Capítulo 07.2
Capítulo 07.2
– … E isso é tudo.
Quando finalmente consegui encerrar minha história, eu estava completamente sem energia e prestes a desabar mais uma vez. Estava tão cansado que achava que não conseguiria proferir outra palavra. Steward, que ouvira pacientemente e em silêncio minhas frases cortadas durante todo o relato, falou pela primeira vez em muito tempo.
– Entendo. – Enquanto eu piscava devagar, Steward continuou serenamente, sem qualquer alteração perceptível em sua expressão. – Deve ter sido difícil me contar tudo isso, e eu lhe agradeço por isso. Você deve descansar agora. Vou conversar com o Sr. Pittman.
Ele se afastou lentamente, saindo do carro de modo a não me assustar. Uma vez deixado sozinho, meu olhar travou na entrada aberta do veículo. Justo quando meus olhos se arregalaram, pensando que alguém poderia invadir o espaço a qualquer momento, Steward fechou a porta pelo lado de fora, como se tivesse notado minha preocupação.
Suspirei aliviado. Agora que eu estava definitivamente sozinho, a tensão em todo o meu corpo sumiu e soltei um suspiro profundo. A exaustão me invadiu abruptamente. Fechei os olhos e me apoiei contra a janela.
Na minha visão periférica, julguei ter visto Steward conversando com Keith, mas não tive muito tempo para pensar nisso. Logo mergulhei na escuridão, caindo no sono.
*Clique.*
Acordei com o som repentino da porta se abrindo. Fiquei sentado com os olhos arregalados, congelado de choque, até sentir o aroma sutil de feromônios e cigarro.
Ah.
De repente, o alívio me inundou e meu corpo relaxou. Assim que a origem do cheiro familiar entrou no carro sem hesitação, meus olhos arregalados e temerosos voltaram ao tamanho normal.
Keith fechou a porta imediatamente. Depois, sentou-se em silêncio por um momento. Por trás do meu nervosismo de ser deixado no carro sozinho com ele, senti uma estranha sensação de alegria. Fiquei com medo de que falar fizesse aquela felicidade passageira estourar como uma bolha de sabão, então não o fiz.
Em vez do meu eu covarde, no entanto, Keith tomou a iniciativa de falar primeiro.
– Então, o que você vai fazer? – perguntou ele.
Não o compreendi de início, mas ele continuou me encarando, esperando por uma resposta. Então, eu entendi. Mordi o lábio e o soltei antes de dizer:
– Não posso trabalhar neste estado. Terei que tirar uma licença de longo período… ou pedir demissão do cargo. Sinto muito.
Apertei aquele último pedido de desculpas rapidamente antes de fechar a boca para aguardar a próxima reação dele. Por um tempo, ele não demonstrou qualquer reação. Eu não tinha coragem de olhá-lo nos olhos, então desviei o olhar. O cheiro dele aumentou um pouco de intensidade.
– Quando você assinou o contrato de retorno? Seis meses atrás?
– …Cinco meses e vinte dias.
– O período do contrato é de um ano. Você tem condições de pagar a multa necessária para cancelá-lo?
– Sinto muito. Se o senhor me der um pouco de tempo… – comecei, mas logo minha voz sumiu. Refleti antes de acrescentar: – É uma grande soma de dinheiro para mim, mas o valor de um centavo para o senhor, Sr. Pittman. Não é como se o senhor precisasse disso com urgência.
Seus olhos se estreitaram. “Eu acabei de deixá-lo irritado?” Justo quando eu começava a ficar nervoso, ele deu uma tragada forte no cigarro e exalou a fumaça.
– Mas eu preciso de você.
Eu sabia o que ele queria dizer. O que ele precisava era da minha competência como secretário, alguém que pudesse cuidar de incômodos, alguém que pudesse fazer as coisas que ele não queria fazer em seu lugar, alguém que soubesse ler o ambiente e trazer o máximo de conveniência para ele, não importasse o que ou quando. Portanto, não precisava ser eu. Apenas acontecia de eu ser o candidato mais adequado para as necessidades dele no momento.
Apesar de saber disso, meu coração palpitou.
– Sinto muito – repeti. – No entanto, eu… não posso ir trabalhar. – Exigi todas as minhas forças para segurar minha voz sutilmente trêmula. – De alguma forma consegui entrar no carro, mas além disso, eu não conseguiria… Eu me acalmei agora, mas não tenho certeza se conseguirei lidar com isso amanhã.
Terminei com uma declaração vaga, mas eu sabia que estava no meu limite. Para ser sincero, eu nem sabia se seria capaz de sair deste carro. Senti-me aliviado por ter alguém comigo, mas seria deixado sozinho assim que voltasse. Será que eu seria capaz de superar esse medo?
Será que eu conseguiria dar um passo em direção ao mundo lá fora novamente?
Por um momento, ele ficou em silêncio. Eu não conseguia sequer adivinhar o que ele estava pensando. Logo em seguida, porém, ele mudou de posição no assento e bateu no vidro duas vezes com os nós dos dedos.
Com aquele único gesto, ele comandava o mundo. O tempo, que estivera congelado até então, de repente começou a passar de forma rápida. Alguém assumiu o banco do motorista e deu partida no motor. Quando olhei pela janela, Whittaker e os outros membros da equipe de segurança andavam apressados de um lado para o outro, entrando em seus respectivos carros.
Um momento depois, o carro em que Keith e eu estávamos deu partida. Eu nem perguntei qual era o destino; tudo o que fiz foi manter a boca fechada. Keith também não disse uma palavra. Deixamos o hospital no mesmo silêncio em que havíamos chegado.
…Ah.
A paisagem familiar do lado de fora da janela me avisou que estávamos indo em direção à minha humilde casa. Também me avisou que eu não tinha muito tempo restante ali.
Keith ainda não havia reagido ao meu pedido de demissão e eu me perguntava o que diabos estaria passando pela cabeça dele. Será que ele estava pensando em como teria que encontrar outro secretário para me substituir? Como o mundo estava cheio de indivíduos capazes, ele talvez não se desse ao trabalho de tentar me segurar de novo.
– Pode ser inconveniente no começo, mas o senhor vai se acostumar com as coisas sem mim logo – murmurei antes que pudesse me conter. O olhar de Keith cravou-se em mim. Mantendo os olhos baixos, continuei: – Há muitas pessoas competentes por aí. Como a Emma já havia se acostumado bastante com as coisas antes, ela não teria muitos problemas desta vez.
Quando sugeri uma espécie de alternativa, Keith, para minha surpresa, soltou uma risada irônica, uma que parecia zombar de mim. Ele manteve as sobrancelhas unidas.
– Você é o único no momento que consegue trabalhar atendendo às minhas exigências – disse ele.
Era verdade. Durante toda a sua vida, esse homem nunca tivera nada que não corresse de acordo com os seus desejos. Sempre que algo não se resolvia imediatamente diante dele, ele não conseguia suportar.
Keith Knight Pittman não tinha motivos para esperar que outra pessoa se acostumasse com o trabalho.
Eu também tive bastante dificuldade nos meus primeiros meses neste emprego. Além disso, quando meu supervisor se cansou dos abusos verbais de Keith e resolveu pedir demissão e processá-lo, fui praticamente forçado a assumir o cargo de secretário-chefe. Foi como ser atingido por um raio do nada: um verdadeiro pesadelo.
Apesar de tudo, no entanto, fiz todos os esforços para atender às demandas de Keith. Trabalhar horas extras era um acontecimento comum. Mesmo durante os fins de semana, uma ligação dele era o suficiente para me fazer ignorar meus próprios planos e correr de um lado para o outro feito louco. Olhando para trás, contudo, ele só havia franzido o cenho para mim nos primeiros dias. Depois disso, pareceu bastante satisfeito com a forma como eu trabalhava.
Era de se esperar. Afinal, eu praticamente abri mão de toda a minha vida por esse homem. Cada vez que eu aprendia mais sobre as preferências e pensamentos dele enquanto trabalhava, eu estremecia de alegria.
Dedicar toda a minha alma para fazer os desejos desse homem se tornarem realidade me dava uma sensação imensurável de prazer, embora ele nunca tivesse me reconhecido uma única vez.
– Sinto muito. – Isso foi tudo o que consegui dizer.
Keith caiu em silêncio mais uma vez.
Antes que eu percebesse, senti o carro desacelerar e soube que ele iria parar logo. O pensamento disso fez minha respiração disparar. Eu teria que sair do carro, teria que caminhar de volta para casa e teria que ir para a cama, lutando contra os meus medos sozinho.
Quando meus pensamentos começaram a se emaranhar mais uma vez, um aroma repentino me trouxe de volta.
Feromônios.
Instintivamente, virei-me em direção a Keith. Ele estava me encarando, sem se mover um centímetro sequer. O ar ao nosso redor era o mesmo e a única diferença residia em como os feromônios dele pareciam perfurar o peso de todo o resto, de alguma forma muito mais fortes.
Ah. Fiquei boquiaberto. Eu não conseguia acreditar e nenhuma palavra escapou da minha boca. No entanto, eu já sabia a resposta.
Os olhos roxos de Keith pareciam brilhar esporadicamente em dourado. Em questão de segundos, ele exalava várias vezes mais feromônios do que antes. Sentia como se meu corpo inteiro começasse a ser esmagado por eles; meu pulso acelerou rapidamente e um suor frio escorreu pelas minhas costas. Senti-me tonto. As memórias daquela noite fatídica pareceram me inundar de repente — homens nus, mãos que me agrediam e até a sensação nojenta da minha boca cheia.
Reflexivamente, puxei o ar com força. Assim que o fiz, uma nuvem espessa de feromônios invadiu o fundo dos meus pulmões, bloqueando minhas vias respiratórias. Quando minha respiração parou, Keith abruptamente segurou minha cabeça e me puxou para si.
Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, meus olhos se arregalaram. Nossos lábios colidiram e a língua dele deslizou para dentro da minha boca. Quase o empurrei por puro reflexo. No entanto, ele agarrou minha mão sem esforço e a pressionou para baixo, anulando minha resistência. Lutei, mas não consegui vencer a força avassaladora que ele exibia ao me manter no lugar.
Ele conquistou minha boca impiedosamente, mordendo meus lábios com força. Em seguida, sugou o sangue que brotava da pele rasgada, espalhando-o enquanto continuava a me devorar.
Nossa saliva misturada escorria pela minha garganta. Ao mesmo tempo, as memórias de pesadelo que me atormentavam continuavam comigo e comecei a sentir náuseas, apesar do fato de não conseguir evitá-lo nem rejeitá-lo. Arfei em busca de ar, apavorado por ter sido privado de escolha. Era um beijo mais próximo da violência do que de qualquer outra coisa.
Enquanto isso, Keith me explorava por dentro, roçando contra a carne viva dos meus lábios com os dele e roubendo minha saliva como bem entendia.
– Muito bem – disse ele. Quando finalmente nos separamos, a respiração dele estava tão descontrolada quanto a minha. Em meio à paisagem turva, seus olhos dourados brilhavam intensamente — de forma quase impressionante. – Mude-se para a minha casa, então – disse ele, com a voz baixa. – Isso deve resolver tudo.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør