Capítulo 02
Capítulo 02.1
Conheci Keith na faculdade, ou melhor, foi quando tomei conhecimento de sua existência pela primeira vez. Ele era famoso desde o início e, ao entrar na universidade, o nome dele foi o primeiro que ouvi e continuei a ouvi-lo muito tempo depois, também, falado boca a boca a cada dia que passava.
Naquela época, pensava-se que eu era um beta. A maioria das pessoas se manifestava durante a adolescência e a transição após esse período era rara, então ninguém jamais imaginou que eu me tornaria um ômega.
No dia em que vi Keith pela primeira vez, eu estava exausto e tenso porque os exames finais estavam se aproximando. Não importava o quanto eu tivesse tentado, minhas notas não estavam onde eu queria. Minha inquietação havia atingido o auge, pois eu mal conseguia compreender o conteúdo dos meus livros didáticos. Como eu havia entrado em uma boa faculdade, meus pais queriam que eu me concentrasse em me formar sem me preocupar com a mensalidade, mas eu ainda estava sobrecarregado por uma imensa quantidade de pressão. O custo de vida era simplesmente alto demais, mas eu não tinha tempo para trabalhar meio período.
Notas excelentes eram pedir demais, então apenas passar era meu único desejo. Além de tudo, meu irmão mais novo estava dedicado a seguir a carreira de pianista, contribuindo muito para as despesas da nossa casa. Eu estava ficando sem dinheiro, mas nunca podia mencionar isso. Eu tinha ouvido boatos sobre um grupo de estudantes internacionais que trocavam provas antigas e compartilhavam anotações, o que teria me ajudado, mas me juntar a eles seria impossível. Eu era tão tímido que evitava falar com estranhos o máximo possível. Minhas mãos já estavam cheias apenas acompanhando as aulas todos os dias.
Como cada dia era igual, repetidamente me trancando em um quarto pequeno e debruçado sobre meus livros, perdi o senso de realidade rapidamente. Uma vez, fui a uma loja de conveniência comprar uma garrafa de água e simplesmente apaguei depois de dar minha carteira de estudante ao caixa, recebendo alguns comentários irritados dele.
De qualquer forma, fui para casa mais cedo um dia, depois de ter desistido de tentar enfiar um monte de matéria de aula na cabeça, Liwei, meu colega de apartamento, me cumprimentou.
– Oh, Yeonwoo – começou ele. – Você já está aqui? – Eu só o via uma vez na vida e outra na morte porque ele estava sempre na rua, então aquela tinha sido uma daquelas raras ocasiões em que ele decidira voltar por algum tempo.
– Pois é… – Não éramos muito próximos, apesar do que seu cumprimento amigável pudesse sugerir, então respondi de forma um tanto sem jeito. – Vai sair de novo? – perguntei, olhando para sua camisa leve, shorts e tênis.
Ele sorriu.
– Tem um jogo acontecendo hoje. Você não vai?
– Um jogo? Que jogo? – Inspecionei a roupa dele mais uma vez, me perguntando se seria uma partida de tênis, e ele soltou uma risada, com um tom de surpresa na voz.
– O jogo de polo – respondeu ele, revelando a fonte de sua aparente diversão. – Você não sabia?
– Ah… Sério? Tem um jogo de polo? – Minha resposta pareceu um tanto rígida; eu só tinha ouvido falar de polo bem por cima e não tinha assistido nem demonstrado nenhum interesse em assistir. Eu sabia que minha universidade oferecia vários programas esportivos, mas nunca me interessei por eles porque não tinha tempo para acompanhar os jogos. Eu não tinha ideia de como o polo funcionava, desde quantas pessoas poderiam estar envolvidas em uma partida até as regras que jogavam. Afinal, eu não tinha motivos para saber, dado o quão pouco eu era atraído por isso.
Liwei inclinou a cabeça diante da minha reação seca.
– Por que você não deixa seu cérebro descansar um pouco e vem assistir?
Estando tão deprimido com meus estudos como eu estava, a oferta me tentou um pouco. Eu queria me distrair, para ser honesto. A ideia me fez esperar que assistir a algo novo ajudasse a tirar minha mente das coisas.
Enquanto eu contemplava a oferta, no entanto, a namorada de Liwei aproximou-se por trás de mim.
– Liwei, estou pronta! Vamos! – disse ela. Por reflexo, afastei-me para deixá-la passar.
– Se você quiser ir – continuou Liwei –, vamos juntos. Eu te dou uma carona. – Eu ainda hesitava, dividido. O resto do trabalho que eu tinha que fazer naquele dia estava me segurando, mas o desejo de fugir estava aumentando. Enquanto eu ganhava tempo, ele acrescentou: – Keith Pittman vai jogar hoje, sabe? Será uma boa chance de ver um alfa dominante pessoalmente. Você vai mesmo deixar essa chance passar? Pittman está no último ano, então se você não o vir agora, provavelmente nunca mais verá.
– Eu vou – disse eu, e só percebi que havia aceitado a oferta depois que o acordo saiu dos meus lábios.
***
O campo onde ocorria o jogo de polo já estava fervilhando de gente quando chegamos. Liwei conseguiu estacionar o carro a uma distância considerável do local e soltou um assobio agudo ao ver a multidão.
– Isso supera minhas expectativas – refletiu em voz alta. – Pergunto-me se conseguiremos assistir ao jogo direito.
Sua namorada parou para pensar em algo por um momento antes de intervir.
– Espera, ouvi dizer que a Jennifer faz parte da equipe de organização. Se eu pedir a ela, talvez ela consiga alguns assentos para nós. – Ela pegou Liwei pelo braço e virou-se para mim. – E você? Quer vir?
– Eu? Posso? – perguntei, surpreso com a oportunidade repentina.
Ela sorriu e acenou com a cabeça.
– Claro que pode. Vamos juntos. Mas não posso garantir com certeza que ela realmente conseguirá os assentos.
– Ah, sim – concordei, correndo para segui-los. – Mas isso já é de se esperar.
Quando atravessamos a multidão e finalmente encontramos a equipe de organização, Jennifer se dirigiu a nós.
– Claro, se vocês não se importarem em nos dar uma força – disse ela, após nossas perguntas. Nós concordamos, e ela aceitou de bom grado, dizendo-nos o que tínhamos que fazer. Realmente não era muita coisa, honestamente. Meu trabalho envolvia preparar água para os jogadores e buscar suprimentos quando necessário. A maioria dos jogadores tinha seus próprios assistentes pessoais para ajudá-los durante o jogo, então eu não precisava cuidar de nenhuma pessoa em particular. O forte da minha tarefa era garantir que os suprimentos estivessem prontos com antecedência para que os assistentes pudessem distribuí-los sem atraso. Fiquei andando de um lado para o outro, ajudando a equipe ocupada antes do jogo começar.
– Todo esse trabalho só por alguns assentos – reclamou Liwei. Tudo o que recebeu em troca foi o olhar severo, mas gentil, de sua namorada.
Então, Jennifer chamou.
– Todos em suas posições! Está quase na hora – anunciou. Terminamos o que estávamos fazendo e fomos para nossos assentos. Assisti aos árbitros irem para seus lugares. As pessoas se moviam enquanto o barulho continuava. Liwei e sua namorada apontavam para várias partes do campo enquanto conversavam entre si, e todos ao nosso redor se divertiam, bebendo e conversando com seus amigos.
Eu era o único que tinha vindo sozinho. Eu nunca tinha sido muito sociável na época. Embora Liwei fosse meu colega de apartamento, nós só nos cumprimentávamos ocasionalmente. Nada mais. Ir com ele não me fez sentir mais íntimo de repente. Ele estava concentrado em seu próprio mundo com a namorada, enquanto eu sentava ali estupidamente ao lado deles, segurando vela e me perguntando como deveria quebrar o gelo.
Perguntei-me se ter ido tinha sido um erro, então. Eu estava convencido de que deveria ter continuado sentado na minha mesa em casa, mesmo que me concentrar não estivesse nos planos. O arrependimento me invadiu, mas voltar no tempo não era um dos meus pontos fortes e eu precisaria da ajuda de Liwei para voltar para casa, já que vim com ele. Quanto mais eu pensava nas coisas, no entanto, mais parecia que eu estava perdendo o dia.
“Tudo isso por causa de um maldito alfa dominante raro.”
– O Grayson vai jogar também, não vai? – alguém atrás de mim perguntou.
– Vai – respondeu o companheiro. – Eu nunca imaginei que seria capaz de ver tanto o Keith quanto o Grayson juntos. Eles não estão se formando logo?
– Pois é, não é? Onde mais você teria esse tipo de sorte? Estou até meio zonzo agora.
– O Grayson é um Miller, para completar. Inferno, nunca pensei que um dia como este chegaria — tipo, vou ver um alfa dominante e um membro da família Miller! Que bom que vim para esta faculdade. Não preguei o olho ontem à noite.
Eles falaram entusiasmados, mas logo suas vozes murcharam enquanto continuavam a conversa.
– Embora estejamos na mesma faculdade, nunca vi o Keith ou o Grayson antes.
– Eu também não. Eles sequer vêm à faculdade? Ou os dominantes estão isentos desse tipo de coisa?
– Quem sabe? Só quero me apressar e vê-los. Como você acha que eles se parecem? Pelo visto, todos os alfas dominantes são loucamente bonitos.
– Alfas e ômegas são todos atraentes. Os dominantes são ainda melhores, no entanto.
As vozes começaram a sumir, então, como se estivessem se afastando. Mais uma vez, o barulho ao meu redor começou a me soterrar. Impulsionado por essa atmosfera eterna e animada, meu olhar ardejou, flutuando sem destino fixo.
Bem naquele momento, captei o vislumbre de um aroma que nunca tinha sentido antes. “Hã?” Instintivamente, olhei ao redor, examinando a área em busca da fonte do cheiro. Eu não era o único fazendo isso, no entanto. Outros ao meu redor faziam o mesmo.
Todos finalmente se acalmaram. Um momento de percepção coletiva. Foi quando o encontrei; não foi difícil. Ele estava montado no topo de um cavalo preto muito conspícuo, parecendo estar olhando de cima para o mundo.
Eu nunca esqueceria aquele dia. Minha respiração ficou presa na garganta, o tempo congelou no lugar e o mundo pareceu parar abruptamente. Pelo que eu podia notar, o próprio universo havia parado.
O cavalo trotou para a frente lenta e serenamente e, quanto mais Keith se aproximava de nós, mais forte seu aroma parecia engrossar.
Seu cabelo escuro, espreitando por baixo do capacete, ondulava suavemente com o vento. Não precisávamos olhar nos seus olhos violetas para confirmar sua presença. Mesmo que tivesse nascido como beta, ele seria facilmente capaz de cativar qualquer um ao seu redor. Ele usava calças brancas para o jogo e segurava as rédeas do cavalo e um chicote com uma das mãos, enquanto a outra carregava o taco de polo. Cada vez que o cavalo dava um passo, Keith balançava elegantemente em seu assento, olhando direto para a frente.
Em algum lugar perto de mim, ouvi alguém soltar um suspiro sonhador. Eu conseguia compreender perfeitamente. A única razão pela qual consegui me conter e não parecer tão admirado e espantado foi porque estava prendendo a respiração, com a boca escancarada.
Embora eu estivesse consciente disso, ainda não conseguia desviar o olhar ou fazer meus pulmões voltarem a funcionar. Tudo o que eu podia fazer era encarar. Pelo menos, eu não era o único. O olhar de todos foi instantaneamente capturado por sua fisionomia.
Será que eu já tinha visto um ser tão belo, deslumbrante e elegante antes? Era como se eu estivesse experimentando a verdade da existência de Deus pela primeira vez.
Bem naquele momento, a expressão de Keith começou a mudar sutilmente. Todos, inclusive eu, puderam ver um sorriso se espalhar gradualmente por seu rosto expressivo. Aquele sorriso era para uma pessoa e apenas para uma pessoa, no entanto.
Keith passou bem por onde eu estava sentado.
– Grayson – chamou ele em voz alta.
Montar em um cavalo enorme havia elevado sua altura já considerável ainda mais. Eu nem conseguia olhar para ele completamente porque os raios de sol caíam sobre mim vindos de cima de sua cabeça, cegando-me simultaneamente e emoldurando Keith com seu brilho. A única parte dele que me foi permitido testemunhar foi o aroma suave de seu perfume. No entanto, seus feromônios eram compartilhados igualmente entre os espectadores do jogo; eles não eram direcionados apenas a mim.
Assim que cheguei a esse pensamento, uma onda de ciúmes correu por mim, totalmente sem cabimento. Tinha sido um impulso irracional. Não havia nada entre nós, afinal, e como se para provar isso, ele passou por mim indiferentemente, trotando em direção a outra pessoa.
Essa pessoa tinha que ser Grayson. Ele usava equipamento de polo e estava montado em seu próprio cavalo. Qualquer um que o visse saberia que ele era da mesma espécie de Keith, o violeta em seus olhos anunciando seu status como um dos dois únicos alfas dominantes de toda a faculdade. Em contraste com os fios escuros e a fisionomia comparativamente contida de Keith, ele tinha cabelos loiros como raios de sol e um sorriso deslumbrante.
Dois homens com aparências marcantes e linhagens superiores estavam reunidos em um só lugar. Ninguém poderia esperar algo assim.
– Puta que pariu, eu vou morrer – alguém murmurou, arfando como se seus pulmões estivessem prestes a falhar a qualquer momento. Todos no campo provavelmente estavam pensando a mesma coisa, honestamente.
Câmeras disparavam rapidamente ao meu lado. Ser capaz de capturar não um, mas dois alfas dominantes em uma foto tinha que ser uma oportunidade dada pelos céus, então eu não podia culpá-los. Na verdade, eu queria fazer o mesmo, mas estava relutante. Não seria vergonhoso simplesmente pegar meu telefone e tirar fotos assim? Em vez de fazer qualquer coisa do tipo, apenas continuei olhando. Observei Keith como se estivesse tentando gravá-lo na memória, para contê-lo em meu olhar por toda a eternidade.
Depois de conversarem um pouco, Keith e Grayson bateram as mãos de leve em um “high-five” e se separaram. As pessoas observavam com saudade enquanto eles se moviam para suas respectivas posições, distanciando-se. Mesmo assim, os obturadores das câmeras continuaram a clicar.
O cavalo de Keith bufou no ar. O tropel sem sentido de seus cascos contra o chão parecia particularmente alto aos meus ouvidos. Verdade seja dita, minha atenção estava fixada em Keith de forma tão resoluta que eu mal registrava qualquer coisa que não estivesse diretamente relacionada a ele. Eu estava praticamente devorando-o com o olhar.
Quando o jogo começou e homens em cavalos galoparam pelo campo, segurando seus tacos no alto, ele foi o único que vi. Ele e eu éramos as únicas pessoas existentes. Ele, puxando as rédeas com habilidade. Ele, balançando o taco contra a bola. Ele, ameaçando o oponente enquanto corria com seu cavalo.
Eu tinha visto até as gotas de suor escorrendo de sua testa. Meu coração batia forte no peito, trêmulo e com força suficiente para machucar. Inconscientemente, pressionei a mão contra ele. Algo — alguém — sussurrou para mim de longe, uma voz sem forma descrevendo o que eu estava experimentando. Compreendi, então. O fato de Keith ser um homem, de ser um alfa dominante e de eu ser apenas um beta normal de repente deixou de importar. Meu coração ansiava por ele e somente por ele, gritando seu nome em um silêncio desesperado.
“Ah”, percebi. “Eu o amo.”
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør