₊ Capítulo 01.2
𓂃˖˳·₊˚.𔓎 Capítulo 01.2: Cruzando o primeiro limiar ⋆⁺₊
No meio da noite, Lin Qiushi acordou sobressaltado.
Deitado na cama, ele detectou uma batida abafada.
O ruído parecia ter sido gerado pelos ventos cortantes soprando contra as janelas em ruínas. Os leves rangidos que se seguiram faziam parecer que alguém estava pisando descalço pelas tábuas do assoalho; as tábuas por baixo afundavam, incapazes de suportar a pressão avassaladora.
Lin Qiushi abriu os olhos apenas para ver que o quarto inteiro havia mergulhado em uma escuridão enevoada.
Ele não sabia quando a nevasca lá fora havia parado. Uma lua enorme pairava no alto do céu. Sua luz de tons frios acariciava a cabeceira da cama, derramando-se delicadamente sobre o chão como um véu de gaze.
A linha de visão de Lin Qiushi se moveu constantemente em direção à beirada da cama, e então ele de repente prendeu a respiração.
Perto da cabeceira da cama estava a figura de uma mulher. Ela estava sentada na beirada da cama, de costas para Lin Qiushi. Seu longo cabelo preto caía em cascata abaixo dos ombros, obscurecendo sua silhueta. A mulher pareceu perceber que Lin Qiushi havia despertado e, lentamente, inclinou a cabeça para o lado.
Aquela cena era exatamente como uma saída de um filme de terror; fez o corpo inteiro de Lin Qiushi enrijecer por um momento. Felizmente, sua coragem era comparativamente grande. Ele cerrou os dentes e se sentou de imediato, lançando xingamentos contra a outra:
— Que porra é essa! Quem diabos é você!!! O que diabos você acha que está fazendo, entrando no meu quarto!!!
A mulher se moveu levemente. Logo em seguida, o som de sua voz foi ouvido:
— Qual é o meu nome? Sou eu.
Era a voz de Ruan Baijie.
Lin Qiushi ficou aliviado e suavizou o tom. Ele disse:
— Está tarde. O que você está fazendo sem dormir, sentada aí na beirada da cama?
— Você viu o poço na frente da casa? — Ruan Baijie questionou. — Aquele no pátio?
Lin Qiushi repetiu:
— Poço? Que poço?
Ele estava prestes a se levantar da cama, mas, sem querer, olhou de relance para a sua direita. Aquele único vislumbre fez seu sangue congelar instantaneamente — Ruan Baijie ainda estava dormindo à direita; ela não havia movido um único músculo desde o começo.
— Aquele poço. — A mulher respondeu com uma voz que soava exatamente como a de Ruan Baijie. — Vamos lá dar uma olhada.
Lin Qiushi: …
A mulher:
— Por que você não responde?
Lin Qiushi:
— Eu acabei de ser premiado como Quadro Exemplar do Partido no mês passado.
A mulher: …
Lin Qiushi:
— Eu sou um cético convicto.
A mulher: …
Lin Qiushi:
— Portanto, você deveria mudar de alvo e achar outra pessoa para assustar, está bem?
A mulher girou lentamente a cabeça. Através do luar, Lin Qiushi conseguiu vislumbrar o rosto dela. Era um rosto difícil de descrever com meras palavras. Estava mortalmente pálido e bastante inchado. Seus globos oculares quase saltavam das órbitas. Sua aparência era, em termos mais simples, monstruosa. Com aquela voz familiar, ela perguntou:
— Você não tem medo de mim?
Lin Qiushi permaneceu em silêncio por três segundos. Em seguida, baixou a cabeça e olhou para a própria roupa de cama.
— Não faça isso. Eu só trouxe uma calça comigo para cá.
A mulher: …
Lin Qiushi enxugou o rosto.
— Se você me assustar de novo, eu vou mijar nas calças de verdade.
Depois de terminar de dizer isso, ele começou a dar tapas em Ruan Baijie, que ainda dormia ao seu lado. Ele gritou bem alto:
— Rápido! Levanta!
Ruan Baijie acordou de supetão com os tapas de Lin Qiushi. Completamente desnorteada, ela esfregou os olhos e então questionou:
— E por que cargas d’água eu deveria?
Assim que arregalou bem os olhos, ela notou que havia uma mulher sentada perto da beirada da cama.
— E quem é essa, ah? Lin Qiushi, então em vez de ir dormir à noite, você foi sabe-se lá onde arranjar uma mulher e trouxe ela pra cá, é? Você é sem-vergonha demais! Me diz, em que exatamente no mundo eu não me comparo a ela?!
Lin Qiushi: …
É nisso que você foca, é?
Ruan Baijie xingou baixinho algumas vezes antes de perceber que havia algo errado. Seus belos olhos ficaram mais arregalados, mais redondos, aquelas duas pupilas pretas dilatadas.
— O que houve com o pescoço dela, está ficando cada vez mais comprido…
Lin Qiushi lançou outro olhar para trás e descobriu que a mulher já havia se levantado da cama. Sua cabeça estava torta para um lado e seu pescoço ficava mais comprido a cada segundo, praticamente parecendo uma serpente mutante.
Os dois indivíduos observaram aquela cena com expressões estupefatas no rosto. Por fim, Lin Qiushi não aguentou. Ele gritou:
— Corre como o diabo, porra!
Imediatamente depois, ele se ergueu de onde estava, agarrou a mão de Ruan Baijie e disparou feito louco em direção à porta.
No fim das contas, Ruan Baijie, que era frágil e delicada durante o dia, correu ainda mais rápido que Lin Qiushi. Mais velozes que uma rajada de vento, eles sumiram porta afora.
Lin Qiushi:
— Você não pode correr mais devagar, porra!
Ruan Baijie:
— Eu vou estar morta se correr mais devagar, droga…
Lin Qiushi: …
Hah, mulheres.
As duas pessoas pareciam coelhos, fugindo todo o caminho até o primeiro andar. Depois de constatar que aquela coisa não os havia seguido até ali embaixo, eles deixaram os ombros caírem, aliviados. Ruan Baijie berrou mais desesperadamente do que qualquer um, e ainda correu mais rápido que cachorro. Quando Lin Qiushi conseguiu tomar fôlego, os olhos dela já estavam reluzindo de lágrimas; ela estava pronta para o segundo round de choradeira.
— Não chora. Não chora. — Lin Qiushi tentou acalmá-la. — O que você sussurrou para provocar aquela coisa?
Ruan Baijie:
— Não acredito que você está pensando nos outros, você nem se importa comigo.
Lin Qiushi: …
Talvez a expressão de Lin Qiushi tenha demonstrado que ele estava mais para enojado, mas, de todo modo, Ruan Baijie de alguma forma conteve os soluços. Ela se sentou debilmente no banquinho de madeira localizado no primeiro andar e enxugou delicadamente os cantos dos olhos úmidos.
Naquele momento, eles estavam na sala de estar do primeiro andar. O cômodo inteiro estava deserto. Havia acabado de acontecer uma perturbação enorme e, ainda assim, nenhuma única pessoa saiu para apreciar a cena caótica; na verdade, nenhum outro som podia ser ouvido, absolutamente nenhum, incluindo a respiração dos outros.
Lin Qiushi ficou parado no lugar por um tempo e hesitou.
— O que a gente faz agora?
Ele e Ruan Baijie tinham pouca ou nenhuma experiência com assuntos desse tipo. Eles não sabiam o que fazer, não tinham a menor ideia de como lidar com aquilo. E assim, simplesmente ficaram parados naquela sala de estar como dois postes de madeira.
— Nevou lá fora. — Ruan Baijie comentou de repente, caminhando lentamente até a porta e dando uma espiada no pátio.
— Nevou no meio da noite. — Lin Qiushi ficou parado no vão da porta e contemplou a fina camada de neve que cobria o pátio.
Ele também avistou o poço que a fantasma havia mencionado. De fato, era exatamente como ela dissera; havia um poço no meio do pátio. A localização do poço era um tanto abrupta. Dentre todos os lugares, ele estava posicionado bem no centro do pátio e, ainda por cima, calhava de obstruir a entrada. Em termos de feng shui¹, isso enfaticamente não era adequado nem coisa boa.
— Tem uma pedra na entrada. Não tenho palavras. — Ruan Baijie acrescentou de repente: — Esse poço foi construído de um jeito maravilhoso, ah.
Ela riu baixinho; sua aparência, com os cantos dos olhos curvados, era excepcionalmente deslumbrante.
— Como é? — Lin Qiushi disse. — Você também entende de feng shui?
Ruan Baijie respondeu:
— Lá em casa a gente trabalha com isso, aprendi um pouco. — Ela o olhou de esguelha. — E você, o que faz?
Lin Qiushi:
— Eu trabalho com design…
Ruan Baijie:
— Ah, você ainda não está careca. Não faz muito tempo que você trabalha com isso, né?
Lin Qiushi: …
Você sabe mesmo falar.
— E o que você acha que eu faço? — Ruan Baijie sacudiu o cabelo.
Lin Qiushi:
— Modelo?
Ele raramente via uma garota tão alta quanto Ruan Baijie. Estatura alta e ereta, boa presença; tirando o peito inexistente, parecia que ela não tinha nenhum outro defeito.
— De jeito nenhum. — Ruan Baijie abriu um sorriso radiante e continuou: — Eu sou adivinha.
Lin Qiushi ficou olhando para ela, sem expressão.
— Deixe-me fazer os cálculos. — Ruan Baijie calculou na hora, ali mesmo: — A lua de hoje está particularmente redonda e cheia. Eu pressinto que uma morte irá ocorrer.
Lin Qiushi não sabia se ria ou se chorava.
— Que tipo de lógica é essa, ah? Como é que uma lua cheia bem redonda pode prever uma morte?
Ruan Baijie não deu a menor atenção a Lin Qiushi. Ela caminhou em direção ao pátio e fez sinal para Lin Qiushi. O coração de Lin Qiushi quase saltou do peito com aquela atitude.
— Por que cargas d’água você vai até lá? Está tão tarde…
Ruan Baijie respondeu:
— Eu queria dar uma olhada nesse poço.
— Dê uma olhada amanhã, durante o dia. É perigoso demais ir verificar isso agora. — Embora Lin Qiushi tenha dito isso, ele ficou tão preocupado com Ruan Baijie estar lá fora que a seguiu até o pátio.
Vestida com um longo manto branco e dando passos ágeis à frente, Ruan Baijie lembrava uma graciosa fada da neve. Ela se aproximou sem pressa da boca do poço, mas nunca chegou até lá. Em vez disso, esperou até que Lin Qiushi também viesse.
Lin Qiushi perguntou:
— O que foi?
Ruan Baijie disse:
— Nada. De repente eu senti que não quero mais ver isso. Vamos voltar.
Lin Qiushi ficou completamente perplexo.
— Por que temos que voltar?
— Está frio demais. — Ruan Baijie reclamou. — Eu vou congelar.
Ao dizer isso, Ruan Baijie naturalmente agarrou o braço de Lin Qiushi e então o arrastou com força de volta para dentro do prédio.
Lin Qiushi foi puxado de volta por Ruan Baijie. Ele constatou que a força dela era mais que extraordinária, e por um momento não conseguiu se soltar.
— Ruan Baijie? — Lin Qiushi ficou assustado com a força descomunal dela.
Ruan Baijie afrouxou o aperto firme.
— Vamos. Frio demais, ah. Temos que voltar logo, e também dá pra dormir um pouco…
Ela terminou de dizer o que queria e, com isso, mais uma vez não se importou com Lin Qiushi. Cuidando da própria vida, ela subiu as escadas e voltou para o quarto.
Sem opções melhores, Lin Qiushi a seguiu e também voltou para o quarto deles, no segundo andar. Felizmente, aquela mulher assustadora vista antes havia desaparecido. No entanto, as janelas tinham ficado entreabertas, e os ventos gelados e arrepiantes invadiam o quarto.
Ruan Baijie foi direto para a cama. Fechou os olhos e adormeceu.
Lin Qiushi, por outro lado, não conseguia dormir, então reacendeu o lampião de querosene e ficou acordado a noite inteira. A noite ali era infindável e terrível, os ventos lá fora uivavam sem parar, e dentro daquele quarto estava a bela adormecida. Ruan Baijie e um homem que ela havia acabado de conhecer dormiam na mesma cama, e ainda assim ela não estava nem um pouco em guarda contra ele. Sua respiração era suave e regular, e um rubor tênue pintava de rosa suas faces claras; aquela cena parecia inegavelmente tentadora.
Lin Qiushi a contemplou por um longo tempo antes de desviar os olhos. Embora ele não fosse um cavalheiro, certamente não era um canalha vil que se aproveitava de alguém em uma situação precária.
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No dia seguinte, por volta das 8 horas, indícios do amanhecer surgiram, as sombras do sol espiaram por cima do horizonte do céu.
O céu voltou a nevar durante a noite, e o chão lá fora já estava coberto por um manto de neve branca e pura.
Ruan Baijie gemeu e então abriu os olhos. Primeiro esticou os braços, mas, logo em seguida, os recolheu.
— Está tão frio, ah…
Lin Qiushi a viu daquele jeito e pensou consigo mesmo: você certamente não parecia dizer isso ontem à noite.
— Qiushi. — Ruan Baijie começou. — Vai lá e me arranja duas peças de roupa. Eu só estou usando este vestido… está frio demais.
Lin Qiushi concordou e disse “tudo bem”. Mas, na realidade, ele planejava achar mais duas roupas que ele mesmo pudesse vestir, agasalhando e aquecendo apenas a si próprio. Afinal, em seu próprio mundo original, ainda era um verão escaldante e abrasador.
꒷꒦︶꒷꒦︶꒷꒦ NOTA: ꒷꒦︶꒷꒦︶꒷꒦
¹Feng Shui significa literalmente “vento” (Feng) e “água” (Shui). Trata-se de uma filosofia e técnica milenar chinesa focada em harmonizar a circulação da energia vital (chamada de Chi ou Qi) nos ambientes, influenciando diretamente a saúde, a prosperidade e o bem-estar. A entrada de uma casa ou pátio é considerada a “boca” por onde a energia positiva entra. Colocar um obstáculo pesado (como um poço) bem na entrada bloqueia e estagna esse fluxo, trazendo “má sorte” ou problemas para os moradores.
╋━ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna, Othello&Yuki