Capítulo 06
Capítulo 06.1
Uma sensação fria, porém macia, tocou meus lábios quando Keith pressionou gentilmente os dele contra os meus. No entanto, antes que eu pudesse sentir sua ausência quando ele ameaçou se afastar, sua língua deslizou para dentro da minha boca. Ela havia se aberto sem que eu percebesse.
Sua língua úmida passou pelos meus dentes e roçou na minha, fazendo-me encolher a minha de surpresa. Aquele leve contato, molhado e suave, me deixou completamente dominado. Ele perseguiu minha língua, desarmando qualquer resistência, mantendo nossos lábios firmemente selados.
Fechei os olhos com força e engoli lufadas de ar entre os beijos, registrando de longe o som de Keith mordiscando e sugando meu lábio inferior com cuidado. Eu mal conseguia me controlar, e ele ainda nem sequer havia tocado o resto do meu corpo com as mãos. O único ponto de contato entre nós eram nossas bocas. Mesmo assim, eu me sentia em chamas.
Se eu não estivesse apoiado na parede, já teria desabado. Fiquei com o corpo totalmente pressionado contra ela enquanto retribuía desesperadamente os beijos dele. Nossos lábios se encontravam e se separavam repetidamente; sua língua deslizava para fora apenas para induzir a minha a persegui-la. Ele cravou os dentes nela e depois me prendeu de novo em seu ritmo.
Senti minha saliva descer pela garganta. Mal conseguia respirar; puxadas de ar superficiais eram tudo o que eu conseguia gerenciar, enquanto nossas respirações se misturavam de forma caótica. Eu já não sabia mais de quem era o ar. Os lábios dele barravam os meus enquanto colidíamos com paixão, inspirando como se ele quisesse consumir tudo o que havia além da minha boca. Parecia, de todo o coração, que ele pretendia me devorar. Eu estava assustado, mas, ao mesmo tempo, excitado.
– Keith…
O nome dele me escapou num murmúrio, sem forma, flutuando na minha boca. Quando minha língua se moveu de leve, ele a capturou, prendendo-a contra a dele. Trocamos saliva, e uma mistura dela escorreu pelos meus lábios. Em qualquer outra circunstância, só isso seria o suficiente para me fazer chegar ao limite, mas, graças aos meus inibidores, eu apenas conseguia manter uma ereção firme e constante. Meu coração ardia no peito, e minha pele implorava por um toque que eu desejava desesperadamente receber. Não me atrevi a dar o próximo passo, mas, pela primeira vez, senti algo queimar profundamente dentro de mim, e meu quadril se contraiu em antecipação.
Em todos os sentidos, exceto pelo som, eu estava gemendo e arfando. Eu queria tanto segurá-lo. Minha mão, que sustentava meu peso contra la parede, fechava-se e abria-se em um punho, em uma tentativa frenética de me conter. Eu estava apavorado. Sentia que, se fizesse qualquer movimento, este momento se despedaçaria, transformando-se em poeira bem diante dos meus olhos. Não, isso não era apenas uma impressão. Eu sabia que aconteceria.
Nada disso parecia real.
Keith rangeu os dentes e mordeu com força meu lábio inferior. Reflexivamente, franzi as sobrancelhas. A dor aguda insistia em me provar que aquele momento era real. Senti o gosto metálico de sangue. Ele aproveitou a oportunidade para se fixar no ferimento, sugando o sangue que brotava. Nossos lábios deslizavam um contra o outro, seguindo a mistura de saliva e sangue que começava a uni-los.
Naquele momento, senti o aroma dos feromônios de Keith. Ele também estava excitado. Eu não precisava sentir a ereção dele para saber disso.
– …Hah.
Desta vez, tinha sido Keith quem gemera, embora talvez estivesse mais para um suspiro. Um deslize momentâneo. Até então, eu apenas tremia no lugar, suprimindo minhas próprias reações vocais.
Sua respiração quente soprou sobre meus lábios umedecidos enquanto ele se afastava. Quando consegui abrir os olhos novamente, ele estava olhando para mim, e de repente pareceu que nada havia mudado desde antes de eu fechá-los. A distância entre nós, ele com o braço apoiado na parede acima da minha cabeça, e eu com as costas coladas nela, permanecia a mesma.
A única diferença eram nossas respirações arfantes e expressões complicadas. “No que ele está pensando?”, perguntei-me. Minha mente estava nublada.
– Falando em feromônios…
Pisquei confuso, encarando-o de volta.
– Por que você não tenta controlar os seus primeiro?
Sua voz era de puro deboche, marcando o retorno à postura fria que ele costumava adotar. Seus olhos transmitiam nojo.
Então, ele se virou e passou pela porta da frente. Ela se fechou com um clique. Só registrei o fato de estar sozinho quando ouvi o som da fechadura. Pelo menos ele não a bateu com força; isso foi um alívio. Mas provavelmente exigiu toda a paciência dele para não fazer isso.
“Pelo que conheço dele, deve estar planejando ir para casa, praguejando por ter beijado um homem e limpando a boca com álcool.”
Suspirei e desabei no chão. Forcei minha mão trêmula a subir e toquei meus lábios. Eles ainda estavam úmidos. O cheiro dos feromônios de Keith pairava no ar, e a umidade nos meus lábios era o único vestígio do que acabara de acontecer.
De repente, lembrei-me de algo esquecido. No passado, ele também tinha sido quem me seduzira durante o nosso primeiro beijo. Logo depois, ficou extremamente irritado e me empurrou para longe.
Incrível como esse homem conseguia ser consistente.
Soltei uma risada sem humor e fechei a boca. De alguma forma, mesmo sem se lembrar de mim, ele tinha voltado a me machucar exatamente da mesma maneira.
***
– YEONWOO!
Quando Emma chegou ao trabalho, gritou em choque assim que viu meu rosto. Eu havia mandado uma mensagem para todos com um dia de antecedência, mas deve ter parecido mentira até que ela me visse com os próprios olhos.
Como de costume, fui o primeiro a chegar e cumprimentei cada funcionário que entrava na sala da secretaria.
– Bom trabalho nos últimos dias – eu disse. – Desculpem-me por sair tão de repente. Estou ansioso para trabalhar com todos vocês novamente.
Não tinham se passado nem dez dias, mas eu não precisava perguntar o que havia acontecido para saber como todos passaram. Cada um deles olhou para mim com um alívio visível. No entanto, havia uma coisa sobre a qual eu precisava perguntar.
– As coisas estavam um caos completo – relatou Emma, como se estivesse esperando por esse momento. – Eu não soube disso até mais tarde porque estava falando com você quando aconteceu, mas… quando você ligou no outro dia sobre a senhorita Elisa, a ligação que a Jane atendeu era na verdade dela. Eu nunca teria adivinhado porque ela falou tão calmamente! Pelo visto, ela perguntou sobre a agenda do Sr. Keith, e a Jane simplesmente contou sobre a festa em que ele estaria. Bem, isso foi informação suficiente para a senhorita Elisa. Soube que ela foi até lá e ela e a senhorita Abigail saíram no tapa.
Emma continuou falando sem nem respirar e soltou uma risadinha, prosseguindo com a história.
– As duas ficaram completamente destruídas no final da briga. Quando finalmente fui chamada ao local, a situação estava feia, e feia nível “minha Nossa Senhora” —, o Sr. Pittman não estava em lugar nenhum, mas as duas estavam lá com o cabelo parecendo um ninho de passarinho, cheias de arranhões e hematomas pelo corpo todo. Foi um desastre total. Graças a Deus a polícia não apareceu. O anfitrião da festa poderia ter sido envolvido na confusão se a fofoca se espalhasse, então provavelmente quiseram abafar tudo. Mas ainda acho que vai sair alguma matéria sobre isso eventualmente. Havia muitas testemunhas, e envolve o nome do Sr. Pittman, afinal. Ah, eu queria tanto ter visto tudo! – Ela suspirou, parecendo genuinamente decepcionada. – Quando cheguei, tudo já tinha acabado e eles estavam apenas limpando a bagunça.
Era raro ver Emma tão animada contando fofocas daquela forma. Mas eu não podia culpá-la. Considerando os eventos da noite anterior, não era difícil adivinhar o que tinha acontecido. Keith naturalmente ficaria de saco cheio se elas fizessem um escândalo daqueles na frente dele. A essa altura, ele deve ter percebido como eu impedia as coisas de tomarem proporções tão graves, sacrificando-me enquanto trabalhava para ele no passado. Eu nunca esperei que ele notasse, mas, no fim, ele levantou a bandeira branca e veio me procurar graças à exaustão acumulada por todo aquele drama.
O beijo, contudo, definitivamente não estava nos planos.
– Yeonwoo?
A voz de Emma me puxou de volta à realidade, e percebi que estava tocando meus lábios. Rapidamente abaixei a mão.
– Você está bem? – ela perguntou, preocupada. – O que aconteceu com os seus lábios? Não sabia que você tinha o hábito de mordê-los.
– Ah, isso? – Em pânico, procurei uma desculpa. – Foi só… um acidente – terminei de forma sem graça.
Felizmente, ela não insistiu. Em vez disso, tirou algo da bolsa e me entregou.
– Use isso – instruiu. – Parece que vai começar a sangrar de novo. Pode ficar feio se você deixar assim. Pode até pegar uma infecção. – Ela me alertou e me entregou um protetor labial. – Que bom que eu tinha um novo comigo.
No entanto, a gentileza dela era desnecessária. Eu não queria que a mordida sarasse. Na verdade, tinha medo de que o único traço dele em mim desaparecesse. Queria que meus lábios continuassem partidos, mesmo que por apenas mais um dia.
– Obrigado – eu disse a Emma, pegando o protetor labial de suas mãos, mas sequer abri a tampa. Guardei-o direto em uma gaveta e comecei a imprimir alguns documentos como se nada tivesse acontecido.
Felizmente, ela parou de tentar me convencer e voltou para sua própria mesa. Deve ter entendido meu recado silencioso de que era hora de começar a trabalhar.
Como de costume, organizei a agenda do dia e separei os itens que precisavam de relatório antes de sair da secretaria. Eu tinha tirado apenas alguns dias de folga, mas o corredor que antes parecia tão familiar agora passava uma sensação estranha. Até o som ritmado dos meus sapatos Oxford contra o chão parecia esquisito e, quando finalmente cheguei diante da porta do escritório de Keith, eu estava tão nervoso quanto no meu primeiro dia de trabalho.
Bati levemente na porta e esperei alguns segundos antes de abri-la. De imediato, vi as costas de Keith. Ele estava de pé em frente à parede de vidro, fumando um cigarro enquanto observava a cidade espalhada lá embaixo. A fumaça do cigarro misturava-se ao aroma de seus feromônios.
Soltei uma tosse deliberada para chamar sua atenção. Lentamente, ele se virou e, quando nossos olhares se cruzaram, segurei o fôlego. Encaramo-nos sem palavras por um momento. Eu não fazia ideia do que Keith poderia estar pensando, mas tinha uma leve certeza de que eu não era o único ali a se lembrar do beijo da noite anterior. Apenas esperei que ele tocasse no assunto.
Após alguns segundos, ele exalou a fumaça, tirando o cigarro dos lábios mais uma vez enquanto começava a se mover. Observei em silêncio ele se sentar, seus sapatos batendo no chão de forma monótona a cada passo.
Quando ele se acomodou, caminhei até ele e parei do outro lado de sua ampla escrivaninha.
– Aqui está a sua agenda de hoje – anunciei, deixando os papéis que havia impresso antes. Ele os pegou após prender o cigarro entre os lábios, e esperei por sua próxima ordem.
“Espera… O quê?”
Bem naquele momento, algo me pegou de surpresa. O aroma marcante de seus feromônios, que antes se misturava à fumaça do cigarro, agora estava fraco. Na verdade, a fumaça parecia até superá-lo em intensidade. Tossiu antes que pudesse me conter. Diante disso, Keith franziu o cenho.
– O que foi? – ele perguntou.
– Sinto muito – disse imediatamente. – Engasguei com a saliva.
Ele não me respondeu, apenas retomou a leitura dos documentos. Parecia um tanto distraído e, como se para confirmar minha observação, suspirou, soltando fumaça de cigarro no ar. Então, jogou os papéis na mesa.
– Cancele toda a agenda de hoje – ordenou. Sobressaltei-me com o comando repentino, mas ele continuou a me instruir sem me dar o menor olhar. – Vou à festa do Ian esta noite. Imprima uma lista.
A lista a que ele se referia funcionava como um catálogo de pessoas que ele poderia escolher para levar como acompanhante. Desde que entrei nesta empresa, fui encarregado desse tipo de coisa vezes demais. Às vezes eu me perguntava se esse homem, que tinha uma quantidade absurda de dinheiro, decidira administrar uma empresa de entretenimento não apenas por hobby, mas também porque facilitava encontrar pessoas com quem transar. Como era o dono de um lugar assim, não havia muita informação sobre modelos, atrizes ou quem quer que fosse à qual ele não tivesse acesso. Mesmo que não fossem famosas, contanto que estivessem na indústria do entretenimento, ele podia escolher a dedo.
Mais uma vez, fui encarregado de algo bastante irônico: escolher uma parceria de cama para ele com minhas próprias mãos.
Ele nem precisava se dar ao trabalho de passar por todo o processo irritante de namoro. Tudo o que precisava fazer era mandar alguém enviar uma joia e um cartão com o nome dele. Isso era o suficiente para fazer a amante escolhida comemorar e viajar para onde quer que ele decidisse chamá-la, apesar de saber perfeitamente bem que o relacionamento deles não passaria de sexo.
Keith Knight Pittman era atraente a esse ponto; afinal, ele era o CEO da P Entertainment e um alfa dominante. O simples fato de quem quer que ele escolhesse ter chamado sua atenção já elevava a pessoa a outro nível.
Esse não era o único motivo, no entanto. Mesmo se ele fosse um sem-teto sem um tostão no bolso, inúmeras pessoas ainda sacrificariam sua própria existência para obter seus favores.
E eu estaria bem na frente daquela fila. “Que pensamento amargo.”
Respondi com um breve “Entendido” ao seu comando. Eu tinha muitas coisas para resolver a partir daquele momento, mas o mais importante era reorganizar a agenda para acomodar todos os cancelamentos que ele queria fazer. Precisava instruir Emma a organizar tudo rapidamente e depois pedir a Jane para entrar em contato com o anfitrião da festa de Ian. Assim que saí da sala do CEO, coloquei meu cérebro para funcionar.
– Ele já não tinha recusado o convite para essa festa? – Emma perguntou surpresa assim que a informei dos novos desdobramentos.
Tirei rapidamente a pasta da agenda da minha gaveta e entreguei a ela.
– Acho que ele mudou de ideia – respondi sem dar muita atenção. – De qualquer forma, toda a agenda de hoje foi cancelada, então por favor, considere organizar isso como prioridade. Ligue para todas as pessoas necessárias e confirme quando podemos reagendar tudo. Reporte-me quando terminar para que eu possa revisar.
Então, comecei a direcionar o resto da equipe:
– Jane, por favor, ligue para a secretária do Sr. Anderson e avise que o Sr. Pittman comparecerá à festa. Solicite que o nome dele seja colocado na lista. Enquanto isso, Rachel, ligue para todos os departamentos e notifique-os sobre o cancelamento da reunião de hoje. Depois disso, faça uma visita à Tiffany & Co. Se você disser que está lá em nome do Sr. Pittman, eles vão separar algumas joias para você retirar. Não precisa pagar e…
Todos se espalharam enquanto eu despejava as instruções, correndo para cumprir suas novas tarefas. Assim que terminei, virei-me e comecei o trabalho mais importante de todos: escolher um parceiro que se adequasse aos gostos de Keith.
***
Bati na porta e esperei até a contagem de três antes de abri-la. Além dela, Keith estava sentado em sua cadeira exatamente como estava quando saí do escritório. A única diferença dessa vez era a pilha espessa de cigarros no cinzeiro à sua frente. Desnecessário dizer que a sala estava nublada de fumaça.
Reuni coragem, caminhei pelo escritório e parei diante dele. Por um segundo, perguntei-me qual cheiro era mais insuportável: os feromônios dele ou a fumaça do cigarro. No fim das contas, era um questionamento inútil, já que seria ridículo se eu tentasse mudar minha situação agora.
– Aqui estão as candidatas – disse, entregando-lhe três pastas. Keith examinou os portfólios com uma atitude bem melhor, embora ainda longe de ser perfeita. Logo, abriu um deles e o devolveu para mim. Peguei as outras pastas restantes e as empilhei embaixo, colocando a candidata selecionada no topo. Caso precisasse encontrar alguém na correria da próxima vez, planejava manter os outros dois no meu radar.
Entreguei-lhe outro arquivo imediatamente.
– Sua agenda foi ajustada – expliquei. – Você pode conferir aqui. Se houver necessidade de outras alterações, por favor, me avise.
Tudo o que ele fez foi olhar de relance para a pasta.
– Deixe aqui e saia.
Ele levou o cigarro de volta aos lábios. Sem dizer mais nada, coloquei os documentos na mesa dele. Eu tinha mais algumas coisas para relatar, mas não eram urgentes. Não tinha o menor desejo de irritar o temperamento já ranzinzo dele ficando ali e acrescentando mais comentários. Obedeci à sua ordem e saí imediatamente da sala.
Quando cheguei ao corredor, finalmente sozinho, uma parte do meu coração começou a doer. Olhei para as pastas em minha mão. Uma beleza radiante e glamorosa me encarava de volta de dentro das páginas abertas.
“Isso é algo com que eu não posso nem sonhar”, pensei, tocando meus lábios distraidamente. A dor surda no meu coração pulsava em sincronia com a dor aguda que irradiava da cicatriz que ele me deixara. Aquele beijo tinha sido pura sorte — um evento coincidente manufaturado por feromônios.
Encarei a mulher na foto com o olhar vago.
Um milagre como aquele nunca aconteceria novamente.
***
Os dias tranquilos continuaram por um tempo. Não que estivesse silencioso, por assim dizer, mas também não houve nenhum incidente particularmente marcante. Keith continuou seu ciclo de parceiras diferentes. Eu procurava as novas mulheres e as outras secretárias se revezavam visitando a Tiffany & Co. ou as casas das garotas para entregar os cartões e as joias.
Como era de se esperar, os piores trabalhos sempre ficavam para eu resolver — pedir desculpas às pessoas e implorar para que reagendassem compromissos que Keith cancelava por capricho, ter que dar um jeito de encontrar itens raros de colecionador e trazê-los para ele, dar um choque de realidade nas ex-namoradas dele e oferecer condições que elas não podiam recusar após os ataques de pelanca decorrentes do término repentino e unilateral…
Em essência, nada havia mudado de antes de eu pedir demissão. No entanto, havia um detalhe novo digno de nota: cada ciclo romântico havia se tornado curto demais. Ele estava dispensando essas garotas muito mais rápido do que costumava fazer antes.
– Voltei.
Olhei para cima ao som da voz de Emma. Seu rosto emanava exaustão; senti um pouco de pena dela.
– Bom trabalho, Emma – eu disse. – Aconteceu alguma coisa em especial?
– Nada.
Ela estava cansada, mas não era a única. As outras secretárias também estavam. No fim das contas, porém, eu com certeza era quem estava acumulando mais pontos de fadiga entre nós. Eu tinha acabado de levar um tapa na cara e um chute na canela da ex mais recente de Keith, mas antes disso, meu cabelo foi puxado com força. E antes disso, eu tinha sido encharcado com a água de um vaso.
“Eu deveria ter aceitado a oferta de ações dele, honestamente. Certamente parece que a quantidade de trabalho que estou fazendo agora vale pelo menos isso.” Além de ter que encontrar a última conquista sexual de Keith a cada vez, eu ainda tinha que morder a língua e aguentar violência gratuita. Se a oportunidade surgisse de novo, eu com certeza pediria um milhão de ações.
Assim que alcancei esse pensamento, no entanto, franzi o cenho. “O que eu estou dizendo? A essa altura, eu deveria era pedir demissão de verdade.”
– Yeonwoo?
Alguém chamou meu nome e me puxou de volta à realidade. Emma me inspecionava com uma expressão confusa. Envergonhado por ter sido pego viajando, apressei-me em fingir que estava fazendo outra coisa.
Ela começou a se desculpar:
– Sinto muito, Yeonwoo. Parece que é sempre você quem tem que fazer todo o trabalho pesado.
Seu comentário repentino me surpreendeu e olhei para cima, encontrando-a ali com uma expressão de arrependimento. Finalmente percebi o que ela queria dizer. Ela tinha acabado de voltar de entregar joias para uma garota nova, o que significava que eu logo teria que ir relatar o término para outra garota que eventualmente não passaria de mais um número no passado de Keith.
– Esse é o meu trabalho, afinal. Não se preocupe com isso – consolei-a, engolindo um suspiro.
Havia certas coisas no mundo com as quais eu não conseguia me acostumar, não importava quantas vezes passasse por elas. Ter que suportar insultos cuspidos na minha cara tornava-se exaustivo com o tempo, mesmo que eu tentasse regularmente esvaziar minha mente deles. Além disso, acontecia com frequência demais.
– Você não acha que o Sr. Pittman está dispensando as garotas rápido demais ultimamente? – Emma perguntou de repente, essencialmente dando voz ao que acabara de passar pela minha mente. Quase parecia que estávamos conectados por telepatia, mas não éramos apenas Emma e eu. Jane e Rachel também concordaram, intrometendo-se na conversa.
– Sim, está saindo do controle.
– Eu me pergunto se aconteceu alguma coisa.
– Alguma coisa, é…
Eu queria negar, mas não era como se eu tivesse mais informações sobre Keith do que elas. Tudo o que pude dizer foi algo como:
– O Sr. Pittman sempre foi bastante promíscuo. Mudar de parceira regularmente sempre foi o estilo dele.
– Mas está acontecendo com frequência demais – enfatizou Emma mais uma vez. – Antes, elas duravam pelo menos dois ou três meses. Algumas chegavam a durar até seis meses, inclusive. Recentemente, porém, ele tem terminado em um mês, no máximo.
Antes que eu pudesse encontrar algo para dizer, Jane interveio.
– Vocês acham que o Sr. Pittman está tentando entrar no mercado de joias? Ele não estaria tentando comprar a Tiffany & Co., estaria?
– Como ele vai comprar a Tiffany & Co. apenas pegando uma pulseira aqui e um colar ou dois ali? – rebateu Rachel. – Não seja boba.
– Mas ele compra com tanta frequência.
– Só pare. Isso não faz o menor sentido. – Rachel beliscou de leve o nariz de Jane, e Jane revirou os olhos.
– De qualquer forma – comecei –, é a vida pessoal do Sr. Pittman. Nosso trabalho é tornar a vida dele o mais fácil possível, seja no contexto pessoal ou profissional. Nós só precisamos fazer o nosso trabalho direito.
Emma fez uma careta.
– Acho que sim.
Levantei-me do meu assento, sinalizando o fim da conversa.
– Devo ir fazer uma visita à Senhorita Annabel James, então. Por favor, finalizem o restante da agenda diária do Sr. Pittman e garantam que nenhum problema surja.
– Você vai direto para casa depois? – Jane perguntou.
Virei-me e olhei para ela.
– Se nada acontecer, eu volto – disse. Então, sorri amargamente. – Mas presumo que algo vai acontecer.
Rachel cutucou Jane com o cotovelo. Fingi não ver e me virei para sair do escritório. Eu quase podia sentir a exaustão iminente pesando sobre o meu corpo.
***
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør