₊ Capítulo 02.1
𓂃˖˳·₊˚.𔓎 Capítulo 2.1: Portas de Ferro e Chaves ⋆⁺₊
Assim que o amanhecer chegou, os horrores da noite anterior se dissiparam.
Lin Qiushi estava caminhando pelo corredor do segundo andar para descer as escadas quando ouviu alguns sussurros abafados e sons de arrastar vindos do terceiro andar. Parecia que várias pessoas estavam conversando. Ele não pretendia ir dar uma olhada, mas, logo em seguida, ouviu o choro angustiado de uma mulher. Aquele pranto sofrido estava carregado de dor e desgosto, como se aquela mulher tivesse passado por algo terrivelmente trágico.
Lin Qiushi hesitou por um instante antes de se virar e seguir pela escada até o terceiro andar, a fim de verificar o que havia acontecido lá em cima.
Aquele prédio era inteiramente construído de madeira. As tábuas da escada estavam um tanto envelhecidas; elas rangiam e gemiam de repente no momento em que alguém pisava nelas. Havia também alguns pontos que tremiam levemente, como se aquelas tábuas mal conseguissem sustentar o peso de um corpo humano.
Lin Qiushi chegou ao terceiro andar e viu um bom número de pessoas de pé no corredor. No entanto, o que especificamente chamou sua atenção foi o forte fedor de sangue no ar.
Aquele odor sanguinolento era tão intenso que ardia no nariz das pessoas. Uma sensação nada tranquilizadora cresceu dentro de Lin Qiushi. Ele deu alguns passos suaves adiante, caminhando com cautela até ficar atrás das costas delas.
— Eu sabia. — Xiong Qi, o homem grandalhão que havia cumprimentado Lin Qiushi no dia anterior, falou em voz baixa e grave; estava no meio de uma discussão com os outros. — Como eu imaginava, algo deu errado ontem…
Xiao Ke também entrou na conversa; ela acrescentou:
— Eu também senti isso, mas achei que fosse… — Nesse ponto, ela se virou e olhou de relance para Lin Qiushi, que estava logo atrás dela. — Deixa pra lá.
Lin Qiushi pensou: o que você quer dizer com isso? Quem você achou que seria? Não me diga que você achou que seriam Ruan Baijie e eu? Ele ergueu os olhos e olhou para a porta atrás de Xiao Ke.
A porta estava entreaberta, e havia respingos de sangue no chão. Por causa do tempo congelante, o sangue já havia coagulado; ainda assim, era possível ver que uma quantidade enorme de sangue havia sido derramada.
— O que aconteceu? — Lin Qiushi perguntou.
— A morte aconteceu. — A voz de Xiong Qi era extremamente apática.
Lin Qiushi: …A morte?
Se fosse no dia anterior, ele provavelmente teria achado inacreditável ouvir aquelas pessoas mencionarem algo assim com tanta naturalidade, em um tom plano e insosso, como se o assunto não tivesse nada a ver com elas. Mas, depois de vivenciar os acontecimentos do dia anterior, ele percebeu claramente que o senso comum não podia ser usado para explicar o mundo em que se encontrava agora.
— É — Xiong Qi resmungou.
Lin Qiushi se deslocou, mudando de ângulo, e lançou mais uma olhada para dentro do quarto. Naquele único olhar, ele involuntariamente sugou um gole de ar gelado, assustado. Sangue coagulado cobria o cômodo inteiro. Dois cadáveres estavam jogados desordenadamente pelo chão. O grau de brutalidade e mutilação ia além do grotesco, a ponto de ser completamente impossível reconhecer os corpos originais. Em vez de dizer que eram seres humanos, seria mais preciso dizer que eram meros dois pedaços de carne sem pele. O sangue escorria pelo cômodo, fluindo até o piso do lado de fora. Das paredes às tábuas do assoalho, dificilmente havia um único lugar limpo naquele terceiro andar.
Embora Lin Qiushi estivesse mentalmente preparado, ainda assim sentiu repulsa diante da cena. Ele tapou a boca com força e se virou. Surpreendentemente, Xiao Ke foi bastante compreensiva e indicou:
— Tem um banheiro no quarto ao lado.
Sem demora, Lin Qiushi correu até o banheiro e começou a vomitar até as tripas.
Enquanto esperava que ele terminasse de vomitar, Xiao Ke comentou:
— Não esperava que você fosse vomitar.
Lin Qiushi:
— Hã?
Xiao Ke declarou, indiferente:
— Você e Ruan Baijie já são os melhores novatos que existem. Em geral, as circunstâncias da primeira porta para os recém-chegados são especialmente ruins, e a taxa de sobrevivência não passa de 20%.
Lin Qiushi: …
Xiao Ke sugeriu:
— Vamos descer e tomar café da manhã.
Lin Qiushi a interrompeu:
— A gente vai simplesmente ignorar os dois cadáveres?
Uma expressão estranha atravessou o rosto de Xiao Ke no instante em que ela ouviu aquilo.
— Você quer fazer alguma coisa a respeito deles?
Lin Qiushi não teve o que dizer. Enquanto seguia as pessoas escada abaixo, ele de repente se lembrou de algo. Confuso, questionou:
— Espera aí. Quando eu estava no segundo andar, ouvi uma mulher chorando no terceiro andar…
Ele observou o cenário e constatou que a única garota entre as poucas pessoas ali era Xiao Ke. Olhou para a aparência imperturbável dela; não parecia alguém que fosse se lamentar daquele jeito.
— Uma mulher chorando? — repetiu Xiao Ke. — Nós não ouvimos nada. Você deve ter ouvido errado.
Lin Qiushi: …Entendi.
O café da manhã no primeiro andar estava pronto para ser servido; uma refeição fumegante estava arrumada sobre a mesa. Os cozinheiros eram aparentemente aldeões comuns, não pareciam em nada diferentes de civis quaisquer.
Depois de comer seu café da manhã, Lin Qiushi pegou emprestado com eles várias roupas grossas e então perguntou sobre a aldeia.
— Não tem nada na nossa aldeia. — Os aldeões não pareciam fornecer nenhuma informação útil. — Só alguns turistas que vêm visitar todo inverno.
Lin Qiushi:
— Ah… E quanto aos seus mantimentos do dia a dia?
Os aldeões responderam:
— A gente vai comprar fora. Embora a estrada da montanha não seja fácil de percorrer, sempre tem um jeito. Mas, se nevar, não tem absolutamente nenhuma maneira de sair. A estrada da montanha fica completamente bloqueada, e você não teria escolha a não ser ficar aqui o inverno inteiro.
Lin Qiushi refletiu por um momento e então perguntou de repente:
— Todos os poços da aldeia de vocês ficam no meio dos pátios?
Lin Qiushi não sabia se era apenas imaginação sua, mas, no exato momento em que fez essa pergunta, os rostos dos aldeões pareceram ficar mais tensos, mais rígidos. No entanto, eles não ofereceram nenhuma outra informação em particular; apenas assentiram com a cabeça, concordaram com um “sim”, depois deram meia-volta e se afastaram.
Lin Qiushi ponderou sobre aquilo, mas continuava sem ter a menor ideia do que estava acontecendo, então simplesmente decidiu levar primeiro as roupas para Ruan Baijie e conversar com os outros mais tarde.
Quando ele entrou no quarto, Ruan Baijie estava esparramada na cama, brincando com o celular. Ela o viu entrar no quarto e resmungou baixinho:
— Você é tão lento.
Lin Qiushi estendeu as roupas emprestadas sobre a cama.
— Levanta. Tem café da manhã no primeiro andar.
Ruan Baijie murmurou um som de concordância.
Lin Qiushi acrescentou:
— Vou esperar você lá fora.
— Espera! — Ruan Baijie exclamou de repente. — O que é isso em cima da sua cabeça?
— O quê? — Lin Qiushi ficou completamente confuso.
Ruan Baijie se levantou da cama e o chamou com um gesto; Lin Qiushi se aproximou dela.
— Está todo vermelho… — Ruan Baijie estendeu a mão e tocou a cabeça de Lin Qiushi com sua mão impecável; em seguida virou a palma para cima. — O que é isso?
Uma sensação ruim tomou conta de seu coração no instante em que ele avistou aquela coisa na mão de Ruan Baijie, pois o que estava na mão dela lembrava assustadoramente sangue congelado.
— Vou dar uma olhada. — Lin Qiushi correu apressado até o banheiro.
Como esperado, era exatamente como Ruan Baijie havia dito. Ele observou que seu cabelo estava cheio de fragmentos de gelo triturado e neve derretida. Aquela lama gelada era de um carmesim escuro e vez ou outra ficava escondida pelo cabelo, então ele nem tinha percebido na hora. Também não sabia quando aquela coisa havia parado em sua cabeça.
— Mas que droga. — Lin Qiushi praguejou baixinho enquanto esfregava a cabeça com uma toalha.
Ainda assim, esfregar o cabelo não foi o bastante. Quanto mais ele esfregava, mais medonha e chocante a visão se tornava. A toalha morna estava praticamente tingida de vermelho, mas seu cabelo ainda não chegava nem perto de estar limpo.
Agora vestindo roupas grossas, Ruan Baijie caminhou até ele e comentou, de forma terrivelmente direta:
— Bom, ainda bem que essa coisa não é verde.
Lin Qiushi:
— …Você já viu sangue verde?
Ruan Baijie:
— Isso é sangue?
Lin Qiushi suspirou e mencionou brevemente que algo tinha acontecido no terceiro andar. Ao ouvir a notícia das duas mortes, Ruan Baijie mais uma vez começou a chorar delicadamente e sussurrou:
— Irmão Lin, estou com tanto medo. Será que nós vamos ser os próximos a morrer?
No fim das contas, que coração seria capaz de suportar ver uma garota bonita chorar tão desoladamente assim?
Lin Qiushi deu um passo à frente para confortá-la, e Ruan Baijie também se preparou para apoiar a cabeça no ombro dele, mas, de repente, ela perguntou:
— Irmão Lin, quanto você tem de altura?
Lin Qiushi:
— …1 metro e 80 centímetros.
— Ah — Ruan Baijie soltou. — Você é mais baixo que eu.
Lin Qiushi: …
Que injustiça, ah.
Lin Qiushi se virou de novo e continuou a lavar o cabelo; enquanto fazia isso, ficou matutando de onde aquele sangue poderia ter vindo. Por fim, chegou a uma conjectura bastante assustadora… não podia ser que tivesse pingado… do teto do terceiro andar, podia?
— Quero subir até o terceiro andar para dar uma olhada — Lin Qiushi declarou. — Você vai logo para o primeiro andar e come alguma coisa.
— Vai sozinho? — Ruan Baijie disse. — Vamos juntos.
— Você não está com medo? — Lin Qiushi estava em dúvida. Momentos antes, aquela Ruan Baijie lacrimosa estava claramente chorando.
— Você não vai estar comigo? — Ruan Baijie prendeu o cabelo negro e sedoso atrás da orelha e sorriu com delicadeza. — Com você aqui, o que há para temer?
Lin Qiushi pensou um pouco. É verdade, ah. Afinal, se levarmos a noite passada em consideração, você com certeza corre mais rápido do que eu.
Depois disso, os dois seguiram pelo corredor e foram até o terceiro andar.
Como antes, a área estava coberta de sangue, e os cadáveres, dos quais ninguém havia cuidado, continuavam largados ali. Mas, naquele momento, a atenção de Lin Qiushi estava fixa no teto acima. Ele ergueu a cabeça e, exatamente como esperava, faixas de sangue foram avistadas no teto. Só que aqueles vestígios faziam as pessoas se sentirem extremamente perturbadas; parecia como se algo tivesse se prendido ao teto e se arrastado lentamente para longe. Como já havia se passado um bom tempo, as manchas de sangue no teto haviam congelado, mas as marcas criadas pelo sangue pingando no chão ainda eram vagamente visíveis.
Ao ver aquela cena, o couro cabeludo de Lin Qiushi formigou. Ele sinceramente não queria pensar no que estava grudado no teto quando ele apareceu no terceiro andar pela primeira vez… além do mais, pensar que nenhum deles conseguiu perceber aquilo do começo ao fim.
Ruan Baijie ficou encarando o teto por um longo tempo.
Por fim, Lin Qiushi perguntou o que ela estava olhando.
— Estou olhando para o teto — respondeu Ruan Baijie. — O que mais eu deveria ver além disso? Um céu estrelado? Sonhos?
Lin Qiushi: …
A coragem dela também era bastante grande. Depois de observar o teto por um tempo, ela foi até os cadáveres dilacerados para estudá-los. Durante todo o tempo, ela nunca demonstrou qualquer sinal de desconforto; na verdade, até parecia bastante empolgada.
Naquele momento, Lin Qiushi olhou para ela com desconfiança e questionou:
— Você não está com medo?
Num instante, ela pareceu se lembrar de algo e, como de costume, começou a choramingar como uma criança.
Lin Qiushi:
— …Para com esse choro. Você ainda quer tomar café da manhã?
— Quero, quero, quero! — Ruan Baijie exclamou. — Estou com fome.
Os dois desceram; viram que todos já haviam terminado de tomar o café da manhã e pareciam estar esperando por eles.
— Onde vocês estavam? — Xiong Qi perguntou. — Estávamos esperando vocês.
Diante do escrutínio do grupo, Ruan Baijie não ficou nem um pouco nervosa. Ela se sentou graciosamente à mesa e pegou sua tigela de café da manhã para comer.
Lin Qiushi, por outro lado, não tinha a cara de pau de Ruan Baijie. Ele explicou rapidamente que havia sangue em seu cabelo e também mencionou que eles notaram algumas marcas estranhas no teto do terceiro andar.
Depois de ouvir aquilo, a expressão de todos não ficou nada boa; alguns deles até ergueram a cabeça por reflexo e olharam para o teto.
No meio da conversa deles sobre as pessoas que morreram na noite anterior e sobre aqueles vestígios esquisitos no terceiro andar, um homem de meia-idade com mais de quarenta anos entrou pela porta. Trajando um casaco militar verde e carregando um lampião a óleo na mão, o homem adentrou o salão sem pressa.
— Olá — o homem começou. — Eu sou o chefe desta aldeia. Vocês são as pessoas que eu pedi para ajudar?
No momento em que ele abriu a boca, todos no recinto se calaram.
— O dia está frio. Nossa aldeia deseja construir caixões em preparação para o ano que vem. — Com uma voz rouca, o homem continuou: — Eu confio a vocês a tarefa de ajudar o carpinteiro.
Ninguém respondeu ao chefe da aldeia, e parecia que ele também não esperava receber nenhuma resposta deles.
Assim que terminou de falar, ele tossiu algumas vezes, depois ergueu o lampião a óleo, balançando-o levemente para a frente e para trás enquanto saía do recinto. Embora a nevasca tivesse parado, o vento rugia sem cessar. À primeira impressão, os sons sinistros produzidos pelos ventos ferozes batendo na porta e farfalhando as copas das árvores lembravam os gritos lamentosos de seres humanos.
— Começamos. — Xiong Qi anunciou baixinho.
Assim que suas palavras se assentaram, uma rajada de vento soprou, lançando a porta entreaberta contra a parede; no mesmo instante, um estrondo ensurdecedor ressoou, e a porta de madeira, que parecia razoavelmente sólida, foi diretamente estilhaçada em pedaços.
╋━ Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna, Othello&Yuki