₊ Capítulo 41.1
𓂃˖˳·₊˚.𔓎 Capítulo 41.1: O Quadro Emoldurado ⋆⁺₊
Se alguém tivesse se deparado com uma situação dessas no mundo real, provavelmente teria deixado passar, pensando que estava sendo sensível demais, se preocupando com nada. Infelizmente, aquele não era o mundo real, e sim o traiçoeiro mundo além da porta. Como resultado, Lin Qiushi não conseguiu evitar pensar demais na situação, mesmo que aquilo acabasse se revelando apenas parte de seus próprios delírios.
Ele examinou cuidadosamente a paisagem do lado de fora da janela, confirmando que a figura escura dentro do jardim havia de fato desaparecido, antes de voltar para a cama. Dessa vez não ousou apagar as luzes e, na claridade do quarto, tentou adormecer.
Lin Qiushi ainda foi assolado pela inquietação por um tempo, mas, assim que se lembrou daquela sensação serena que se espalhava por seu corpo toda vez que dormia ao lado de Ruan Nanzhu, sua consciência começou a ficar nebulosa e suas pálpebras tremularam levemente. Ruan Nanzhu era realmente a única droga capaz de curá-lo da insônia, Lin Qiushi pensou vagamente enquanto mergulhava num sono leve.
Na manhã seguinte, Lin Qiushi acordou com as badaladas do relógio. Agora que o dia havia clareado cedo, ele planejava procurar Ruan Nanzhu depois de se lavar e se arrumar.
Era óbvio que Lin Qiushi não havia dormido bem na noite anterior, e as enormes olheiras sob seus olhos serviam de prova disso. Ele encarou o espelho, boquiaberto diante do homem desconhecido à sua frente. Embora o rosto fosse diferente, a aura ao redor dele era bastante parecida; se não tudo, quanto mais se estudava, mais semelhanças conseguia identificar entre sua aparência atual e a original. Assim que terminou de trocar de roupa, Lin Qiushi saiu do quarto e bateu na porta de Ruan Nanzhu.
A porta se abriu lentamente com um rangido, mas, ao contrário do esperado, quem estava atrás dela era, na verdade, Tan Zaozao. O rosto dela estava ainda mais feio que o de Lin Qiushi naquele momento; ela parecia não ter pregado o olho na noite anterior. Ao ver Lin Qiushi, cumprimentou-o mal-humorada com um monótono “Bom dia”.
Ruan Nanzhu também havia se levantado para se lavar, e tinha acabado de sair do banheiro quando ouviu a voz de Lin Qiushi. Com gotículas d’água reluzentes ainda grudadas em seu cabelo úmido, deslizando suavemente pela linha afiada de seu maxilar, ele se virou e cumprimentou o outro com simpatia:
— Bom dia.
Lançando um olhar de ódio, Tan Zaozao bufou de raiva e marchou pisando duro em direção ao banheiro desocupado.
Lin Qiushi ficou bastante confuso com o comportamento irritado dela, mas logo descobriu o motivo do mau humor de Tan Zaozao — a garota tinha realmente dormido no chão do quarto a noite inteira. Sua cama de aspecto lamentável estava arrumada bem ao lado da enorme e incrivelmente confortável cama de Ruan Nanzhu.
— Você fez ela dormir no chão? — Lin Qiushi encarou o chão incrédulo por alguns minutos.
— Onde mais eu a deixaria dormir? — Ruan Nanzhu deu de ombros com indiferença. — Eu não gosto de dormir na cama com outras pessoas.
Lin Qiushi: …
Ele pensou nas incontáveis noites que passara dormindo na cama do outro, aninhando-se bem junto dele, abraçando-o com força… Talvez tivesse ouvido errado, porque a afirmação de Ruan Nanzhu não fazia absolutamente nenhum sentido.
Ruan Nanzhu acrescentou:
— Você é a única exceção.
Pois é, ele realmente devia estar ouvindo coisas, porque o outro continuava falando besteiras.
Diante da declaração terrivelmente sugestiva e descarada de Ruan Nanzhu, Lin Qiushi mudou de assunto, constrangido:
— Ahem, e então, você dormiu bem ontem à noite?
— Extremamente bem. — Ruan Nanzhu respondeu. — A cama era bastante confortável.
A cama enorme era realmente aconchegante demais; qualquer um que experimentasse seu conforto macio nunca mais ia querer sair dela. Ainda assim, por mais confortável que o colchão fosse, Lin Qiushi duvidava que alguém naquela situação tivesse coragem de apreciá-lo genuinamente como Ruan Nanzhu.
Depois de terminar de escovar os dentes e se lavar, Tan Zaozao saiu do banheiro e começou a resmungar sobre como Ruan Nanzhu era cruel, como ele nem podia ser considerado humano. Pensar que ele realmente mandou uma dama frágil como ela dormir no chão; por causa dele, o corpo inteiro dela estava doendo agora…
No começo, Ruan Nanzhu a ignorou descaradamente, mas, vendo que ela não pararia de choramingar tão cedo, ele disse:
— Você gostaria de dormir na cama hoje à noite?
Uma Tan Zaozao agradavelmente surpresa:
— Sério? Você está falando sério mesmo?
Um Ruan Nanzhu calmo:
— Eu posso simplesmente dormir com o Linlin.
Tan Zaozao: …
Casalzinho sem-vergonha de merda. Claro, no fim das contas, mesmo odiando dormir no chão, ela não ousava aceitar a oferta dele. No dia anterior, ela sentiu que algo estava terrivelmente errado, então correu imediatamente para o quarto de Ruan Nanzhu de medo, decidida a passar a noite ali de qualquer jeito. Se ela realmente ousasse dormir sozinha, por que cargas d’água teria corrido para o quarto daquele desgraçado e sofrido dormindo no chão, para começo de conversa?
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O café da manhã foi servido no andar de cima. Lin Qiushi originalmente presumira que a senhora e o mordomo eram os únicos residentes daquele castelo, então não esperava que houvesse outros criados também. Depois de trazerem as refeições, os criados se retiraram da área, com uma rapidez e um silêncio impressionantes. Eles não carregaram a menor expressão no rosto durante todo o tempo. Com aqueles olhares de madeira, lembravam marionetes vazias incapazes de se mover por vontade própria, meros fantoches sem emoção cujas ações eram comandadas e manipuladas pelas mãos de outrem.
A senhora do castelo, que eles haviam conhecido na noite anterior, também apareceu a tempo para o café da manhã. Ainda vestida em seu elegante vestido preto e seu chapéu preto espalhafatoso, ela se sentou silenciosamente junto à janela em arco, degustando indolentemente a refeição requintada, suas mãos cinzentas e retorcidas levando graciosamente a comida à boca manchada de ruge.
Um silêncio sufocante assolava o humor do salão de jantar; a atmosfera era assustadoramente solene. Nenhuma única pessoa ousava proferir uma palavra, muito menos iniciar uma conversa com a reservada madame.
Felizmente, assim que a refeição terminou, a senhora flutuou para fora sem ruído como antes, mais uma vez sumindo de sua vista. Segundo o mordomo, ela havia partido para o ateliê no topo do castelo. O mordomo então os informou de alguns lugares onde eles estavam proibidos de entrar. O primeiro lugar interditado era o estúdio de arte no topo do castelo, exatamente aquele para onde a senhora havia ido. O segundo lugar que lhes era vedado era o depósito do sexto andar, onde todas as pinturas inacabadas eram guardadas. Fora esses dois lugares, eles estavam livres para se aventurar onde desejassem. No entanto, deveriam, a todo momento, ter em mente que a senhora detestava que outros tocassem em suas preciosas pinturas…
Todos gravaram cuidadosamente o aviso do mordomo em suas mentes, com alguns chegando a anotar precisamente o comunicado dele em seus diários, para não deixarem passar uma palavra e cometerem um erro grave.
Depois de entregar seu conselho aos hóspedes, o mordomo então se retirou, deixando os dez indivíduos silenciosos no quieto salão de jantar.
— Eu vou verificar a situação. Alguém quer vir comigo? — Alguém na multidão finalmente propôs, querendo encontrar quaisquer pistas possíveis sobre a chave.
Imediatamente, todos começaram a procurar um parceiro para formar equipe, com todos os indivíduos formando grupos de dois.
Justo quando Lin Qiushi estava prestes a perguntar a Ruan Nanzhu se ele queria se juntar a ele, viu a novata chorona se aproximar timidamente de Ruan Nanzhu e sussurrar de forma tateante:
— Gege, você tem um parceiro? Você pode me levar com você? Estou com tanto medo…
A jovem não carecia de beleza alguma. Seus traços delicados e adoráveis faziam o coração dos observadores se apertar de pena, tornando difícil recusar qualquer um de seus pedidos.
Mas quem exatamente era Ruan Nanzhu? Ele era um crossdresser profissional; um homem da cabeça aos pés que era mais feminino que qualquer mulher; um homem que preferiria muito mais interpretar o papel de uma rainha do drama do que o de um príncipe cavalheiresco. Em termos simples, ele era alguém que interpretava o papel de heroína trágica muito melhor do que a garota fungando diante dele.
Dito isso, até mesmo Lin Qiushi podia perceber claramente que o coração de Ruan Nanzhu não se comoveu nem um pouco; na verdade, o homem na verdade parecia bastante enojado, como se tivesse acabado de engolir algo absolutamente intragável.
— Não. — Ruan Nanzhu rejeitou, terrivelmente direto.
Mais uma vez, a jovem começou a chorar cachoeiras:
— Mas estou com tanto medo. Vou tentar não atrapalhar.
Ruan Nanzhu arqueou uma sobrancelha, antes de lançar furtivamente um olhar significativo para Tan Zaozao.
Os olhos de Tan Zaozao brilharam de compreensão. Imediatamente, ela se levantou, caminhou até a garota e disse:
— Desculpe, mas eu já pedi a ele ontem. Você provavelmente deveria procurar outra pessoa.
Um traço de ressentimento passou pelos olhos da jovem ao ver Tan Zaozao. Ela pareceu querer dizer mais, mas Ruan Nanzhu se levantou abruptamente e chamou Tan Zaozao, sinalizando que era hora de irem.
Tan Zaozao o seguiu porta afora sem hesitar.
Lin Qiushi, que ficara sentado à parte o tempo todo, também saiu do cômodo logo depois, sob o pretexto de ter algo a fazer.
Parecia que havia muitas vantagens em Ruan Nanzhu se vestir de mulher. Pelo menos ele não precisava se preocupar em ser abordado por uma garota digna de pena que quisesse formar equipe com ele.
— Tem algo estranho naquela novata — declarou Ruan Nanzhu, depois de sair.
— Por quê, o que há de errado com ela? — Tan Zaozao, por outro lado, achava a garota bastante normal. — Tudo o que ela fez foi chorar desesperadamente ontem…
Ruan Nanzhu olhou de relance para Tan Zaozao.
— Então você não acha estranho que alguém que se encolhe e chora a cada mínima coisa tenha coragem de me abordar daquele jeito e sugerir que formemos equipe?
Tan Zaozao ergueu as sobrancelhas.
— Isso é verdade.
A beleza divina de Ruan Nanzhu podia rivalizar com a de um grande deus, mas a aura diabólica que ele irradiava estava longe da de um santo benevolente. Ele era praticamente a personificação viva do despotismo e do antagonismo. Como uma flor enfeitiçante escondida nas profundezas da selva, ele era uma existência deslumbrante que advertia os outros a não se aproximarem demais, a menos que desejassem ser espetados por seus espinhos venenosos. Ele podia exibir sinais de fraqueza quando disfarçado de mulher; no entanto, vestido como homem, não havia absolutamente nada nele que fosse fraco.
A mera visão dele sentado casualmente com as sobrancelhas arqueadas fazia as pessoas recuarem, sem ousar se aproximar. Nem mesmo Lin Qiushi conseguia imaginar ter coragem de pedir a um homem tão dominador que formasse dupla com ele.
— Talvez a luxúria tenha vencido ela no fim. — Enquanto Tan Zaozao e os outros caminhavam pelo corredor sombrio, eles observavam os quadros ao lado. — De novo, é só um talvez.
Ruan Nanzhu respondeu com indiferença:
— Nunca mais de dez pessoas tomaram a iniciativa de me pedir para formar equipe, e nenhuma delas era novata. Da mesma forma, ela não é exceção.
Fingir ser um completo novato tinha suas vantagens e desvantagens. Por um lado, as outras pessoas eram mais propensas a baixar a guarda perto deles. Por outro, se suas mentiras fossem descobertas, eles sem dúvida se tornariam um pária rejeitado pela equipe inteira, o alvo da negatividade e da suspeita de todos; afinal, os outros não saberiam por que essa pessoa se disfarçou de novata, ou quais eram suas verdadeiras intenções.
O castelo era de um tamanho tão gigantesco que alguém certamente se perderia nele; só o segundo andar tinha inúmeros cômodos espalhados pelos corredores escuros. Conforme seguiam do segundo andar para o terceiro, absorvendo em silêncio o esplendor melancólico e a atmosfera artística, notaram que a única coisa que os andares daquele castelo tinham em comum eram as diversas pinturas abstratas decorando cada parte do interior do castelo; havia até uma no lavabo.
Lin Qiushi não era, de forma alguma, um apreciador de arte; ele não sabia muito sobre arte, nem sabia como ou por que os artistas criavam as peças que criavam. Mesmo assim, se havia uma coisa que ele sabia com certeza, era que aquelas pinturas distorcidas diante de seus olhos davam origem a uma terrível sensação de pavor e inquietação dentro dele. Se pudesse, ele preferiria cobrir aquelas pinturas perturbadoras com um pano branco, enterrando-as completamente fora de vista.
— Nós não temos permissão para tocar naquelas pinturas, não é mesmo? — Tan Zaozao se lembrou das palavras do mordomo.
— Não, não exatamente. — Ruan Nanzhu respondeu. — Você prestou atenção no que ele disse?
Lin Qiushi repetiu a declaração exata do mordomo:
— A senhora detesta isso?
— Exato. Mas só porque a senhora não gosta que outros toquem em suas pinturas, não significa que não temos permissão para tocá-las de forma alguma. — Ruan Nanzhu deu um passo à frente, parando bem diante de uma pintura. De repente, suas sobrancelhas se franziram num cenho profundo.
Vendo sua reação não natural, Tan Zaozao indagou:
— O que houve?
— Nada — dispensou Ruan Nanzhu. — Você tem conhecimento em arte?
Tan Zaozao balançou a cabeça com pesar:
— Infelizmente não; não sou muito familiarizada com isso.
Ruan Nanzhu suspirou pesadamente:
— Igualmente. Parece que nenhum de nós será capaz de interpretar ou extrair algo útil dessas pinturas. Vamos subir e dar uma olhada por lá.
Lin Qiushi grunhiu em concordância. Depois disso, o grupo de três começou a subir as escadas para o andar superior.
A escadaria era feita de uma madeira de mogno profunda e sedutora, que amplificava seus passos tênues; cada passo que davam emitia um estalo nítido que ecoava pelos lúgubres terrenos do castelo. Havia mais de um caminho até o topo do castelo; havia até duas velhas escadarias de pedra em decomposição em lados opostos daquele castelo sombrio, levando do primeiro andar até o telhado.
A maioria dos cômodos daquele castelo antigo estava trancada, com apenas alguns acessíveis a estranhos. Quase todos os cômodos desimpedidos lembravam pequenas galerias de arte, onde uma grande variedade de obras alucinadas e surreais estava caoticamente espalhada por toda parte, disposta de maneira abstrata. Como antes, essas peças de arte deixavam os espectadores completamente perplexos com sua natureza ambígua, refletindo sobre se aquelas pinturas vagas capturavam a figura assombrosa de um humano ou eram meramente a reprodução de uma paisagem borrada.
Eles estavam no meio de uma discussão sobre ir ao último andar do castelo para verificar o ateliê, quando um grito repentino e clamoroso irrompeu do andar de baixo.
A voz pertencia a uma mulher. Antes que percebessem, seu lamento plangente havia cessado abruptamente. Quando os outros chegaram ao local, não havia ninguém ali. Apenas uma escadaria vazia.
— Quem gritou agora há pouco? — Um homem de meia-idade na multidão perguntou, desconcertado.
— Não sabemos. Nós também acabamos de chegar. — Lin Qiushi então indagou: — De que andar vocês vieram?
O homem de meia-idade respondeu:
— Do terceiro andar.
Lin Qiushi disse:
— Nós estávamos no sexto andar. Isso significa que o grito veio de algum lugar entre o terceiro e o quarto andar…
Os outros gradualmente começaram a inundar a área por causa da comoção. Não demorou muito para que identificassem quem, entre eles, havia gritado.
— Era a Xiao Su. Nós formamos equipe mais cedo. — Um homem recontou sua história, sua expressão carregada de terror. — Ela só disse que ia ao banheiro, mas sumiu de repente.
— Em que andar vocês dois estavam? — indagou Lin Qiushi.
— No último andar. — O homem engoliu em seco com dificuldade. — Não havia banheiros no último andar, então ela decidiu descer…
╋━ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna, Othello&Yuki