Capítulo 07
Capítulo 07.1
Consegui espremer um pensamento, apesar da névoa que nublava minha mente.
“Por que ele está aqui?”
De repente, e definitivamente um pouco mais tarde do que deveria, percebi que o sol já estava se pondo no horizonte, mas eu continuava sentado no meu carro. O que eu não conseguia compreender, no entanto, era o fato de Keith estar bem ali na minha frente. Eu estava alucinando?
Como continuei olhando para ele com uma expressão vazia, Keith estalou a língua, exasperado. Ele imediatamente bateu com o punho no vidro de novo.
– Ngah! – gritei, apavorado, encolhendo-me todo na intenção de me proteger.
Keith rangeu os dentes.
– O que você pensa que está fazendo? Abra a porta e saia agora mesmo!
Eu não conseguia responder. Tentei desesperadamente fazer meu corpo parar de tremer e mordi o lábio. Até mesmo isso era difícil, já que meus dentes batiam sem parar.
Por fim, destranquei a porta. Mal consegui fazer isso. Só quando saí lentamente do carro e endireitei as costas é que percebi que estava cercado por vários homens de terno preto. Até avistei o rosto de Whittaker no meio da multidão.
Fazendo o meu melhor, forcei meu cérebro a recuperar a coerência para que eu pudesse finalmente falar.
– Sinto muito – disse, fraco. – E-Eu… não consegui… d-dirigir…
Minha frase soou tão cortada porque eu estava gaguejando ou porque meus ouvidos não estavam funcionando como deveriam?
Então, perdi a consciência.
***
Senti um aroma adocicado e vago. Era um cheiro que eu reconhecia, mas não conseguia identificar. O que era aquilo?
Despertei em um sobressalto. Meu corpo inteiro se contraiu como se eu tivesse levado um choque elétrico. Piscando os olhos pesados, acabei concluindo que estava dentro de um veículo. Sabia que não podia ser o meu velho carro, porque o banco em que eu estava encostado era de couro e muito mais confortável do que a minha própria cama. Mudando a direção do olhar, examinei os arredores.
Um interior com acabamento em mármore, o cheiro de feromônios misturando-se à fragrância sutil do couro, um tapete elegante cobrindo o chão e, embora eu desejasse que fosse mentira, Keith, sentado bem ao meu lado. O aroma doce que eu sentira devia ser o vestígio dos feromônios dele que haviam impregnado o interior do carro.
Ouvi o clique de Keith acendendo o isqueiro. Quando desviei o olhar timidamente para ele, vi-o acendendo o cigarro que trazia na boca. Conforme ele tragava lentamente, uma brasa vermelha brilhava antes de desaparecer na ponta do cigarro. Ele exalou a fumaça antes de finalmente falar.
– Diga-me, qual é o problema desta vez?
Pisquei devagar. Ele parecia realmente de saco cheio. Fui pego de surpresa, mas não consegui pensar em nada para dizer. Para ser exato, tudo na minha cabeça estava tão bagunçado que eu não conseguia formular uma frase decente. Felizmente, porém, estávamos apenas ele e eu no carro. O banco do motorista era isolado por uma divisória que criava um espaço perfeitamente separado.
Meu primeiro pensamento foi uma dúvida. “Eu desmaiei antes?” Não conseguia me lembrar de nada no momento.
Keith esperava por uma resposta, mas eu me sentia tonto. Ainda assim, tentei o meu melhor para encontrar uma maneira de explicar a situação a ele, juntando as peças das minhas memórias. Abri a boca para falar, mas então algo que ele dissera antes em uma situação semelhante me veio à mente.
– Qual é o grande problema?
As palavras morreram na minha garganta. “Qual o sentido de desabafar sobre tudo?” Keith nunca entenderia e eu apenas sairia machucado de novo, então mordi o lábio, engolindo a minha história. Dei algumas respirações profundas antes de mudar de tática.
– Eu gostaria de fazer terapia – disse, com uma voz que parecia exausta até para os meus próprios ouvidos. – Acredito que estou com alguns problemas psicológicos. Sinto muito por não ter avisado antes. Aconteceu de forma muito repentina.
Felizmente, consegui ao menos terminar de falar normalmente. Eu estava ali sentado, olhando fixamente para as pontas dos meus dedos, quando de repente notei que Keith estava ligando para alguém. Não demorou muito para que eu o ouvisse dizer:
– Diga ao Steward que estou indo agora.
Steward era o nome do médico pessoal de Keith. Todos, inclusive eu, já haviam se perguntado por que um homem que podia fazer tudo o que queria precisaria de terapia. Eu nunca precisei agendar uma consulta com o médico para a terapia de Keith. Portanto, eu só conhecia o homem por nome.
Quando ergui a cabeça, surpreso, Keith massageou o vinco entre as sobrancelhas com a mão que segurava o cigarro.
– Não eu, meu secretário – ele rebateu de repente, irritado. – O que importa? Sim, agora.
Em qualquer outra circunstância, imaginei que seria eu quem ligaria para Steward. Como eu não estava em condições de trabalhar dessa vez, ele deve ter ligado para Whittaker ou Emma. Quem teria sido o responsável por chamar o médico? Senti uma onda de curiosidade inútil, mas, claro, não externei isso.
– Obrigado.
Quando murmurei apenas essas palavras após esperar Keith desligar, ele franziu o cenho e olhou brevemente para mim antes de desviar o olhar com rapidez. Depois disso, não trocamos mais nenhuma palavra. Eu queria perguntar a Keith como ele tinha ido parar lá, mas nada saiu da minha boca e acabei mantendo os lábios selados. Keith fez o mesmo até o carro chegar ao hospital.
O verdadeiro desafio veio depois disso. Eu não conseguia sair do carro. Enquanto eu estava ali sentado, congelado e tremendo, o rosto de Keith se contorceu novamente. No entanto, não era algo que eu pudesse controlar; tudo aquilo estava acontecendo contra a minha vontade. A próxima coisa que percebi foi que eu estava hiperventilando.
Whittaker correu para me trazer um saco plástico. Coloquei-o na boca e sufoquei minha respiração descompassada. Na periferia da minha visão embaçada, senti Keith sair do carro. Então, outra pessoa entrou.
Instintivamente, engoli um grito e pulei para trás, achatando meu corpo trêmulo até ficar espremido contra a janela.
O estranho começou a falar.
– Está tudo bem. Você pode se acalmar – disse ele. – Sou Norman Steward, médico. Soube que você é o secretário do Sr. Pittman. Você deve conhecer o meu nome, certo?
Quando ele sorriu, de alguma forma pareceu incrivelmente compassivo. No entanto, continuei arfando, com o corpo ainda rígido e imóvel. Steward não se moveu do lugar, esperando pacientemente que eu me acalmasse. Eu conseguia ver que a porta do carro estava escancarada atrás dele. Se surgisse qualquer problema, Whittaker ou outro segurança seria capaz de vir me ajudar. Esse pensamento ajudou a aliviar a tensão no meu corpo.
– Sim, ótimo. Você se saiu muito bem – incentivou Steward com suavidade.
– Kurgh, ngah!
De repente, fui tomado por uma crise de tosse. Meus ombros sacudiam violentamente com a força dos meus acessos de tosse. Só quando eles finalmente diminuíram um pouco é que Steward voltou a falar.
– Está se sentindo melhor agora? – perguntou.
Lutando para não desviar do olhar dele, consegui responder.
– Sim – espremi a palavra, mas foi só o que consegui.
No entanto, aparentemente sem se abalar, ele não saiu do lugar, continuando a se dirigir a mim com suavidade.
– Parece que você teve um ataque de pânico. Isso já aconteceu antes?
Balancei a cabeça negativamente.
– Entendo – murmurou ele. Com cuidado e em um tom que prometia gentileza, perguntou: – Houve algum evento ou apenas algo que lhe veio à mente recentemente que você acredita que possa ser a causa disso? Aconteceu alguma coisa antes de você ter essa crise?
Incapaz de responder imediatamente, mordi o lábio. O simples pensamento de falar sobre o incidente me causava tanta dor e vergonha que eu tinha vontade de morrer.
Minha respiração voltou a ficar irregular. Percebendo isso, Steward apressou-se em me tranquilizar.
– Está tudo bem, Yeonwoo. Você está seguro. O que quer que o preocupe nunca vai acontecer aqui. Vá com calma e expire devagar – instruiu ele. – Isso, você está indo muito bem. Mais uma vez, devagar…
Quando finalmente consegui retomar o controle da minha respiração, o que me atingiu em seguida foi um tsunami de exaustão. “Qual o sentido de tudo isso?” De repente, senti-me desanimado. Tinha a sensação de estar sofrendo em vão, carregado de uma vergonha sem sentido que eu simplesmente queria descartar. Eu sabia, é claro, que me arrependeria de pensar assim quando recuperasse a razão, que a vergonha e a dor cresceriam exponencialmente, voltando para me assombrar, mas, no momento, eu honestamente não me importava.
Estava cansado demais. Só queria acabar com tudo.
Ainda assim, comecei a contar a história do incidente daquela noite, as palavras escapando de mim de forma lenta e sussurrada.
– …Naquela noite, na festa…
Steward escutou-me em silêncio.
***
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør