Capítulo 05.4
Capítulo 05.4
Meus pensamentos voltaram para os sachês de chá baratos que eu tinha guardados na despensa. Graças a Deus ele recusou.
Já passava da hora de ele expor o motivo de sua vinda, no entanto. Fiquei ali parado, nervoso, e Keith finalmente se dispôs a falar.
– Não posso fazer os cinco por cento – disse ele.
– Perdão? – O assunto desconexo me pegou desprevenido.
Keith acomodou o corpo profundamente no meu sofá e jogou um de seus longos braços sobre o encosto.
– Fiquei sabendo que você pediu cinco por cento das ações da P Entertainment. Não posso fazer isso. Me dê uma condição diferente. – Permaneci em silêncio, incapaz de me lembrar de ter feito tal exigência. Ele continuou, detalhando. – Soube pela Emma que foi isso o que você disse a ela.
De repente, lembrei-me do que havia dito. Honestamente, eu nunca esperava que o meu comentário sem sentido fosse voltar para me assombrar dessa forma. Encarei-o com os olhos cheios de incredulidade, mas ele apenas ficou ali sentado esperando pela minha resposta, demonstrando uma paciência que eu nunca imaginei que ele tivesse.
– O senhor está me pedindo para voltar?
– Não estou? – Keith rebateu, em tom de deboche.
A essa altura, a minha curiosidade devia estar me enlouquecendo, fervendo dentro de mim como um poço de lava quente. O que esse homem poderia ter passado para vir invadir a minha casa com uma proposta como essa? No entanto, eu sabia que se ouvisse o motivo, acabaria me sentindo na obrigação de ceder.
Além disso, não conseguia imaginá-lo se dando ao trabalho de formular toda uma história apenas para me explicar tudo. Tudo o que ele faria seria ficar bravo e exigir uma resposta. Como eu já conhecia o resultado, reprimi desesperadamente a minha necessidade fervilhante de respostas. Fingi compostura e abri a boca.
– E se eu recusar?
– Não há a menor chance de você fazer isso.
– Por que não?
– Porque a proposta será sem precedentes.
Estreitei os olhos.
– Mesmo se eu lhe disser que não abriria mão da participação de cinco por cento?
Keith ficou em silêncio por um momento antes de soltar um suspiro profundo. Ele massageou as têmporas em contemplação. Era realmente uma cena rara.
– Duzentas mil ações – disse ele finalmente. Sobressaltei-me com o som de sua voz baixa. Ele desviou o olhar para mim e rangeu os dentes. – Não posso ir além disso. Peça qualquer outra coisa que você quiser. Algo que não seja isso.
Ao ouvi-lo oferecer algo assim, meu coração falhou uma batida. “Você”, quase falei. “É isso o que eu quero.”
Tive que morder o lábio e engolir as palavras ofensivas. Que se dane as ações, eu quase me fiz ser morto por esse cara. Essa certamente seria uma forma de morrer. Respirei fundo e tentei o meu melhor para manter a compostura.
Bem naquele momento, meu olfato embotado captou um rastro de seus feromônios e percebi, um pouco tarde demais, que os efeitos dos meus remédios haviam passado. Rapidamente ergui o braço e bloqueei o nariz com a manga.
– Isso – disse eu.
– O quê? – perguntou ele, genuinamente confuso.
– Seus feromônios – respondi freneticamente. – Faça algo a respeito deles. Se o senhor realmente quer me contratar de novo, por favor, pare de exalar esses feromônios malditos sempre que eu estiver por perto.
Eu estava falando de forma bastante rude, mas Keith não comentou sobre isso. Tudo o que fez foi franzir as sobrancelhas novamente. Ainda cobrindo o nariz, corri pela sala e abri as janelas totalmente. Aquilo só fez entrar fumaça de escapamento para o ambiente, no entanto, então não tive escolha a não ser fechá-las novamente. Depois de retornar para onde estava originalmente parado antes daquela sequência de ações sem sentido, Keith falou novamente.
– É só isso? – Olhei para cima, e ele esclareceu mais, com o tom apático. – Isso é tudo o que você tem a pedir? Não quer mais nada?
Refleti por um momento. Admitidamente, de tempos em tempos, eu havia imaginado o que pediria se um gênio da lâmpada se manifestasse diante de mim para realizar meus desejos. Agora que a oportunidade havia se tornado real, no entanto, não consegui pensar em nada de imediato. Keith não era nenhum gênio, afinal de condições. Não era como se eu tivesse um número limitado de desejos, mas ele também não realizaria qualquer pedido aleatório.
Subconscientemente, respirei fundo. O movimento me fez sentir o ar, e percebi que o cheiro de feromônios havia diminuído. Talvez, refleti, fosse porque eu havia respirado um pouco do ar de fora antes, ainda que apenas por uma fração de segundo.
Tirei a manga do nariz.
– Eu estava brincando sobre as ações – disse eu. – Por favor, desconsidere isso.
Aquilo o pegou de surpresa.
– Mesmo se você estivesse brincando, não é uma boa oportunidade para se aproveitar de qualquer forma?
– Tudo neste mundo vem com um preço – respondi cuidadosamente. – Não quero aceitar nada suspeitamente generoso apenas para me arrepender mais tarde. Além disso, não quero que o senhor se sinta satisfeito achando que já fez o suficiente por mim apenas por me conceder alguns grandes favores. Se o senhor vai me dar muito, vai exigir mais em troca, não vai? – perguntei. – Seja sincero. O que o senhor ia me pedir para fazer em troca da sua oferta?
Por um tempo, Keith não disse nada. Em seguida, soltou uma risada irônica e sem fôlego. Ele não estava rindo porque achou divertido, no entanto, porque eu sabia que ele não achava minhas palavras nem um pouco engraçadas.
– Dez anos de serviço – respondeu ele.
Meu rosto ficou sério.
– Recuso firmemente. Um contrato de um ano, renovado anualmente – corrigi. – Só aceitarei o equivalente ao meu trabalho.
– Hah. – Keith suspirou, exasperado, murchando como um balão esvaziando. – Então, não há mais nada que você queira?
– Há. Eu gostaria que o senhor me desse um aumento. Sofri muitos danos na sua festa hedonista, Sr. Pittman, mas não foi só isso, também. Tive que sacrificar o meu bem-estar mental e usar meus próprios recursos apenas para limpar a bagunça da sua vida pessoal… Como o senhor deve ter percebido após o incidente desta noite – acrescentei, escolhendo intencionalmente as expressões mais diretas e implicando-o de propósito.
Keith não falou de imediato, então a minha mente continuou a avançar. Se eu fosse readmitido, nunca mais seria capaz de dizer aquelas coisas, então, antes de voltar a adotar aquela fachada muda e implacável que havia construído, eu queria despejar ao menos uma fração das queixas que vinham se acumulando na minha cabeça. Era isso o que eu queria em troca daquele homem.
– Se o senhor realmente deseja me contratar de novo – continuei –, por favor, leve tudo isso em consideração ao calcular o meu salário. E mais uma coisa: se um dia houver outra festa daquele último tipo, certifique-se de me informar com antecedência. Quando o fizer, contratarei um organizador de festas e me ausentarei da ocasião. Estas são as três condições que lhe peço.
– …Isso é tudo?
Keith pareceu visivelmente desapontado, como se estivesse esperando que eu pedisse algo grandioso. Não fazia ideia do que diabos ele poderia ter imaginado antes de vir aqui, mas também não queria saber.
Assenti em concordância.
– Me preocupa quando alguém pede tão pouco – disse ele. Em seguida, estreitou os olhos, observando-me. – Soa como se você estivesse tentando aliviar as suas responsabilidades.
Senti como se tivesse sido desmascarado. Ele estava certo, mas eu não tinha necessidade de esconder.
– Espero que o senhor não me faça sentir vontade de me demitir de novo, Sr. Pittman.
– Você espera que eu lamba as suas botas?
– Não – esclareci –, não foi isso o que quis dizer. Estou apenas pedindo para que o senhor seja um pouco mais atencioso comigo. Não entenda mal.
– E se eu não corresponder às suas expectativas, você vai se demitir de novo?
– Eu lhe prometi que ficaria para sempre? – rebati. – Existe realmente algo assim? – Ele permaneceu quieto, então continuei, com indiferença. – Tudo tem um fim. O senhor pode acabar me demitindo ou eu posso nem ser capaz de continuar trabalhando, mesmo se quisesse. Por exemplo, se a P Entertainment falir. – Em seguida, acrescentei rapidamente: – É claro que isso é apenas uma hipótese.
Keith ostentava uma expressão estranha. Senti um sobressalto quando ele zombou suavemente e começou a sorrir.
– Não sei como você conseguiu guardar tudo isso até agora – disse ele.
– Vou me conter novamente assim que começar a trabalhar, então achei que deveria aproveitar isso enquanto ainda posso – confessei.
Para a minha surpresa, ele caiu em uma gargalhada estridente. Observei-o com os olhos arregalados, nunca antes tendo-o visto parecer tão entretido. Ele pode ter sorrido bastante quando o conheci no passado, mas aquela era a minha primeira vez vendo-o realmente rir alto, e aquilo me deixou sem palavras.
Logo em seguida, a risada dele diminuiu e ele se levantou do sofá. Um resquício de diversão permanecia em seu rosto enquanto olhava para mim. O sorriso dele me encantou com o seu semblante revigorante.
– Recalcular o seu salário, controlar os meus feromônios e te avisar sobre aquelas festas sempre que eu decidir realizar uma. É isso? – perguntou ele. No entanto, eu só fui capaz de registrar as palavras após alguns segundos de silêncio.
De alguma forma, consegui assentir.
– Sim.
De repente, pareceu mais difícil respirar, embora ele estivesse contendo os seus feromônios como prometido. Eu não tinha motivos para me sentir sufocado, mas havia sido levado ao limite de qualquer forma. Keith estava certo. Esta sala de estar era pequena demais. Tudo o que ele fez foi se levantar do sofá, mas aquilo foi o suficiente para encurtar uma boa distância entre nós. Reprimi conscientemente a minha inspiração de ar.
Ele ainda estava falando.
– É como tudo será finalizado, então encerramos por aqui. Você voltará ao trabalho após o fim de semana – concluiu ele.
Meu salário. Keith devia estar falando sobre o meu salário e a papelada referente ao meu novo contrato de trabalho, mas tudo o que consegui fazer foi apenas acenar com a cabeça em resposta. Ele franziu o cenho, e a cena me causou uma ponta de decepção. Ele estava sorrindo tão abertamente instantes atrás.
De repente, no entanto, ele deu um grande passo em minha direção. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, nossos olhares se cruzaram e quase rompi o controle sobre os meus pulmões para puxar uma lufada enorme de ar. Controlei-me, porém, e abaixei a cabeça apressadamente.
Quando fiz isso, ele estendeu o braço, apoiando a mão na parede atrás de mim.
– O que há de errado? – perguntou ele, desconfiado. – Está se sentindo mal? Devo ligar para a emergência?
– N-Não – neguei freneticamente.
No entanto, ele não acreditou em mim.
– O seu rosto está vermelho. Você está com febre?
– E-Eu posso estar apenas pegando um resfriado – insisti, inventando uma desculpa de forma nervosa, mas rápida. – Vou ficar bem se descansar. Afinal de contas, já está bem tarde.
Será que ele acreditaria em mim? Seria enganado?
Quando inclinei a cabeça cautelosamente para cima, espiando, nossos olhares se cruzaram imediatamente. Parecia que o meu coração ia explodir. Apoiei-me contra a parede e engoli em seco, com a garganta impossivelmente seca.
De repente, os olhos de Keith se estreitaram. Continuei a encará-lo com o olhar vago. Nada daquilo parecia real; nós dois nos encarando na minha humilde sala de estar, ele olhando para mim de cima daquele jeito, nossas bocas se aproximando—
Isso não podia ser real.
Nossos lábios se encontraram e fechei os olhos em total descrença.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør