Capítulo 09.2
Capítulo 09.2
Acordei com uma leve dor de cabeça. Deitei de costas e pisquei os olhos algumas vezes.
– Ah! – exclamei e me sentei por reflexo. Então, relaxei a tensão nos ombros, murchando. – Oh.
“Certo. É domingo.”
Cocei a cabeça. Olhei para o relógio e vi que faltavam exatos cinco minutos para o horário em que eu costumava acordar. Pressionei o botão e desliguei o alarme antes que ele tocasse. Sentei-me em silêncio por um momento para terminar de acordar.
Exatamente cinco minutos depois, saí da cama. Sem perder tempo, fui ao banheiro que era conectado ao meu quarto e peguei meus remédios no armário. Como sempre, minha primeira tarefa era tomar a medicação. Desnecessário dizer que tomei mais do que provavelmente deveria.
Tomei um banho rápido e me vesti. Como não iria trabalhar hoje, tinha muito mais tempo livre do que o habitual. Mesmo assim, sempre acordava no mesmo horário. Olhei para o relógio e sorri amargamente.
Quando abri a porta e saí, vi Charles caminhando naquela direção.
Nossos olhares se cruzaram enquanto eu o cumprimentava.
– Olá, Charles.
– Olá – respondeu ele, não menos inexpressivo do que o de costume. – O senhor acordou cedo – disse ele.
– Sim. Meus olhos simplesmente se abriram. – Sorri sem jeito.
Mesmo se eu não tivesse acordado por hábito, teria aberto os olhos quando o alarme tocasse. Embora fosse fim de semana, eu já estava incomodando na casa deles, então não queria fazê-los se preocuparem em me acordar também. Minha filosofia era de que eu deveria, pelo menos, fazer voluntariamente as coisas sobre as quais ainda tinha controle.
Charles me encarava com uma expressão indecifrável, como sempre. “Ele pode apenas não estar pensando em nada”, imaginei.
– Gostaria de chá ou café? – perguntou ele.
– Café seria ótimo, obrigado. Ovos mexidos, uma panqueca e bacon levemente grelhado, por favor.
Tomei a iniciativa de incluir as respostas para as perguntas que Charles me fazia todas as manhãs, parecendo pegá-lo de surpresa por uma fração de segundo. Em seguida, ele retomou seu semblante habitual.
– Entendido – respondeu ele. Observei-o enquanto se afastava. Depois de dar alguns passos, Charles olhou para trás. Nossos olhares se cruzaram imediatamente. – Há mais alguma coisa que gostaria de dizer? – perguntou ele.
– Oh, não. Bem… – comecei, sorrindo sem jeito. – Estava me perguntando se eu poderia ajudar em alguma coisa.
Ele não disse nada a princípio. Fiquei travado diante daquela face inexpressiva e indecifrável, mas então ele abriu a boca:
– O senhor seria capaz de acordar o Sr. Pittman, então? Seria ótimo se pudesse perguntar a ele como ele gostaria dos seus ovos e bacon.
– Oh, sim. – Assenti por impulso, mas não esperava por aquilo de forma alguma. Charles, contudo, não era de fazer piadas sem sentido. Como que para provar esse fato, ele já havia caminhado para longe no corredor.
O quarto de Keith.
Meu coração começou a martelar. Muitos dias haviam se passado desde que me mudara para a mansão dele, mas durante toda a minha estadia eu nunca havia entrado em seu quarto. Também não estivera lá dentro antes de me mudar. Como nunca pensei que a oportunidade surgiria de forma tão repentina, não estava preparado para aquilo de jeito nenhum.
No entanto, não tive muito tempo. Se eu hesitasse, Charles poderia muito bem voltar e simplesmente retirar essa chance inesperada, dizendo que estava tudo bem e que ele mesmo poderia fazer. Apressei o passo. Não tinha nem a paz de espírito necessária para raciocinar direito.
Cheguei ao quarto de Keith e minha mão tremeu quando bati na porta, resultando em uma falha constrangedora no ritmo das batidas. Prendi as mãos firmemente uma na outra e respirei fundo algumas vezes. Nenhuma resposta pôde ser ouvida lá de dentro. Keith devia estar dormindo ainda.
Dito isso, parecia que ele havia ido para a cama bem tarde na noite passada. Enquanto eu cochilava, senti intermitentemente a presença de Charles enquanto ele subia e descia o corredor, e Keith era o único naquela casa que poderia dar ordens a Charles tão tarde da noite.
Engoli em seco e abri a porta com cuidado.
Ah… Um cheiro doce imediatamente me atingiu, descendo direto para os meus pulmões. Inalei lentamente os feromônios que pairavam suavemente no ar e, conforme o fazia, o interior do quarto de Keith foi preenchendo minha visão. Abrir totalmente a porta fez minhas pernas fraquejarem à medida que ainda mais feromônios passavam por mim.
O quarto era bastante simples, exceto pelo fato de a cama ser particularmente grande.
Uma pintura a óleo feita por Bouguereau estava pendurada na parede do lado oposto à cama. Era uma pintura elegante e sedutora de uma Vênus recém-nascida se espreguiçando. Fora isso, não havia muitas outras decorações que chamassem a atenção, apenas algumas peças simples de mobília. Reuni coragem e me aproximei da cama.
Keith ainda dormia. Observá-lo deitado na cama enorme sozinho me trouxe uma sensação irracional de alívio. Eu sabia que ele havia retornado para casa sozinho na noite passada, mas guardava um medo bobo de que ele pudesse ter trazido alguém consigo. Ao confirmar sua solidão com meus próprios olhos, senti-me patético, sorrindo amargamente.
O lençol fino que cobria seu corpo deslizou para baixo da metade superior do seu torso. Engoli em seco por reflexo. Eu nunca vira seu corpo nu antes. Jamais imaginei que um dia seria capaz de ver seu peito nu de forma tão desimpedida. No passado, o melhor que conseguia era passar perto dele e vislumbrar através de suas camisas abertas.
Seu corpo de tom bronzeado era esculpido a ponto de me dar uma vontade dolorosa de tocá-lo. Desviando o olhar do seu pescoço musculoso, clavículas e peitorais, logo percebi que mal conseguia respirar. Seus ombros largos e braços haviam relaxado com o sono, mas seus músculos eram espessos e imponentes.
Meu olhar desceu lentamente, analisando-o até onde não pude mais, barrado que fui pelo cobertor. Bem, na verdade, o lençol fino ainda exibia o corpo dele de forma decente. Eu apenas não conseguia me forçar a tentar olhar mais para baixo. Desviar o olhar mais para baixo me ensinaria tudo sobre ele, e esse era um pensamento um pouco assustador. Tinha medo de sequer pensar no que aconteceria se eu visse o pau dele, ou, pelo menos, seu formato aproximado sob o lençol, naquela situação. Eu já estava no meu limite. Não conseguiria de forma alguma reunir coragem para ir tão longe.
Mal conseguindo conter minha respiração irregular, cerrei e abri minhas mãos trêmulas várias vezes. Eu tinha que acordá-lo.
– S-Sr. Pittman… – Minha voz falhou, fazendo-me gaguejar. Felizmente, contudo, Keith não abriu os olhos imediatamente. Sentindo um certo alívio, limpei a garganta rapidamente e firmei a voz, reencontrando meu tom costumeiro de indiferença. – Sr. Pittman – repeti, dessa vez de forma adequada. Graças a Deus.
Reuni um pouco mais de coragem e estendi a mão. Sufocando meu desejo de acariciar seu peito nu com minha paciência frágil, finalmente apoiei os dedos em seu braço, tocando-o. Um gemido quase escapou da minha boca no momento em que senti seus músculos rígidos contra a minha palma, mas segurei o impulso. Felizmente ele ainda não acordara.
– Sr. Pittman. – Chamei seu nome mais uma vez e finalmente balancei seu braço. Em seu torpor matinal, será que ele perceberia que eu havia acariciado de leve o músculo sob a minha mão como se o estivesse beijando? Fiquei espantado com a audácia do meu ato e o observei ansiosamente em busca de sinais de que acordaria.
Os cílios longos de Keith, antes imóveis, agora tremularam. Congelei no lugar e o assisti acordar.
– …Mmh – resmungou ele. O som veio do fundo de sua garganta enquanto ele se revirava, as sobrancelhas se contraindo fortemente. Ele havia pegado no sono deitado de costas como um tronco, mas de repente virou o corpo na minha direção. Recuei por reflexo. Então, Keith abriu os olhos.
A cada vez que ele piscava, eu via suas íris roxas desaparecerem e reaparecerem. Ele o fez algumas vezes como que para focar a visão, então seu olhar sonolento se deslocou para o meu rosto.
Naquele momento, fiquei completamente enfeitiçado por ele.
Seus fios escuros e bagunçados; a vulnerabilidade em seu rosto enquanto olhava para mim; aqueles olhos ametista enevoados que se encontravam com os meus; seus ombros largos e sólidos; seu peito forte e firme. Como alguém poderia não se apaixonar por ele?
Se eu pudesse abraçá-lo e beijá-lo o quanto quisesse naquele instante, seria capaz de vender minha alma ao diabo.
Justo então, algo inacreditável aconteceu.
Ele de repente se impulsionou para cima na cama. Estendendo a mão para a frente, segurou a nuca da minha cabeça e puxou meu rosto em direção ao dele. Fui pego de surpresa pelo movimento repentino e me deixei ser puxado. Exatamente como ontem, nossos olhares se travaram enquanto nossos rostos ficavam a meras polegadas de distância. Incapaz de acalmar meu coração disparado, pude apenas encará-lo com os olhos bem abertos.
Ah.
O cheiro doce se intensificou. Keith exalava seus feromônios. Até agora, ele só havia direcionado seus feromônios a mim duas vezes: primeiro, quando estava irritado, e segundo, quando tentou me acalmar.
Então o que era aquilo?
Eles eram diferentes do habitual. Eu podia sentir. Geralmente me pressionavam com força, mas agora nos envolviam suavemente como se ele estivesse tentando… me seduzir.
Não. Isso não podia ser.
Exatamente quando comecei a negar a simples possibilidade de algo assim, senti Keith sobressaltar-se. Ele piscou os olhos, caindo na real tardiamente. Assisti enquanto ele despencava de volta para a realidade. Foi doloroso.
Ele imediatamente me empurrou para longe, soltando pragas contra mim.
– Droga, os seus feromônios… Não, o seu rosto — não, quero dizer… Puta que pariu!
Cambaleei enquanto tentava dar um passo atrás. Fazia muito tempo que eu não o via berrar com uma raiva tão violenta. A única comparação exata que eu conseguia recordar era de quando o conheci naquela tenda anos atrás.
Incapaz de conter sua fúria, ele arremessou o travesseiro, mas o volume pesado de tecido não aguentou o próprio peso, caindo da beira da cama no chão. Desviei o olhar dele depois que rolou no tapete macio sem emitir som, voltando-me para focar em Keith. Ele cerrava os dentes e encarava o vazio.
Depois de um tempo, pareceu ter se acalmado um pouco.
– Por que você está aqui? – perguntou ele, com a voz mais mansa. Mesmo assim, seu olhar ainda parecia frio.
Respondi da forma mais indiferente que pude.
– O Charles me perguntou se eu poderia acordá-lo no lugar dele. Como o senhor gostaria do seu bacon e ovos?
Após apresentar a ele a pergunta que eu havia preparado, ele bagunçou o cabelo em frustração.
– Bem passado e ovos cozidos firmes – disse ele. Eu já sabia, contudo.
– Entendido – disse formalmente. – O senhor prefere café ou chá?
– Espresso. Triplo – Keith cuspiu as palavras antes de afastar o cobertor abruptamente. Girei a cabeça para longe o mais rápido que pude, meu coração acelerando ao máximo. Ele não pareceu se importar com a minha reação nem um pouco, optando por passar por mim e caminhar até o banheiro.
A porta se fechou com um clique atrás dele.
Sozinho, finalmente deixei o suspiro amargo que havia se acumulado em mim escapar, virando-me. Vênus encontrou meu olhar de sua posição na pintura, o queixo erguido com orgulho como se estivesse zombando de mim. Tirei os olhos dela às pressas, praticamente correndo para fora do quarto.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør