Capítulo 06.2
Capítulo 06.2
– É mesmo? Não há o que fazer então – cantarolou Annabel.
Meus olhos estavam arregalados de choque. Que resposta reconfortante… Alguém já havia aceitado o término tão facilmente antes?
Enquanto eu a encarava maravilhado, ela soltou uma risadinha.
– O quê? Você achou que eu ia fazer um escândalo ou algo assim? – perguntou. – Estou desapontada por você ter pensado isso de mim.
– N-Não, bem… Sinto muito – gaguejei, ainda me recuperando do espanto.
Annabel sorriu gentilmente.
– Já ouvi muito sobre os hábitos terríveis do Sr. Pittman. Eu deveria ser grata, na verdade, por ter recebido uma oportunidade como essa. Não durou tanto quanto eu esperava, mas o que posso fazer? Não é como se ele fosse voltar mesmo se eu reclamasse. Não tenho escolha a não ser aceitar a realidade.
Mesmo depois de ouvir tudo o que ela dissera, eu ainda não conseguia acreditar. A mulher diante dos meus olhos era uma supermodelo que havia ostentado o título de modelo número um até o ano passado. Embora seu posto tivesse sido roubado por uma novata promissora, seu prestígio ainda era tão alto quanto antes.
“Talvez aqueles que já estiveram no topo realmente sejam diferentes.”
Eu nunca poderia ter imaginado presenciar tamanha confiança e dignidade. Como havia me preparado para xingamentos e reprimendas, quase me senti desarmado. Pensar que ele terminou com uma garota assim em três semanas…
Eu quase tinha pena dele. Só podia torcer para que sua próxima parceira fosse como essa mulher.
– O que é isso que você está segurando? É para mim?
Sua pergunta me trouxe de volta à realidade. Entreguei-lhe o grande envelope que estava segurando.
– Ah, sim – concordei. – Este é um presente do Sr. Pittman por ter lhe dado o prazer de estar com você.
Annabel pegou o envelope de minhas mãos com elegância. Suas unhas bem cuidadas chamaram minha atenção mais do que qualquer outra coisa.
– Ouvi dizer que o Sr. Pittman oferece uma compensação muito generosa – acrescentou como um pensamento tardio para si mesma, rindo baixinho. – Ele não precisava fazer isso.
Isso me intrigou. Fui atingido por uma onda repentina de estranheza. Apenas formalidades despretensiosas haviam saído de seus lábios, então por que aquilo me incomodava tanto?
Havia mais uma coisa que me incomodava também. Em vez de rasgar o envelope para abrir, ela apenas espiou cuidadosamente o interior ao levantar a aba com a ponta da unha antes de deixá-lo sobre a mesa. Não parecia nem um pouco interessada no que estava lá dentro.
“Talvez ela ache rude verificar o conteúdo descaradamente enquanto eu ainda estou aqui.”
Tentei mudar a direção dos meus pensamentos, mas ainda era suspeito. Annabel estava calma demais. Era como se nada daquilo realmente importasse para ela.
Havia algo errado.
Não era um palpite, mas uma convicção. Ela estava escondendo algo — e não alguma futilidade como um título de membro de algum clube de campo estritamente limitado, uma joia caríssima ou um papel de atuação em um filme que deixaria uma marca gigante em sua filmografia. Era algo incomparavelmente mais importante.
– Então, seu assunto aqui terminou? – ela perguntou, tirando-me de minhas contemplações. Ela já estava sutilmente se preparando para me colocar para fora. Eu não podia simplesmente ir embora assim. Tentei desesperadamente pensar em algo.
– Sim, hum… Sinto muito perguntar, mas eu poderia ganhar um copo de água? Devo ter ficado muito nervoso e agora estou com a garganta seca – disse, sorrindo sem jeito.
Ela assentiu sem hesitar.
– Não é uma tarefa fácil limpar a bagunça depois de um término – disse compreensiva enquanto se dirigia à cozinha. Quando voltou, foi com um copo de água. – Aqui está.
Sorri.
– Obrigado.
Peguei o copo. O que eu estava prestes do fazer exigia um timing delicado e controle preciso. Era para durar apenas alguns segundos, no máximo, mas ainda assim senti a pele arrepiar de dar calafrios. Mantive o sorriso colado no rosto, concentrando todos os meus esforços para não deixar passar essa chance.
Fiz meu movimento.
– Oh, céus!
– Ah!
Ela e eu exclamamos quase simultaneamente, nossas mãos se desencontrando naquele décimo de segundo. O copo inclinou imediatamente, encharcando minha camisa e calça, e caiu em direção ao chão.
Produziu um som abafado ao atingir o tapete. Ficamos congelados por um momento enquanto encarávamos o copo caído antes de olhar para cima e nos encararmos quase em sincronia.
– Ah, não… Sinto muito – desabelei-me a dizer, acenando com as mãos e gesticulando em sinal de embaraço. – Deve ter sido o nervosismo.
Ela arregalou os olhos e balançou a cabeça.
– Não, tudo bem. Mais importante, o que devemos fazer? Suas roupas estão encharcadas.
Infelizmente, a água havia derramado na altura da cintura da minha camisa e precisamente entre as minhas pernas. É claro que foi exatamente como eu havia planejado.
Fingi minha melhor expressão de preocupação.
– Ah, Cristo… Tinha que respingar logo ali, de todos os lugares.
Ela sorriu de forma reconfortante, embora um pouco atrasada, e estendeu a mão.
– Não tem jeito. Tire-a, e eu seco para você.
Dessa vez, eu fiquei realmente sem jeito. Virei de costas e me atrapalhei ao tirar as calças. Nesse curto espaço de tempo, examinei rapidamente a disposição da casa.
– Nossa, você tem uma bunda bonita.
Quando me virei, ela estava encarando atentamente minhas nádegas. Senti o calor subir para o meu rosto. Eu estava consciente demais da minha parte frontal para virar o corpo, então não tive escolha a não ser me curvar desajeitadamente e entregar as calças ficando de lado para ela. Annabel sorriu como se entendesse tudo. Ela jogou as calças sobre o braço e virou as costas para mim.
– Devo ter os pijamas do meu ex-marido em algum lugar. Guardei para poder jogar tudo fora de uma vez, mas você gostaria de usá-los até que suas roupas sequem? Se estiver tudo bem para você.
– Ah, claro. Obrigado – disse apressadamente.
Ela assentiu.
– Vou buscá-los para você. Espere aqui um minuto. Agora, onde foi que eu os coloquei? – Ela olhava ao redor como se estivesse resgatando suas memórias. Decidi deixar uma palavra de garantia.
– Vai levar um tempo para secar as calças. Pode ir sem pressa.
Annabel virou-se para me encarar. Quando nossos olhares se cruzaram, sorri educadamente. Ela sorriu de volta e, provocativamente, olhou para baixo.
– Você não deveria se secar também?
Assim como ela havia insinuado, eu estava encharcado até a cueca. Corei enquanto olhava desesperadamente ao redor, e ela me apontou outra direção com o dedo.
– A secadora fica naquele banheiro – disse.
– Obrigado.
Enquanto murmurava palavras de gratidão mais uma vez, ela me deixou e se dirigiu à lavanderia. Fingi ir em direção ao banheiro, mas mudei de rumo logo em seguida. Quando vim aqui da última vez para entregar os presentes de Keith, ela os havia levado cuidadosamente para dentro. Como as pessoas geralmente guardavam essas coisas no quarto ou no escritório, a informação que eu procurava deveria estar em um dos dois cômodos.
O escritório ficava no segundo quarto. Quando abri a porta e confirmei, entrei rapidamente e revirei tudo. Vasculhar a casa de um estranho por minha própria conta… “Que coisa verdadeiramente baixa de se fazer.” No entanto, eu não podia simplesmente fechar os olhos para os meus instintos.
Justo quando estava pensando que deveria parar a busca e fazer um relatório se o que eu procurava não estivesse aqui, encontrei a evidência que confirmava minhas suspeitas na última gaveta.
***
O tom de chamada do telefone continuava a soar, mas ninguém atendia. Quando a mensagem automática começou a tocar, desliguei. Pressionei o botão de chamada mais uma vez, mas não tinha certeza de que alguém atenderia dessa vez também. Whittaker provavelmente estava ocupado fazendo a segurança do local. Ainda assim, era raro ele não atender assim.
“Não pode ter acontecido algo na festa, pode?” Como Keith havia mudado abruptamente sua agenda esta tarde para comparecer à festa de Ian, a equipe de segurança estava em estado de emergência. Eles poderiam ter se metido em algum tipo de problema.
De repente, a chamada foi atendida.
– Sr. Whittaker? – perguntei imediatamente. – Aqui é o Yeonwoo. Sr. Whittaker?
– … está… tão…
A voz continuava cortando, e eu não conseguia compreender o que ele estava dizendo. A conexão parecia ruim, talvez devido ao barulho por lá. Sem outra escolha, desliguei e continuei a dirigir. Eu precisava resolver esse problema o mais rápido possível.
***
Quando cheguei à mansão onde a festa estava sendo realizada, havia funcionários da segurança por toda parte. Todos eles estavam de prontidão para proteger seus patrões.
Ver tantos gamas em um só lugar provavelmente só era possível onde alfas dominantes se reuniam. Não importava a classificação — alfa ou ômega —, os gamas eram os menos afetados por feromônios, embora dissessem que era possível ser afetado sob exposição prolongada.
Enquanto esses pensamentos passavam pela minha cabeça, procurei apressadamente por Whittaker. A razão pela qual os gamas eram tão imunes aos feromônios era que eles não conseguiam senti-los. Portanto, se eu escolhesse não me revelar, eles não saberiam dizer de forma alguma se eu era um alfa, beta ou o que quer que fosse. O segurança que me parou não foi exceção. Mesmo enquanto checava minha identificação, lançou um olhar em minha direção, por curiosidade pessoal, talvez, ou algum outro motivo. Eu estava acostumado com aquilo e rapidamente me expliquei.
– Sou secretário do Sr. Pittman – disse. – Tenho algo a relatar, então estou aqui para ver o Sr. Whittaker — ele está encarregado da segurança dele. Sou um ômega.
– Oh… – Suas sobrancelhas se franziram sutilmente. Por razões óbvias.
Tratei de dissipar as preocupações dele imediatamente.
– Eu já sei que tipo de festa é esta. Vou embora assim que falar com o Sr. Whittaker, então não precisa se preocupar com isso.
Como muitas pessoas que frequentavam festas de feromônios costumavam levar ômegas que vendiam seus corpos, pessoas como eu podiam sofrer um acidente onde acabavam se envolvendo sem querer. Meu coração gelou ao me lembrar do último incidente, mas eu não podia voltar atrás agora. O segurança pareceu pensativo, mas logo se afastou e abriu espaço para eu passar.
– Tenha cuidado. As coisas estão realmente feias lá dentro agora.
Agradeci pelo aviso extra e entrei. Cheguei a enfiar duas balas neutralizadoras de odor na boca de uma vez. Senti a ponta do meu nariz ficar dormente enquanto procurava por Whittaker. Ele deveria estar esperando em seu posto designado.
Justo quando eu olhava freneticamente ao redor, avistei um dos membros da equipe de segurança de Keith.
Corri rapidamente atrás dele e segurei seu armo.
– Ei! Hum—
Ele me reconheceu imediatamente, pego de surpresa.
– Yeonwoo? O que você está fazendo aqui?
– Algo urgente aconteceu, então vim ver o Sr. Whittaker. Onde ele está? O sinal aqui não parece muito bom.
Ele tirou o telefone do bolso e estalou a língua.
– Os feromônios devem ter interferido nos aparelhos. Acontece com bastante frequência. Engraçado como as máquinas podem ser afetadas por feromônios que alguns humanos nem conseguem cheirar, né? – Ele riu, mas eu não estava no clima para rir com ele. Vendo que eu não tive reação, sua expressão rapidamente ficou sem graça. – Siga-me – disse. – Ele provavelmente está no estacionamento.
Segui atrás dele por um tempo. Exatamente como me haviam dito, o Bentley de Keith estava estacionado em meio a uma fileira de outros carros caros, e Whittaker estava na calçada não muito longe deles, conversando com outros funcionários da segurança.
– Sr. Whittaker! – gritei por ele em alívio. Ele se virou, sem esperar muito, antes de me ver e arregalar os olhos de surpresa.
– O que você está fazendo aqui, Yeonwoo? – perguntou-me. – Você está se sentindo bem?
Ele provavelmente estava se referindo ao incidente na última festa desse tipo em que estive. Empurrei as balas contra a bochecha para mostrar que as estava consumindo e sorri. Ele riu em resposta antes de se lembrar de pegar sua própria bala do bolso, rasgando a embalagem de plástico.
– Enfim, o que aconteceu? Você estava ligando, certo? – Ele jogou a bala na boca e torceu o rosto. – As coisas parecem realmente caóticas hoje. Ouvi dizer que um dos dominantes perdeu o controle completamente. Ele está no cio ou algo assim. Os feromônios dele devem estar transbordando por toda parte se até nossa tecnologia ficou maluca. – Estalando a língua, ele se virou preocupado para olhar o veículo de Keith. – Eu me pergunto se o carro vai sequer andar direito.
Ficando impaciente, fui direto ao assunto.
– Fui dar a notícia para a Senhorita Annabel James hoje e encontrei algo suspeito. Aqui está uma foto – disse-lhe, mostrando a foto que tirei no meu telefone lá na casa dela. O rosto de Whittaker endureceu imediatamente.
– Armazenamento em banco de esperma? O que é isso? – Ele parecia confuso. Continuou a passar as fotos, piscando para a tela. – Espera, ok. Então, você está me dizendo que ela roubou um pouco do sêmen do Sr. Pittman?
Comecei a despejar meus pensamentos.
– É o que parece. Está sendo armazenado nesse banco de esperma. Se não encontrarmos isso logo e tomarmos uma atitude…
Eventualmente, no entanto, notei que a reação de Whittaker havia ficado um tanto estranha. Ele coçou o queixo e resmungou ao me devolver o telefone.
– Entendido. Vamos confirmar primeiro e relatar isso ao Sr. Sr. Pittman também.
Fiquei surpreso com sua atitude inesperadamente morna.
– Não precisamos resolver isso rápido? Se ela decidir fazer uma inseminação artificial ou se tentar vender—
Whittaker deu de ombros.
– Se ela fosse vender, teria que provar que é o esperma do Sr. Pittman. Como ela obteria o DNA do Sr. Pittman? Se fossem analisar a amostra, o fato de que ela o roubou seria imediatamente exposto. Não há a menor chance de ela fazer algo tão estúpido. Se ela tentasse inseminação artificial, por outro lado… – De repente, ele soltou uma risada leve. – Boa sorte tentando usar aquele fluido vazio.
– Vazio? – perguntei sem entender.
Whittaker pareceu ainda mais surpreso.
– Você não sabia? Alfas dominantes conseguem controlar a presença de espermatozoides em sua ejaculação. Nada daquilo é capaz de engravidar ninguém. – Sorrindo amargamente, ele olhou para o meu rosto sem noção e murmurou um “nossa” baixo ao perceber que eu realmente não sabia. – É por isso que eles podem se divertir de forma tão libertina – continuou a explicar. – Ouvi dizer que eles não conseguem controlar quando os feromônios se acumulam demais, mas duvido que chegue a esse ponto frequentemente. Se eles estão liberando seus hormônios nessa quantidade, nunca vai chegar a esse extremo.
Isso fazia sentido. Pego de surpresa, pisquei os olhos.
– Achei que eles exalassem feromônios apenas para ostentar que eram alfas dominantes…
– Como demarcar território? Isso faz com que pareçam animais selvagens – brincou Whittaker, caindo na gargalhada.
No entanto, ele e eu sabíamos que eles eram muito parecidos com animais selvagens em vários aspectos. E dos que sentavam no topo da cadeia alimentar, ainda por cima.
Whittaker pigarreou e continuou.
– De qualquer forma, vou investigar esse assunto. Mesmo sem passar por uma análise de DNA, deve haver alguns colecionadores por aí dispostos a comprar o sêmen do Sr. Pittman. Devemos impedir tal comércio com antecedência. – Whittaker de repente soltou uma risadinha e acrescentou: – Mas o preço vai cair bastante quando as pessoas perceberem que está tudo vazio. A Annabel vai ficar bem desapontada.
Eu também estava. Se eu soubesse, não teria corrido até aqui assumindo o risco. Meu desânimo deve ter transparecido em meu rosto; Whittaker deu tapinhas em meus ombros como se para me confortar.
– Todo mundo sabe o quanto você é diligente, Yeonwoo. Todos nós devemos a você por isso.
– Obrigado. – Depois que murmurei fracamente algumas palavras de gratidão, Whittaker sorriu e olhou ao redor.
– Você deve voltar agora. Afinal, pode ser perigoso aqui.
– Sim, eu deveria. – Eu só seria um estorvo se ficasse por mais tempo. Essas pessoas estavam aqui para proteger Keith e não tinham nada a ver com a minha segurança. Eu tinha que proteger meu próprio corpo. Com certeza não queria me envolver em outro incidente como o da última vez. – Vou indo, então. Por favor, investigue esse assunto e resolva-o.
– Adeus, e vá com cuidado.
Deixando para trás seu comentário preocupado, saí rapidamente. Agora que eu já não estava em pânico, o aroma adocicado dos feromônios que eu não havia notado até então roçou a ponta do meu nariz. As balas dentro da minha boca já estavam com metade do tamanho original.
De repente, senti uma onda de urgência. Enfiei mais duas balas na boca e caminhei — praticamente correndo — pelo gramado da frente. Eu havia estacionado meu carro na rua do lado de fora do portão principal. De qualquer forma, me sentiria mais à vontade assim que chegasse lá.
Eu… eu tinha que chegar lá rápido.
Rápido.
Antes que eu percebesse, estava correndo. Queria fugir dos feromônios que me perseguiam. Parecia que eles iriam avançar e me devorar em uma única mordida se eu hesitasse por um segundo que fosse.
Essa constatação, iluminando meus medos, levou-me ao extremo. Arfei em busca de ar enquanto corria feito um louco. Eu estava prestes a passar pelo portão, mas então—
Algo surgiu abruptamente à vista. Reflexivamente cobri meu rosto por causa dos faróis brilhantes e, naquele momento, alguém me puxou pelo braço. Arfei, arfando enquanto me deixava ser arrastado para o lado. Um carro esportivo praticamente raspou em mim. Quase havia me atingido.
– Você está bem? – veio a voz do meu salvador. Tardiamente, percebi que era o funcionário da segurança que estava encarregado de guardar a entrada.
– Oh. Hum, sim – consegui murmurar em resposta.
Ele franziu as sobrancelhas enquanto desviava o olhar para mim.
– Tenha cuidado. Sinceramente, por que todo mundo que vem aqui tem que dirigir de forma tão violenta? – resmungou ele, aparentemente farto daquilo. No entanto, suas palavras não chegaram aos meus ouvidos direito; eu estava perturbado demais.
Agradeci a ele e me dirigi para onde havia estacionado.
Isso foi até onde minha memória alcançou.
Quando voltei a mim, estava parado diante da minha porta da frente, tentando abri-la. A chave continuava a bater contra a maçaneta e arranhar sua superfície, mas não parecia querer encontrar seu lugar no buraco da fechadura. Lutei por um tempo antes de segurar minha mão trêmula com a outra, forçando-a a se firmar para que eu pudesse finalmente encaixar a chave.
Eu estava hiperventilando, sem fôlego e a momentos de desabar.
Assim que a porta se abriu, entrei correndo. Tremia como uma vara verde enquanto trancava todas as três fechaduras e até a trava do lado de dentro. Depois, coloquei uma cadeira na frente da porta, mas aquilo não foi suficiente para me trazer alívio. Corri para o meu quarto sem sequer tirar as roupas, trancando as janelas e a porta. Finalmente, pulei na minha cama e puxei o cobertor até o topo da minha cabeça. Mesmo depois de tudo isso, o tremor ainda se recusava a parar.
A única coisa na minha cabeça era a imagem do homem ao volante do carro esportivo que havia passado por mim.
Tinha sido o homem que tentou me estuprar.
Eu ainda podia sentir o peso dele forçado na minha boca, sentir meus dentes cravando em sua carne. Imediatamente, tive ânsia de vômito com a lembrança, mas tudo o que me escapou foram gotículas de bile.
Achei que tivesse superado, mas ainda estava ali deitado, absolutamente aterrorizado. Eu simplesmente estive mentindo para mim mesmo, criando uma ilusão conveniente sob a qual pudesse trabalhar. Eu nunca havia superado e nem sequer havia tentado. Tudo o que fiz foi fechar os olhos para isso, e agora a situação havia crescido, tornando-se uma monstruosidade gigantesca com a intenção de me engolir por inteiro.
***
Minha atenção foi capturada pelo som distante do meu toque de celular. Lia-se “Secretaria” acima do número em exibição na tela do meu telefone.
Atendi e imediatamente uma voz em pânico chamou.
– O que aconteceu, Yeonwoo? Você está a caminho? Você não se meteu em um acidente nem nada, certo?
Por um momento, não reconheci quem era, mas então pisquei para afastar o torpor dos meus olhos pesados. Foi difícil e hesitei por um momento, mas eventualmente respondi.
– …Emma? – perguntei.
– Sim, Yeonwoo – respondeu sua voz frenética. – Onde você está agora?
Pisquei devagar, respondendo com um suspiro.
– Estou a caminho. O que há de errado?
Um momento de silêncio se fez após a minha pergunta, então Emma perguntou um tanto hesitante:
– Você sempre chega cedo, mas está atrasado hoje… então eu estava me perguntando se você sofreu um acidente ou algo assim.
O relógio digital do meu carro me notificava de que já havia passado da hora em que eu deveria estar no escritório. Prendi as mãos no volante com força e respirei fundo.
– Parece que vou me atrasar um pouco hoje – disse com cuidado. – Eu mesmo vou explicar isso ao Sr. Pittman, então por favor, comecem o trabalho como planejado. Reporte a ele primeiro sobre a agenda diária dele e sigam com o dia normalmente. Estarei aí em breve.
Emma pareceu confusa, mas desligou mesmo assim. Range os dentes, ainda apertando o volante. Não tive coragem de contar a Emma, mas eu ainda não tinha conseguido sair do estacionamento. Graças a ter gasto toda a minha energia para sair de casa e entrar no carro, já estava sentado no banco do motorista há uma hora inteira, incapaz de me mover.
Meus pensamentos andavam em círculos exaustivos. “Tenho que ir trabalhar”, continuava me lembrando. Desesperado, firmei minhas mãos no volante e tentei compassar meus suspiros trêmulos.
“Eu vou ficar bem. Eu estava bem.”
Quando fechei os olhos e os abri novamente, empalideci conforme outro pensamento invadia minha mente.
Eu realmente não estava.
***
*BUM!*
Sobressaltei-me, soltando um grito com a batida repentina no vidro do meu carro. Eu estava arfando pesadamente, e o som da minha própria respiração parecia golpear meus tímpanos. Eu não conseguia voltar a mim.
Alguém do lado de fora estava falando, no entanto. Pisquei várias vezes seguidas, tentando ao máximo permanecer consciente. Quando finalmente consegui virar a cabeça, deparei-me com um rosto bem diferente das minhas expectativas.
– Que porra você está fazendo?
Keith olhava feio para mim por trás do vidro, encarando-me com uma expressão irritada.
·:*¨༺ ♱✮♱ ༻¨*:·
↫─☫ Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Jør