Capítulo 08.2
Capítulo 08.2
Abri os olhos com a sensação de que meu corpo estava sendo balançado. Meus olhos desfocados correram ao redor para juntar os pedaços que eu pudesse decifrar. Ainda assim, minha percepção era precária, turva. Para enfatizar esse fato, parecia que meu corpo inteiro estava flutuando no ar. Eu provavelmente ainda estava meio adormecido. Ou, talvez, tivesse cochilado com os olhos abertos?
Quando olhei vagamente para cima, sobressaltei-me. O rosto de Keith surgiu à vista.
“Hã?” Olhei para ele, com a mente completamente vazia. Nunca o vira daquele ângulo antes. “Eu estou deitado agora?”
Keith, tendo notado o meu olhar, inclinou a cabeça para baixo. Imediatamente, nossos olhares se cruzaram e eu continuei olhando de volta feito um bobo. Um sorriso repentino tomou conta do meu rosto. Bem, achei que havia sorrido, mas não tinha certeza porque, por incrível que pareça, tudo o que meu cérebro conseguia processar era o fato de Keith estar olhando para mim com aquele olhar penetrante dele.
Sem pensar muito, respirei fundo. Podia sentir o cheiro sutil de uma loção pós-barba misturado aos feromônios. Um aroma cítrico e revigorante. O cheiro de Keith.
Fechei os olhos, virei a cabeça e enterrei o rosto no ombro dele. Puxei o ar profundamente e expirei devagar. Meu corpo ainda balançava suavemente, como se eu estivesse sendo carregado nos braços de alguém para algum lugar.
Quando senti uma sensação fresca, porém macia, pousar nas minhas costas, eu já estava meio adormecido de novo. Fiquei com a impressão de que alguém poderia estar conversando, mas era difícil para eu compreender. Tudo o que entendi foi que duas pessoas conversavam em algum lugar.
Logo, caí em um sono profundo.
***
O som de alguém batendo na porta me despertou. Abri os olhos, mas permaneci deitado, processando minha confusão. Onde eu estava? Enquanto me apoiava desajeitadamente para sentar, olhando ao redor daquele quarto desconhecido, a porta se abriu e um rosto familiar entrou.
– Está acordado? Como está se sentindo? – perguntou Charles, o mordomo. Levou um momento e um grande esforço para rastrear minhas memórias. Justo quando eu começava a juntar os pedaços dos eventos da noite passada, ele continuou: – O senhor perdeu a consciência enquanto vinha para cá no carro do Sr. Pittman. Os feromônios devem ter lhe afetado. Trouxe um pouco de chá para ajudar a desintoxicar e clarear seus pensamentos.
Ah. Finalmente entendi o que estava acontecendo. Não era de admirar que minha consciência estivesse tão nublada. Não era apenas exaustão simples; era como se meu cérebro tivesse derretido por completo.
Exatamente como aconteceu naquela noite terrível.
De repente, meu coração congelou e minha respiração ficou irregular. Apressadamente, controlei meus pulmões. “Não”, pensei por instinto. O cheiro de Keith era diferente dos aromas que me inundaram naquela época. Havia algo mais, algo mais sutil, que se misturara àquele cheiro excessivamente doce. Tentei lembrar à força, mas minhas memórias apenas flutuavam de forma nebulosa na minha cabeça. Não consegui dar a elas nenhuma forma clara.
– Assim que beber este chá, sua mente ficará muito mais clara – disse Charles, empurrando a xícara de chá fumegante em minha direção.
Peguei-a hesitando de cima da mesinha.
– Oh… – murmurei. Então, dei um gole e pisquei diante do sabor inesperadamente revigorante. Exatamente como ele dissera, senti minha mente clarear e a força total da minha percepção retornar. Após observar minha reação, Charles falou:
– Suas roupas foram lavadas. O senhor mesmo vai pegar os seus pertences? O Sr. Pittman nos instruiu a fazer arranjos separados, se necessário.
– Perdão? – perguntei sem entender. Provavelmente com atraso, olhei para as roupas que estava vestindo e percebi que nunca tinha visto aquele pijama antes.
Como fiquei de olhos arregalados, Charles explicou:
– Esses são pijamas que preparamos especificamente para os hóspedes. Fui eu quem o trocou. Peço desculpas por isso, mas o senhor não acordava por nada.
– N-Não há problema nenhum. Desculpe por lhe causar incômodo. – Minhas memórias retornavam lentamente e finalmente comecei a compreender a situação. Charles devia ter me carregado até aqui, chegando ao ponto de trocar minhas roupas. Sentindo-me envergonhado e grato ao mesmo tempo, sorri sem jeito. Charles permaneceu de pé ao meu lado com uma expressão indiferente e esperou que eu bebesse o chá.
– O senhor tem tempo suficiente – disse ele, como se tivesse lido meus pensamentos. – O Sr. Pittman deve ter acabado de acordar. Pode começar a se preparar depois de tomar o seu chá.
– Obrigado – murmurei. Então, hesitei antes de continuar: – Desculpe por me intrometer assim na sua rotina. Eu não tive escolha…
– Está tudo bem. Esta é a mansão do Sr. Pittman e eu sou funcionário dele. Respeito a decisão dele. – Mantendo uma postura formal, ele simplesmente me cortou. Graças a isso, quase me senti envergonhado por me sentir envergonhado. Levei a xícara de chá aos lábios em silêncio.
Charles havia se formado em uma instituição de ensino para mordomos na Suíça e tinha uma vasta bagagem de experiências na profissão ao longo da vida. Seria de se esperar que alguém como ele fosse bom em ocultar as emoções, e ele de fato era, tratando-me sem qualquer sinal de agitação emocional. Quando terminei o chá, ele pegou a xícara vazia e a colocou na bandeja.
– O senhor tem remédios suficientes consigo? – perguntou ele.
Essa foi a única pergunta que ele teve a me fazer. Sendo um beta, ele também corria o risco de passar por uma transformação. No entanto, quando perguntei sobre isso uma vez, Charles respondeu de forma tão impassível quanto sempre:
– Já passei da idade em que poderia me transformar – dissera ele. – Além disso, o Sr. Pittman é um homem digno e tenho orgulho de servi-lo. – Então, para conter minha curiosidade, acrescentou: – Ele também me trata muito bem.
Eu sabia que Charles chupava balas de vez em quando. Essa era toda a precaução que ele tomava. Afinal, se ele se transformasse sendo um homem com mais de 50 anos, poderia muito bem entrar para o Livro dos Recordes.
Meus remédios estavam cuidadosamente posicionados em cima da mesa de cabeceira junto com meus outros pertences. Depois de avaliar visualmente a quantidade de comprimidos que eu tinha, ele me ofereceu um conselho formal.
– Vou preparar mais alguns para o senhor. Se por acaso acabarem ou o senhor precisar de mais, por favor, não hesite em me avisar. Posso providenciar qualquer coisa de que necessite, não importa o que seja. – Antes que eu pudesse dizer algo, ele acrescentou rapidamente: – Foi um pedido do Sr. Pittman.
Apenas agradeci e deixei por isso mesmo. Assim como acontecia comigo como secretário de Keith, a consideração dele poderia ser apenas uma forma de evitar problemas para Keith como seu mordomo, especialmente no que dizia respeito aos remédios. De qualquer forma, a oferta dele me trouxe algum alívio. Embora eu tivesse expressado minha gratidão, no entanto, ele saiu do quarto sem demonstrar nenhuma reação em particular.
Quando fui finalmente deixado sozinho, soltei um suspiro profundo sem perceber. O quarto estava em silêncio. Se não fosse pela paisagem estranha ao meu redor, eu não seria capaz de acreditar que aquilo era a realidade. Fiquei com medo de que tudo escorresse por minhas mãos como grãos de areia se eu ousasse piscar. Não conseguia me forçar a fechar os olhos.
No fim, meus olhos estavam ficando secos demais e não consegui suportar. Dei uma piscadela rápida e confirmei que os arredores de fato permaneciam os mesmos. Comecei a ter noção daquela realidade pouco a pouco. Pelo visto, eu havia ocupado um espaço na mansão de Keith, e era um quarto inteiro, por sinal.
A mansão de Keith ficava na direção oposta ao meu bairro. Eu já a havia visitado algumas vezes antes, mas apenas a trabalho. Sempre que o fazia, ficava impressionado com seu tamanho abundante e costumava escapar, praticamente fugir, do prédio assim que terminava meus negócios. Parte do motivo, claro, era o cheiro residual dos feromônios de Keith que se espalhava por toda a área. Dava para sentir o cheiro mesmo se ele não estivesse em casa, então, quando eu voltava para o meu próprio espaço naqueles dias, sempre precisava me tocar e me masturbar para conseguir algum alívio. Foi assim, sem falta, todas as vezes.
Mesmo eu estando passando por uma crise, logicamente não fazia o menor sentido eu entrar nessa mansão por vontade própria. Apesar de saber disso, porém, eu o fiz de qualquer forma, justificando para mim mesmo que aquele era o único meio que eu poderia empregar para interromper meus ataques de pânico.
Um calafrio repentino percorreu minha espinha e estremeci. Aquilo era real. Os pensamentos na minha cabeça imediatamente se deram em um nó. Cegado pelo meu amor por Keith, vim até aqui, mas a verdade por trás de todo o arranjo estava longe de ser romântica. Keith não teve escolha a não ser tomar essa decisão.
Tudo foi por minha causa. Foi porque eu perdi a consciência.
Tentei desesperadamente recuperar o juízo sobre a realidade. Ela começava a flutuar de volta para as memórias que eu guardava daquela noite terrível. Controlei minha respiração cada vez mais acelerada e folheei freneticamente minhas outras memórias mais brandas. Algo mais. Eu tinha que pensar em algo diferente, algo que eu pudesse sobrepor à minha lembrança daquele incidente.
O que senti na boca naquele momento não foi a textura repugnante do membro de algum homem. Foi a habilidade da língua de Keith tecendo caminhos por entre meus lábios. Foi aquele beijo obsceno; a língua dele entrelaçando-se com a minha, essencialmente fazendo amor com a carne macia dentro da minha boca. Foram as mordidas entorpecentes que ele me dispensou enquanto nossas salivas se misturavam.
Apertei os olhos com força. Não sentia mais a repulsa que a experiência passada trazia consigo. O que restava na minha mente agora era o cheiro mortalmente doce de Keith, seus lábios macios e sua língua cruel.
Só de pensar em tudo isso quase fui puxado para um ciclo de cio. Procurei tateando pelos meus remédios e os enfiei na boca, engolindo-os a seco. De agora em diante, essa seria a minha vida diária. Eu absorveria os feromônios de Keith com meu corpo inteiro como uma esponja. Como uma folha caída rolando em um dia de chuva.
Apesar disso, mesmo enquanto esperava o remédio ser absorvido pelo meu organismo, fiz questão de respirar lenta e profundamente para que os feromônios dele pudessem penetrar em mim um pouco mais. Contei cada respiração que dei, inspirando e expirando com cuidado. Antes que eu percebesse, estava deitado no tapete. Meu pulso diminuiu gradualmente e o silêncio finalmente se estabeleceu em mim mais uma vez. Fechei os olhos suavemente. O cheiro de Keith vagava por toda parte. Sentindo-me imoral, gozei como se tivesse sido possuído por ele.
***
Mais uma vez, fui acordado pelo som de batidas na porta e, quando abri os olhos, fiquei confuso por um breve momento. Pisquei os olhos abertos feito um bobo antes de finalmente recuperar os sentidos e correr para me sentar na beira da cama, fingindo checar meu telefone. Exatamente naquele momento, Charles abriu a porta e entrou. Ele trazia as roupas que eu tinha usado ontem penduradas em seu antebraço.
– A refeição deve ficar pronta em breve, Yeonwoo. Gostaria que eu a trouxesse para o seu quarto ou vai descer?
Seu tom solene e formal apressou minha resposta.
– Oh, hum… Eu vou descer.
– Vá para a sala de chá no final do corredor do segundo andar – disse ele. – O Sr. Pittman sempre toma o café da manhã lá. No entanto, se preferir comer separadamente… vou lhe mostrar um cômodo diferente.
– Oh, não. Está tudo bem. Vou para a sala de chá. Obrigado. – Quando me apressei em agradecer, Charles me deu um aceno rápido com a cabeça e estendeu minhas roupas no encosto da cadeira. Logo ele se virou e saiu do quarto. Depois que ouvi a porta se fechar suavemente, comecei imediatamente a me arrumar. Fazer Keith esperar era impensável, então corri, esperando conseguir chegar à sala de chá antes dele.
Quando cheguei lá e abri a porta, ela rangeu um pouco e uma lufada revigorante de ar externo roçou meu corpo. Infelizmente, Keith já estava presente e acomodado.
Por um instante, fiquei encantado com a visão dele olhando para a tela do notebook e bebericando um pouco de chá preto. Engoli em seco, tendo em mente que, de agora em diante, aquela seria uma cena que se repetiria todos os dias. Minha mente seria inevitavelmente consumida por ele e eu olharia para ele sem perceber, respirando mais fundo a cada vez para perseguir os vestígios de seu aroma perfumado.
No entanto, eu nunca cometeria um erro. Exatamente como fizera até agora, mantive a confiança necessária para exibir um controle perfeito sobre mim mesmo no dia a dia, e permaneceria assim, contanto que meus hormônios não ficassem bêbados de feromônios e ficassem fora de controle de novo. Para solidificar minha convicção, ofereci a Keith meu sorriso formal habitual quando ele ergueu os olhos para mim.
– Bom dia – cumprimentei, comportando-me exatamente como sempre fazia.
O tempo todo, senti-me encantado com a visão do sol banhando a figura dele, as árvores balançando ao vento ao fundo compondo um cenário perfeitamente pitoresco. Um aroma sutilmente doce fez cócegas no meu nariz.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør