Capítulo 02.2
Capítulo 02.2
Assim que a epifania se acendeu na minha cabeça, notei-o galopando em minha direção. Parecia que eu estava testemunhando uma cena se desenrolar em câmera lenta e pisquei sem entender na sequência disso, incompreensivo em meio à natureza surreal da situação. Não ouvi os outros ao meu redor gritando alarmados, nem entendi o que ele havia começado a berrar. Tudo o que pude fazer foi sentar e encarar.
Então: **CLANG!** Um ruído agudo me trouxe de volta à realidade. Mais uma vez, no entanto, reagi alguns segundos atrasado. As pessoas estavam gritando. Com um barulho alto de colisão, Keith caiu do cavalo bem na minha frente. Um alvoroço eclodiu diante da cena inacreditável e membros da equipe correram de todas as direções, interrompendo o jogo.
Keith sentou-se, balançando de um lado para o outro. Eu assisti. Tudo o que fiz foi assistir. Naquele momento, a lacuna na minha consciência voltou ao lugar e meu cérebro reproduziu a memória como se estivesse passando um rolo de filme. Uma bola havia voado na minha direção e teria colidido com o meu rosto, mas Keith a bloqueou com o taco. A força do impacto fez com que ele perdesse o equilíbrio e caísse do cavalo bem na minha frente.
O jogo teve que continuar sem Keith porque ele havia sofrido um corte na lateral da testa. Ele estava sangrando, deixando os espectadores paralisados enquanto a equipe o escoltava até a enfermaria. O restante dos jogadores designou um substituto para sua função, mas a atmosfera anteriormente entusiástica do campo havia sido permanentemente contida. Olhei fixamente para a direção para onde Keith havia sido levado.
Incapaz de suportar, encontrei Jennifer e perguntei a ela para onde Keith tinha ido. Ela imediatamente apontou para algum lugar.
– Vá por ali – instruiu ela.
Senti-me sem jeito.
– Er, eu queria saber se ele estava bem – expliquei desnecessariamente. – Afinal, ele se machucou por minha causa…
Ela mal reagiu. Em vez disso, seu olhar voltou a seguir Grayson, que se concentrava no jogo como se nada tivesse acontecido. Foi um certo alívio.
A enfermaria estava montada dentro de uma tenda silenciosa e isolada. Como estava escondida tão longe de tudo o resto, seria difícil para as pessoas visitarem os jogadores feridos. Presumi que isso pudesse ser um esforço para lhes proporcionar algum descanso necessário, especialmente se o jogador ferido em questão fosse um alfa dominante geralmente procurado por hordas de fãs entusiasmados.
Para surpresa de ninguém, vi algumas pessoas olhando ao redor no meu caminho para a tenda. Alguém perguntou a um funcionário para onde Keith tinha sido levado, e ele respondeu:
– Para o hospital, é claro – fazendo os fãs darem meia-volta desapontados. Suspeitei que teria recebido a mesma resposta se não fosse funcionário, mesmo tendo sido a causa dos males de Keith.
Dirigi-me à tenda, uma sensação de entusiasmo invadindo-me pelo fato de me ter sido concedido tal privilégio. Mesmo quando cheguei lá, porém, não pude simplesmente entrar de imediato. Precisava me preparar, especialmente meu coração.
Quando finalmente decidi o que ia dizer, levantando o pé do chão, pude sentir a gravidade agindo em cada passo meu. Não havia detectado ninguém atrás do tecido puído pendurado na entrada, agindo como uma barreira, mas sabia que ele estava definitivamente lá dentro. Seu cheiro fornecia uma evidência mais sólida do que qualquer outra coisa. Seus feromônios, insuportavelmente doces, pairavam no ar, infiltrando-se na minha pele.
Engoli em seco, engolindo o nó na minha garganta. Ardia e latejava; eu estava ansioso, mas sabia, intrinsecamente, que se perdesse aquela oportunidade, nunca mais teria outra igual. Como se algo estivesse me empurrando para a frente — ou melhor, me puxando —, continuei minha jornada em frente. Passo após passo. Pouco a pouco, seu cheiro engrossou e minha cabeça ficou cada vez mais confusa.
Levantando o tecido pesado que ocultava o conteúdo da tenda, descobri um espaço inesperadamente grande à minha espera. Afastando o olhar do carrinho empilhado ordenadamente com equipamentos médicos, avistei uma cama dobrável perto dos fundos do espaço. Keith estava deitado nela, com a testa coberta por um grande pedaço de gaze. Meu coração afundou diante de sua fisionomia pálida e olhos fechados.
Por um momento, fiquei preocupado que algo pudesse ter dado errado. No entanto, minha razão suprimiu minhas emoções crescentes. Se o ferimento fosse grave, não o teriam deixado sozinho na tenda. Na verdade, nem o teriam trazido para a tenda, optando por levá-lo direto para o hospital.
O pensamento me ajudou a relaxar um pouco. Ainda assim, as bandagens enroladas em sua testa esculpida atraíram minha atenção. “E se o ferimento deixar uma cicatriz?” A mera perspectiva disso já me trazia uma culpa extrema. Com a mente confusa, franzi o cenho, perturbado.
Foi então que Keith abriu os olhos. Surpreso, minha respiração ficou presa na garganta. A luz do sol que se infiltrava pelas costuras mais grossas do tecido que formava as paredes iluminava partes do espaço dentro da tenda, partículas de poeira flutuando no ar parado enquanto Keith me observava do outro lado da extensão dourada.
Ah. Encarei-o de volta, abobalhado, enquanto ele se sentava lentamente. Nenhuma das palavras que eu havia selecionado com tanto cuidado me veio à mente, abandonando-me logo quando eu mais precisava delas. Fiquei ali parado, simplesmente assim.
– Hã? – perguntei. Tendo recuperado a compostura um momento tarde demais, acabei parecendo um idiota. Keith riu baixinho. Minhas pernas quase cederam ao som e estive a ponto de cair para trás. Quando consegui recuperar o controle da minha clareza que desaparecia, a voz de Keith se elevou ao meu encontro.
– Você não se machucou, certo?
Um choque percorreu meu corpo; ele me reconheceu. Naquele décimo de segundo, ele se lembrou do rosto da pessoa que havia salvo. Meu peito se apertou, roubando-me a fala. Mal consegui acenar com a cabeça e ele sorriu.
Um sorriso inteiramente para mim. Senti como se estivesse queimando de dentro para fora.
Eu deveria agradecer a ele, obviamente, mas na época, nada saía dos meus lábios. Keith foi o primeiro a estender a mão e ponderei se deveria pegá-la, com a boca aberta. Ainda olhando para ele, caminhei lentamente para mais perto, e cada passo que dava ampliava meu pulso em dez vezes.
Quando nossas mãos finalmente se tocaram, um calafrio correu por todo o meu corpo. De repente, ele me puxou pelo pulso, movendo-se mais rápido do que eu conseguia piscar. Chocado com a escalada inesperada dos acontecimentos, caí direto sobre o torso dele. Ele envolveu minha cintura com um braço e me segurou firmemente. Antes que eu percebesse o que havia acontecido, estava colocado em seu colo.
Então, ele enterrou o nariz no meu pescoço, inspirando profundamente. Eu havia congelado no lugar, de olhos arregalados e tremendo. Depois de cheirar novamente como se para reconfirmar, ele se afastou um pouco, perguntando:
– Você é uma beta? – Apenas assenti com a cabeça, e ele inclinou a cabeça, murmurando: – Sério? – com um sorriso.
Incapaz de conter meus suspiros, lutei para colocar ar nos pulmões. Keith abriu a boca e mordeu meu pescoço, arrancando-me uma lufada de ar súbita. Comecei a tremer com a sensação dele sugando minha pele macia. Ele era gentil, mas persistente, pressionando firmemente. Dei um sobressalto e ele moveu a mão que usava para abraçar minha cintura, usando-a para puxar minha camisa para cima e deslizar suavemente pelas minhas costas.
Então, ele acariciou meu peito.
– Seu peito é bem pequeno mesmo para uma asiática, não é? – refletiu ele. Rindo baixinho, ele abaixou a cabeça e, antes que eu pudesse impedi-lo, mostrou os dentes, envolvendo meus mamilos com os lábios. Incapaz de me conter, agarrei a cabeça dele desesperadamente. Ele sugava suavemente, terno porém poderoso, e continuava a percorrer minha pele exposta com seu toque cobiçoso.
Minha consciência estava espalhada por toda a sala e lutei inutilmente para juntar os pedaços. Os feromônios que irradiavam dele me banhavam da cabeça aos pés, infiltrando-se na minha coluna. Deslizei minhas mãos para cima e para baixo pelo corpo dele, arquejando miseravelmente. Quando ele desceu ainda mais, deslizando para dentro das minhas calças e segurando firmemente minha bunda, meu queixo caiu. No entanto, Keith foi quem soltou o grito.
– Que porra é essa? – exclamou ele.
Tendo me embebido em seu cheiro, não consegui reagir imediatamente. Ele me empurrou violentamente e, com um baque seco, senti todo o meu corpo começar a doer. Um pingo de consciência finalmente voltou a mim, mas apenas depois de eu ter sido jogado no chão como um trapo sujo.
Keith estava de pé, olhando para mim de cima. Ou, para ser mais preciso, ele havia começado a me fuzilar com o olhar. A fragrância que ele exalava, antes tentadoramente doce, agora impregnava o ar de forma selvagem, mexendo com a minha cabeça. Comecei a me afastar lentamente, ainda sentado no chão.
– Você é um homem? – cuspiu ele entre dentes.
Ocupado demais piscando em estado de choque, não consegui responder. No entanto, ele não exigiu uma resposta de mim. A prova da minha masculinidade estava flagrantemente entre as minhas pernas, exposta sobre as minhas calças meio abaixadas. Tendo visto meu pau miseravelmente encolhido, ele colocou a mão sobre a boca com nojo, tendo ânsias de vômito loucamente enquanto desviava o rosto de mim. Observei suas costas largas enquanto ele tremia.
– Seu viado de merda – praquejou ele, gritando ainda mais, com a voz falhando. – O que caralho você pensa que está fazendo comigo? – Seus olhos violetas haviam mudado, agora acesos em chamas. Prendi a respiração, estupefato.
Suas íris… Elas não tinham o tom violeta característico que os alfas dominantes costumavam exibir. Em vez disso, eram douradas e brilhantes como as areias do deserto sob a luz ardente do sol. “O que aconteceu?” No meio da confusão, fiquei curioso. Eu tinha ouvido falar de pessoas cujas pupilas mudavam de cor dependendo de seus estados emocionais. Perguntei-me se esse era o caso dele.
Naquela época, eu não sabia que os olhos dos alfas dominantes mudavam sempre que registravam quantidades suficientemente altas de seus feromônios. Enquanto eu estava ali sentado, mudo de pedra, os feromônios enfurecidos de Keith jorravam dele como uma cachoeira, afogando toda a tenda. Não era de admirar que eu tivesse problemas simplesmente tentando fazer meus pulmões funcionarem.
Assim que percebi que ele olhava ao redor como se estivesse procurando algo que pudesse usar como arma, fui atingido por uma sensação de medo que já vinha muito atrasada. Levantei-me com todas as minhas forças restantes. Eu não sabia o que teria acontecido comigo se ousasse ficar ali por mais tempo, e cada cenário que vinha à mente terminava de forma horrível.
Não havia tempo para argumentar em minha defesa, mesmo se eu tentasse insistir no fato de que Keith havia sido quem se aproximara de mim primeiro. Saí correndo da tenda em pânico bem a tempo de vê-lo agarrar um longo mastro. Em algum momento, minhas pernas fraquejaram e caí de cara no chão com um grito agudo, mas nem sequer senti a dor.
Ele estava furioso como se estivesse pronto para me espancar até a morte. Se eu não tivesse fugido, ele certamente teria feito algo comigo. Afinal, não havia razão para ele não fazer. Enquanto eu me levantava com dificuldade e continuava a correr, ele atirava todos os tipos de insultos e xingamentos contra as minhas costas. Mesmo cambaleando, corri com todas as minhas forças sem olhar para trás uma única vez.
Quando finalmente cheguei longe o suficiente para não sentir o cheiro dele, desabei no chão, engolindo o ar desesperadamente.
Passava da meia-noite quando voltei para casa. Como havia perdido Liwei e sua namorada, tive que caminhar de volta para casa sozinho. Cambaleei para dentro do meu cubículo, que foi criado colocando alguns painéis divisórios na lateral da sala de estar. Eu estava tão exausto que não queria pensar em nada. Só queria dormir e esquecer tudo. Percebi que talvez estivesse com uma febre leve surgindo, mas ignorei e me joguei na cama.
Senti uma parte do meu coração murchar desanimada. Keith havia me confundido com uma garota. Foi por isso que ele me salvou, me beijou e me segurou. Ainda assim, eu não esperava que ele ficasse com tanto nojo de mim. Soltei um suspiro profundo e desolado.
Lembrando-se de como ele continuava verificando meu cheiro, comecei a ponderar. “Será que ele ficou desapontado por eu ser um beta? As coisas teriam sido diferentes? Não teria importado se eu fosse um homem nesse caso, certo? Se eu fosse um ômega, quero dizer.”
Na época, procurar uma resposta para minhas perguntas parecia impossível. Eu era um homem beta e ele sentia nojo de mim. Fim da história.
Simplesmente assim, fechei os olhos e caí no sono sem sequer tomar banho, mortalmente exausto. Tudo o que eu realmente queria era esquecer os acontecimentos daquele dia e acordar para uma nova manhã.
No entanto, aquela decisão trivial mudou toda a minha vida. Naquela noite, se eu tivesse optado por permanecer acordado para poder ir à farmácia mais próxima e comprar alguns remédios que pudessem desintoxicar os feromônios de Keith, as coisas teriam sido diferentes. No mínimo, eu deveria ter lavado cada centímetro do meu corpo. Se eu não tivesse simplesmente ido dormir, os feromônios remanescentes no meu corpo não teriam se aprofundado em mim, difundindo-se por toda a minha árvore respiratória. Meu corpo não teria feito a transição. Eu não teria acordado com meu novo status de ômega dois dias depois, após sofrer com uma febre alta.
O que mais me torturava, no entanto, era que, embora minha vida tivesse virado de cabeça para baixo, a própria pessoa que estava na raiz dessa mudança não se lembrava de nada do incidente. Percebi isso depois de ser contratado como secretário dele, alguns anos após me formar, tendo acumulado alguma experiência na área. Ele não me reconheceu de forma alguma. Para Keith, eu era simplesmente um “secretário homem”. Quando parei diante dele com o coração tremendo, ele se mostrou apático e tudo o que disse foi:
– Não me importa se você é um ômega, alfa ou o que quer que seja. Eu não toco em homens. Apenas faça seu trabalho direito.
Eu não sabia se ele queria me tranquilizar dizendo que nunca colocaria as mãos em mim, ou se queria me avisar para nem sonhar com tal coisa, mas como se para enfatizar ainda mais seu ponto de vista, ele passou a me ignorar completamente pelos dois anos seguintes.
Ele sempre tinha uma mulher diferente em seu braço, aceitando tanto betas quanto ômegas, mas nunca tinha um homem como amante. Depois de trabalhar com ele, percebi que a questão nunca foi se eu era ou não um ômega, mas sim se eu tinha peitos em vez de um pau. Contanto que eu tivesse ferramentas entre as pernas, ele nunca me dispensaria o menor olhar.
No dia em que cheguei a aceitar isso, despedi-me do meu primeiro amor, fiquei bêbado e chorei até dormir.
Piscando lentamente, finalmente retornei à realidade. Embora minha cabeça ainda estivesse confusa, sentia-me muito menos cansado. Esfreguei meus olhos irritados com os dedos e me sentei. Verificar as horas me informou que eu havia acordado dez minutos antes do alarme tocar.
Levantei-me preguiçosamente, arrumei o cabelo e examinei minhas roupas. Então, destranquei e abri a porta do escritório depois de verificar a sala uma última vez, parecendo não ser diferente do meu eu habitual. Para atestar a validade da minha afirmação, uma das funcionárias da equipe de secretariado veio e me trouxe um relatório que eu havia solicitado no início do dia e sorriu ao me ver, cumprimentando-me como de costume. Cumprimentei-a casualmente de volta antes de examinar o relatório.
Cinco minutos depois, a porta se abriria e aquele homem entraria. Ele marcharia para dentro, confiante como sempre, e passaria por mim exatamente como fez no dia em que o conheci.
Olhei para cima com indiferença e apurei os ouvidos para os passos que viriam do corredor. O tempo passava lentamente. Em relação a isso, meu coração também fechava suas portas, encerrando-se uma a uma, segundo a segundo.
Em pouco tempo, os passos vieram, e pareciam algo distante, como a imaginação se misturando à realidade. Segurei levemente meu relatório com as duas mãos, erguendo o corpo e esperando a porta se abrir.
Quando se abriu, Keith apareceu diante de mim. Sorri como faria em qualquer outro dia e o cumprimentei como se nada tivesse acontecido.
– A reunião correu bem?
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør