direção ao teto. Olhei para cima para ele e, ainda sentado, senti-me intimidado pela silhueta que ele cortava em meio à minha letargia. Intuitivamente encolhi os ombros, sentindo-me como se devesse diminuir infinitamente dentro de mim mesmo. Keith alisou o queixo. Pensou em algo por um tempo antes de afastar o cabelo, irritado.
– Levante-se – disse ele. Então, virou-se prontamente e saiu do quarto, deixando-me olhando fixamente para suas costas que se afastavam.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør