Capítulo 08
Capítulo 08.1
Fiquei completamente em branco por um momento. Isso era inacreditável. Minha boca se abriu, mas não consegui dizer nada por alguns segundos.
– Mudar-me para a sua casa, Sr. Pittman?
Minha voz não parecia me pertencer; as palavras eram minhas, mas parecia que um estranho as pronunciava, jogando-as contra os meus ouvidos. Sempre fora assim? Como eu apenas continuei ali sentado, piscando como um idiota, ele passou a mão pelo cabelo, irritado. Por um instante, seus lábios úmidos atraíram meus olhos.
– Não há lugar mais seguro no mundo do que a minha casa. Não é só disso que você precisa?
– M-Mas… – Eu não fazia ideia de como ele havia chegado a essa conclusão. No entanto, logo descobri a resposta.
– Steward disse que uma maneira de superar o seu medo é se expor a ele – murmurou Keith enquanto puxava um cigarro. – Neste caso, aos feromônios.
Os feromônios de um alfa dominante. Ele exalava o mesmo tipo de aroma que o homem que tentara me estuprar, mas ele era alguém que nunca me desejaria, completamente alheio ao meu anseio.
O único e inigualável Keith Knight Pittman.
Era exatamente como ele dissera. As memórias daquela noite não pairavam mais na minha cabeça. Em seu lugar estava ele, agora diante de mim, em toda a sua glória.
– Só por minha causa… Por que… – Minha voz sumiu timidamente.
Ele acendeu o isqueiro, irritado.
– É um preço ridiculamente barato a pagar se comparado a cinco por cento das ações da empresa.
Eu não tinha certeza se deveria ficar feliz por ele me considerar um secretário tão bom.
– O senhor está dizendo que planeja derramar seus feromônios sobre mim até que meus sintomas melhorem? – perguntei trêmulo.
“Será que ele percebeu?”, perguntei-me. Senti-me nervoso, mas ele simplesmente tragou o cigarro e exalou a fumaça.
– Por que não? – ele ironizou com sarcasmo.
Meus lábios, que estavam cicatrizando, começaram a latejar novamente. Eu podia sentir um leve gosto metálico de sangue. Subconscientemente, lamberi-os, mas assim que o fiz, algo além da saliva fez minha língua deslizar. Por apenas um segundo, pensei que o olhar de Keith tivesse se fixado ali, observando minha língua enquanto ela passava pelos meus lábios inchados do beijo.
Talvez fosse minha imaginação. A expressão dele permaneceu inalterada.
– E por que o beijo? – perguntei, incapaz de me conter por mais tempo. Será que ele culparia meus feromônios de novo? No entanto, eu havia tomado mais do que a dosagem recomendada de remédios, então não haveria como ele sentir o meu cheiro.
Keith franziu as sobrancelhas em frustração.
– Eu estava apenas testando a receita do Steward.
Ah. Sim, isso me convenceu. A maneira mais rápida e certeira de me afetar com seus feromônios seria o ato sexual, mas em vez de se deitar comigo, ele escolheu me beijar. Era o mais próximo daquele extremo. Ele estava apenas fazendo o que podia para me acalmar e confirmar se Steward estava certo.
E ele estava. A receita do médico certamente fora eficaz; como ele previra, eu não tinha mais dificuldade para respirar e meu cérebro não estava tão confuso quanto antes. A única fonte do meu conflito interno residia em Keith e apenas em Keith.
O aroma adocicado dos feromônios ainda me trazia dor, mas lembrar-me de que eram os de Keith me ajudava a suportar. Além do trauma, eles eram difíceis de lidar porque eu era um ômega. Mesmo agora, eu só havia evitado uma excitação excessiva porque fui diligente com meus remédios mais cedo. Só de imaginar o que teria acontecido comigo se eu tivesse sido exposto diretamente aos feromônios dele já era aterrorizante por si só.
Se tal coisa acontecesse, Keith teria me demitido na hora.
Embora essa conclusão fosse sombria demais, banhando-me em uma amargura dolorosa, ela me ajudou a clarear os pensamentos, como um bom choque de realidade deveria fazer. Eu precisava manter minha linha de raciocínio em trilhos realistas. Aquilo era uma questão de escolha. De qualquer forma, eu não podia continuar vivendo assim. Tinha que me livrar desse mal, fosse por meio de tratamento profissional ou de algum outro método.
Após muita relutância, abri a boca para fazer uma pergunta arriscada.
– O senhor não acha estranho que eu só fique bem com os seus feromônios?
Ele me lançou um olhar, mas não parecia nem um pouco perplexo.
– Você já sabe que eu nunca vou encostar um dedo em você.
Bem, ele definitivamente estava certo, mas ainda assim, aquela conclusão abriu um buraco no meu coração.
– Sim – admiti com grande dificuldade. Então, fechei a boca mais uma vez.
Como que para me dar algum tempo para pensar, Keith não disse mais nada. A oferta dele era perfeita. Eu receberia terapia e tratamento do melhor médico da região e não precisaria me preocupar com o meu emprego. Além disso, a oportunidade de morar na mansão de Keith era uma vantagem boa demais para ser recusada.
Ao mesmo tempo, porém, esse também era um dos maiores problemas daquele arranjo. Será que eu seria capaz de manter meus sentimentos ocultos morando na mesma residência que Keith?
Eu também teria que tomar mais remédios do que o habitual. Não sabia quais efeitos colaterais poderia sofrer se continuasse a tomar mais do que a dosagem normal por um período prolongado. Certa vez, ouvi falar de um caso em que alguém continuou a tomar mais medicamentos do que o recomendado e, um dia, assim que os efeitos passaram, seu ciclo de cio seguinte não parou até que suas faculdades mentais definhassem. O pensamento de enlouquecer me assustava. Se dependesse de mim, preferia ficar estéril.
O primeiro caso era muito mais raro do que o segundo, mas dados sobre quantos remédios alguém tinha que tomar e por quanto tempo para que um determinado efeito colateral ocorresse ainda não haviam sido obtidos. Ainda assim, se eu escolhesse morar na casa de Keith, inevitavelmente um dia me tornaria estéril ou enlouqueceria. Talvez até ambos. Afinal, eu havia me transformado em um ômega apenas após a exposição aos feromônios dele.
Mas… como eu poderia não beber daquele cálice envenenado?
O carro parou. Prendi minhas mãos e as apoiei sobre os joelhos.
– Eu entendo – comecei, conseguindo não gaguejar. – Vou aceitar a sua oferta, Sr. Pittman. Obrigado por ser compreensivo comigo. – Depois de dizer tudo de uma vez só, a tensão no meu corpo desapareceu. Sem querer, acabei soltando uma piada: – É inacreditável que o Sr. Pittman tenha beijado um homem. Vou levar isso para o túmulo.
Fui estúpido e corajoso o suficiente para forçar um sorriso. No entanto, Keith não riu; tudo o que fez foi tragar o cigarro, soprando uma longa esteira de fumaça e exibindo um sorriso frio.
– O seu rosto faz o meu tipo. Se você fosse mulher, eu teria ido para a cama com você.
“Se ele tivesse ido, quão rápido teria me descartado?”
De repente, o rosto de Annabel surgiu na minha mente. “Quanto tempo havia durado o relacionamento mais curto dele mesmo?” Fiquei remoendo memórias sem sentido.
Com a mão que segurava o cigarro, Keith bateu de leve no painel que isolava o banco do motorista. Logo, o carro deu partida novamente.
– Minha bagagem… – Abri a boca um segundo atrasado.
Zombeteiro, Keith perguntou:
– Você consegue sequer sair do carro?
Não consegui responder. Afinal, eu não tinha força nenhuma nas pernas. Minhas mãos estavam ocupadas apenas me mantendo sentado, já que eu precisava reunir todas as minhas forças para não escorregar e rolar pelo chão. Como se já soubesse disso, ele levou o cigarro de volta aos lábios.
No fim, continuei sentado no carro de Keith por todo o trajeto até a mansão dele. Mantive os dedos entrelaçados e apoiados sobre os joelhos. Olhava inutilmente para eles. O cheiro de feromônios havia se assentado densamente no interior do carro. Fiquei com medo de que eles me excitassem, mas, para minha surpresa, apenas me senti mais relaxado à medida que o tempo passava.
“Ah. Estes são os feromônios de Keith.” Fechei os olhos e respirei fundo devagar, saboreando-os. Conforme o aroma impregnava meus pulmões, a tensão no meu corpo começou a sumir e, antes que eu percebesse, minha respiração se acalmou e peguei no sono.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør